28.2.15
Luis Rosales (A festa dos pássaros)
LA FERIA DE LOS PÁJAROS
Sentí que se desgajaba
tu corazón lentamente
como la rama que al peso
de la nevada se vence,
y vi un instante en tus ojos
aquella locura alegre
de los pájaros que viven
su feria sobre la nieve.
Luis Rosales
Senti esgalhar
teu coração devagar
como se fosse um ramo
com o peso da neve,
e por um instante vi em teus olhos
essa loucura alegre
dos pássaros voando
em festa sobre a neve.
(Trad. A.M.)
.
27.2.15
Ana Paula Inácio (Primeira flor)
PRIMEIRA FLOR
Os milagres acontecem
a horas incertas
e nunca estou em casa
quando o carteiro passa.
Hoje, abriu a primeira flor
e eu disse é um sinal.
Olho em volta: estou só
trago esta sombra comigo.
Ana Paula Inácio
[Pátria pequena]
.
26.2.15
Jorge Espina (Mãe)
MADRE
Madre tiembla cuando dice adiós,
Madre siempre tiene miedo,
Madre llora por sus hijos,
Madre llora por sus nietos.
Madre es una flor deshojada
Con aroma a café recién hecho,
Madre es una manzana de sidra
Cansada de caer al suelo.
Madre es un viejo druida
Que cura el dolor con ungüento.
Madre es un ladrillo en el horno
Que calienta la cama en invierno.
Recuerdo el roto en el corazón,
Lo cosió madre,
Mi madre
Que se juega hoy la vida al parchís
En un hogar para ancianos.
Jorge Espina
Mãe treme a dizer adeus,
mãe está sempre com medo,
mãe chora pelos filhos,
mãe chora pelos netos.
Mãe é uma flor desfolhada
com cheiro de café fresco,
mãe é uma maçã de sidra
cansada de cair ao chão.
Mãe é um velho druida
que tira dores com unguento.
Mãe é um tijolo do forno
que aquece a cama no Inverno.
Recordo o golpe no coração,
coseu-o a mãe,
minha mãe
que joga hoje a vida às cartas
num lar de idosos.
(Trad. A.M.)
.
25.2.15
Amadeu Baptista (Sala dos actos-3)
SALA DOS ACTOS-3
usa a tua nudez acessórios mortais
para quem procura. a fita de veludo,
o cinto de fivela prateada,
a pintura guerreira, o golpe subtil
com que anuncias a ascensão
ao cume do carinho, exactamente
quando sobre o desvario
distendes os flancos e lanças sobre mim
o golpe intrépido
para que o êxtase estoure no meu corpo
esse mar de grata violência
que pressinto chegar em vagas sucessivas
sempre que gritas e, nesse grito,
desatas o meu grito.
Amadeu Baptista
[Amadeu Baptista]
.
24.2.15
Jorge Boccanera (Universo)
UNIVERSO
El domador que mete su cabeza dentro de la boca
del león, ¿qué busca?
¿La lástima del público?
¿Que tenga lástima el león?
¿Busca su propia lástima?
El poeta que arroja su anzuelo en la garganta de la
Sordomuda, ¿qué busca?
¿La lástima del público?
¿Que tenga lástima la Sordomuda?
¿Busca su propia lástima?
Y el público, ¿está loco? ¿por qué aplaude?
Jorge Boccanera
[Revista Triplo V]
O domador que mete a cabeça na boca
do leão, que busca?
A piedade do público?
A do leão?
A sua própria piedade?
O poeta que espeta o anzol na garganta
da Surda-muda, que busca?
A piedade do público?
A da Surda-muda?
A sua própria piedade?
E o público, está louco? Porque aplaude?
(Trad. A.M.)
.
23.2.15
António Lobo Antunes (Lisboa)
Lisboa, mesmo a esta hora, é uma cidade tão desprovida de mistério como uma praia de nudistas, onde o revelador do sol exibe brutalmente nádegas planas e peitos sem cones de sombra a aprofundá-los, que o mar parece abandonar na areia à laia dos seixos sem arestas da vazante.
Uma noite de cartório notarial, em cujos lençóis de papel selado ressona timidamente um povo de terceiros-oficiais resignados, transforma as casas e os prédios em tristes jazigos de família, no interior dos quais os casais azedos esquecem por algumas horas as suas querelas minúsculas, para se assemelharem a estátuas jacentes de pijama às riscas, que o despertador à cabeceira da cama empurrará em breve para quotidianos frenéticos e cinzentos.
ANTÓNIO LOBO ANTUNES
Os cus de Judas
(1979)
.
José Hierro (Como a rosa)
Como la rosa: nunca
te empañe un pensamiento.
No es para ti la vida
que te nace de dentro.
Hermosura que tenga
su ayer en su momento.
Que en sólo tu apariencia
se guarde tu secreto.
Pasados no te brinden
su inquietante misterio.
Recuerdos no te nublen
el cristal de tus sueños.
Cómo puede ser bella
flor que tiene recuerdos.
José Hierro
Como a rosa, não te
turve um pensamento.
Não é para ti a vida
que te vem de dentro.
Beleza que a tenha
ontem a seu tempo.
Que teu segredo se guarde
só na tua aparência.
Passados não te ofereçam
seu inquietante mistério.
Lembranças não embaciem
o vidro de teus sonhos.
Como bela pode ser
a flor que tem lembranças.
(Trad. A.M.)
>> A media voz (57p) / Poesi.as (43p) / Antologias poeticas (57p) / Fundación (de/sobre) / Cervantes (de/sobre) / Wikipedia
.
22.2.15
Alexandre O'Neill (Seis poemas confiados/V)
(V)
Eu estava bom p’ra morrer
nesse dia.
Não tinha fome nem sede,
nem alarme ou agonia.
Eu estava tal como está
esse que perdeu a amiga,
o homem que sofreu já
tanto (nem se imagina!)
que ficou bem atestado
de fadiga
e copiou-se em alegre,
mas de uma torpe alegria,
que não era mesmo alegre,
mas alegre se fingia
só para enganar o morto
que dentro de si trazia.
Este é um modo de dizer
em que ninguém acredita,
mas não sei melhor dizer:
era assim que eu me sentia!
A solidão o que era?
O amor o que seria?
Já ninguém à minha espera,
para nenhures é que eu ia.
Eu estava bom p’ra morrer
— e ainda hoje morria…
Assim me quisesses dar
e tirar — só tu! — a vida.
Alexandre O'Neill
.
21.2.15
Jorge Ampuero (Exórdio do caminhante)
EXORDIO DEL CAMINANTE
No basta
con iniciar
el viaje
y la búsqueda
porque
es posible
andar
y perderte
por cualquier
camino
si realmente
no sabes
adónde
vas.
Jorge Ampuero
Não basta
iniciar
a viagem
e a busca
porque
é possível
andar
e perder-te
por qualquer
caminho
se realmente
não souberes
aonde
vais.
(Trad. A.M.)
.
20.2.15
António Lobo Antunes (Madrugada)
Às quatro da manhã os espelhos são ainda suficientemente misericordiosos ou opacos para nos não devolverem o rosto amarrotado e encolhido das noites sem sono, que os olhos baços animam de desânimo pisco: o excesso de luz do aeroporto impedia-me de me confrontar nos vidros com a minha silhueta hesitante, inclinada como uma cana de pesca para o peixe gordo da mala, com a gravata que as muitas horas de avião haviam decerto desviado da bissectriz dos colarinhos, tranformando-a num trapo mole como os relógios de Dali, com as rugas que se acumulavam em torno das pálpebras, à maneira dos vincos concêntricos de areia dos jardins japoneses; entre o homem que voltava sozinho da guerra à sua cidade e caminhava através de cachos de estrangeiros indiferentes, e nós que nos dirigimos para a saída do bar ao longo de um corredor de nucas e perfis cuja monótona diversidade os aproxima dos manequins da Baixa, petrificados em acenos imóveis de uma inutilidade patética, há apenas a diferença insignificante de alguns mortos na picada, cadáveres que você não conheceu, as nucas e os perfis nunca viram, os estrangeiros do aeroporto ignoravam.
ANTÓNIO LOBO ANTUNES
Os cus de Judas
(1979)
.
María García Zambrano (Versais)
VERSALES
¿Qué harás con esta voz que yo te he dado,
con mi secreto,
con la lengua parida en este instante,
con mi madre y su amor,
con mis poemas?
¿Qué vas a hacer con estas manos
manchadas con la tinta de mi vida?
Te irás como si nada,
lo sé,
viviéndote mi verso en copa de cerveza.
Y pronto olvidarás
que me has bebido.
María García Zambrano
O que farás com esta voz que eu te dei,
com meu segredo,
com a língua parida neste instante,
com minha mãe e seu amor,
com meus poemas?
O que vais fazer com estas mãos
manchadas da tinta da vida minha?
Ir-te-ás como se nada,
bem sei,
vivendo meu verso em copo de cerveja.
E depressa esquecerás
que me bebeste.
(Trad. A.M.)
.
19.2.15
W. C. Williams (Solstício)
SOLSTICE
The river is full
The time is ripe
Give murderous thoughts rest
No leaves on the trees
A mild sun darkens
the frosty earth
Quietness reigns
No birds, no wind
The shortest day of the year
is favorable
W. C. Williams
[De sibilas y pitias]
O rio vai cheio
O tempo está maduro
Deixemos de lado os pensamentos ruins
Nem uma folha nas árvores
Um sol pálido mal ilumina
o mundo gelado
Reina a tranquilidade
Não há pássaros, nem vento
O dia mais curto do ano
ajuda.
(Trad. A.M.)
.
18.2.15
Francisco J. Picón (Caminhos de ida e volta)
CAMINOS DE IDA Y VUELTA
Existen caminos
con destino incierto
que conducen
hacia un mañana
impredecible
hay caminos
con arcenes
y censuras
hay caminos
sin final,
sin principio,
sin ahora
sin pasado
y hay caminos
de regreso,
colmados de experiencia
y rugosidades,
caminos
de aprendizaje
tardío,
caminos
de arrepentimientos
y destierros
mientras
exista un camino
hacia algún lugar
no te estanques...
la vida es transitar
sin descansos
perennes,
sin demoras
ni apremios,
la vida
es un camino
perpetuo,
un sinfín
de relámpagos
inaudibles
siempre
existe un camino,
no lo cruces
al azar.
Francisco J. Picón
Existem caminhos
com destino incerto
que levam a um amanhã
imprevisível
há caminhos
com bermas
e censuras
há caminhos
sem final,
sem princípio,
sem agora
sem passado
e há caminhos
de regresso
cheios de experiência
e rugosidades,
caminhos
de aprendizagem
tardia,
caminhos
de arrependimento
e desterro
enquanto
houver um caminho
para algum lugar
não te detenhas
a vida é transitar
sem descansos
perenes,
sem pressas
nem demoras,
a vida
é um caminho
perpétuo,
um sem fim
de relâmpagos
inaudíveis
sempre
existe um caminho
não o atravesses
ao acaso.
(Trad. A.M.)
.
17.2.15
António Lobo Antunes (No cu de Judas)
De tempos a tempos chegavam visitas inesperadas ao cu de Judas: oficiais do Estado-Maior de Luanda, que o formol do ar condicionado conservava, quinquagenárias sul-africanas que beijavam os doentes em arroubos de cio da menopausa, duas actrizes de revista a agitarem a descompasso as pernas gordas num palco de mesas, acompanhadas por um acordeão exausto; jantaram na messe ao lado do comandante reluzente de orgulho, cuja timidez se embrulhava nos sorrisos de um adolescente em falta, enquanto o tenente da criada lhes cirandava em torno, farejando os decotes num êxtase mudo.
O capelão, contrito, descia as pálpebras virgens sobre o breviário da sopa.
- Quarenta anos a acumular esperma - calculava o capitão idoso a medi-lo de longe. - Se aquele gajo se vier afoga-nos a todos na água benta dos tomates.
ANTÓNIO LOBO ANTUNES
Os cus de Judas
(1979)
.
Jordi Doce (Acontecimento)
SUCESO
No estábamos allí cuando ocurrió.
Íbamos de camino a otra ciudad,
otra vida,
bajo un cielo cambiante que se movía con nosotros.
Cruzamos campos verdes, amarillos,
pueblos de gente suspicaz y cuervos impasibles,
y ni una vez echamos a faltar nuestra casa
o sentimos nostalgia del pasado.
Así era el viaje:
por la noche silencio,
a la mañana niebla.
Una vez encontré un botón de hojalata en el bolsillo
y jugué a sostenerlo bajo el sol,
arrojando destellos a las altas espigas.
Luego fue una moneda usada
y tuvimos el paso franco en todos los controles.
Las llanuras de Europa son testigo.
Ellas saben también que algo ocurrió,
aunque nunca lo viéramos.
Íbamos de camino a otro país,
otra vida,
sin bultos estridentes,
sin espacio para el recuerdo.
Todo salía a nuestro encuentro,
ahora silencio y luego niebla.
Jordi Doce
[Apología de la luz]
Não estávamos lá quando aconteceu,
íamos a caminho de outra cidade,
outra vida,
sob um céu cambiante que se movia connosco.
Atravessámos campos verdes, amarelos,
terras de gente suspicaz e corvos impassíveis
e nem uma vez sentimos falta da casa
ou saudade do passado.
Assim era a viagem,
silêncio de noite,
névoa de manhã.
Uma vez achei no bolso um botão de metal
e pus-me a brincar com o sol,
a mandar os raios para as altas espigas.
Depois fez de moeda usada
e tivemos passagem franca em todos os controlos.
Os plainos da Europa são testemunhas,
sabendo que algo ocorreu,
embora nós não víssemos.
Íamos a caminho de outro país,
outra vida,
sem sombras estridentes,
nem espaço para a lembrança.
Tudo nos vinha ao encontro,
ora silêncio, ora névoa.
(Trad. A.M.)
.
16.2.15
João Miguel Fernandes Jorge (Jantar em Alcabideche)
JANTAR EM ALCABIDECHE
Estavam os meus amigos. E, todos, mais
ou menos bêbados. As mãos brincavam com
as facas, apertavam os copos entre os
dedos, espremiam limão sobre os peixes
grelhados. Os gestos, a alegria
do encontro tornara-os tenros e desajeitados.
Mais do que dirigindo-nos a nós próprios,
fazíamo-lo para uma presença imaginária,
a secreta corrente que a cada um unia; e,
mais secretamente ainda, dois e três escondia.
Depois, não há como o álcool,
o vinho branco escolhido – que não fora
excelente – para fazer querer
ser o eu presente o verdadeiro eu;
e que, até então, sempre permanecera
escondido.
Os meus amigos falam, falam todos ao mesmo
tempo e não se entendem.
E quanto mais querem dizer mais abraços dão.
Riem e chegam mesmo a participar, felizes,
na união em cada um;
meio perdidos no seu sonho de representação
de si, não procuram mais do que provar, e
provar aos outros, uma única coisa: cada um
é o mais fiel naquele jantar,
Eu, quase sempre, permaneci alheio e
olhava-os, como vocês, leitores,
nos estão a olhar agora.
João Miguel Fernandes Jorge
[Cómo cantaba mayo]
.
15.2.15
Luis Rosales (Autobiografia)
AUTOBIOGRAFÍA
Como el náufrago metódico que contase las olas
que faltan para morir,
y las contase, y las volviese a contar, para evitar
errores, hasta la última,
hasta aquella que tiene la estatura de un niño
y le besa y le cubre la frente,
así he vivido yo con una vaga prudencia de
caballo de cartón en el baño,
sabiendo que jamás me he equivocado en nada,
sino en las cosas que yo más quería.
Luis Rosales
Como o náufrago metódico que contasse as ondas
que lhe faltam para morrer,
e as contasse, e tornasse a contar, para evitar
erros, até à última,
aquela da altura de uma criança,
que o beija e lhe cobre a fronte,
assim vivi eu com uma vaga prudência de
cavalo de cartão no banho,
sabendo que nunca me enganei em nada,
salvo naquilo que mais me importava.
(Trad. A.M.)
>> Poesi.as (34p) / Poetas andaluces (26p) / Cátedra (6p) / Wikipedia
.
14.2.15
António Lobo Antunes (Mafra e mais)
Em Mafra, sob a chuva, vi correr os ratos entre os beliches na tristeza desmesurada do convento, labirinto de corredores assombrados por fantasmas de furriéis.
Em Tomar, onde os peixes sobem do Mouchão para vogarem ao acaso pelas ruas em cardumes cintilantes, construí Jerônimos de paus de fósforo admirados pelas escleróticas amarelas dos paraquedistas com hepatite.
Em Elvas, à ilharga de um aspirante gordo e inseguro como um pudim flan na borda de um prato, desejei evaporar- me nas muralhas da cidade à maneira dos violinistas de Chagall no azul espesso da tela, batendo as desajeitadas asas de cotão das minhas mangas militares, até pousar em Paris para uma revolução de exílio feita de quadros abstrato e de poemas concretos, a que o Diário de Notícias da Casa de Portugal forneceria o lastro lusitano de anúncios de casamento castos como notários hipermétropes, e de missas do sétimo dia adoçadas pelo sorriso sem carne dos mortos.
E em Santa Margarida, aguardando o embarque, pastoreei longas bichas de soldados a caminho de um dentista demente que despovoava gengivas uivando de felicidade assassina.
ANTÓNIO LOBO ANTUNES
Os cus de Judas
(1979)
.
Jonio González (A lagoa)
LA LAGUNA
no busco mi sombra
en las sombras que proyectan los palacios
sin embargo
mi silencio apenas se distingue del rumor de las islas
con cada palada se precipita una estrella
entre la oscuridad y el abismo
Jonio González
não busco minha sombra
nas sombras dos palácios
contudo
meu silêncio mal se distingue
do sussurro das ilhas
uma estrela salta com cada paulada
entre o escuro e o abismo
(Trad. A.M.)
.
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