28.2.14

Laura Ponce (O caule)





EL TALLO



Tan frágil
es lo que sostiene,
tan frágil es
lo que derriba.

La vida
entera suspendida

en la comisura de unos ojos.

Laura Ponce



Tão frágil
o que segura,
tão frágil
o que derruba.

A vida
inteira suspensa

na comissura de uns olhos.


(Trad. A.M.)



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27.2.14

Pedro Tamen (Muito mais que praia)





MUITO MAIS QUE PRAIA



Ondeia, assume, rememora,
abriga a espuma
em coração disperso.
Uma ferida aberta
afirma e cede à sementeira cedo.
Perfaz, tacteia, roça
teu corpo ao corpo dela,
da já chorada inda que viva morte.


Pedro Tamen

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26.2.14

Miguel Hernández (Os cobardes)





LOS COBARDES



Hombres veo que de hombres
sólo tienen, sólo gastan
el parecer y el cigarro,
el pantalón y la barba.

En el corazón son liebres,
gallinas en las entrañas,
galgos de rápido vientre,
que en épocas de paz ladran
y en épocas de cañones
desaparecen del mapa.

Estos hombres, estas liebres,
comisarios de la alarma,
cuando escuchan a cien leguas
el estruendo de las balas,
con singular heroísmo
a la carrera se lanzan,
se les alborota el ano,
el pelo se les espanta.
Valientemente se esconden,
gallardamente se escapan
del campo de los peligros
estas fugitivas cacas,
que me duelen hace tiempo
en los cojones del alma.

¿Dónde iréis que no vayáis
a la muerte, liebres pálidas,
podencos de poca fe
y de demasiadas patas?
¿No os averguenza mirar
en tanto lugar de España
a tanta mujer serena
bajo tantas amenazas?
Un tiro por cada diente
vuestra existencia reclama,
cobardes de piel cobarde
y de corazón de caña.
Tembláis como poseídos
de todo un siglo de escarcha
y vais del sol a la sombra
llenos de desconfianza.
Halláis los sótanos poco
defendidos por las casas.
Vuestro miedo exige al mundo
batallones de murallas,
barreras de plomo a orillas
de precipicios y zanjas
para vuestra pobre vida,
mezquina de sangre y ansias.
No os basta estar defendidos
por lluvias de sangre hidalga,
que no cesa de caer,
generosamente cálida,
un día tras otro día
a la gleba castellana.
No sentís el llamamiento
de las vidas derramadas.
Para salvar vuestra piel
las madrigueras no os bastan,
no os bastan los agujeros,
ni los retretes, ni nada.
Huís y huís, dando al pueblo,
mientras bebéis la distancia,
motivos para mataros
por las corridas espaldas.

Solos se quedan los hombres
al calor de las batallas,
y vosotros, lejos de ellas,
queréis ocultar la infamia,
pero el color de cobardes
no se os irá de la cara.

Ocupad los tristes puestos
de la triste telaraña.
Sustituid a la escoba,
y barred con vuestras nalgas
la mierda que vais dejando
donde colocáis la planta.

Miguel Hernández

[Luz & sombra]



Homens sei que de homens
têm só e mais não gastam
o aspecto e o cigarro,
a barba e o par de calças.

São como lebres no coração,
galinhas bem lá por dentro,
galgos de rápido ventre,
que ladram em tempo de paz,
mas em tempos de canhões
desaparecem do mapa.

Estes homens, estas lebres,
comissários do alarme,
quando ouvem a cem léguas
o estrondo dos obuses,
põem-se logo a correr
com alvoroço no cu
e de cabelos em pé.
Com valentia se escondem,
galhardamente se escapam
do campo do perigo
estas fugitivas cacas,
que há muito tempo me doem
nos tomates da alma.

Onde ireis dar senão à morte,
pálidas lebres, podengos
de pouca fé e muitas patas?
Não vos envergonha ver
em tantas terras de Espanha
tanta mulher serena
no meio de tanta ameaça?
Um tiro por cada dente
reclama vossa existência,
cobardes de pele cobarde
e de coração de cana.
Tremeis como possessos
de um século de orvalho
e passais do sol à sombra
sempre desconfiados.
Achais as caves pouco
defendidas pelas casas.
Vosso medo requer ao mundo
muralhas e mais muralhas,
barreiras de chumbo à beira
de precipícios e valas
para a vossa pobre vida,
mesquinha de sangue e ânsias.
Não vos chega estar defendidos
por chuvas de sangue nobre
que não pára de cair,
cálida e generosa,
dia após dia,
sobre a gleba castelhana.
Não sentis o apelo
das vidas derramadas.
Para salvardes a pele
não vos bastam as tocas,
não vos chegam os buracos,
nem as retretes, nem nada.
Fugis e tornais a fugir,
dando ao povo razão,
enquanto bebeis a distância,
para vos matar pelas costas.

Sozinhos ficam os homens
no calor da batalha,
e vós, distantes delas,
querendo ocultar a infâmia,
não podeis apagar da cara
a cor da cobardia.

Ocupai o lugar triste
da triste teia de aranha.
Dispensai a vassoura
e com as nalgas varrei
a merda que deixais
onde quer que pondes o pé.


(Trad. A.M.)

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25.2.14

Um verso (131)





Um verso de Ana Paula Inácio
(lá da Terra Chã, ou lá donde é):



Os milagres acontecem a horas incertas




Ana Paula Inácio

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Paulo Leminski (Vão é tudo)





vão é tudo
que não for prazer
repartido prazer
entre parceiros

vãs
todas as coisas que vão



Paulo Leminski

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24.2.14

Miguel d'Ors (Variações sobre um tema de Stevens)





VARIACIONES SOBRE UN TEMA DE STEVENS




No es el canto del mirlo: es el silencio
que nos deja, un silencio
que es algo diferente del silencio
porque en él suena aún el recuerdo del canto
del mirlo. Ni silencio
ni canto: lo que ocurre cuando el canto
ya ha acabado y aún no ha empezado el silencio.
Puedes llamarlo el alma.


Miguel d’Ors




Não é o canto do melro, é o silêncio
que nos deixa, um silêncio
que é algo diferente do silêncio
porque nele soa ainda a lembrança
do canto do melro. Nem silêncio
nem canto, aquilo que ocorre quando
o canto acabou já e não começou
ainda o silêncio.
Podemos dizer, a alma.

(Trad. A.M.)

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23.2.14

Murilo Mendes (Pós-poema)

 


PÓS-POEMA


O anteontem - não do tempo mas de mim -
Sorri sem jeito
E fica nos arredores do que vai acontecer
Como menino que pela primeira vez põe calça comprida.


Não se trata de ilusão, queixa ou lamento,
Trata-se de substituir o lado pelo centro.
O que é da pedra também pode ser do ar.
O que é da caveira pertence ao corpo;
Não se trata de ser ou não ser,
Trata-se de ser e não ser.


Murilo Mendes


[Poemblog]

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22.2.14

Miguel Martins (Parece)





PARECE



Parece
que não vale a pena
Parece
que já não vale a pena
Parece
que já nada vale a pena
Parece
que AQUI já nada vale a pena.


Miguel Martins

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21.2.14

Francisco J. Picón (Codeja)





HIELA



Hiela
en los arrabales de la soledad,
en los caminos recónditos de las miradas perdidas,
en el silencio dormido de la palabra muerta,
en el balcón donde se asoman las caricias olvidadas.
Hiela,
y muere abrasada cada saeta del tiempo.

Se marchitan
las flores nacidas de la semilla del miedo,
las esperas acotadas en los mapas del olvido,
las espinas erosionadas por la fuerza de un recuerdo,
las heridas infectadas por la saliva del desprecio.
Se marchitan,
y brotan excitadas las frutas de la ausencia.

Vuelan
las mentiras disfrazadas de sueños y promesas,
las arrugas de una edad que abandonó la paciencia,
las sabanas desteñidas de sudores, gemidos y caricias,
las canciones afónicas de gritos y somnolencia.
Vuelan,
y bucea entre las nubes el sabor de tantos labios.

Se apagan
las llamas de la hoguera de la vanidad y el orgullo,
las pasiones encendidas con el fuego del desencanto,
las razones desubicadas en el salón de los sentidos,
las aventuras consumadas entre nicotina y alcohol.
Se apagan,
y se encienden los rubores, los deseos y la melancolía.


Francisco J. Picón




Codeja
nos arrabaldes da solidão,
nos caminhos recônditos dos olhares perdidos,
no silêncio dormente da palavra morta,
na varanda onde assomam os carinhos olvidados.
Codeja,
e morre abrasado cada ponteiro do tempo.

Murcham
as flores nascidas da semente do medo,
as esperas balizadas nos mapas do olvido,
as espinhas gastas pela força da lembrança,
as feridas infectadas pela saliva do desprezo.
Murcham,
e brota excitado o fruto da ausência.

Voam
as mentiras disfarçadas de sonhos e promessas,
as rugas de uma idade sem grande paciência,
os lençóis tingidos de suor, de gemidos e carícias,
as canções afónicas de gritos e sonolência.
Voam,
e mergulha entre as nuvens o sabor de tantos lábios.

Apagam-se
as chamas da fogueira da vaidade e do orgulho,
as paixões acendidas no fogo do desencanto,
as razões deslocados no salão dos sentidos,
as aventuras vividas entre o álcool e a nicotina.
Apagam-se,
e acendem-se os rubores, desejos e melancolias.


(Trad. A.M.)

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20.2.14

Mário Cesariny (Lembra-te)






Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos


Mário Cesariny


[Canal de poesia]

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19.2.14

Maria do Rosário Pedreira (Se o vires)





Se o vires, diz-lhe que o tempo dele não passou;
que me sento na cama, distraída, a dobar demoras
e, sem querer, talvez embarace as linhas entre nós.
Mas que, mesmo perdendo o fio da meada por
causa dos outros laços que não desfaço, sei que o
amor dá sempre o novelo melhor da sua mão. Se

o encontrares, diz-lhe que o tempo dele não passou;
que só me atraso outra vez, e ele sabe que me atraso
sempre, mas não de mais; e que os invernos que ele
não gosta de contar, mas assim mesmo conta que nos
separam, escondem a minha nuca na gola do casaco,
mas só para guardar os beijos que me deu. Se o vires,

diz-lhe que o tempo dele não passa, fica sempre.


Maria do Rosário Pedreira


[Abro páginas]

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18.2.14

Max Aub (Testamento)





TESTAMENTO



Tiéndanme en la tierra
con los ojos abiertos,
que pueda ver las nubes
corriendo por el cielo.

Y que me dore el sol
y que me cubra el viento.

Dejd las alimañas
blanquear mi esqueleto.
Dejadme ver las nubes
que no alcancé despierto.

Dejadme cara al cielo
con los ojos abiertos.
Partid tranquilos:
mayores órbitas
me abrirán los brillantes cuervos.
No os preocupéis
veré más nubes y más cielo.

Max Aub

[La sombra de los sueños]



Estendei-me no chão
com os olhos abertos,
que possa ver as nuvens
a correr pelo céu.

E que me creste o sol
e me cubra o vento.

Deixai os bichos
branquear-me o esqueleto.
Deixai-me ver as nuvens
que não alcancei desperto.

Deixai-me de cara para o céu
e com os olhos abertos.
Ide-vos tranquilos,
órbitas maiores
me hão-de abrir os corvos.
Não vos preocupeis,
mais céu e mais nuvens verei.

(Trad. A.M.)

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17.2.14

Marcos Siscar (Tome seu café e saia)





TOME SEU CAFÉ E SAIA



a quem interessa o fracasso
do outro por que nos interessa
o fracasso ou a dor de viver
é mais forte que o abraço
(por que na despedida o beijo
só então inadiável por que
as mãos nos cabelos apenas
antes da morte os corpos se encontram)
eu lhe ofereço este cansaço
talvez você se interesse
talvez você morra de astúcia
tome seu café e saia


Marcos Siscar

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16.2.14

Um verso (130)





Um verso de Manuel de Freitas
(esticando três numa linha...):






A suave desrazão daquele charro fez-nos perceber subitamente tudo




Manuel de Freitas

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Gina Saraceni (Das batalhas do amor)





De las batallas del amor se regresa
con el vientre abierto,

sin paredes,
dando tumbos
por el arduo combate
de la noche.

Se regresa sin armas
con el pulso latiendo
debajo de los párpados
y con los pies arrastrando
la demora del cuerpo
antes del adiós.

Cuerpo a cuerpo es la batalla.

Sólo así se hace una guerra.
Solo así se conoce
cómo tocan las manos
cuando pierden los dedos.

Solo así vale la pena morir:
mirando de frente cómo
se disuelve el rostro
cuando pierde
el control y el alfabeto
cómo se tuerce en un puñado
de ruidos que se hunden
adentro de los ojos
donde solo hay lugar
para perderse.

Lo llaman amor
este combate de brazos y lenguas,
esta cercanía sin intervalos
donde la orilla y la ola
se desangran por el tormento
de volverse a separar;
este tiempo de guerra
que echó raíces
en las venas de junio,
en el estertor de una arteria,
en el corazón herido de muerte.

De las batallas del amor
se regresa con un ejército
de fantasmas en el costado,
con las heridas hundidas
en los dedos
poseídos por esa guerra
que sigue ardiendo
en la línea de combate.


Gina Saraceni

[Emma Gunst]



Das batalhas do amor volta-se
de ventre aberto,

sem paredes,
dando tomos e tombos
no duro combate
da noite.

Sem armas se volta,
o pulso a latejar
por baixo das pálpebras,
os pés arrastando
o vagar do corpo
antes do adeus.

Corpo a corpo é a luta.

Só assim se faz a guerra.
Só assim se conhece
como tocam as mãos
quando perdem os dedos.

Só assim vale a pena morrer,
mirando de frente como
se dissolve o rosto
quando perde o domínio e o alfabeto,
como se torce em ruídos
por dentro dos olhos
onde há só lugar
para perder-se.

Chamam-no amor,
este combate de braços e línguas
este perto sem intervalo
onde a beira e a onda
se dessangram no tormento
da separação;
este tempo de guerra
que deitou raízes
nas veias de Junho,
no estertor de uma artéria,
no coração ferido de morte.

Das batalhas do amor
volta-se com um exército
de fantasmas no flanco,
com as feridas nos dedos
possuídos da guerra
sempre acesa
na linha de combate.

(Trad. A.M.)



>>  Vanguardia y tradición (14p) / Las malas juntas (3p) / Poetas siglo XXI (6p)

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15.2.14

Maria Teresa Horta (Caminho)






CAMINHO



Na boca as palavras
encontram-se
equilibram-se

deslizam na língua
são leite
ou saliva

Persistem resistem
objectos de mirra
com ancas de vidro
dunas perspectivas

são passos
caminhos

Poemas sensíveis

Na boca as palavras
adoecem
insistem

Razões obscuras
moles nas gengivas
rumores imprevistos

São docas antigas

Vaginas
ou quistos


Maria Teresa Horta

[Luz & sombra]

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14.2.14

Meira Delmar (Além)





ALLÁ


Si acaso al otro lado de la vida
otra vez, por azar, nos encontramos,
¿se reconocerán nuestras miradas
o seremos tan sólo un par de extraños?
De todos modos te amaré lo mismo.
Juntos. O separados.

Meira Delmar



Se porventura do outro lado da vida
outra vez, por acaso, nos cruzarmos,
reconhecer-se-ão nossos olhares
ou seremos apenas um par de estranhos?
De todo o modo amar-te-ei igual.
Juntos. Ou separados.

(Trad. A.M.)

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12.2.14

Mario Benedetti (Chau número três)





CHAU NÚMERO TRES



Te dejo con tu vida
tu trabajo
tu gente
con tus puestas de sol
y tus amaneceres
sembrando tu confianza
te dejo junto al mundo
derrotando imposibles
seguro sin seguro
te dejo frente al mar
descifrándote a solas
sin mi pregunta a ciegas
sin mi respuesta rota
te dejo sin mis dudas
pobres y malheridas
sin mis inmadureces
sin mi veteranía
pero tampoco creas
a pie juntillas todo
no creas nunca creas
este falso abandono
estaré donde menos
lo esperes
por ejemplo
en un árbol añoso
de oscuros cabeceos
estaré en un lejano
horizonte sin horas
en la huella del tacto
en tu sombra y mi sombra
estaré repartido
en cuatro o cinco pibes
de esos que vos mirás
y enseguida te siguen
y ojalá pueda estar
de tu sueño en la red
esperando tus ojos
y mirándote.

Mario Benedetti



Deixo-te com tua vida
teu trabalho
tua gente
com teus pôres do sol
e teus amanheceres
semeando a confiança
deixo-te junto ao mundo
derrotando impossíveis
seguro sem seguro
deixo-te frente ao mar
decifrando-te a sós
sem minha pergunta às cegas
sem minha resposta quebrada
deixo-te sem minhas dúvidas
pobres e mal-feridas
sem minhas verduras
sem minha experiência
mas não creias tão pouco
em tudo a pés juntos
não creias nunca creias
neste falso abandono
estarei onde menos
esperares
por exemplo
numa árvore anosa
cabeceando de sono
estarei num horizonte
distante sem horas
na marca do tacto
na tua sombra e na minha
estarei repartido
em quatro ou cinco miúdos
desses que tu olhas
e a seguir te seguem
e oxalá possa estar
no teu sonho na rede
esperando o teu olhar
e a olhar-te.

(Trad. A.M.)

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11.2.14

Mario Quintana (Projeto de prefácio)





PROJETO DE PREFÁCIO



Sábias agudezas… refinamentos…
- não!
Nada disso encontrarás aqui.
Um poema não é para te distraíres
como com essas imagens mutantes de caleidoscópios.
Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe.
Um poema não é também quando páras no fim,
porque um verdadeiro poema continua sempre…
Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte
não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras.


Mario Quintana


[Sopoesia]

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