31.5.13
Óscar Hahn (Alfaiate)
SASTRERÍA
Me he probado la muerte como un traje
que por ahora me queda grande
Y tengo mucho miedo
de que mi cuerpo empiece a crecer
hasta alcanzar el tamaño de mi muerte
y que de pronto la ropa me quede bien:
los zapatos holgados
la camisa impecable
el traje a la medida
Óscar Hahn
Provei a morte como um fato
que para já me fica grande
E tenho muito medo
que o corpo me comece a crescer
até atingir o tamanho da minha morte
e de repente a roupa me ficar bem:
os sapatos folgados
a camisa impecável
o fato à medida
(Trad. A.M.)
.
30.5.13
Camilo Castelo Branco (Conhecia-lhe o leito)
O oratoriano Manuel Bernardes, como é notório, escreveu um livro edificante, muito piedoso, chamado Armas da Castidade.
O místico filho de S. Filipe Néri, com duas palavras sãs, de um realismo seráfico, cabalmente explicou a situação de outro José Dias a respeito de outra Marta, conhecia-lhe o leito, dizia ele.
É o mais que se pode dizer sem escandalizar ninguém.
Conhecia-lhe o leito.
- CAMILO CASTELO BRANCO, A Brasileira de Prazins, XIII.
.
Dulce Chacón (Construção do sonho)
LA CONSTRUCCIÓN DE UN SUEÑO
Siempre hay tiempo para un sueño.
Siempre es tiempo de dejarse llevar por una pasión
que nos arrastre hacia el deseo.
Siempre es posible encontrar
la fuerza necesaria para alzar el vuelo
y dirigirse hacia lo alto.
Y es allí, y solo allí, en la altura,
donde podemos desplegar nuestras alas
en toda su extensión.
Solo allí, en lo más alto de nosotros mismos,
en lo más profundo de nuestras inquietudes,
podremos separar los brazos, y volar.
Dulce Chacón
Há sempre tempo para um sonho.
É sempre tempo de deixar-se levar pela paixão
e arrastar para o desejo.
É possível sempre encontrar
a força para levantar voo
e dirigir-se para o alto.
E ali, nas alturas, só ali,
podemos soltar as asas
em toda a sua extensão.
Só ali, no mais alto de nós mesmos,
no mais fundo de nossa inquietude,
podemos abrir bem os braços, e voar.
(Trad. A.M.)
.
29.5.13
Fernando Pessoa / A. Campos (Tenho uma grande constipação)
Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.
Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.
Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina.
Álvaro de Campos
.
28.5.13
Mirta Rosenberg (Consequência)
LA CONSECUENCIA
Esto es un árbol. La raíz dice raíz,
rama cada rama, y en la copa
está la sala de recibo
de un mirlo que habla.
La mesa donde escribo
-una fiesta de solteras-
está hecha de madera de ese árbol
convertida por el uso y por el tiempo
en la palabra mesa.
Es porque da frutos que caen
y por el gremio perenne de sus hojas
que se renueva el árbol
y que existe la palabra árbol:
aunque a veces el bosque
lo oculte a la vista, lo contiene
el árbol en la palabra árbol.
Y no es que éste sea un poema abstracto.
Es que las palabras se repiten entre sí
por el sentido: son solteras y sociables
y de sus raíces crece un árbol.
Mirta Rosenberg
Isto é uma árvore. A raiz diz raiz,
ramo cada ramo, e na copa
está a sala de recepção
de um melro que fala.
A mesa onde escrevo
– uma festa de solteiras –
é feita de madeira dessa árvore
convertida na palavra mesa
pelo uso e pelo tempo.
Por dar frutos que caem
e pelo grémio perene das folhas
é que a árvore se renova
e existe a palavra árvore:
embora o bosque às vezes
a esconda da vista, a árvore
está contida na palavra árvore.
E este nem é sequer um poema abstracto.
É que as palavras repetem-se pelo
seu sentido: são solteiras e sociáveis
e das suas raízes cresce uma árvore.
(Trad. A.M.)
>> Poetry Int. (5p) / Lyricline (9p)
.
27.5.13
Cristian Aliaga (Controlo remoto)
CONTROL REMOTO
No hay poemas posibles.
Hay que salir del poema
a respirar.
¿Acaso alguien
espera por ventura un poema?
Nadie que piense
nadie que entienda
como se entiende en cada siglo que muere
aguardará un poema nunca.
El que escribe sueña solamente;
su mente solitaria descabeza
palabras oscuras
mientras la TV repite
bellas series de la infancia
y películas coloreadas del ’40.
El que escribe sueña
y mira en la pantalla una guerra lejana.
¿Acaso alguien espera
por ventura
otra cosa
que el sillón oscuro
y el control remoto?
Cristian Aliaga
Não há poemas possíveis,
temos que sair do poema
a respirar.
Alguém acaso
espera porventura um poema?
Ninguém que pense
ninguém que entenda
como se entende em cada século
aguardará jamais um poema.
Quem escreve sonha somente,
a mente solitária descabeça
palavras obscuras,
enquanto a TV repete
belas séries infantis
e filmes a cores dos anos 40.
Quem escreve sonha
e olha no ecrã uma guerra distante.
Acaso alguém espera
porventura
outra coisa,
senão o sofá
e o controlo remoto?
(Trad. A.M.)
.
26.5.13
Eugénio de Andrade (A primeira neve)
A PRIMEIRA NEVE
E depois, tão antiga a neve.
Só o lume a podia trazer
da fundura dos dias
a esta casa. Brancura estendida
em páginas lidas
a outra luz, dentro do sono.
Quase sem peso, sem nenhum
ruído - vinda de outros céus,
outros caminhos.
A primeira neve. E tão antiga.
Eugénio de Andrade
[Silva]
.
25.5.13
Miguel d'Ors (Outro poema de amor)
OTRO POEMA DE AMOR
Qué dicha no ser Basho, en cuya voz
florecían tan leves los ciruelos,
ni ser Beethoven con su borrasca en la frente
ni Tomás Moro en el taller de Holbein.
Qué dicha no tener
un bungalow en Denver (Colorado)
ni estar mirando desde el Fitz Roy el silencio
mineral de la tarde patagónica
ni oler la bajamar de Saint-Malo
y estar aquí contigo, respirándote, viendo
la lámpara del techo reflejada en tus ojos.
Miguel d’Ors
Que sorte não ser Basho, em cuja voz
floriam tão leves as ameixieiras,
nem ser Beethoven com sua tormenta na testa
nem Thomas More na oficina de Holbein.
Que sorte não ter
um bungalow em Denver (Colorado)
nem estar no Fitz Roy contemplando o silêncio
mineral da tarde patagónica
nem cheirar a baixa-mar de Saint-Malo
e estar contigo aqui, respirando-te, a ver
a luz do tecto reflectida nos teus olhos.
(Trad. A.M.)
.
24.5.13
Camilo Castelo Branco (A origem da Patuleia)
O Zeferino das Lamelas, às primeiras comoções do vulcão popular, nos arredores de Guimarães, preparou- se; e assim que ouviu repicar a rebate em Ronfe, cheio de ciúmes como o sineiro de Notre Dame, agarrou-se à corda do sino, reuniu no adro os jornaleiros e vadios de três freguesias, e pegou a dar morras aos Cabrais com aplauso universal.
Depois, explicou o que era o cadastro, confundindo este expediente estatístico com "canastro": – que os Cabrais e os seus empregados andavam a tomar as terras a rol para empenharem Portugal à Inglaterra; que esses róis estavam nos cartórios das administrações e em casa dos regedores; que era preciso queimar as "papeletas" e matar os cabralistas.
- CAMILO CASTELO BRANCO, A Brasileira de Prazins, XIV.
.
Mario Benedetti (Testamento da quarta)
TESTAMENTO DE MIÉRCOLES
Aclaro que éste no es un testamento
de esos que se usan como colofón de vida
es un testamento mucho más sencillo
tan solo para el fin de la jornada
o sea que lego para mañana jueves
las preocupaciones que me legara el martes
levemente alteradas por dos digestiones
las usuales noticias del cono sur
y la nube de mosquitos casi vampiros
lego mis catorce estornudos del mediodía
una carta a mi mujer en la que falta la posdata
el final de una novela que a duras penas leo
las siete sonrisas de cinco muchachas
ya que hubo una que me brindó tres
y el ceño fruncido de un señor
que no conozco ni aspiro a conocer
lego un colorido ajedrez moscovita
una computadora japonesa sin pilas
y la buena radio en que está sonando
el español grisáceo de la bibicí
ah la olivetti y el cepillo de dientes
no los lego porsiacaso
lego tropos y metáforas de uso privado
que modestamente acuñe en la tarde
por ejemplo el astillero en que reparo mis sueños
el pájaro aleatorio que surge del crepúsculo
la cortina de lluvia que miro y no descorro
lego un remordimiento porque es aleccionante
y un poco de tristeza porque es inevitable
también mi soledad con la ilusión
de que el jueves resuelva no admitirla
y me sancione con presencias varias
lego los crujidos de mis viejas bisagras
también una tajada de mi sombra
no toda porque un hombre sin su sombra
no merece el respeto de la gente
lego el pescuezo recién lavado
como para un jueves de guillotina
una maceta con hierbabuena
y otra con un boniato que me hastía
ya que esta cargante convolvulácea
me está invadiendo el cuarto con sus hojas
lego los suburbios de una idea
un tríptico de espejos que me agrade
el mar allá al alcance de la mano
mis cóleras por orden alfabético
y un breve y curioso estado de ánimo
que todavía no se si es inocencia
o estupidez malsana
o alegría
sólo ahora lo advierto
en paredes y anaqueles y venas
en glándulas y techos y optimismos
me quedan tantas cosas por legar
que mejor las incluyo
en otro testamento
digamos el del viernes
Mario Benedetti
Aclaro que este não é um desses testamentos
que se usam como cólofon de vida
é um testamento muito mais simples
tão só para o fim da jornada
ou seja, lego para amanhã quinta
as preocupações que me deixou terça
ligeiramente alteradas por duas digestões
as notícias usuais do cone sul
e uma nuvem de mosquitos quase como vampiros
lego os catorze espirros do meio-dia
uma carta da minha mulher em que falta a pós-data
o fim de um livro que estou lendo a duras penas
os sete sorrisos de cinco cachopas
pois uma brindou-me com três
e o cenho franzido de um senhor
que não conheço nem desejo conhecer
lego um xadrez moscovita colorido
um computador japonês sem pilhas
e o rádio que está a dar
o espanhol cinzento da bibici
ah a olivetti e a escova de dentes
não lego por causa de coisas
lego tropos e metáforas de uso pessoal
que modestamente cunhei esta tarde
por exemplo o estaleiro em que reparo os meus sonhos
o pássaro aleatório do crepúsculo
e a cortina de chuva que tenho diante dos olhos
deixo um remorso porque é instrutivo
e um pouco de tristeza por ser inevitável
minha solidão também na esperança
de que a quinta resolva exclui-la
sancionando-me com presenças várias
lego o rangido das minhas velhas dobradiças
mais uma talhada da minha sombra
toda não porque um homem sem sombra
não merece o respeito do próximo
lego o pescoço recém-lavado
como que para uma quinta de guilhotina
um vaso de hortelã
e outro com certa planta que me incomoda
pois invade-me o quarto com as folhas
deixo os subúrbios de uma ideia
um tríptico de espelhos do meu gosto
o mar além ao alcance da mão
minhas raivas na ordem alfabética
e um breve e curioso estado de alma
que não sei ainda se é inocência
ou estupidez malsã
ou alegria
dou conta só agora
nas paredes e estantes e veias
nas glândulas e tectos e optimismos
fica ainda muita coisa por testar
pelo que será melhor metê-las
em outro testamento
digamos o de sexta-feira.
(Trad. A.M.)
.
23.5.13
Dana Gioia (A mulher do campo)
THE COUNTRY WIFE
She makes her way through the dark trees
Down to the lake to be alone.
Following their voices on the breeze,
She makes her way. Through the dark trees
The distant stars are all she sees.
They cannot light the way she's gone.
She makes her way through the dark trees
Down to the lake to be alone.
The night reflected on the lake,
The fire of stars changed into water.
She cannot see the winds that break
The night reflected on the lake
But knows they motion for her sake.
These are the choices they have brought her:
The night reflected on the lake,
The fire of stars changed into water.
DANA GIOIA
Daily Horoscope
(1986)
Aí vai ela por entre as árvores
a caminho do lago para ficar só,
aí vai ela a seguir-lhes as vozes
no vento. Por entre as árvores
o que ela vê são só estrelas,
mas não lhe alumiam o caminho.
Aí vai ela por entre as árvores
a caminho do lago para ficar só.
A noite reflecte-se no lago,
fazendo água o fogo das estrelas.
Não vê os ventos que partem
a noite espelhada no lago,
mas sabe que sopram por ela.
E é isto o que lhe oferecem,
a noite espelhada no lago,
o fogo das estrelas feito água.
(Trad. A.M.)
.
22.5.13
María Sanz (Moço fugaz)
MUCHACHO FUGAZ
Recuerdo que era invierno,
que los almeces iban cobijando
mi vuelta a casa, y que me seguía
un muchacho. Jamás supe quién era.
Así durante un rato. Los Jardines
entonaban la noche con el último
gorjeo de algún pájaro. Sentía
que unos ojos quemaban mi silueta
como el frío, que iban dibujándome
paso a paso. Volví la vista. Sólo
la oscuridad de los almeces, nadie
tras de mí... Pudo ser el mismo invierno,
su nombre masculino,
lo que me traspasara.
Un muchacho fugaz sigue alejándose,
cada vez que lo encuentro,
de mi noche.
MARÍA SANZ
Jardines de Murillo
(1989)
Recordo que era inverno,
e as árvores iam cobiçando
meu regresso a casa e um moço
me seguia. Nunca soube quem era.
Assim durante um bocado. Os Jardins
cantavam a noite com o último
gorjeio de um pássaro. Sentia
que uns olhos me queimavam o perfil
como o frio, que me iam desenhando
passo a passo. Voltei a vista. Só
a escuridão das árvores, ninguém mais
atrás de mim... Podia ser o próprio Inverno,
seu nome masculino,
a trespassar-me.
Um moço fugaz continua a afastar-se,
cada vez que o encontro,
da minha noite.
(Trad. A.M.)
.
21.5.13
Camilo Castelo Branco (Os padres do Minho)
Os padres do Minho, naquele tempo, não puxavam quase nada pelas memórias; ordenavam-se tão alheios às faculdades da alma que, sem memória nem entendimento, e às vezes sem vontade, eram sofríveis sacerdotes, davam poucas silabadas no Missal e liam os salmos do Breviário com uma grande incerteza do que queria dizer o penitente David.
- CAMILO CASTELO BRANCO, A Brasileira de Prazins, I.
.
Marcos Tramón (Fugacidades)
FUGACIDADES
Noite de estrelas;
em tua mão, minha mão.
O infinito.
*
Houve um tumulto
de vida em meu redor.
Há só silêncio.
*
Passam os anos,
meu coração desnudo
guarda grinaldas.
*
É só tristeza,
estranheza de ser,
melancolia.
*
Fecho os olhos,
a luz do mundo em sombra
reaparece.
*
Chega o outono;
cai uma folha, leve,
sobre teu rosto.
*
À média luz,
tu, caprichosa e livre,
como uma lembrança.
*
Somos matéria
corrupta, nada mais,
feitos de tempo.
*
São duas amigas,
a brincar nas rosas
daquele jardim.
*
Feliz, a lua;
estamos sós eu e tu
no segredo.
*
Teus caracóis, ontem,
o Gianicolo; eterno
amor a Roma.
*
Um poema é isto:
exercício carregado
de solidão.
MARCOS TRAMÓN
Desgana
Gijón (2010)
(Trad. A.M.)
.
20.5.13
Carlos Drummond de Andrade (Poesia)
POESIA
Gastei uma hora pensando em um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.
Carlos Drummond de Andrade
.
19.5.13
Olga Orozco (No fim era o verbo)
EN EL FINAL ERA EL VERBO
Como si fueran sombras de sombras que se alejan las palabras,
humaredas errantes exhaladas por la boca del viento,
así se me dispersan, se me pierden de vista contra las puertas del silencio.
Son menos que las últimas borras de un color, que un suspiro en la hierba;
fantasmas que ni siquiera se asemejan al reflejo que fueron.
Entonces ¿no habrá nada que se mantenga en su lugar,
nada que se confunda con su nombre desde la piel hasta los huesos?
Y yo que me cobijaba en las palabras como en los pliegues de la revelación
o que fundaba mundos de visiones sin fondo
para sustituir los jardines del edén sobre las piedras del vocablo.
¿Y no he intentado acaso pronunciar hacia atrás todos los alfabetos de la muerte?
¿No era ese tu triunfo en las tinieblas, poesía?
Cada palabra a imagen de otra luz, a semejanza de otro abismo,
cada una con su cortejo de constelaciones, con su nido de víboras,
pero dispuesta a tejer y a destejer desde su propio costado el universo
y a prescindir de mí hasta el último nudo.
Extensiones sin límites plegadas bajo el signo de un ala,
urdimbres como andrajos para dejar pasar el soplo alucinante de los dioses,
reversos donde el misterio se desnuda,
donde arroja uno a uno los sucesivos velos, los sucesivos nombres,
sin alcanzar jamás el corazón cerrado de la rosa.
Yo velaba incrustada en el ardiente hielo, en la hoguera escarchada,
traduciendo relámpagos, desenhebrando dinastías de voces,
bajo un código tan indescifrable como el de las estrellas o el de las hormigas.
Miraba las palabras al trasluz.
Veía desfilar sus oscuras progenies hasta el final del verbo.
Quería descubrir a Dios por transparencia.
Olga Orozco
Como se fossem sombras de sombras afastam-se as palavras,
fumaradas errantes saídas da boca do vento,
assim se me dispersam e se me perdem de vista
contra as portas do silêncio.
São menos que os restos de uma cor, que um suspiro na erva;
fantasmas que nem sequer se assemelham ao reflexo que foram.
Então, nada se manterá no seu lugar,
nada se confundirá com seu nome desde a pele até aos ossos?
E eu que cobiçava nas palavras como nas dobras da revelação
o que sustinha mundos de ilimitadas visões
para substituir os jardins do éden nas pedras do vocábulo.
E acaso não tentei pronunciar para trás
todos os alfabetos da morte?
Não era esse o teu triunfo nas trevas, poesia?
Cada palavra à imagem de outra luz, à semelhança de outro abismo,
cada uma com seu cortejo de constelações, com seu ninho de víboras,
mas disposta a tecer e a destecer o universo de si mesma,
prescindindo de mim até ao nó derradeiro.
Extensões sem limite dobradas sob o signo de uma asa,
telas como andrajos para coar o sopro alucinante dos deuses,
reversos onde se desnuda o mistério,
onde arroja um por um os véus e os nomes,
sem nunca atingir o coração fechado da rosa.
Eu velava mergulhada no gelo ardente, na fogueira do orvalho,
traduzindo relâmpagos, desfibrando dinastias de vozes,
com um código tão cifrado como o das estrelas ou das formigas.
Observava as palavras a contra-luz.
Via-lhes desfilar a descendência até ao fim do verbo.
Queria descobrir Deus à transparência.
(Trad. A.M.)
>> A media voz (37p) / Poesi.as (50p)
.
18.5.13
Luis Alberto de Cuenca (Mal de ausência)
MAL DE AUSENCIA
Desde que tú te fuiste, no sabes qué despacio
pasa el tiempo en Madrid. He visto una película
que ha terminado apenas hace un siglo. No sabes
qué lento corre el mundo sin ti, novia lejana.
Mis amigos me dicen que vuelva a ser el mismo,
que pudre el corazón tanta melancolía,
que tu ausencia no vale tanta ansiedad inútil,
que parezco un ejemplo de subliteratura.
Pero tú te has llevado mi paz en tu maleta,
los hilos del teléfono, la calle en la que vivo.
Tú has mandado a mi casa tropas ecologistas
a saquear mi alma contaminada y triste.
Y, para colmo, sigo soñando con gigantes
y contigo, desnuda, besándoles las manos.
Con dioses a caballo que destruyen Europa
y cautiva te guardan hasta que yo esté muerto.
Luis Alberto de Cuenca
Desde que te foste, não sabes quão devagar
passa o tempo em Madrid. Fui ver um filme
que acaba de terminar, há coisa de um século. Não sabes
que lento corre o mundo sem ti, noiva distante.
Amigos dizem-me para voltar a ser o mesmo,
que tanta melancolia apodrece o coração
e a tua ausência não vale tanta ansiedade inútil,
que eu pareço até um exemplo de sub-literatura.
Mas tu levaste a minha paz na tua mala,
os fios do telefone, a rua onde moro.
Mandaste-me a casa a brigada ecologista
saquear-me a alma contaminada e triste.
Para cúmulo, continuo a sonhar com gigantes
e contigo, despida, a beijar-lhes as mãos.
Com deuses a cavalo que destroem Europa
e cativa te guardam até eu morrer.
(Trad. A.M.)
> Outra versão: Canal de poesia (M.Rodrigues)
.
17.5.13
António José Forte (Ainda não)
AINDA NÃO
Ainda não
não há dinheiro para partir de vez
não há espaço de mais para ficar
ainda não se pode abrir uma veia
e morrer antes de alguém chegar
ainda não há uma flor na boca
para os poetas que estão aqui de passagem
e outra escarlate na alma
para os postos à margem
ainda não há nada no pulmão direito
ainda não se respira como devia ser
ainda não é por isso que choramos às vezes
e que outras somos heróis a valer
ainda não é a pátria que é uma maçada
nem estar deste lado que custa a cabeça
ainda não há uma escada e outra escada depois
para descer à frente de quem quer que desça
ainda não há camas só para pesadelos
ainda não se ama só no chão
ainda não há uma granada
ainda não há um coração
António José Forte
.
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