30.9.13
Herberto Helder (A escrever aprende-se o que somos)
Cada texto possui o seu natural movimento interior.
Há uma escrita que corresponde ao ritmo brusco, obsessivo, repetitivo, suspenso, recorrente, problemático, descontínuo da investigação que ela mesma, escrita, é – e da realidade que cria.
Certas obsessões (até vocabulares) iluminam-se durante a realização de um texto.
A escrever é que se aprende o que somos.
Referências a objectos, situações, movimentos, aparecem como imagens ou metáforas de experiências muito antigas, como elementos da composição interior, portanto: do mundo, da vida.
- HERBERTO HELDER, Photomaton & vox (Em volta de), 2006.
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Roberto Bolaño (Lê os velhos poetas)
Lee a los viejos poetas, hijo mío
y no te arrepentirás
Entre las telarañas y las maderas podridas
de barcos varados en el Purgatorio
allí están ellos
¡cantando!
¡ridículos y heroicos!
Los viejos poetas
Palpitantes en sus ofrendas
Nómades abiertos en canal y ofrecidos
a la Nada
(pero ellos no viven en la Nada
sino en los Sueños)
Lee a los viejos poetas
y cuida sus libros
Es uno de los pocos consejos
que te puede dar tu padre
Roberto Bolaño
Lê os velhos poetas, meu filho
e não te arrependerás
No meio de teias de aranha e madeiras apodrecidas
de barcos varados no Purgatório
aí estão eles cantando!
ridículos e heróicos!
Os velhos poetas
Palpitantes em suas oferendas
Nómadas oferecidos ao Nada
(mas eles não vivem no Nada
vivem nos Sonhos)
Lê os velhos poetas
e cuida seus livros
É um dos poucos conselhos
que teu pai te pode dar
(Trad. A.M.)
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29.9.13
Manuel Bandeira (Brisa)
BRISA
Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros,
minhas riquezas, minha vergonha.
Deixarás aqui tua filha, tua avó,
teu marido, teu amante.
Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.
Manuel Bandeira
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28.9.13
Ernesto Pérez Vallejo (Vou mentir)
Vou mentir, odiar, drogar-me,
buscar-me para encontrar-me
e tornar a perder-me,
rir, chorar, amaldiçoar-te,
mas sobretudo esquecer
esquecer
que não esqueço
que não consigo esquecer-te.
Ernesto Pérez Vallejo
(Trad. A.M.)
>> De Laura y otras muertes / Los lunes que te debo (blogue) / Facebook
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27.9.13
Nuno Camarneiro (Somos todos uns sentimentais)
Somos todos uns sentimentais e por isso demoramos no que nos dói.
Temos o choro fácil que dá ou não dá em lágrimas, guardamos as dores cheias de pormenor enquanto as felicidades ficam por ali, confusas, com algumas caras, alguns sons, incertas e vagas.
Lembramos os sapatos que calçávamos quando alguém morreu, a hora da notícia, o programa que passava nesse instante e até as vergonhas que pensámos.
Folheemos as páginas do riso e pouco encontraremos, algumas frases, momentos caricatos, elementos de uma paisagem.
Pouco e mal contado, estávamos distraídos, demasiado ocupados na felicidade para lhe fazermos o retrato.
Somos tolos e sentimentais, temos arcas cheias de mágoas que não esquecemos e que abrimos a todo o momento a ver se ainda nos doem, e doem sempre.
Descuramos o arquivo do bem que apesar de tudo nos vai acontecendo, somos tolos de lágrimas.
- NUNO CAMARNEIRO, Debaixo de algum céu, 2013 (Narrador).
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Piedad Bonnett (Labirinto)
LABERINTO
Condenada a ser sombra de tu sombra,
a soñar con tu nombre en cada madrugada.
Por la ventana abierta un olor errabundo
de vida -¿y tú en que calle?-
un temblor en la luz,
el llanto de algún niño.
Y tus ojos cerrados,
o tus ojos abiertos como dos golondrinas,
y tu mano en el agua o tu mano en tu pelo
o tu mano en el aire con su triste blandura,
-¿y en qué calle tus pasos?-
y yo en sueños atada al hilo de tus sueños,
condenada a ser sombra de tu sombra,
a soñar con tu nombre en cada madrugada.
Piedad Bonnett
Condenada a ser sombra da tua sombra,
a sonhar com teu nome na madrugada.
Pela janela aberta um cheiro de vida
pairando - e tu em que rua –
um tremor na luz,
o pranto de alguma criança.
E teus olhos fechados,
ou teus olhos abertos como andorinhas,
e tua mão na água ou no cabelo
ou então no ar com sua triste brandura
– e em que rua teus passos –
e eu sonhando presa ao fio de teus sonhos,
condenada a ser sombra da tua sombra,
a sonhar com teu nome na madrugada.
(Trad. A.M.)
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26.9.13
Cecília Meireles (Morro do que há no mundo)
Morro do que há no mundo:
do que vi, do que ouvi.
Morro do que vivi.
Morro comigo, apenas:
com lembranças amadas,
porém desesperadas.
Morro cheia de assombro
por não sentir em mim
nem princípio nem fim.
Morro: e a circunferência
fica, em redor, fechada.
Dentro sou tudo e nada.
Cecília Meireles
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25.9.13
Pepe Ramos (Declaração do pagafantas)
DECLARACIÓN DEL PAGAFANTAS (*)
Voy a quererte
por amor al arte de quererte.
Voy a quererte a fondo perdido,
en vano, en balde, en saco roto,
incluso vestida.
Voy a quererte
apestando a Benedetti y a Platón,
al modo de los que son tan buenos
que parecen tontos.
Voy a quererte hasta sin querer
y voy a madrugar también
para hacerlo adrede.
Voy a quererte quieras o no quieras,
a quererte muy a pesar tuyo,
mucho más que tú a ti misma.
Voy a quererte tan bien, tan bien
que si un día, por lo que sea,
me correspondes,
me das un disgusto.
Pepe Ramos
[Pepe Ramos]
Vou amar-te
por amor à arte de amar-te.
Vou amar-te a fundo perdido,
em vão, debalde, a saco roto,
até vestida.
Vou amar-te
a tresandar a Platão e Benedetti
à maneira dos que são tão bons
que até parecem tolos.
Vou querer-te até sem querer
e vou mesmo madrugar
para o fazer adrede.
Vou querer-te queiras ou não,
querer-te apesar de ti,
muito mais que tu a ti mesma.
Vou amar-te tão bem, tão bem,
que, se por acaso um dia
me corresponderes,
vais dar-me um grande desgosto.
(Trad. A.M.)
(*) Wiktionary
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24.9.13
Jaime Sabines (Espero curar-me de ti-2)
Espero curar-me de ti em alguns dias,
tenho de deixar de fumar-te, de beber, de te pensar.
Pode ser,
seguindo as prescrições da moral vigente,
a receita é tempo, abstinência, solidão.
Achas bem que deixe de te querer em uma semana?
Muito não é, nem pouco, é o bastante,
numa semana podem juntar-se todas as palavras de amor
já pronunciadas na terra,
e pegar-lhes fogo.
Hei-de aquecer-te nessa fogueira de amor queimado.
E no silêncio também,
porque as melhores palavras de amor
são as de duas pessoas que não se dizem nada.
É preciso queimar também a outra linguagem
de quem ama, lateral e subversiva.
(Tu sabes como eu digo que te quero, quando digo:
"mas que calor", "dá-me água", "sabes conduzir?", "é noite já".
Ao pé de pessoas, dos teus e dos meus, eu disse-te
"já é tarde", e tu sabias que eu dizia "amo-te").
Uma semana mais para juntar o amor todo do tempo;
e dar-to,
para tu fazeres dele o que quiseres,
guardá-lo, acariciá-lo, jogá-lo no lixo.
Não presta, está certo.
Quero só uma semana para ver se entendo as coisas,
porque isto parece-se muito com estar a sair
do manicómio para entrar no panteão.
Jaime Sabines
(Trad. A.M.)
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23.9.13
Affonso Romano de Sant'Anna (Amar a morte)
AMAR A MORTE
Amar de peito aberto a morte.
Não de esguelha, de frente.
Amar a morte,
digamos,
despudoradamente.
Amá-la como se ama
uma bela mulher
e inteligente. Amá-la
diariamente
sabendo que por mais
que a amemos
ela se deitará
com uns e outros
indiferente.
Affonso Romano de Sant’Anna
>> Affonso Romano (blogue) / Jornal de Poesia (33p) / As Tormentas (12p) / Releituras (12p) / Poesias (14p) / Wikipedia
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22.9.13
Javier Salvago (Essa miúda)
ESA CHICA
Había renunciado, como un muerto,
a la vida, al placer. Me limitaba
a resistir —como un superviviente
el día después— cuando llegaste tú.
No hubo ningún milagro, aunque tampoco
lo esperaba. En el cielo, las estrellas
siguieron alumbrando indiferentes,
ajenas a nosotros.
Aquí abajo
nada cambió. El mundo siguió siendo
el infierno de siempre. Los diarios
siguieron vomitando corrupciones,
atentados, catástrofes... No puedo
ni siquiera decir que mejorase
mi opinión del amor. Por no cambiar,
no cambió ni mi suerte. —Soy el mismo
pertinaz perdedor.—
La diferencia
es sólo que estás tú y que contigo
todo es más soportable. Hasta la vida
vuelve a ser un placer
cuando estamos a gusto.
Javier Salvago
Como um morto, eu tinha renunciado
à vida, ao prazer. Limitava-me
a resistir – como um sobrevivente
no dia seguinte – quando chegaste tu.
Não houve milagre nenhum, nem eu
sequer o esperava. As estrelas, no céu,
continuaram a alumiar indiferentes,
alheias a todos nós.
Aqui em baixo
nada mudou. O mundo continuou a ser
o inferno de sempre. Os jornais
continuaram a vomitar corrupções,
atentados, catástrofes... Nem posso
sequer dizer que melhorasse
a minha opinião do amor. Por não mudar,
nem a minha sorte mudou. – Sou o mesmo
pertinaz perdedor. –
A diferença
está em que existes tu e contigo
é tudo mais suportável. Até a vida
volta a ser um prazer
quando nos sentimos a gosto.
(Trad. A.M.)
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21.9.13
Herberto Helder (A água cai em cordões)
A água cai em cordões verticais e vivos, cantando.
Cria-se uma nova, ou muito velha, espécie de solidão em que o súbito gosto da pureza se mistura ao temor.
A água é uma delicadíssima e exaltante matéria.
Talvez os homens desejassem estender-lhe as mãos voltando-as de todos os lados para ficarem bem molhadas.
Uma água vasta e nua, uma água maternal.
- HERBERTO HELDER, Photomaton & vox (Uma ilha em sketches), 2006.
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Francisco Urondo (Não me posso queixar)
NO PUEDO QUEJARME
Estoy con pocos amigos y los que hay
suelen estar lejos y me ha quedado
un regusto que tengo al alcance de la mano
como un arma de fuego. La usaré para nobles
empresas: derrotar al enemigo –salud
y suerte– hablar humildemente
de estas posibilidades amenazantes.
Espero que el rencor no intercepte
el perdón, el aire
lejano de los afectos que preciso: que el rigor
no se convierta en el vidrio de los muertos; tengo
curiosidad por saber qué cosas dirán de mí; después
de mi muerte; cuáles serán tus versiones del amor, de estas
afinidades tan desencontradas,
porque mis amigos suelen ser como las señales
de mi vida, una suerte trágica, dándome
todo lo que no está. Prematuramente, con un pie
en cada labio de esta grieta que se abre
a los pies de mi gloria: saludo a todos, me tapo
la nariz y me dejo tragar por el abismo.
Francisco Urondo
Tenho poucos amigos e os que tenho
estão longe, daí me ficar um gosto na boca
que tenho à mão de semear
como uma arma de fogo. Usá-la-ei
para nobres tarefas, como derrotar o inimigo
– saúde e sorte – ou falar humildemente
de possibilidades intimidantes.
Espero que o rancor não tolha
o perdão, nem o ar distante
dos afectos que preciso, nem o rigor
se converta no vidro dos mortos.
Bem queria eu saber o que dirão de mim,
depois de eu morrer, o que dirás tu do amor,
destas afinidades tão desencontradas.
Porque meus amigos são como meus
signos de vida, uma sorte trágica, dando-me
tudo aquilo que não há.
Prematuramente, com um pé
em cada lábio desta fenda a abrir-se
aos pés da minha glória: a todos saúdo,
tapo o nariz e deixo que o abismo me trague.
(Trad. A.M.)
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20.9.13
Jorge de Sena (Glosa à chegada do Outono)
GLOSA À CHEGADA DO OUTONO
O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
esse pousar em que não estamos nós,
mas uma sede, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...
Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.
Jorge de Sena
[Luz & sombra]
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19.9.13
Mário de Carvalho (Imperialmente pago)
Um dia, leitor, hei-de contar as ânsias e tormentos com que se vai martelando esta artesania da escrita, em que ainda sobrevive a mão do caldeireiro ou, talvez, do fazedor de autómatos, e explicar como é desolador chegar ao nascer da roxa aurora e ao rumor dos primeiros autocarros apenas com duas ou três páginas sofrivelmente apontadas.
Só este trabalho de minuciosa lavra, em traiçoeira brenha, não contando com o resto, havia de ser, não principescamente, não regiamente, mas imperialmente pago.
- MÁRIO DE CARVALHO,
Fantasia para dois coronéis e uma piscina
(2003).
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Pedro Casariego (Nossas palavras)
Nuestras palabras
nos impiden hablar.
Parecía imposible.
Nuestras propias palabras.
"En cierto sentido todas las vidas son una misma cosa,
ya que cada vida es una cuerda.
Pero unas cuerdas sirven para saltar a la comba
y otras para ahorcarse con ellas".
Y aquí entre dos calmas
lejos del cementerio
abro un libro de silencios
por la página de tu espalda
y encuentro la palabra alegría
y la palabra alegría lleva acento
y yo se lo quito
y te lo pongo en la nuca.
Pedro Casariego
As palavras
impedem-nos a fala.
Parece impossível,
nossas próprias palavras.
“Em certo sentido todas as vidas são a mesma coisa,
pois cada vida é uma corda.
Mas algumas cordas servem para saltar
e outras para enforcar".
E aqui entre duas calmas
longe do cemitério
abro um livro de silêncios
na página das tuas costas
e topo a palavra alegria
e tal palavra tem acento
e eu tiro-lho
e ponho-to em cima da nuca.
(Trad. A.M.)
.
18.9.13
Ana Luísa Amaral (Testamento)
TESTAMENTO
Vou partir de avião
E o medo das alturas misturado comigo
Faz-me tomar calmantes
E ter sonhos confusos
Se eu morrer
Quero que a minha filha não se esqueça de mim
Que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada
E que lhe ofereçam fantasia
Mais que um horário certo
Ou uma cama bem feita
Dêem-lhe amor e ver
Dentro das coisas
Sonhar com sóis azuis e céus brilhantes
Em vez de lhe ensinarem contas de somar
E a descascar batatas
Preparem minha filha para a vida
Se eu morrer de avião
E ficar despegada do meu corpo
E for átomo livre lá no céu
Que se lembre de mim
A minha filha
E mais tarde que diga à sua filha
Que eu voei lá no céu
E fui contentamento deslumbrado
Ao ver na sua casa as contas de somar erradas
E as batatas no saco esquecidas
E íntegras.
Ana Luísa Amaral
>> nEscritas (10p/amor) / Um buraco na sombra (9p+linques) / Arlindo Correia (4p+linques) / Poesias e prosas (7p) / Poems from the portuguese (6p) / Wikipedia
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17.9.13
Paco Moral (Suave chega a noite)
SUAVE VIENE LA NOCHE
Suavemente la noche se te acerca,
como el pulso del mundo
se parece a tus labios.
Suave viene la noche,
como si una cascada de panteras
te subiera despacio
por la vida.
No hay dolor.
No queda ya dolor
ni sensaciones turbias
ni edificios en ruina.
La noche viene dulce
como una vieja amante que volviera,
y ya no sientes nada,
ni siquiera la angustia
de mirarte al espejo
y hacer muecas horribles para ponerte fea
como cuando eras niña
de los cuentos.
Viene la noche tibia
y en tu piel hay heridas de noviembre,
reflejos de jarrones de Pompeya,
vestales de otro tiempo,
anillos de amatista
o lapislázuli
y un ardor de Vesubio en tus pezones
devorados a fuerza de derrotas.
Suave viene la noche
para ti,
mujer de piedra,
reina de mi sueño,
ahora que empieza a despuntar el día.
Paco Moral
Suavemente aproxima-se a noite,
como o pulsar do mundo
se cola a teus lábios.
Suave chega a noite,
cascata de panteras
que devagar
te subisse pela vida.
Não há dor,
não resta já dor,
nem turvas sensações,
nem casas em ruína.
A noite chega doce
como velha amante que voltasse,
e tu já não sentes nada,
nem sequer a angústia
de te veres ao espelho
e fazeres caretas para parecer feia,
como em menina
no tempo das histórias.
Chega a noite tépida
e na tua pele há feridas de Novembro,
reflexos de jarrões de Pompeia,
vestais de outro tempo,
anéis de ametista
ou lápis lazúli
e um ardor de Vesúvio nos teus mamilos
devorados à força de derrotas.
Suave a noite chega
para ti,
mulher de pedra,
rainha do meu sono,
agora que começa a despontar o dia.
(Trad. A.M.)
>> Libro de las cartas / Facebook / Tu conmigo (2p) / Singularia Tantum (nota e p)
.
16.9.13
Pedro Andreu (Perder-me-ei devagar)
Me perderé despacio
en tus rincones, en el preciso
hoyuelo de tu risa,
en las comisuras de tus ojos
—perdón, quise decir tu boca.
A veces me confundo:
es tan compleja y rica
toda tu anatomía.
Olvidarme del tedio,
del mundo ardido
que dicen que rompimos,
pero que destrozaron otros.
Dejar plantado mi trabajo,
escupir a mi jefe lo que pienso
de los Servicios Sociales,
desconducir mi coche
cincuenta y dos kilómetros
hasta la calle donde te tiene esclava
una oficina, gritarle basta
a los teléfonos, romper la cremallera
de los meses iguales,
setenta y tres centímetros
de espalda y de deseo: saberte viva
al fin, libre como internet,
como los yayoflautas
o las plantas que crecen
salvajes en las tejas.
Fundar mi patria, la tuya,
nuestra tierra
en dos metros de cama.
Acariciar palabras boca a boca.
Hasta que nada duela tanto.
Hasta que tanto duela nada.
Hasta que el mundo finja
que nos quiere y se digne
—por fin— a ser feliz.
Pedro Andreu
[Las afinidades electivas]
Perder-me-ei devagar
em teus recantos, nas
covinhas do sorriso,
nas comissuras dos olhos
– perdão, da tua boca.
Confundo-me às vezes,
tão rica e complexa
que é a tua anatomia.
Esquecer-me do tédio,
do mundo ardido
que dizem que rasgámos,
mas que outros destroçaram.
Abandonar o trabalho,
cuspir sobre o chefe o que penso
dos Serviços Sociais,
desconduzir o meu carro
cinquenta e dois quilómetros
até à rua onde um escritório
te escraviza, berrar basta
aos telefones, partir a cremalheira
dos meses iguais,
setenta e três centímetros
de costas e de desejo, saber-te
viva por fim, livre como a internet,
como os yayoflautas
ou as plantas que crescem
bravias no telhado.
Fundar minha pátria, a tua,
terra nossa
em dois metros de cama.
Afagar palavras boca a boca.
Até que nada doa tanto.
Até que tanto doa nada.
Até que o mundo finja
que nos ama e se digne
– por fim – a ser feliz.
(Trad. A.M.)
,
15.9.13
Raymond Carver (Naturalmente)
NATURALLY
A break in the clouds.
The solid profile of the Blue Mountains
that cut the horizon.
The muted yellow of the stubble.
The river very black.
What am I doing in this place,
alone and full of guilt?
I wonder.
I eat the berries from the source.
Without problems. If I was dead,
I told to myself, I could not taste them.
Nothing is so simple.
Yes, everything is that simple. Naturally.
Raymond Carver
[Musa 71]
Uma aberta nas nuvens,
o perfil maciço das Blue Mountains
recortando o horizonte,
o desmaiado amarelo do restolho,
o rio muito negro.
O que faço eu aqui,
sozinho e carregado de culpa?
Interrogo-me.
Como as bagas da fonte,
sem problema. Se estivesse morto,
digo para os meus botões, não poderia saboreá-las.
Nada é tão simples assim.
Aliás, é tudo muito simples. Naturalmente.
(Trad. A.M.)
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