30.11.14
José Miguel Silva (Musa, vai chatear o Camões)
Musa, sinceramente, vai chatear o Camões.
Que podem os poetas, diz-me, contra marketeers,
aguados humoristas e outros promotores
da realidade? Eu sei que não identificas real
com verdadeiro, nem sequer com existente,
mas que valor pode ter uma metáfora sem preço,
por brilhante que seja, neste mundo de gritos,
de sementes apagadas em lameiros de cimento?
Tu não vês o telejornal, Musa? Nunca ouviste
falar da impermeabilização dos solos na cidade
de Deus, do entupimento das artérias cerebrais?
Pensas que estás no século XIX? Mais, julgas-te
capaz de competir com traficantes de desejos,
decibéis e abraços? És capaz de fazer rir um
desempregado, de excitar um espírito impotente?
Consegues marcar golos «geniais» como o Ricardo
Quaresma, proteger do frio as andorinhas,
transportar as crianças à escola? Se achas que sim,
faz-te à onda do mercado, Musa, e boa sorte.
Mas não contes comigo pra te levar à praia.
Sabes perfeitamente que detesto areia, sol
na testa e mariolas de calção. Vá, não me maces.
Pela parte que me toca, ficamos por aqui.
José Miguel Silva
[Luz & sombra]
.
29.11.14
Francisca Aguirre (Uma má posição)
UNA MALA DISPOSICIÓN
Quizás tuvo la culpa
una mala disposición de mi esqueleto.
Seguramente me falló la osamenta.
Debo tener la tráquea demasiado estrecha
y cualquier cosa le molesta
se irrita y trago mal.
El caso es que aquel hombre
estaba hecho una furia y todo le estorbaba:
los mendigos, los chinos, los rumanos.
Estaba hasta los pelos de las quejas de las mujeres.
Y se puso a decir que
lo que hacía falta era una mano dura como antes.
Y a mí me dio por toser
y terminé escupiéndole.
Francisca Aguirre
[Emma Gunst]
O meu problema foi talvez
uma má posição do esqueleto.
Seguramente falharam-me os ossos.
Devo ter a traqueia muito apertada
e qualquer coisa a incomoda,
irrita-se e eu engulo mal.
O caso é que aquele homem
estava possesso e tudo o perturbava,
os mendigos, os chineses, os romenos.
Estava até aos cabelos com queixas das mulheres.
E pôs-se a dizer que o que era preciso
era mão dura, como em tempos.
E a mim deu-me para tossir
e acabei cuspindo-lhe em cima.
(Trad. A.M.)
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28.11.14
Paulo Varela Gomes (Horror-3)
Não há questão estética que seja só estética, bem como não há questão social ou política que não seja também estética, acrescentava.
As horríveis aldeias e vilas por onde passava, a desgraça das estradas nacionais e dos subúrbios, mesquinhos, amontoados com grosseria, eram resultado da corrupção, a grande, a do Estado corrompido pelos construtores desde o tempo do marcelismo, e a pequena, a de toda a gente que mentia, roubava, violava a lei.
Malandrice e desleixo, Portugal era isso, a pobreza que o progresso transformou na estupidez do novo-rico ou daquele que julga que já é rico.
PAULO VARELA GOMES
O Verão de 2012
Tinta-da-China (2013)
.
Félix Grande (Poética)
POÉTICA
Tal como están las cosas
tal como va la herida
puede venir el fin
desde cualquier lugar
Pero caeré diciendo
que era buena la vida
y que valía la pena
vivir y reventar
Puedo morir de insomnio
de angustia o de terror
o de cirrosis o de
soledad o de pena
Pero hasta el mismo fin
me durará el fervor
me moriré diciendo
que la vida era buena
Puedo quedar sin casa
sin gente sin visita
descalzo y sin mendrugo
ni nada en mi alacena
Sospecho que mi vida
será así y ya está escrita
Pero caeré diciendo
que la vida era buena
Puede matarme el asco
la vergüenza o el tedio
o la venal tortura
o una bomba homicida
ni este mundo ni yo
tenemos ya remédio
Pero caeré diciendo
que era buena la vida
Tal como están las cosas
mi corazón se llena
de puertas que se cierran
con cansancio o temor
Pero caeré diciendo
que la vida era buena:
La quiero para siempre
con muchísimo amor
Félix Grande
[Cómo cantaba mayo]
Tal como estão as coisas
tal como vai a ferida
o fim pode chegar
de qualquer lugar
Mas tombarei a dizer
que a vida era boa
e que valia a pena
viver e estoirar
Posso morrer de insónia
de angústia ou terror
ou de cirrose ou
solidão ou desgosto
Mas até chegar o fim
há-de durar-me o fervor
e hei-de morrer dizendo
que era boa a vida
Poderei ficar sem casa
sem gente e sem visita
descalço e sem uma côdea
sem nada na despensa
Suspeito que a minha vida
assim será e está já escrita
Mas hei-de cair a dizer
que a vida era boa
Posso morrer de asco
do tédio ou da vergonha
de tortura cruel
ou de uma bomba assassina
que nem eu nem este mundo
temos já compostura
Mas tombarei a dizer
que era boa a vida
Tal como estão as coisas
meu coração fica cheio
de portas que se cerram
com fadiga ou temor
Mas hei-de cair dizendo
que a vida era boa:
Eu quero-lhe para sempre
com muitíssimo amor
(Trad. A.M.)
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27.11.14
Luís Quintais (A criação do mundo)
A CRIAÇÃO DO MUNDO
Quando o meu olhar se cruza
com o desta mulher
que vem ver quem passa,
o que me fere...
não é a funda dor dos seus olhos,
a agonia do rosto que implode,
o corpo inchado,
por acção da senilidade bloqueado.
O que me fere
é a entropia dos objectos que a rodeiam:
as paredes amortalhadas
pela respiração de todos os dias,
o frigorífico com mais de trinta anos
coberto de uso, de ferrugem,
a jarra, o azul ardente das suas flores,
o cromático reverso, a criação do mundo.
Luís Quintais
>> Luis Quintais (sítio)
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26.11.14
Felipe Benítez Reyes (Valor do passado)
VALOR DEL PASADO
Hay algo de inexacto en los recuerdos:
una línea difusa que es de sombra,
de error favorecido.
Y si la vida
en algo está cifrada
es en esos recuerdos
precisamente desvaídos,
quizás remodelados por el tiempo
con un arte que implica ficción, pues verdadera
no puede ser la vida recordada.
Y sin embargo
a ese engaño debemos lo que al fin
será la vida cierta, y a ese engaño
debemos ya lo mismo que a la vida.
FELIPE BENÍTEZ REYES
Sombras particulares
(1992)
[Lifevest under your seat]
Há algo de falso na lembrança,
uma linha difusa de sombra,
de erro favorecido.
E se a vida
se cifra em algo
é nessas lembranças
precisamente esvaídas,
quiçá remodeladas pelo tempo
com certa arte que implica ficção, pois verdadeira
não pode ser a vida recordada.
E contudo
a esse engano devemos o que será
no fim a vida mesmo, e a tal engano devemos
o mesmo que devemos à vida.
(Trad. A.M.)
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25.11.14
Paulo Varela Gomes (Horror-2)
Olhava e via: quase nenhum bairro, casa, prédio, posteriores à década de 1960, quer dizer, posteriores à época em que ele saía da infância, merecia outro destino senão uma demolição impiedosa.
Queria lá saber que, antes dessa década e até muito recentemente, as pessoas fossem pobres.
Continuavam a sê-lo, agora pobres de espírito e pobres de gosto, e tinham destruído tudo, a paisagem antiga e habitada, a montanha, as planícies, a costa, tudo o que havia antes é de que ele ainda se lembrava, as casas pobres e dignas, que agora via em ruínas, abandonadas, largadas à beira dos caminhos como animais sarnosos que a impiedade matara.
PAULO VARELA GOMES
O Verão de 2012
Tinta-da-China (2013)
.
Elder Silva (Água de sabão)
AGUA ENJABONADA
Cuando tiendes la ropa en el alambre
esperas algo más que un lavado
perfecto.
Sientes deseos que tu camisa blanca
se purifique algo en el tendedero,
que el sol se recueste en el suéter
comprado en San Pablo
y lo vuelva más naranja
y apague la borrasca del día
y la falta de confianza.
Cuando veo mis medias sacudidas
por el viento
espero no sentir el cansancio
de esa danza
cuando me las ponga para ir al trabajo.
Hay cierto alivio
y suspiras como en un spot
donde publicitan jabones
y hasta crees que algo ha sucedido
con tu ropa
cuando la descuelgas
para ordenarla en el ropero.
El olor a ropa limpia
tiene la belleza de tus ojos
mirando en un cielo atardecido,
y algo de la escandalosa impureza
del agua enjabonada.
Elder Silva
[Marcelo Leites]
Ao estender a roupa no arame
esperas algo mais do que uma perfeita
lavagem.
Pretendes que a camisa
branqueie alguma coisa
e que o sol se recline no suéter
comprado em São Paulo
e lhe avive a cor
e apague a borrasca do dia
e a falta de confiança.
Quando vejo as meias sacudidas pelo vento
só espero não sentir o cansaço
dessa dança
na hora de as calçar e de ir para o trabalho.
Pinta um certo alívio
e tu suspiras como num spot
de publicidade a sabões
e até julgas que algo aconteceu
à roupa
quando vais apanhá-la
para a arrumar no roupeiro.
O cheiro a lavado
tem a beleza dos teus olhos
a contemplar o céu do entardecer,
e algo também da escandalosa impureza
da água de sabão.
(Trad.A.M.)
>> Antonio Miranda (4p) / La palabra única (7p) / Al pial de la palabra (14p) / Facebook
.
24.11.14
José Luís Peixoto (Não te pergunto de onde chegas)
não te pergunto de onde chegas?,
porque sei para onde vais.
hoje é a hora exacta em que até o vento
até os pássaros desistem.
e a noite a teus pés é um instante
e um destino.
não te pergunto onde está o teu rosto,
tantas vezes ocluso e pisado sob os ramos,
onde está o teu rosto?
nem te peço que incendeies o teu nome
numa nuvem nocturna,
nem te procuro.
és tu que me encontras.
ficas no rio que passa,
nada de um tempo que não existe,
nem correntes, nem pedra, nem musgo.
nem silêncio.
José Luís Peixoto
[Ginjal e Lisboa]
.
23.11.14
Federico García Lorca (Da rosa)
DA ROSA
A rosa
não procurava a aurora:
quase eterna em seu ramo,
procurava outra coisa.
A rosa
não procurava ciência ou sombra:
confim de carne e sonho,
procurava outra coisa.
A rosa
não procurava a rosa:
imóvel pelo céu
procurava outra coisa.
Federico García Lorca
(Trad. José Bento)
[Silva]
.
22.11.14
Paulo Varela Gomes (Horror-1)
Cada vez que saía de casa, o horror que era Portugal aparecia-lhe como um pesadelo de que não se consegue emergir, de que ele próprio não conseguiria de facto emergir, e como uma espécie de confirmação do destino.
Dizia que vivera os mais destrutivos cinquenta anos do último século e meio da história do país e que, pelo acaso do nascimento, fora forçado a assistir ao desmantelamento do que restava do Portugal antigo e à sua substituição por um país não apenas moralmente corrupto, mas também o mais feio da Europa ocidental.
PAULO VARELA GOMES
O Verão de 2012
Tinta-da-China (2013)
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Berta Piñán (Para outros)
PARA OTROS
Para otros la aventura, los viajes, el ancho
del océano, Roma ardiendo y las pirámides,
las selvas indomables, la luz de los desiertos,
los templos y el rostro de la diosa. Para ellos
rascacielos y ciudades, palacios del sueño
contra el tiempo, la sonrisa de Buda, las torres
de Babel, los acueductos, la industria incesante
del hombre y sus afanes.
A mi dejadme la sombra difusa del roble,
la luz de algunos días de otoño, la música callada
de la nieve, su caer incesante en la memoria,
dejadme las cerezas en la boca cuando niña, la voz
de los amigos, la voz del río y esta casa, de algunos libros,
pocos, mi mano dibujando, despacio, la curvatura
perfecta de tu espalda.
Berta Piñán
Para outros a aventura, as viagens, o largo
do oceano, Roma a arder e as pirâmides,
as selvas indomáveis, a luz dos desertos,
os templos e o rosto da deusa. Para eles
arranha-céus e cidades, palácios do sonho
contra o tempo, o sorriso de Buda, as torres
de Babel, os aquedutos, a indústria incessante
do homem e seus afãs.
A mim deixai-me a sombra difusa do carvalho,
a luz de certos dias de Outono, a música silenciosa
da neve, seu cair incessante na memória,
deixai-me as certezas na boca em criança, a voz
dos amigos, a voz do rio e desta casa, de certos livros,
poucos, minha mão desenhando, devagar, a curvatura
perfeita das tuas costas.
(Trad. A.M.)
.
21.11.14
20.11.14
Federico Díaz-Granados (A casa do vento)
LA CASA DEL VIENTO
Busco mis muertos diluídos por el tiempo,
solitarios que deambulan por mi casa, por mi vida
vistiendo un viejo musgo.
Busco mis muertos que desterrados olvidan las palabras
a esta hora en que desciende la nostalgia
para viajar por las venas de la memoria.
Son estos mis muertos que habitan la casa del viento
esos mismos que juegan en las fotos con algunos personajes,
que hoy conversan con las raíces de los árboles
e indagan por la memoria de la tierra.
Ya mi vida no es un parque de diversiones,
a las máquinas enmohecidas bajo la potestad del viento
les ha crecido hojarasca.
Mi corazón parece un hospital
que recibe heridos en su sala de urgencias
y los amigos que han zarpado
siguen dando vueltas en el inmenso carrusel
con los desaparecidos que caen sin vértigo de la montaña rusa.
Cómo se parecen tus huesos a los sueños en esa casa del viento
en el hangar donde
reparan algunos payasos y maromeros mutilados
en esa casa que cada día se parece más a esa otra demolición
que es mi vida.
Federico Díaz-Granados
Busco meus mortos diluídos pelo tempo,
solitários que deambulam por minha casa, minha vida,
vestindo um musgo antigo.
Busco meus mortos desterrados que esquecem as palavras
nesta hora em que desce a saudade
para viajar pelas veias da memória.
São estes meus mortos que habitam a casa do vento
esses mesmos que brincam nas fotos com outras personagens,
que hoje conversam com as raízes das árvores
e interrogam a memória da terra.
Já minha vida não é um parque de diversões,
as máquinas com mofo cresceu-lhes folhagem
sob o poder do vento.
Meu coração parece um hospital
recebendo feridos na sala de urgências
e os amigos que zarparam
continuam às voltas no imenso carrossel
com os desaparecidos que caem da montanha russa.
Como se parecem teus ossos com sonhos nessa casa de vento
no hangar onde
reparam palhaços e acrobatas mutilados
nessa casa que cada dia se parece mais com essa outra demolição
que é minha vida.
(Trad. A.M.)
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19.11.14
Paulo Varela Gomes (Climas)
A indolência ia ao encontro das ideias vigentes entre as pessoas cultas de toda a Europa acerca dos povos do sul e das regiões mais próximas dos trópicos ou do equador, e que, sendo ideias feitas, correspondem também a parte da verdade.
Não se pode trabalhar com o calor, tinha-o visto na Jamaica, tinha-o experimentado, sabia que era assim, e lamentava profundamente que os hábitos de trabalho do Norte estivessem a ser impostos a todo o globo, à custa de uma utilização escandalosa de ares condicionados, sem que ninguém quisesse perceber que não é possível, sem um desgaste mortal de recursos, fazer dois terços dos seres humanos terem hábitos de vida imitados daqueles que vivem em climas temperados.
PAULO VARELA GOMES
O Verão de 2012
Tinta-da-China (2013)
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18.11.14
Jorge de Sena (Os trabalhos e os dias)
OS TRABALHOS E OS DIAS
Sento-me à mesa como se a mesa fosse o mundo inteiro
e principio a escrever como se escrever fosse respirar
o amor que não se esvai enquanto os corpos sabem
de um caminho sem nada para o regresso da vida.
À medida que escrevo, vou ficando espantado
com a convicção que a mínima coisa põe em não ser nada.
Na mínima coisa que sou, pôde a poesia ser hábito.
Vem, teimosa, com a alegria de eu ficar alegre,
quando fico triste por serem palavras já ditas
estas que vêm, lembradas, doutros poemas velhos.
Uma corrente me prende à mesa em que os homens comem.
E os convivas que chegam intencionalmente sorriem
e só eu sei porque principiei a escrever no princípio do mundo
e desenhei uma rena para a caçar melhor
e falo da verdade, essa iguaria rara:
este papel, esta mesa, eu apreendendo o que escrevo.
Jorge de Sena
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17.11.14
Alberto Szpunberg (Qualquer palavra)
(III)
Cualquier palabra guarda silencio
contra la pared donde se apoya el brazo
que ciñe la desconsolada frente:
el revoque caído descubre un rostro antes oculto,
desencajado ahora, polvoriento,
pero que en la palma de las manos deja huellas
donde aún palpita el ser amado,
como un trabajo, tenaz, como una verdad, irrepetible.
Alberto Szpunberg
[Marcelo Leites]
Qualquer palavra guarda silêncio
contra a parede onde se apoia o braço
que cinge a desconsolada fronte:
o reboco caído descobre um rosto antes oculto,
desencaixado agora, cheio de pó,
mas que deixa marcas na palma das mãos
onde palpita ainda o ser amado,
como um trabalho, tenaz,
uma verdade, irrepetível.
(Trad. A.M.)
>> Porqué tiemblan (7p) / Antonio Miranda (4p) / Poesia argentina (bio-biblio-linques) / Wikipedia
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16.11.14
Paulo Varela Gomes (Liberdades)
E se medirmos índices menos materiais - a chamada liberdade, por exemplo, os chamados direitos dos cidadãos - que extraordinária mentira (...), as multidões nos países ditos livres têm menos influência sobre os seus governos do que a plebe na Roma imperial.
O voto, a liberdade de palavra ou de propaganda são o pão que se dá aos imbecis mergulhados até ao inconsciente na atmosfera falsificada do circo.
Qualquer camponês medieval controlava melhor a sua vida do que um eleitor contemporâneo, convencido de que é livre, obrigado e obrigando-se pela força da ideologia a escolher sempre o mesmo género de governantes, a entreter-se com a sua comédia de fingimentos.
PAULO VARELA GOMES
O Verão de 2012
Tinta-da-China (2013)
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Alfredo Buxán (A luz insone)
A LUZ INSONE
Está desperta a luz
sentada em cima duma pedra
com milhões de anos,
à espera que saias
desse túnel de sombras
em que te abaixas.
Está desperta a luz
a meio da noite
embora cerres os olhos
como se a não houvera.
ALFREDO BUXÁN
La canción del aire
Cadernos de Néboa-6
(2014)
(Trad. A.M.)
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15.11.14
João Guimarães Rosa (Primavera na serra)
PRIMAVERA NA SERRA
Claridade quente da manhã vaidosa.
O sol deve ter posto lente nova,
e areou todas as manchas,
para esperdiçar luz.
Dez esquadrilhas de periquitos verdes
receberam ordem de partida,
deixando para as araras cor de fogo,
o pequizeiro morto.
E a árvore, esgalhada e seca, se faz verde,
vermelha e castanha, entre os mochoqueiros,
braúnas, jatobás e imbaúbas do morro,
na paisagem que um pintor daltônico
pincelou no dorso de um camaleão.
E o lombo da serra é tão bonito e claro,
que até uma coruja,
tonta e míope na luz,
com grandes óculos redondos,
fica trepada no cupim, o dia inteiro,
imóvel e encolhida, admirando as cores,
fatigada, talvez, de tanta erudição…
João Guimarães Rosa
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