31.12.12
ÍNDICE DE AUTORES (2005-12)
ABASS, Umar
ACQUARONI, Rosana
AGUIAR, Cristóvão
AGUIAR, Jorge
AGUSTINI, Delmira
ALBERT, Irene
ALBERTI, Rafael
ALEGRE, Manuel
ALEGRIA, Claribel
ALEIXANDRE, Vicente
ALEXANDRE, António Franco
ALIEBURI, Ibne Ayyas
ALISBUNI, Ibne Mucana
ALMEIDA, Fialho
ALMEIDA, José António
ALMUTÂMIDE, Mohâmede
ALMUZARA, Javier
ALONSO, Dámaso
ALVIM, Francisco
AMAR, Ibne
ANDRADE, Carlos Drummond
ANDRADE, Eugénio
ANDRADE, Mário
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner
ANSELME, Jean l‘
ASSIS, Machado
ATWOOD, Margaret
BANDEIRA, Manuel
BAPTISTA, Amadeu
BAPTISTA, José Agostinho
BARAHONA, António
BARRAL, Juanjo
BARRON, Néstor
BARROS, José Carlos
BARROS, Manoel
BARRUECO, José Ángel
BAUDELAIRE, Charles
BAUTISTA, Amalia
BEAUVOIR, Simone
BEJARANO, Julián
BELLI, Gioconda
BELO, Ruy
BENEDETTI, Mario
BENÍTEZ REYES, Felipe
BERGAMÍN, José
BERTO, Al
BIGURI, Íker
BLANDIANA, Ana
BOCCANERA, Jorge
BOLAÑO, Roberto
BONIFAZ NUÑO, Rubén
BONILLA, Gsús
BONILLA, Juan
BONNETT, Piedad
BORGES, Jorge Luís
BOTAS, Victor
BOTELHO, Renata Correia
BOTTO, António
BRANCO, Camilo Castelo
BRANCO, Rosa Alice
BRANDÃO, Fiama Hasse Pais
BRANDÃO, Raul
BRASIL, Geraldino
BRECHT, Bertolt
BRINES, Francisco
BRITO, Casimiro
BROSSA, Joan
BUKOWSKI, Charles
CABRAL, A.M.Pires
CABRAL, Rui Pires
CADILHE, Gonçalo
CALDERÓN, Teresa
CAMÕES, Luís
CARNEIRO, Mário Sá
CARRIEGO, Evaristo
CARSON, Anne
CARVALHEIRA, Jorge
CARVALHO, Armando Silva
CARVALHO, José Rentes
CARVALHO, Raul
CARVER, Raymond
CASARES, Pablo
CASTELLANOS, Rosario
CASTILLA, Manuel J.
CASTRO, Rosalía
CELAYA, Gabriel
CENTENO, Yvette
CERNUDA, Luís
CESARINY, Mário
CÉSPEDES, Alejandro
CHAR, René
CICERO, Antonio
CINATTI, Ruy
CONTARDI, Marilyn
CORREDOR-MATHEOS, José
CORREIA, João Araújo
CORREIA, Natália
CORTÁZAR, Julio
CRAWFORD, Robert
CRESPO, Ángel
CRUZ, Sor Juana Inês
CUENCA, Luis Alberto
DALTON, Roque
DAS, Javier
DEUS, João
DIAS, Inês
DIAS, Saul
DÍAZ-GRANADOS, Federico
DIEGO, Eliseo
DIONÍSIO, Mário
DOCE, Jordi
DURRELL, Lawrence
EDSON, Russel
EIRAS, Pedro
ELOY BLANCO, Andrés
ELUARD, Paul
ERRASTI, Eduardo
ESPANCA, Florbela
ESPINA, Jorge
FAFE, José Fernandes
FELIPE, León
FERNÁNDEZ MORENO, Baldomero
FERREIRA, David Mourão
FERREIRA, José Gomes
FERREIRO, Celso Emilio
FERRUZ, Raul
FIGUEIREDO, Tomaz
FONOLLOSA, José María
FONSECA, Manuel
FONTE, Ramiro
FORTE, António José
FREITAS, Manuel
GALARZA, Javier
GALEANO, Eduardo
GALLEGO, Vicente
GAMONEDA, Antonio
GARCÍA CALVO, Agustín
GARCÍA CASADO, Pablo
GARCÍA LORCA, Federico
GARCÍA MARTÍN, José Luis
GARRETT, Almeida
GIANNUZI, Joaquín
GELMAN, Juan
GIDE, André
GIL DE BIEDMA, Jaime
GIOIA, Dana
GIRONDO, Oliverio
GONZÁLEZ, Angel
GONZÁLEZ, David
GONZÁLEZ, Ulalume
GONZÁLEZ ANSORENA, Luis
GONZÁLEZ IGLESIAS, Juan Antonio
GONZÁLEZ MORENO, Pedro A.
GOROSTIZA, José
GOYTISOLO, José Agustín
GRANDE, Félix
GREGÓRIO, António
GUEDEA, Rogelio
GULLAR, Ferreira
GUTIÉRREZ VEGA, Hugo
HAHN, Óscar
HATHERLY, Ana
HELDER, Herberto
HERCULANO, Alexandre
HERNÁNDEZ, Francisco
HERNÁNDEZ, Miguel
HERNÁNDEZ, Paz
HIDALGO, José Luis
HILST, Hilda
HORTA, Maria Teresa
HUIDOBRO, Vicente
INÁCIO, Ana Paula
IRIBARREN, Karmelo C.
JEANSON, Henri
JONAS, Daniel
JORGE, João Miguel Fernandes
JORGE, Luiza Neto
JUARISTI, Jon
JUARROZ, Roberto
JÚDICE, Nuno
JUNQUEIRO, Guerra
KAVAFIS, Konstandinos
KNOPFLI, Rui
LACERDA, Alberto
LAINE, Jarkko
LEIRIA, Mário-Henrique
LEMINSKI, Paulo
LEVI, Jan Heller
LIMA, Ângelo
LISPECTOR, Clarice
LIZALDE, Eduardo
LLANOS, Eduardo
LOBO, Francisco Rodrigues
LOPES, Adília
LOPES, Fernão
LÓPEZ CORTÉS, Pura
LÓPEZ PACHECO, Jesus
LUHRMANN, Baz
MACEDO, Helder
MACHADO, Antonio
MÃE, Valter Hugo
MAILLARD, Chantal
MARGARIT, Joan
MARTINS, Albano
MARTINS, Miguel
MARZAL, Carlos
MATTOS, António Almeida
MEDINA, Dante
MEIRELES, Cecília
MENDES, Murilo
MENDONÇA, José Tolentino
MERINI, Alda
MERINO, Ana
MESTRE, Juan Carlos
MEXIA, Pedro
MEZQUITA, Nuria
MIGUÉIS, José Rodrigues
MIRANDA, Francisco Sá
MITRE, Eduardo
MONETTE, Hélène
MONTEIRO, Adolfo Casais
MONTEJO, Eugenio
MONTOJO MICÓ, Ana
MORAES, Vinicius
MORIN, E.
MOURA, Gabriela
MUÑOZ LAGOS, Marino
MUÑOZ ROJAS, José Antonio
MUTIS, Álvaro
NAMORA, Fernando
NAMORADO, Joaquim
NAVA, Luís Miguel
NEGREIROS, Almada
NEJAR, Carlos
NEMÉSIO, Vitorino
NERUDA, Pablo
NESSI, Alberto
NETO, João Cabral de Melo
NEUMAN, Andrés
NIETZSCHE, Friedrich
NOVELLI, Aldo Luis
NÚÑEZ, Aníbal
OCAMPO, Silvina
OLIVEIRA, Carlos
OLIVEIRA, Carlos Mota
OLIVEIRA, José Alberto
OLIVEIRA, Mário Rui
O’NEILL, Alexandre
ORIHUELA, Antonio
ORS, Miguel d’
ORTIZ, Fernando
ORY, Carlos Edmundo
OSÓRIO, António
OTERO, Blas
PACHECO, Fernando Assis
PACHECO, José Emilio
PALAU, Josep
PANERO, Juan Luis
PANERO, Leopoldo María
PARISO, Valeria
PARRA, Josefa
PARRA, Nicanor
PARRADO, Luís Filipe
PARREÑO, José María
PAVESE, Cesare
PAZ, Octavio
PEDREIRA, Maria do Rosário
PEDRONI, José
PEIXOTO, José Luís
PÉREZ CABAÑA, Rosario
PÉREZ CAÑAMARES, Ana
PÉREZ MONTALBÁN, Isabel
PERI ROSSI, Cristina
PESSANHA, Camilo
PESSOA, Fernando
PESSOA, Fernando (A.Caeiro)
PESSOA, Fernando (A.Campos)
PESSOA, Fernando (R.Reis)
PETISME, Ángel
PIMENTA, Alberto
PINA, Manuel António
PIQUERO, José Luis
PIRES, Graça
PITTA, Eduardo
PIZARNIK, Alejandra
PLATH, Sylvia
PRADO, Adélia
PRÉVERT, Jacques
QUART, Pere
QUINTANA, Mário
RAMOS, Pepe
RAMOS SIGNES, Rogelio
RANGEL, Violeta C.
RASCÓN, Patricio
RÉGIO, José
REIS, António
REYES, Miriam
RIBEIRO, Aquilino
RIBEIRO, Bernardim
RIECHMANN, Jorge
RITSOS, Yannis
RODRÍGUEZ, Claudio
RODRÍGUEZ, Josep M.
RODRÍGUEZ, Lucas
ROJAS, Gonzalo
ROJAS HERAZO, Héctor
ROMERO, Kutxi
ROSA, António Ramos
ROSSETTI, Ana
RUSHIN, Kate
SABINES, Jaime
SAFO
SALINAS, Pedro
SALVAGO, Javier
SAMPAIO, Jaime Salazar
SÁNCHEZ CARRÓN, Irene
SÁNCHEZ ROSILLO, Eloy
SANTOS, José Carlos Ary
SANZ, María
SARA, Ibne
SENA, Jorge
SERPA, Alberto
SEXTON, Anne
SEVILLA, Pedro
SICILIA, Javier
SILVA, José Mário
SILVA, José Miguel
SIMONOV, Konstantin
STABILE, Uberto
STRAND, Mark
TAGORE, Rabindranath
TAVARES, Gonçalo M.
TEILLIER, Jorge
THEOBALDY, Jürgen
TORGA, Miguel
TRAMÓN, Marcos
UÁZIR, Abdalá Ibne
UGIDOS, Silvia
VALDÉS, Zoé
VALENTE, José Ángel
VALÉRY, Paul
VALLEJO, César
VALLVEY, Ángela
VALVERDE, Álvaro
VARELA, Blanca
VAZ, Eva
VEGA, Alberrto
VERDE, Cesário
VICENTE, Gil
VILA-MATAS, Enrique
VILARIÑO, Idea
VILLENA, Luis Antonio
VITALE, Ida
WANG, Berna
WILLIAMS, W. C.
WOLFE, Roger
YEATS, W.B.
YOURCENAR, Marguerite
ZAÍD, Gabriel
ZUÑIGA, José Luis
.
30.12.12
Manuel Moya / Violeta (O fumo, os cafés)
O fumo, os cafés, o gajo que te traz de madrugada,
aquele parceiro que escapou, este que vem acordar-te,
as carícias, a coragem, uma manhã com Rimbaud…
Se o que ajuda a viver, o verdadeiro, custa quase nada
porque é tão alto o preço da vida?
Violeta C. Rangel
(Trad. José Colaço Barreiros)
[Canal de poesia]
.
29.12.12
Ibne Sara (Alvorada)
ALVORADA
anunciam a alvorada
o fresco da brisa
e a bebedeira de um amigo
e o morrer da lâmpada
Ibne Sara
[Lavorare stanca]
.
28.12.12
Jesús López Pacheco (Aspirina para minha mãe)
TABLETA DE ASPIRINA PARA MI MADRE
Hoy que no puedo abrazarte
recuerdo uno a uno los abrazos
que no te he dado.
Y por si acaso, como ayer, te duele
la cabeza, te mando esta aspirina.
Tómatela con un vaso de agua,
madre de hijo difícil que jamás
ha sabido escribirte
la carta que una madre espera siempre.
Jesús López Pacheco
Hoje que não posso abraçar-te
recordo um por um os abraços
que não te dei.
E para o caso de te doer, como ontem,
a cabeça, mando-te esta aspirina.
Toma-a com um copo de água,
mãe de filho difícil que jamais
te soube escrever
a carta de que uma mãe
está sempre à espera.
(Trad. A.M.)
.
27.12.12
Victor Botas (Destes mil livros)
De este millar y pico de libros que celosamente guardan
los anaqueles de mi biblioteca,
apenas diez
o doce
merecen ser nombrados. (Tu mirada
me falta;
de otro modo
toda literatura sería inútil).
Victor Botas
Destes mil livros e picos
que as minhas estantes
guardam zelosamente,
só dez ou doze
merecem menção.
(Falta-me o teu olhar;
sem ele
toda a literatura seria inútil).
(Trad. A.M.)
.
26.12.12
Francisco Alvim (Discordância)
DISCORDÂNCIA
Dizem que quem cala consente
eu por mim
quando calo dissinto
quando falo
minto
Francisco Alvim
.
25.12.12
Vicente Gallego (A infância)
LA INFANCIA
La infancia en mi memoria es un derroche,
una inmensa fortuna en el desierto,
una flor en las manos de un cosaco,
un tiempo en que creí no tener nada
y sin saberlo tuve lo más grande:
esa firme creencia en que los años
pondrían a mis pies el mundo entero.
La infancia se parece a esos regalos
que a los niños les hacen para luego,
diciendo que los guarden, que algún día
aprenderán sin duda a utilizarlos.
La infancia es un regalo que disgusta
porque uno no sabe de qué sirve,
y, cuando al fin lo entiende, ya lo ha roto.
Vicente Gallego
A minha infância na memória é um desperdício,
uma imensa fortuna no deserto,
uma flor nas mãos de um cossaco,
um tempo em que julguei nada ter
e tive sem saber o mais importante,
a crença firme de que os anos
me poriam aos pés o mundo inteiro.
A infância é parecida com esses presentes
que se dão às crianças para mais tarde,
dizendo-lhes guardai-os, que um dia
aprendereis a usá-los.
A infância é um presente que desagrada,
porque não sabemos para que é que serve
e, quando aprendemos, já o quebrámos.
(Trad. A.M.)
.
24.12.12
Valeria Pariso (Dentro de um copo azul)
Adentro de un vaso azul
a través de la ventana del living
apretando la cara contra las rejas
con el brazo derecho estirado
hasta que las puntas de mis dedos queman
junto agua de lluvia.
A tu amor
lo junto de un modo más extraño todavía.
Valeria Pariso
[El poeta ocasional]
Num copo azul
através da janela da sala
a cara contra a persiana
com o braço esticado
até queimar as pontas dos dedos
junto água da chuva.
Teu amor
junto-o dum modo mais estranho ainda.
(Trad. A.M.)
.
23.12.12
Fernando Pessoa / A. Caeiro (Da mais alta janela)
Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade.
E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.
Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.
Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?
Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.
Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.
Passo e fico, como o Universo.
Alberto Caeiro
.
22.12.12
Manuel Moya / Umar Abass (Minha casa)
MI CASA
En mi casa espero la vuelta del sol, el viento
que hinche las sábanas,
las bruscas nubes de la primavera.
Me entrega la casa su seco mendrugo y la inquietud
de quien en ella ha visto anochecer
en una cadencia que no es nueva.
Ajena a la memoria, me tiende sus paredes (¿porque en ella
está lo que yo busco, lo que en vano busqué
en remotas aduanas? No lo sé.).
Yo la oigo, como se oye al niño que llora en la memoria,
como se oye un río bajo la densa arena.
Y digo "mi casa", pero debiera decir que soy suyo,
la parte de mi casa que baja a por tabaco, a por naranjas
la parte que mañana, mañana mismo,
se sube a un avión y ya no vuelve.
Yo hice esta casa. Ella me ha hecho. No estamos en paz.
UMAR ABASS
El sueño de Dakhla
(2008)
[El alma disponible]
Em casa espero a volta do sol, o vento
que inche os lençóis,
as bruscas nuvens da Primavera.
A casa me entrega a côdea resseca e a inquietude
de quem nela viu a noite cair
numa antiga cadência.
Alheia à memória, estende-me as paredes (porque está
nela o que busco, o que busquei em vão
em remotas aduanas? Não sei).
Escuto-a, como se ouve a criança a chorar na memória,
ou se ouve um rio debaixo da areia densa.
E digo “minha casa”, mas eu é que lhe pertenço,
parte da casa que sai por tabaco, ou por laranjas,
a parte que amanhã, amanhã mesmo,
embarcará de avião e não voltará.
Eu fiz a casa. Ela fez-me a mim. Não estamos em paz.
(Trad. A.M.)
.
21.12.12
João Araújo Correia (As escolas de primeiras letras)
As escolas de primeiras letras...
Cerro as pálpebras e vejo-me, aos quatro ou cinco anos, na aula da mestra régia de Canelas.
A minha irmã mais velha levava-me à lição para eu não brincar com a canalha da rua.
Ia todo contente, porque não apanhava bolas, não tinha ABC nem cartilha – passava as horas entretido com um regrão a desenhar macacos numa loisa.
Dava-me muito mimo a Senhora Mestra e as meninas grandes. (...)
Não se abria a janela da escola nas manhãs cálidas.
O sol alegrava o traço da porta.
Avançava, marcando os minutos no sobrado escuro.
Os raios que desciam da telha vã projectavam-se na cabeça guedelhuda das raparigas da aldeia ou sujavam o chão com nódoas de luz, moedas de oiro reluzente que eu chocalhava na palma da minha mão.
- JOÃO DE ARAÚJO CORREIA, Sem Método, LXVI.
.
Ulalume González (Canções quase sem palavras)
CANCIONES CASI SIN PALABRAS
1
Tán lejos
vuela
el pájaro
que entre él y yo cabría cualquier fábula.
2
Había que elegir
entre ser la mañana
o ponerse a escribirla.
3
Oh retama amarilla,
tán amarilla,
tán,
que perdí la costumbre.
4
De una palabra a otra
cambió el viento a la nube
y escribí una mentira.
Ulalume González de León
1
Tão longe
o pássaro
voa
que entre ele e mim cabia qualquer fábula.
2
Há que escolher
entre ser a manhã
ou então escrevê-la.
3
Ó giesta amarela,
tão amarela,
tão,
que perdi o hábito.
4
Duma palavra a outra
a nuvem mudou com o vento
e uma mentira escrevi.
(Trad. A.M.)
.
20.12.12
Eugénio de Andrade (Arrepio na tarde)
ARREPIO NA TARDE
Não sei quem, nem em que lugar,
mas alguém me deve ter morrido.
Senti essa morte num arrepio da tarde.
Qualquer amigo, um dos vários
que não conheço e só a poesia
sustenta. Talvez a morte fosse
outra: um pequeno réptil
no sol súbito e quente de Março
esmagado por pancada certeira;
um cão atropelado por um bruto
que, ao volante, se julga um deus
de arrabalde, com sucesso garantido
junto de três ou quatro putas de turno.
Talvez a de uma estrela, porque também
elas morrem, também elas morrem.
Eugénio de Andrade
[Las cosas que hemos visto]
.
19.12.12
Teresa Calderón (Cai o pano)
CAE EL TELÓN
Sin estrépito ni grandilocuencia
Con la dignidad de morirse como corresponde
Puede acompañarse con música de fondo
Se sugiere Albinoni pero puede ser una cumbia o un corrido o una cueca
Al fin y al cabo se trata de su propia muerte
por lo menos puede usted decidir
qué gallo quiere que le cante
Teresa Calderón
Sem estrépito nem grandiloquência
Com a dignidade de morrer como é devido
Pode acompanhar-se com música de fundo
Sugere-se Albinoni mas pode ser uma cumbia um corrido uma cueca
Afinal trata-se da tua própria morte
podes escolher pelo menos
que galo queres que te cante
(Trad. A.M.)
.
18.12.12
Silvina Ocampo (Única sabedoria)
ÚNICA SABIDURÍA
Lo único que sabemos
es lo que nos sorprende:
que todo pasa, como
si no hubiera pasado.
Silvina Ocampo
O que sabemos
é o que nos espanta:
que tudo passa, como
se não passasse.
(Trad. A.M.)
.
17.12.12
Dana Gioia (Prece)
PRAYER
Echo of the clocktower, footstep
in the alleyway, sweep
of the wind sifting the leaves.
Jeweller of the spiderweb, connoisseur
of autumn’s opulence, blade of lightning
harvesting the sky.
Keeper of the small gate, choreographer
of entrances and exits, midnight
whisper travelling the wires.
Seducer, healer, deity or thief,
I will see you soon enough
—in the shadow of the rainfall,
in the brief violet darkening a sunset—
but until then I pray watch over him
as a mountain guards its covert ore
and the harsh falcon its flightless young.
DANA GIOIA
The Gods of Winter
(1991)
Eco do relógio da torre, pegada
no chão da avenida, o vento
a varrer peneirando as folhas.
Joalheiro da teia de aranha, perito
da outonal opulência, folha de raio
ceifando o céu.
Porteiro da porta estreita, coreógrafo
de entradas e saídas, nocturno
murmúrio viajando nos fios.
Sedutor, curandeiro, divindade ou ladrão,
estarei contigo muito em breve
- na sombra da chuva,
no fugaz crepúsculo violeta -
mas até lá olha por ele
como o monte guarda o seu minério
ou o falcão o filho que ainda não voa.
(Trad. A.M.)
.
16.12.12
Rubén Bonifaz Nuño (Que mulher recordamos)
Cuál es la mujer que recordamos
al mirar los pechos de la vecina
de camión; a quién espera el hueco
lugar que está al lado nuestro, en el cine?
¿A quién pertenece el oído
que oirá la palabra más escondida
que somos, de quién es la cabeza
que a nuestro costado nace entre sueños?
Hay veces que ya no puedo con tanta
tristeza, y entonces te recuerdo.
Pero no eres tú. Nacieron cansados
nuestro largo amor y nuestros breves
amores; los cuatro besos y las cuatro
citas que tuvimos. Estamos tristes.
Juntos inventamos un concierto
para desventura y orquesta, y fuimos
a escucharlo serios, solemnes,
y nada entendimos. Estamos solos.
Tú nunca sabrás, estoy cierto,
que escribí estos versos para ti sola;
pero en ti pensé al hacerlos. Son tuyos.
Ustedes perdonen. Por un momento
olvidé con quién estaba hablando.
Y no sentí el golpe de mi ventana
al cerrarse. Estaba en otra parte.
Rubén Bonifaz Nuño
[Noctambulario]
Que mulher recordamos
ao olhar os peitos da vizinha
no autocarro; por quem espera,
no cinema, o lugar vazio ao nosso lado?
A quem pertence o ouvido
que ouvirá a palavra mais escondida
que somos, de quem a cabeça
que nos nasce entre sonhos nas costas?
Às vezes já não posso com tanta
tristeza, e então recordo-te.
Mas não és tu. Nasceram cansados
o nosso longo amor e os breves;
os quatro beijos e os nossos
quatro encontros. Estamos tristes.
Inventámos juntos um concerto
para desventura e orquestra,
e fomos ouvi-lo sérios, solenes,
e nada entendemos. Estamos sós.
Tu, estou certo, jamais saberás
que escrevi estes versos para ti;
mas em ti pensei ao fazê-los, são teus.
Perdoem-me vocês, por um instante
esqueci com quem falava.
E não senti o bater da janela
ao fechar-se. Estava noutro lugar.
(Trad. A.M.)
.
15.12.12
João Araújo Correia (Linguagem popular)
Aprecio, desde que me entendo, a linguagem popular.
Tenho de memória inéditos vocábulos e modos-de-dizer ouvidos à gente inculta em todo o Portugal.
Em lugares da mesma freguesia, notei variações de fonética salientes.
Quando li o Fernão Lopes, há um ror de anos, descobri com alvoroço que eram irmãs a sua sintaxe e a do povo da minha aldeia natal.
Duas regras escritas do punho de vizinho meu pareciam arrancadas à crónica de Pedro.
- JOÃO DE ARAÚJO CORREIA, Sem Método, XVIII.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
















.jpg)

.jpg)

