31.10.13

Vanesa Pérez-Sauquillo (Diz-me)





dime,
si me frotabas
hasta romperme en hebras,
por qué nunca pasaste los dedos
a través.
Por qué no me agarraste?


Vanesa Pérez-Sauquillo

[Emma Gunst]



diz-me,
se me esfregavas
até rasgar-me em fios,
porque ė que nunca passaste os dedos
ao través?
Porque não me prendeste?

(Trad. A.M.)

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30.10.13

Ruben A. (O Dr. Mirinho)





Custaram ao licenciado muitas horas de insónia os primeiros dias passados no Jardim dos Buxos.

Sempre de colarinhos duros, a tratar todos da família por Vossas Excelências e a consumir papel selado em ofícios à sua repartição ministerial.

Andava com um ar tão confidencial que a prima D. Mafalda um dia perguntou se lhe tinha morrido alguém – ao que ele solícita e prontamente respondeu:
“Estudo um novo método recuperador de exportação aérea do vinho do Porto”.

D. Mafalda caiu das nuvens.

Não soube que responder.

Deixou D. Ramiro entregue às suas congeminações.

Outra vez, quando D. Raymundo descansava sob umas ramadas, apareceu-lhe o empreendedor Mirinho, que logo lhe perguntou se a Barbela estava organizada em divisórias agrárias e se acaso as parturientes recebiam seguro social.

D. Raymundo ficou vermelho e respondeu a priori, dizendo que havia um statu quo, que permitia um habeas corpus a quem claudicasse sui generis.

No entanto tinha-se estabelecido um modus vivendi a que ele ipso facto, dava sine die ad urbi a sua concordância.
- “Sim, o primo percebe, tudo isto no lato sensu”.

O Dr. Mirinho, que em latim era um zero, depois da reforma que proibira o acesso a tais línguas mortas, ficara maravilhado com as palavras de D. Raymundo.

Como era possível que um morto, e já há tantos séculos, mantivesse tão lúcida frescura da realidade rústica!


- RUBEN A., A Torre da Barbela, 1964, II.

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Eva Vaz (Poesia para segunda)





POESÍA PARA UN LUNES



Vuelve el lunes tras el hiato;
vuelve con los ojos llenos de sueño
y con menos sueños posibles,
vuelve funcionarial, rutinario,
como la tormenta tras el rayo,
como un matrimonio.

¿Dónde están las buenas noticias?

El lunes huele a detergente,
a vacío,
a comida congelada.

Los lunes nunca hacemos el amor.

Lunes, tediosa palabra de orden
depurativo y famélico.

No hay poesía los lunes. Ni pescado fresco.

Es lunes, pero te quiero
y eso me salva el mundo.

Eva Vaz



Volta segunda-feira, depois do hiato,
volta com olhos cheios de sono
e menos sonhos possíveis,
volta funcionarial, rotineiro,
como a tempestade após o raio,
como um casal.

Onde estão as boas notícias?

A segunda cheira a detergente,
a vazio,
a comida congelada.

À segunda nunca fazemos amor.

Segunda-feira, chata palavra
de cariz depurativo e famélico.

Não há poesia à segunda. Nem peixe fresco.

É segunda, mas amo-te
e só isso já me salva o mundo.

(Trad. A.M.)

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29.10.13

João Cabral de Melo Neto (Retrato de poeta)





RETRATO DE POETA



O poeta de que contou Burgess,
que só escrevia na latrina,
quando sua obra lhe saía
por debaixo como por cima,
volta sempre à lembrança
quando em frente à poesia
meditabunda que
se quer filosofia,
mas que sem a coragem e o rigor
de ser uma ou outra, joga e hesita,
ou não hesita e apenas joga
com o fácil, como vigarista.
Pois tal meditabúndia
certo há de ser escrita
a partir de latrinas
e diarréias propícias.

João Cabral de Melo Neto


[Luz & sombra]

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28.10.13

Roque Dalton (Hora da cinza)





HORA DE LA CENIZA



Finaliza septiembre. Es hora de decirte
lo difícil que ha sido no morir.

Por ejemplo, esta tarde
tengo en las manos grises
libros hermosos que no entiendo,
no podría cantar aunque ha cesado ya la lluvia
y me cae sin motivo el recuerdo
del primer perro a quien amé cuando niño.

Desde ayer que te fuiste
hay humedad y frío hasta en la música.

Cuando yo muera,
sólo recordarán mi júbilo matutino y palpable,
mi bandera sin derecho a cansarse,
la concreta verdad que repartí desde el fuego,
el puño que hice unánime
con el clamor de piedra que exigió la esperanza.

Hace frío sin ti. Cuando yo muera,
cuando yo muera
dirán con buenas intenciones
que no supe llorar.
Ahora llueve de nuevo.
Nunca ha sido tan tarde a las siete menos cuarto
como hoy.

Siento deseos de reír
o de matarme.

Roque Dalton



Está a acabar Setembro, altura de dizer-te
quão difícil tem sido não morrer.

Esta tarde, por exemplo,
tenho nas mãos cinzentas
livros belos que não entendo,
não consigo cantar apesar de a chuva ter parado
e vem-me sem razão à lembrança
o primeiro cachorro que amei em criança.

Desde ontem, que te foste,
até na música há frio e humidade.

Quando eu morrer,
só me lembrarão a alegria matinal,
a bandeira sem direito a cansaço,
a concreta verdade partilhada à fogueira,
o punho unânime com o clamor da esperança.

Faz frio sem ti. Quando eu morrer,
quando eu morrer
dirão com boa intenção
que eu não soube chorar.
Chove de novo agora.
Nunca foi tão tarde como hoje
às sete menos um quarto

Apetece-me rir
ou então matar-me.

(Trad. A.M.)


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27.10.13

Rui Zink (Comunidade Europeia)





Isto passou-se há mais de vinte anos, estava eu na minha fase de jornalismo nómada.

Portugal estava em vias de - "em vias de", é assim que se diz, não é? - entrar para a Comunidade Europeia, então apenas comunidade económica, mas já a ameaçar querer mais, já a arreganhar os dentes para no-los afiar no corpo, no espírito, na espinha dorsal.

Não me estou a queixar, só a descrever.

Cantigas de intervenção é no gabinete ao fundo à esquerda.


- RUI ZINK, A espera, 2007.

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Blas de Otero (Ar livre)





AIRE LIBRE



Si algo me gusta, es vivir.
Ver mi cuerpo en la calle,
hablar contigo como un camarada,
mirar escaparates
y, sobre todo, sonreír de lejos
a los árboles...

También me gustan los camiones grises
y muchísimo más los elefantes.
Besar tus pechos,
echarme en tu regazo y despeinarte,
tragar agua de mar como cerveza
amarga, espumeante.

Todo lo que sea salir
de casa, estornudar de tarde en tarde,
escupir contra el cielo de los tundras
y las medallas de los similares,
salir
de esta espaciosa y triste cárcel,
aligerar los ríos y los soles,
salir, salir al aire libre, al aire.

Blas de Otero



Se algo aprecio, é viver.
Ver meu corpo na rua,
falar contigo à camarada,
ver montras
e, sobretudo, sorrir de longe
para as árvores...

Também gosto dos camiões cinzentos
e muito mais ainda dos elefantes.
Beijar-te no peito,
deitar-me em teu regaço, despentear-te,
beber água do mar, como cerveja
amarga, com espuma.

Tudo que seja sair
de casa, espirrar de tarde em tarde,
cuspir contra o céu
e as medalhas dos semelhantes,
sair
desta espaçosa e triste prisão,
aligeirar os rios e sóis,
sair, sair para o ar livre, para o ar.

(Trad. A.M.)

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26.10.13

Mário-Henrique Leiria (Talvez num dia)





Talvez num dia
em que de mim já nada exista
te lembres de dois braços
que te abraçavam convulsivamente
nessa altura
deixa que os lábios te sangrem
deixa que o sangue te corra pelo peito

e as mãos
essas
abandona-as...


Mário-Henrique Leiria

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25.10.13

Alfonso Costafreda (Num só desejo)





EN UN SOLO DESEO



Los años que se perdieron están aquí, ahora.
Los sueños que he vivido crecen entre mis manos.
Siento cómo han pasado tantos días y seres,
tantas cosas a mi lado sin que las viera.
Pero de pronto todo regresa y se reúne en la memoria,
y tantas vidas
en un solo deseo hoy he encontrado.

Alfonso Costafreda



Os anos perdidos estão aqui, agora.
Os sonhos vividos crescem-me nas mãos.
Sinto como passaram tantos dias e seres,
tantas coisas ao lado sem que eu as visse.
De repente tudo regressa e junta-se na memória
e num só desejo
tantas vidas se encontram.

(Trad. A.M.)



>>  Amediavoz (15p) / Poeticas (10p) / Wikipedia

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24.10.13

Nuno Camarneiro (Homens perdidos)





Aos homens muito perdidos só lhes restam caminhos que levem a uma mulher.

A noite sem mulheres não tem fim, nem o medo ou a morte têm fim longe delas.

Filhos delas toda a vida, mesmo que fingindo, mesmo a fugir.

Para os homens muito perdidos só as mulheres são lugar.



- NUNO CAMARNEIRO, Debaixo de algum céu, 2012 (Narrador).

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Julio Cortázar (A lenta máquina do desamor)




La lenta máquina del desamor,
los engranajes del reflujo,
los cuerpos que abandonan las almohadas,
las sábanas, los besos,
y de pie ante el espejo interrogándose
cada uno a sí mismo,
ya no mirándose entre ellos,
ya no desnudos para el otro,
ya no te amo,
mi amor.

Julio Cortázar



A lenta máquina do desamor,
os mecanismos do refluxo,
os corpos que deixam as almofadas,
os lençóis, os beijos,
e de pé frente ao espelho interrogando-se
cada um a si mesmo,
já não olhando-se entre eles,
já não despidos um para o outro,
já não te amo,
meu amor.

(Trad. A.M.)

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22.10.13

Antonio Orihuela (Estremadura)





EXTREMADURA



Todos los negocios del mundo
se reducen a uno solo, Antonio,
robar a los pobres.

Por muchos nombres que le pongan,
por muy bonito que lo vistan,
este es el único negocio que hay en el mundo.

Yo pongo la tierra, las semillas, el agua, el trabajo,
y los beneficios se los llevan los intermediarios.

A mí me están pagando el kilo de tomates
a 20 céntimos,
pero si tú vas a comprarlos a la tienda
te lo cobran a dos euros.

¿Esto como es posible?,
pues porque en el mundo hay listos y tontos,
y a nosotros nos tocó estar entre los tontos.

Los tontos son los que trabajan desde niños,
los que tratan de vivir
haciendo el menor daño posible,
los que cumplen con las leyes, con el fisco;
los tontos son los que se resignan,
los que se conforman,
los que agachan la cabeza,
los que no quieren problemas;
los tontos son los que mueren por una patria
que te compra los tomates a veinte céntimos.

Cada cinco minutos nace un tonto.
Extremadura es uno de los sitios
donde más tontos nacen de toda España,
no lo digo yo, lo dicen las estadísticas.

Pero yo me pregunto,
y un tío que es multimillonario,
que tiene millones y millones,
¿para qué quiere más,
qué necesidad tiene de seguir robando?

¿Es que a la hora de acostarse,
se puede meter en más de una cama?

Antonio Orihuela



Todos os negócios do mundo,
António, a um se reduzem,
roubar os pobres.

Por muitos nomes que lhe dêem,
por muito belo que o vistam,
tal é o negócio único que existe no mundo.

Eu dou a terra, a semente, a água, o trabalho,
e os lucros são para o intermediário.

A mim pagam-me 20 cêntimos pelo quilo de tomate,
mas se vais comprar à loja cobram-te dois euros.

Como é que isto é possível?
Pois, porque no mundo há espertos e tolos,
e a nós tocou-nos ficar entre os tolos.

Tolos são os que trabalham desde crianças,
os que cuidam de viver
com o menor dano possível,
os que cumprem com as leis e com o fisco;
os tolos são os que se resignam,
os que se conformam,
os que baixam a cabeça,
os que não querem problemas;
os tolos são os que morrem por uma pátria
que te compra o tomate a vinte cêntimos.

Em cada cinco minutos nasce um tolo.
A Estremadura é um dos sítios
onde mais tolos nascem de toda a Espanha,
não sou eu que o digo,
é a estatística.

Mas eu interrogo-me,
e um tipo que é milionário,
que tem milhões e milhões,
para que é que quer mais,
que precisão tem de continuar a roubar?

Será que na hora de deitar,
pode meter-se em mais de uma cama?


(Trad. A.M.)

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21.10.13

Ruben A. (Os Barbelas-II)





Apareciam também alquebrados pela incómoda posição, com chumbo e cal, os franzinos e delicados da família.

Mais escurecia a tarde, mais as suas formas brotavam evidentes.

Outros vinham de longe, dos túmulos de pedra nos fundos das margens do rio e mostravam-se na companhia de lodosas fadas.

E uma caterva de problemas, de questões, de batalhas ou passeios pelo Oriente, de piqueniques do século XVIII emprestavam ao ambiente cambiantes bem expressivos.

O caseiro dormia e os proprietários da Torre desconheciam o melhor para estrumar aquela terra de nateiros, onde o milho sempre pagava e o vinho ainda valia qualquer coisa, mesmo o de cepa americana, indevidamente importado para cruzar com a uva de bago sacristão, especialidade da beira Lima.


- RUBEN A., A Torre da Barbela, 1964, I.

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Eduardo Milán (Vi poemas salvar vidas)





He visto poemas salvar vidas
sin que lo supieran
ni los poemas
ni las vidas.
No digo prolongar vidas:
salvarlas,
sacarlas de allí de la tiniebla inminente.
Los he visto hacer lo que no sabían que sabían
o al menos eso creo: que no sabían que sabían
salvar vidas.
Y vi esas vidas sin saber que se salvaban.
Y las he visto sin que me vieran.


EDUARDO MILÁN
Ostras de coraje
(2003)


Vi poemas salvar vidas
sem o saberem
nem os poemas
nem as vidas.
Não digo prolongar vidas:
salvá-las,
arrancá-las do meio da treva iminente.
Vi-os fazer o que não sabiam que sabiam
ou assim creio, que não sabiam que sabiam
salvar vidas.
E vi essas vidas sem saber que se salvavam.
E vi-as, essas vidas, sem elas me verem.

(Trad. A.M.)



>>  A media voz (20p) / Poemas del alma (13p) / Wikipedia / Punto de partida (6p) / Antonio Miranda (4p)

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20.10.13

Nuno Júdice (Podia ser aí)





Podia ser aí. Contigo. Com o teu corpo
ainda nu, ou vestido da luz que entra pelas
persianas velhas, trazendo a tremura
das folhas na trepadeira do quintal.

Podia ser de manhã, ou de madrugada,
sabendo que teria de te abraçar para que não
desses pelo frio, com o quarto ainda
húmido da noite, num fim de outono.

Podia não ter sido nunca, se não fossem
assim as coisas: a tua mão ao encontro da
minha, no tampo da mesa, como se fosse
aí que tudo se jogasse, entre duas mãos.


Nuno Júdice

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19.10.13

Ángel González (Elegia pura)





ELEGÍA PURA



Aquí no pasa nada,
salvo el tiempo:
irrepetible
música que resuena,
ya extinguida,
en un corazón hueco, abandonado,
que alguien toma un momento,
escucha
y tira.

Ángel González



Aqui não acontece nada,
salvo o tempo,
irrepetível
música que ressoa,
extinta já,
num coração oco, abandonado,
que alguém toma um momento,
escuta
e arremessa.

(Trad. A.M.)

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18.10.13

Nuno Camarneiro (Deus é bom)





Deus é bom, mas liga pouco a pormenores.



- NUNO CAMARNEIRO, Debaixo de algum céu, 2013 (Daniel).

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Ana Pérez Cañamares (Os pratos que me deu minha mãe)





Los platos que me regaló mi madre
están ya deslucidos y pasados de moda.
Cuando hacemos limpieza
nos miran como enfermos agonizantes
que no entienden qué queremos de ellos.

Pero son los platos que me regaló mi madre
que ya nunca volverá a regalarme
nada.

Si un día nos decidiéramos a tirarlos
intentaré escuchar su voz en mi cabeza:
“Las cosas, hija, son sólo cosas”.

Mi madre no está en un plato.
Mi madre está en el pan que como.


Ana Pérez Cañamares



Os pratos que me deu minha mãe
estão já sem brilho e fora de moda.
Quando os limpamos
olham para nós como doentes em agonia,
sem entender o que queremos nós deles.

Mas são os pratos que me deu a minha mãe,
que nunca mais me dará coisa nenhuma.

Se um dia nos decidirmos a tirá-los,
decerto ouvirei a sua voz na minha cabeça:
"As coisas, filha, são apenas coisas".

Minha mãe não está num prato.
Minha mãe está no pão que eu como.

(Trad. A.M.)

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17.10.13

Murilo Mendes (O farrista)




O FARRISTA



Quando o almirante Cabral
Pôs as patas no Brasil
O anjo da guarda dos índios
Estava passeando em Paris.
Quando ele voltou de viagem
O holandês já está aqui.
O anjo respira alegre:
"Não faz mal, isto é boa gente,
Vou arejar outra vez."
O anjo transpôs a barra,
Diz adeus a Pernambuco,
Faz barulho, vuco-vuco,
Tal e qual o zepelim
Mas deu um vento no anjo,
Ele perdeu a memória...
E não voltou nunca mais.


Murilo Mendes

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16.10.13

Vanesa Pérez-Sauquillo (Esta manhã soube)





Esta mañana supe
mi extraña rendición a tus palabras,
mi irrevocable voluntad de náufrago
de sílabas,
de filóloga ahorcada en complementos
directos o indirectos
pero tuyos.
Esta mañana supe
que me visto en tus verbos,
desayuno tu nombre
y me quedo perdida, como tonta,
si me encuentro algún “no”
camino de la tarde,
camino de la noche.
Esta mañana supe
que muy frecuentemente
me vuelvo monosílabo
de sombra
agarrado al tobillo de tus frases,
que muy frecuentemente
quisiera ser prendida en tu nevera
como “nota importante”.
Esta mañana comprendí, aturdida.
Esta mañana supe, por fin vi
que me confundo en viento
cuando gritas mi nombre
y que basta un susurro,
un susurro de nada,
para dormirme en ti.

Vanesa Pérez-Sauquillo



Esta manhã soube
minha estranha rendição a tuas palavras,
irrevogável vontade de náufrago de sílabas,
de filóloga enforcada em complementos
directos ou indirectos
mas teus.
Esta manhã soube
que me visto com teus verbos,
almoço teu nome
e fico-me perdida, como tonta,
encontrando algum ‘não’
a caminho da tarde,
a caminho da noite.
Esta manhã soube
que bastas vezes
me torno monossílabo
de sombra
agarrado ao tornozelo das tuas frases,
que bastas vezes
gostava que me colasses no teu frigo
como “nota importante”.
Esta manhã compreendi, aturdida.
Esta manhã soube, por fim vi
que me confundo em vento
quando gritas meu nome
e que basta um sussurro,
um sussurro de nada,
para eu me dormir em ti.

(Trad. A.M.)



>>  Vanesa P.S. (sítio) / Vanesa P.S. (blogue) / Culturamas (9p)

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