30.9.15

Aquilino Ribeiro (Família)





Eu sou de família em que as donas se assentavam em esteiras.

Muito amor e poucos afagos.

Nunca conheci as blandícias e a variadíssima bichinha-gata da ternura civilizada.

Na aldeia, para acariciar, não passeiam as mãos pela cara das pessoas queridas.

Semelhante ordem de meiguices são prerrogativas da gente urbanizada.

Para o camponês o rosto é sagrado; tabu; não se lhe toca.

Sempre assim foi, de resto, através das idades.



AQUILINO RIBEIRO
Cinco Réis de Gente- II
(1948)

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Paula Ensenyat (Beija-me, às vezes)





A veces me besa.

En el pecho se agitan
vendavales de agosto,
murmura el mar
y en lo profundo,
sorprendida,
sonríe la tristeza.

A veces,
la soledad
me besa
y yo
sonrío.

Paula Ensenyat




Beija-me, às vezes.

E no peito rebentam
vendavais de Agosto,
o mar agita-se
e lá no fundo,
surpreendida,
sorri a tristeza.

Beija-me, às vezes,
a solidão,
e eu
sorrio.

(Trad. A.M.)

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29.9.15

Mário Cesariny (Estação)





ESTAÇÃO



Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça


Mário Cesariny

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28.9.15

Batania (Grades)





REJAS



Ni el amor
ni la familia
ni la escuela
ni la iglesia
ni el estado
me dieron
ninguna libertad.

Y sin embargo,
puestos a elegir rejas,
prefiero
las
tuyas.


Batania

[Neorrabioso]




Nem o amor
nem a família
nem a escola
nem a igreja
nem o estado
me deram
qualquer liberdade.

E contudo,
a escolher grades,
antes
quero
as tuas.

(Trad. A.M.)

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27.9.15

Aquilino Ribeiro (Sonhos-4)





Está dito.

Todo esse caudal de representações e imagens que a minha consciência, abandonada à onda caprichosa do sonho, abrigava em seu teatro, esvaía-se na areia.

Até lá a filtragem do corpóreo pelas malhas lassas do psíquico não deixava de ser um dos mistérios inebriantes do meu ser.

Mais subtil nem a gradação de tons produzida pela luz cambiante do pôr do sol nas arestas da onda.



AQUILINO RIBEIRO
Cinco Réis de Gente- I
(1948)

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Biel Vila (Nunca vêm tarde as fadas)





Nunca llegan tarde las hadas
y si sucede, es insignificante:
llegan siempre a su hora.


Biel Vila




Nunca vêm tarde as fadas
e se acontece, não tem importância:
vêm sempre na hora delas.

(Trad. A.M.)




>>  Nunca llegan tarde las hadas (blogue) / Poetas siglo XXI (haikai) / Vol de milana (5 entradas)

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26.9.15

Fernando Pessoa (Não sei quantas almas tenho)





Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é.

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem 'do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu?"
Deus sabe, porque o escreveu.


Fernando Pessoa

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25.9.15

Marcelo Daniel Díaz (Nós)





NOSOTROS



Era verano,
en la superficie de la familia
llovían meteoritos.
Íbamos en auto de vacaciones
y el ruido de una pinchadura
desató el temporal.
No conocía la criptonita
pero aún así era un millón de veces
más débil que Clark Kent.
Papá lloraba por teléfono,
el corazón astillado, polvo lunar
en una playa de estacionamiento.


Marcelo Daniel Díaz

[Marcelo Leites]




Era Verão,
choviam meteoritos
na superfície da família.
Íamos para férias de carro
e o ruído de uma picada
desatou o temporal.
Eu não conhecia a criptonite
mas mesmo assim era mil vezes
mais débil que Clark Kent.
Papá chorava ao telefone,
o coração feito em estilhas, pó lunar
numa praia de veraneio.


(Trad. A.M.)

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24.9.15

Aquilino Ribeiro (Sonhos-3)





Os meus sonhos!

Alguns, formados por fragmentos da vida real, segundo ocorrera na véspera e me impressionara a retina, eram como as migalhas de pão alvo que vêm na toalha ao levantar da mesa e a criada sacudiu à janela; outros, destroços de coisas que arrasta em seu fluxo o rio torvo da memória e, à deriva, se encontram por mero acaso; ainda sons de campainhas etéreas, sinos repicados por anjos ou gnomos, e recolhidos por um detector tonto ou sem ordem nenhuma.



AQUILINO RIBEIRO
Cinco Réis de Gente- I
(1948)

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Ape Rotoma (A eles)





A ELLOS



Me gustan los camellos silenciosos y cautos,
los que no se apresuran, los que cumplen los ritos,
los que te reconocen pero sin aspavientos
ni sonrisas forzadas ni familiaridades,
que no se hacen los duros ni los necesitados,
que no esperan de ti complicidad ni nada
que no sea el precio exacto, el actual del mercado,
y que hablan del producto lo justo, nunca menos,
y te dicen a veces: lo que hoy tengo es muy malo.
En resumidas cuentas, en esto como en todo,
dadme un profesional.


Ape Rotoma



Eu cá gosto dos passadores calados e cautos,
os que se não apressam, os que cumprem os ritos,
os que te reconhecem mas sem espaventos
nem sorrisos forçados nem grandes intimidades,
que não se fazem de duros nem de necessitados,
que não esperam de ti cumplicidade nem nada
para além do preço exacto, o corrente do mercado,
e que falam do produto o preciso, nunca menos,
dizendo às vezes: hoje o que tenho é mau.
Resumindo, nisto como em tudo,
dai-me um profissional.

(Trad. A.M.)



>>  Poetas siglo XXI (6p) / Las afinidades electivas (4p) / Wikipedia

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23.9.15

Eugénio de Andrade (Sulcos do Verão)





SULCOS DO VERÃO



Correm pelos sulcos do verão.
São escuros, e correm para mim.
Há quem tenha casa em Corfu
e jardins em Granada;
ou até barcos no mar.
Há quem tenha aqueles olhos,
a água funda desses olhos.
Como eu.
Para beber até ao fim.


Eugénio de Andrade

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22.9.15

Manuel Moya (Têm sede)





TIENEN



Tienen
sed los campos.
Ha llovido poco últimamente.
Pasaron las tormentas
y no dejaron nada.
Sacaron a los ídolos
y no vino la lluvia.
La lluvia viene cuando quiere.
No tiene su sazón
hora fijada. Mucha o poca,
la lluvia jamás mide
cuanto otorga, ni prevé
dónde será bien recibida.
Llueve con simpleza,
simplemente.
Se deja llover por puro gusto.
No castiga la lluvia, no condena.
Es un don la lluvia, y no lo sabe.

MANUEL MOYA
Sitios del agua
(2001)



Têm sede os campos.
Choveu pouco ultimamente.
Passaram as tempestades
e não deixaram nada.
Tiraram os ídolos
e a chuva não veio.
A chuva vem quando quer.
A sua estação não tem
hora certa. Muita ou pouca,
a chuva nunca mede
o que dá, nem prevê
onde é que será bem recebida.
Chove simplesmente,
com simplicidade.
Chove por puro gosto.
Não castiga a chuva, não condena.
É um dom, a chuva, e não o sabe.

(Trad. A.M.)

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21.9.15

Aquilino Ribeiro (Sonhos-2)





Ao ar livre da vigília, as tintas iluminantes volatizavam-se, tão bem como os fuminhos vaporosos.

E desvaneciam-se do mesmo modo os castelos e arquitecturas deslumbradas mal o entendimento a frio tentava apreender-lhes as linhas e convertê-los em figurações objectivas.

O que restava era o resíduo fosforescente, uma tinta convencional, semelhante ao azul com que se contrafaz a cor do mar.



AQUILINO RIBEIRO
Cinco Réis de Gente- I
(1948)

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Jotaele Andrade (A falta de um peixe no cardume)





LA. AUSENCIA DE UN PEZ EN EL CARDUMEN



te mueres
y alrededor sigue el curso de los días

faltarás
piensas
pero será como la ausencia de un pez en el cardumen
o tan indistinto como una gota de agua en el día lluvioso

y no te mueres de amor
o sed
o hambre

te mueres simplemente
en la fórmula simple de haber nacido
porque golpea su fondo aquello que comprueba su límite

y ya


Jotaele Andrade

[Marcelo Leites]




tu morres
e à volta continua o curso dos dias

farás falta
pensas tu
mas será como a falta de um peixe no cardume
ou tão indiferente como uma gota de água num dia de chuva

e não morres de amor
de sede
ou de fome

morres simplesmente
na fórmula simples de ter nascido
porque bate no fundo aquilo que serve de limite

e é tudo

(Trad. A.M.)



>>  Efory Atocha (6p) / Mordiscos (3p) / Facebook


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20.9.15

Louise Warren (Eu não faço inventário de palavras)





Eu não faço inventário de palavras,
trabalho a luz para aclarar a consciência.
Creio que cada palavra difunde um clarão
que vai da centelha ao incêndio à noite.
No interior desse espectro luminoso
há um sem fim de variações possíveis.
Uma colecção de luzes.


Louise Warren

(Trad. A.M.)

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19.9.15

Ángel González (Epílogo)





EPÍLOGO



Me arrepiento de tanta inútil queja,
                           de tanta
tentación improcedente.
Son las reglas del juego inapelables
y justifican toda, cualquier pérdida.
                          Ahora
sólo lo inesperado o lo imposible
podría hacerme llorar:

una resurrección, ninguna muerte.



Ángel González





Arrependo-me de tanta queixa inútil,
                          de tanta
tentação improcedente.
São as regras do jogo inapeláveis
e justificam toda e qualquer perda.
                          Agora
só me faria chorar
o inesperado ou impossível:

uma ressurreição, morte nenhuma.


(Trad. A.M.)

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18.9.15

Aquilino Ribeiro (Sonhos-1)





Eu sonhava persistentemente, desperto e a dormir.

Àquela altura da vida será legítimo estabelecer distinção entre uma e outra espécie de estado?

Seja como for, sei que animava os meus sonhos a mesma inconsistente fugacidade.

A sua deliciosa frescura emocional, os seus temas inéditos, o seu contexto raro quando investido em tal e tal fenómeno, diluíam-se, incaptáveis à razão lúcida.



AQUILINO RIBEIRO
Cinco Réis de Gente- I
(1948)

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Luis Rosales (A última luz)





LA ÚLTIMA LUZ



Eres de cielo hacia la tarde, tienes
ya dorada la luz en las pupilas,
como un poco de nieve atardeciendo
que sabe que atardece.
           Y yo querría
cegar del corazón, cegar de verte
cayendo hacia ti misma
como la tarde cae, como la noche
ciega la luz del bosque en que camina
de copa en copa cada vez más alta,
hasta la rama isleña, sonreída
por el último sol,
         ¡y sé que avanzas
porque avanza la noche! y que iluminas
tres hojas solas en el bosque,
         y pienso
que la sombra te hará clara y distinta,
que todo el sol del mundo en ti descansa,
en ti, la retrasada, la encendida
rama del corazón en la que aún tiembla
la luz sin sol donde se cumple el día.


Luis Rosales




És de céu pela tarde, com a
luz dourada nas pupilas,
como um pouco de neve entardecendo
ciente de entardecer.
         E eu quereria
cegar do coração, cegar de te ver
caindo para ti mesma
como a tarde cai, como a noite
cega a luz do bosque caminhando
de copa em copa cada vez mais alto,
até ao ramo cimeiro, lambido
pelo último sol;
         e sei que avanças
com a noite que avança e que iluminas
três folhas sozinhas no bosque;
         e penso
que a sombra te fará clara e distinta,
que todo o sol do mundo em ti descansa
o ramo aceso do coração em que estremece ainda
a luz sem sol onde se cumpre o dia.

(Trad. A.M.)

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17.9.15

Charles Bukowski (O meu destino)





O MEU DESTINO



como a raposa
fujo com os perseguidos
e se não sou
o homem mais feliz
à superfície da terra
seguramente que sou
o homem com mais sorte
vivo.


Charles Bukowski

(Trad. F.Carvalho)


[Revista Triplo V]

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16.9.15

Luis García Montero (O silêncio e o ruído)





EL SILENCIO Y EL RUIDO



Son números dormidos en la agenda.
Nadie quiere borrarlos,
pero ellos mismos pierden la memoria,
se alejan de sus dueños
en un rincón oscuro de los días que pasan.
Son números sin voz, sin cenas, sin preguntas
pálidos y encerrados,
tristes de no salir
después de un imprevisto.

Alguna vez el aire
de una disposición irracional
nos pide que marquemos el teléfono
de los amigos muertos.
Suena larga la nada, se repite
como un corte de luz,
sin nadie que conteste.
Eso es el silencio.

Pero también existe el ruido.
Llega sin estridencias, casi un rumor, no grita,
se parece al vacío más que al daño.
La voz de la otra espera,
en la orilla marcada
de nuestro propio tiempo,
dice que no es aquí:
-Se ha equivocado.

Extraña soledad la que se siente
por no pertenecer a la conversación
y saberse la huella de un antiguo
propietario del mundo.

Los hospitales tienen otoños de papel,
borrosas escaleras amarillas
de nombres y números.

Uno empieza a morir en las agendas.


Luis García Montero




Números adormecidos na agenda.
Ninguém quer apagá-los,
mas perdem a memória eles mesmos,
afastam-se dos donos
num recanto escuro dos dias que passam.
Números sem voz, sem cenas, sem perguntas,
pálidos e encerrados,
tristes de não saírem
para uma coisa imprevista.

Às vezes a onda
de um impulso irracional
leva-nos a marcar o telefone
de amigos mortos.
Soa o nada longamente, repete-se
como um corte de luz,
sem ninguém responder.
Isto é o silêncio.

Mas há também o ruído,
surge sem estridências, um rumor quase,
não grita, mais parecido ao vazio.
A voz da outra espera,
na outra margem
de nosso próprio tempo,
diz que não: - É engano.

Estranha solidão a que se sente
por não pertencer à conversa,
saber-se a marca de um antigo
proprietário do mundo.

Os hospitais têm outonos de papel,
ilusórias escalas amarelas
de nomes e números.

Começa-se a morrer nas agendas.

(Trad. A.M.)

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