31.10.15
António Reis (É domingo hoje)
É domingo hoje
mas nós não saímos
é o único dia
que não repetimos
e que dura menos
Mas põe o teu rouge
que eu mudo a camisa
não como quem
de ilusão
precisa
Tomaremos chá
leremos um pouco
e iremos à varanda
absortos
António Reis
[António Reis]
.
30.10.15
Gisela Galimi (Princípio do princípio)
PRINCIPIO DEL PRINCIPIO
Puedo soltarme el pelo
abandonarme en vos
estarme quieta.
Desordenar el sol en nuestra casa
volver sobre mi
y encontrarte.
Dejar el equipaje,
disfrutarlo:
mi tierra prometida son tus manos.
Gisela Galimi
Podia soltar o cabelo
abandonar-me em ti
deixar-me quieta.
Desarrumar o sol em casa
voltar sobre mim
e encontrar-te.
Deixar a bagagem,
gozar:
minha terra prometida
tuas mãos.
(Trad. A.M.)
.
29.10.15
Louise Glück (Outubro)
OCTOBER
(4)
The light has changed;
middle C is tuned darker now.
And the songs of morning sound over-rehearsed.
This is the light of autumn, not the light of spring.
The light of autumn: you will not be spared.
The songs have changed; the unspeakable
has entered them.
This is the light of autumn, not the light that says
I am reborn.
Not the spring dawn: I strained, I suffered, I was delivered.
This is the present, an allegory of waste.
So much has changed. And still, you are fortunate:
the ideal burns in you like a fever.
Or not like a fever, like a second heart.
The songs have changed, but really they are still quite beautiful.
They have been concentrated in a smaller space, the space of the mind.
They are dark, now, with desolation and anguish.
And yet the notes recur. They hover oddly
in anticipation of silence.
The ear gets used to them.
The eye gets used to disappearances.
You will not be spared, nor will what you love be spared.
A wind has come and gone, taking apart the mind;
it has left in its wake a strange lucidity.
How privileged you are, to be passionately
clinging to what you love;
the forfeit of hope has not destroyed you.
Maestro, doloroso:
This is the light of autumn; it has turned on us.
Surely it is a privilege to approach the end
still believing in something.
Louise Glück
[The floating library]
A luz mudou,
o dó está mais cavo agora.
E a canção da manhã retumba no espaço.
Eis a luz outonal, não a luz da primavera.
A luz de outono: Tu não serás poupado.
A canção mudou, penetrada
pelo indizível.
Eis a luz de outono, não a que diz:
Nasci de novo.
Não a aurora da primavera: Fiz força, sofri, fui parida.
Eis o presente, alegoria de desperdício.
Muito mudou, mas tu tens sorte:
o ideal arde em ti como febre.
Ou não como febre, mas como um segundo coração.
A canção mudou, mas é ainda uma beleza.
Confinada agora a um espaço mais pequeno,
o espaço da mente.
Um pouco triste, algo desolada, angustiosa.
Mas comparecem, as notas, rondam estranhamente,
antecipando o silêncio.
E o ouvido habitua-se a elas,
como os olhos se habituam à ausência.
Tu não serás poupado, nem será poupado o teu amor.
Um vento veio e se foi, desarticulando a mente
e deixando no seu rasto uma estranha lucidez.
Ó privilégio, este de viver com paixão
agarrado àquilo que se ama,
não ser destruído pela perda da esperança.
Maestro, doloroso:
Eis a luz de outono, derramada sobre nós.
Ó privilégio, acercar-se do fim
e crer ainda em alguma coisa.
(Trad. A.M.)
.
28.10.15
Miguel d'Ors (Aniversário)
ANIVERSARIO
Eran casi las nueve cuando reapareciste.
Yo te esperaba tejiendo y destejiendo
-Lee Konitz al fondo-
suplementos semanales ya algo rancios.
Veintitrés años juntos. Suficiente
para que imaginase lo que iba a llegar contigo:
un beso (con tu clásico acento de disculpa)
y un “quita ya esa música horrible”.
100% de acierto.
Estaban en casa sólo los dos pequeños;
los demás, arrebatados por la fiebre
del sábado noche.
Tampoco el frigorífico andaba muy brillante:
una bolsa de patatas congeladas
y dos tetrabriks de zumo de tomate.
Mientras tú trajinas con la freidora
pongo el mantel frente al telediario.
“Feliz aniversario”. Una gran fuente de patatas fritas
y zumo de tomate. Y en el segundo sorbo ya
viene a mí el furor poético:
“La Felicidad consiste
en no ser feliz
y que no te importe”.
Miguel d’Ors
[Balconcillos]
Eram quase nove quando voltaste.
Eu estava à espera a tecer e destecer
– em fundo, Lee Konitz –
suplementos semanais já meio passados.
Vinte e três anos juntos. O bastante
para conseguir imaginar o que ia chegar contigo:
um beijo (no teu clássico tom de desculpa)
e um ‘tira lá essa música horrível’.
Acerto a100%.
Em casa só os dois pequenos, os outros,
levados pela febre de sábado à noite.
O frigo um bocado em baixo,
um saco de batatas congeladas,
e dois ‘tetrabriks’ de sumo de tomate.
Enquanto tu traquinas com a frigideira
ponho a manta diante do telejornal.
‘Feliz aniversário’. Uma grande porção de batatas
e sumo de tomate. E ao segundo gole
chega-me a fúria poética:
‘A Felicidade consiste
em não ser feliz
e não te importares’.
(Trad. A.M.)
.
26.10.15
Raúl Sánchez (Soleá frustrá)
SOLEÁ FRUSTRÁ
Te has despertado quejándote
de que el sol te da en la cara
-¿Quieres que vaya y lo apague?
presto a ponerme en campaña,
te he preguntado, y me has dicho
-Mejor baja la persiana.
-Pues para eso me quedo
un rato más en la cama.
Raúl Sánchez
[Arrestos del naufragio]
Acordaste a queixar-te
com o sol a bater-te na cara
- Queres que vá lá apagá-lo?
perguntei, pronto a pôr-me em campo,
e tu respondeste:
-Baixa antes a persiana.
- Bem, assim então fico
mais um bocado na cama.
(Trad. A.M.)
.
25.10.15
Mário Cesariny (Faz-se luz)
Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas do próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem
Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca
Mário Cesariny
.
24.10.15
Joan Margarit (Ela)
ELLA
Es tiempo ya de no esperar a nadie.
Pasa el amor, fugaz y silencioso
como en la lejanía un tren nocturno.
No queda nadie, es hora de volver
al desolado reino del absurdo,
a sentirse culpable, al vulgar miedo
de perder lo que estaba ya perdido.
A la inútil y sórdida moral.
Es hora ya de darse por vencido
en el trabajo, a solas, otro invierno.
¿Cuántos quedan aún, y qué sentido
tiene esta vida donde te he buscado,
si ya llegó la hora tan temida
de comprobar que nunca has existido?
Joan Margarit
[Apología de la luz]
É tempo já de não esperar ninguém.
Passa o amor, fugaz e silencioso
como à distância um comboio nocturno.
Não resta ninguém, é hora de tornar
ao desolado reino do absurdo,
a sentir-se culpado, ao medo vulgar
de perder o que estava já perdido.
À inútil e sórdida moral.
É hora já de dar-se por vencido
no trabalho, a sós, por outro Inverno.
Quantos restam ainda e que sentido
tem a vida em que te busquei,
se chegada é a hora tão temida
de saber que jamais exististe?
(Trad. A.M.)
.
23.10.15
Jorge Sousa Braga (Segredos)
SEGREDOS
Vinha meio nu
Trazia uma cesta de vime cheia de amoras
que colhera nas margens do rio
Passara a tarde toda de silvado em silvado
Na sua mão direita um pequeno arranhão
- Tão quente tão quente
esse verão
Jorge Sousa Braga
[Pátria pequena]
.
22.10.15
Jesús Lizano (Mamíferos)
MAMÍFEROS
Yo veo mamíferos.
Mamíferos con nombres extrañísimos.
Han olvidado que son mamíferos
y se creen obispos, fontaneros,
lecheros, diputados. ¿Diputados?
Yo veo mamíferos.
Policías, médicos, conserjes,
profesores, sastres, cantoautores.
¿Cantoautores?
Yo veo mamíferos…
Alcaldes, camareros, oficinistas, aparejadores
¡Aparejadores!
¡Cómo puede creerse aparejador un mamífero!
Miembros, sí, miembros, se creen miembros
del comité central, del colegio oficial de médicos…
Académicos, reyes, coroneles.
Yo veo mamíferos.
Actrices, putas, asistentas, secretarias,
directoras, lesbianas, puericultoras…
La verdad, yo veo mamíferos.
Nadie ve mamíferos,
nadie, al parecer, recuerda que es mamífero.
¿Seré yo el último mamífero?
Demócratas, comunistas, ajedrecistas,
periodistas, soldados, campesinos.
Yo veo mamíferos.
Marqueses, ejecutivos, socios,
italianos, ingleses, catalanes.
¿Catalanes?
Yo veo mamíferos.
Cristianos, musulmanes, coptos,
inspectores, técnicos, benedictinos,
empresarios, cajeros, cosmonautas…
Yo veo mamíferos.
Jesús Lizano
Eu vejo mamíferos.
Com nomes estranhíssimos.
Esqueceram que são mamíferos
e julgam-se bispos, picheleiros,
leiteiros, deputados. Deputados?
Eu vejo mamíferos.
Polícias, médicos, porteiros,
alfaiates, professores, cantautores.
Cantautores?
Eu vejo mamíferos...
Alcaides, escriturários, criados, feitores.
Como é que pode um mamífero julgar-se feitor?
Membros, sim, membros, julgam-se membros
do comité central, da ordem dos médicos...
Académicos, reis, coronéis.
Eu vejo mamíferos.
Actrizes, putas, secretárias,
directoras, lésbicas, educadoras...
Na verdade, eu vejo mamíferos.
Ninguém vê mamíferos,
ninguém, pelos vistos, se lembra que é mamífero.
Serei eu o último mamífero?
Democratas, comunistas, xadrezistas,
camponeses, soldados, jornalistas.
Eu vejo mamíferos.
Executivos, marqueses, sócios,
italianos, ingleses, catalães. Catalães?
Eu vejo mamíferos.
Cristãos, coptas, muçulmanos,
técnicos, inspectores, beneditinos,
empresários, caixas, cosmonautas...
Eu vejo mamíferos.
(Trad. A.M.)
.
21.10.15
Aquilino Ribeiro (Cinco Réis de Gente-Voc.)
CINCO RÉIS DE GENTE
- Vocabulário
afundir
agro
aixe
ajoujar
alma (de cântaro)
almorreimas
andaina
argalho
arganel
ariosca
arrebanhar
atafal
avezar
banaboíssimo
bargantão
beiço
birbantão
bruega
búcio
cabo (dos trabalhos)
cabouco
cacheira
cainho
cairel
calabre
calcadoiro
calço
caniço
cardenha
carrapato
carrapito (cume)
centeal
charachina
choutar
chouto
chumeco
cobro
cocar
cochino
cógueda
cordoveia
corrimaça
desbanda
desenssurrar
despedir
embodegar
enaipar
encalir
engalriçar
enviscar
esborralhar
escaleira
escamugir
escancha-perna
escanifrado
esgorjado
esperrinchar
espertenida
estanco
estrela-e-beta
estrepe
esturgir (ruído)
fecheleira
feirar
ferrã
forjicar
fraldiqueira
gabinardo
gambiar
gamelo
gatázio
giga
gineta
gorra (de...)
grocho
lascarinho
lavacro
liço
macanjo (adj.)
malhoada
malina
mamaçuda
manga-las-mangas
maninho
melgueira
marchantear
marrã
matroca (à...)
mentrasto
míngua (nem lá vou nem faço...)
molhanga
molinha
mostajo
nonada
ornear
pachouchada
paivante
parrana
passante (adv.)
patarrega
patrona
pincha-no-crivo
pincharolar
piranga
pós-catrapós
púrrio
quodore
rabitesa
recebedor
recebedoria
recova
relho
reseda
riço (adj.)
roldão
rolho
ruço (de má pelo)
rufo
sainete
sementio
senha (sinal)
sertã
soalheiro
sorvar
sovela
tabaqueira
tabua
taleiga
tango (tanganho)
taravela
tendeiro
tentear
testeira
tomba
torno
toutiço
trastejar
vaganau
zambro
.
Javier Salvago (Último retrato da juventude)
ÚLTIMO RETRATO DE JUVENTUD
Hace casi tres años que no escribo
poemas, me abandono, apenas leo;
no me cultivo ni me informo. Siento
dentro de mí una especie de vacío
que avanza —y no me asusta— como un río
de lava; o mejor, como un desierto
que va ganando más y más terreno
al calcinado bosque, ayer tan vivo.
Sueño poco. Deseo lo necesario.
No tengo nada, y nada extraordinario
espero en adelante. No disfruto
del placer de vivir. Miro la vida
con reserva y distancia. Cada día
me consienten los años menos humos.
Javier Salvago
Há quase três anos não escrevo
poemas, abandono-me, mal leio;
não me cultivo nem me informo. Sinto
cá dentro uma espécie de vazio
que avança - e não me assusta - como um rio
de lava; ou melhor, como um deserto
que vai ganhando mais e mais terreno
ao calcinado bosque, tão vivo ontem.
Sonho pouco. Desejo o necessário.
Não tenho nada, e nada de especial
espero do futuro. Não desfruto
do prazer de viver. Observo a vida
com reserva e distância. Cada dia
os anos me consentem menos ilusões.
(Trad. A.M.)
> Outra versão: Do trapézio (L.P.)
.
20.10.15
João José Cochofel (Não desafies a alegria)
19.10.15
Meira Delmar (Instante)
INSTANTE
Ven mirar conmigo
el final de la lluvia.
Caen las últimas gotas como
diamantes desprendidos
de la corona del invierno,
y nuevamente queda
desnudo el aire.
Pronto un rayo de sol
encenderá los verdes
del patio,
y saltarán al césped
una vez más los pájaros.
Ven conmigo y fijemos el instante
-mariposa de vidrio-
en esta página.
Meira Delmar
Vem contemplar comigo
o fim da chuva.
Caem as últimas gotas,
diamantes desprendidos
da coroa do Inverno,
e o ar limpa novamente.
Em breve, um raio de sol
acenderá os verdes
do pátio,
e saltarão na relva
outra vez os pássaros.
Vem comigo, reter o instante
– borboleta de vidro –
nesta página.
(Trad. A.M.)
.
18.10.15
Aquilino Ribeiro (O arrieiro)
À frente o arrieiro batia um calcanhar rápido.
Alto, magro, ágil, em tudo a estampa do andarilho, calça à boca-de-sino, bota de salto de prateleira, jaleca à dependura do ombro esquerdo, na mão uma vara argolada de metal amarelo, detrás da orelha o cigarro, era o criado dos tempos heróicos, leal ao amo e soberbo do seu papel.
Tinha um ar de lascarinho que enviscava as moças.
AQUILINO RIBEIRO
Cinco Réis de Gente-XIII
(1948)
.
Mario Benedetti (Fogueira muda)
FUEGO MUDO
A veces el silencio
convoca algarabías
parodias de coraje
espejismos de duende
tangos a contrapelo
desconsoladas rabias
pregones de la muerte
sed y hambre de vos
pero otras veces es
solamente silencio
soledad como un roble
desierto sin oasis
nave desarbolada
tristeza que gotea
alrededor de escombros
fuego mudo
Mario Benedetti
Às vezes o silêncio
convoca algarávias
paródias de coragem
miragens de fauno
tangos a contrapelo
desconsoladas raivas
pregões de morte
sede e fome de ti
mas doutras vezes é
somente silêncio
solidão de carvalho
deserto sem oásis
nave desarvorada
tristeza gotejando
arredor de escombros
muda fogueira.
(Trad. A.M.)
.
17.10.15
João Guimarães Rosa (Sono das águas)
SONO DAS ÁGUAS
Há uma hora certa,
no meio de noite, uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…
Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas de folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…
Mas nem todos dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…
João Guimarães Rosa
[Sopoesia]
.
16.10.15
Gisela Galimi (Poesia)
POESÍA
Si la poesía es agua clara,
dulce caricia a los sentidos
quimera y ronda
sueño azul de rima y ritmo,
entonces
ya no soy
poesía.
Pero si es lengua
y sangre,
y grito,
y pozo,
y llamarada.
Si es aquelarre de palabras
que liberan del hechizo,
entonces más que nunca
soy poeta.
Aunque mis versos
no me reconozcan.
Gisela Galimi
Bem, se a poesia é água clara,
doce carícia dos sentidos
quimera e ronda,
sonho azul de rima e ritmo,
então
eu não sou
poesia.
Mas se é língua
e sangue,
e grito,
e poço,
e chamarada.
Se é concílio de palavras
que livram do feitiço,
então mais que nunca
sou poeta.
Embora meus versos
me não reconheçam.
(Trad. A.M.)
>> Claroscuro y Colorado/ 2005 / Duelista de palabras y silencios (blogue/ descont.) / Los poetas (10p) / Sus poemas (17p) / Al pial de la palabra (3p)
.
15.10.15
Um verso (139)
Um verso de Camões
(como é sabido, que foi um grande português):
Daqui dou o viver por já vivido
Luís de Camões
.
Marino Muñoz Lagos (Retrato vivo de meu pai morto)
RETRATO VIVO DE MI PADRE MUERTO
Murió en abril: tiempo de lluvia. Otoñecida
estrella le cubría la frente como un agua.
Era un hombre pequeño, realzado de pronto
por una lenta mano, florecida manzana.
Una sombra rebelde le dormía los ojos,
como un álamo triste, como una llamarada.
Era en el tiempo niño: el tiempo inconmovible
de los bosques mojados en sus nobles estancias.
Allí nacía él, allí crecían lentamente
sus cábalas maestras, su suerte enmarañada;
allí, en las pobres vasijas, en el solar
terrestre donde la espiga levantaba
su fantasma perfecto, su pan crepusculario.
Le conocí de cerca una lenta mañana
de invierno. Como sabias monedas invariables
las lluvias pasajeras sobre el techo cantaban.
Su mano sarmentosa se halló como la fina
prolongación del tallo de las dalias.
¿Era él?, ciertamente lo digo. Ciertamente,
como que ahora escribo tendido sobre el alba.
Su rostro era tan triste. Sus ojos pensativos
recorrían celestes los cuadros de la casa.
A mí me parecía, por sus limpios modales,
que sólo de un campesino pobre se trataba.
Era hijo del trigo. Venido de un barbecho
donde la luna muestra sus haciendas intactas.
Y en efecto lo era: nacido como tantos
entre un bosque brumoso y una verde montaña,
el campo se extendía por su cuerpo estrellado
y por sus venas rojas la tierra dura andaba.
Murió en abril, tiempo de lluvia, de lluvia
colonial, antigua lluvia, dolorosa campana.
Le llevaron dormido, entre
todos los hombres que vivieron el agua
gozando las estrellas, las nubes y los recios
contornos labradores de las grises comarcas.
Le conocí de cerca, lo traté tantas veces.
Conversamos del tiempo, del trigo y la esperanza.
Murió en abril. Yo estaba lejos. Su esqueleto
vegetal bajo un huerto florido descansa.
Marino Muñoz Lagos
[Inmaculada Decepción]
Morreu em Abril, tempo de chuva. Estrela
outonal cobria-lhe a fronte, como água.
Homem pequeno, súbito levantado
por uma lenta mão, florida maçã.
Uma sombra rebelde adormecia-lhe os olhos,
como um álamo triste, uma labareda.
Era no tempo menino, o tempo incomovível
dos bosques molhados de suas nobres estâncias.
Ali nascia, ali cresciam lentamente
suas conjecturas, sua sorte emaranhada;
ali, em pobres vasilhas, no campo
onde a espiga levantava
seu fantasma perfeito, seu pão do crepúsculo.
Conheci-o de perto uma lenta manhã
de Inverno. Como sábias moedas invariáveis
chuvas passageiras cantavam no telhado.
Sua mão retorcida se fez o fino
acrescento do talo das dálias.
Era ele?, bem certo o digo, tão certo
como escrever agora estendido na madrugada.
Tão triste, seu rosto. Seus olhos pensativos
percorriam devagar os retratos da casa.
A mim parecia-me, por seus modos límpidos,
apenas um pobre camponês.
Era filho do trigo. Vindo de um alqueive
onde a lua mostra suas fazendas intactas.
E era de verdade, nascido como tantos
entre um bosque brumoso e uma verde montanha,
o campo estendia-se por seu corpo estrelado
e a dura terra andava por suas veias vermelhas.
Morreu em Abril, tempo de chuva, chuva
colonial, antiga chuva, doloroso sino.
Levaram-no a dormir, no meio
dos homens que viveram a água
gozando as estrelas, as nuvens e os ásperos
terrenos agrícolas de comarcas desoladas.
Conheci-o de perto, convivemos tanto.
Falámos do tempo, do trigo, da esperança.
Morreu em Abril. Estava eu longe. Seu esqueleto
vegetal repousa sob um canteiro florido.
(Trad. A.M.)
.
14.10.15
José Gomes Ferreira (Devia morrer-se de outra maneira)
Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: «Fulano de tal
comunica a V. Ex.ª que vai transformar-se em nuvem
hoje às 9 horas. Traje de passeio».
E então, solenemente, com passos de reter tempo,
fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos
todos assistir à despedida.
Apertos de mão quentes. Ternura de calafrio.
«Adeus! Adeus!»
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes... (primeiro, os olhos...
em seguida, os lábios... depois, os cabelos...) a carne,
em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) - nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...
José Gomes Ferreira
.
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