11.4.10

Amalia Bautista (Que fazes aqui?)







Creía que te había dicho adiós,
un adiós contundente, al acostarme,
cuando pude por fin cerrar los ojos
y olvidarme de ti y de tus argucias,
de tu insistencia, de tu mala baba,
de tu capacidad para anularme.
Creía que te había dicho adiós
del todo y para siempre, y me despierto
y te encuentro de nuevo junto a mí,
dentro de mí, abarcándome, a mi vera,
invadiéndome, ahogándome, delante
de mis ojos, enfrente de mi vida,
debajo de mi sombra, en mis entrañas,
en cada pulso de mi sangre, entrando
por mi nariz cuando respiro, viendo
por mis pupilas, arrojando fuego
en las palabras que mi boca dice.
Y ahora, ¿qué hago yo?, ¿cómo podría
desterrarte de mí o acostumbrarme
a convivir contigo? Empezaremos
por demostrar modales impecables.
Buenos días, tristeza.


Amalia Bautista






Pensava que te tinha dito adeus,
um adeus contundente, ao deitar,
quando pude enfim fechar os olhos
e esquecer-me de ti e das tuas manhas,
da tua insistência, do teu fito mau,
da tua força para vencer-me.
Pensava que te tinha dito adeus
de todo e para sempre, e acordo
e vejo-te de novo junto a mim,
dentro de mim, cingindo-me, colada a mim,
invadindo-me, afogando-me, diante
dos olhos, frente à minha vida,
sob a minha sombra, nas minhas entranhas,
no pulsar do meu sangue, entrando-me
pelo nariz quando respiro, vendo
por minhas pupilas, atiçando fogo
às palavras que deito pela boca.
E agora, que é que eu faço? como poderia
desterrar-te de mim ou acostumar-me
a viver contigo? Vamos lá começar
por caprichar nos modos.
Bom dia, tristeza.



(Trad. A.M.)




>>  Mal Situados (outra tradução)

.

Néstor Barron (Balada)






BALADA




Colgada de un silencio impronunciable,
meciéndote en las líneas de mi mano,
y luego recostada en el temprano
olvido de una noche inolvidable:
así te conocí, si es que hay manera
de conocer a alguien. Te doblabas
sobre el dorso de mi voz y cantabas
aquello de morir en primavera.
Después fuiste una luna insospechada
y ausente en el fragor de la tormenta.
Con una gutural y cenicienta
canción te despediste de la nada.


Qué tristes son los amores bendecidos,
los malditos, los hallados, los perdidos…



Néstor Barron







Suspensa de um silêncio impronunciável,
embalando-te nas linhas da mão
e depois recostada no olvido
prematuro de uma noite inolvidável:
assim te conheci, se é que há maneira
de conhecer alguém. Dobravas-te
no dorso da minha voz e cantavas
aquilo de morrer na primavera.
Depois foste uma lua insuspeitada
e ausente no fragor da tormenta.
Com uma gutural e cinzenta
canção te despediste do nada.


Que tristes são os amores benzidos,
os malditos, os achados, os perdidos...


(Trad. A.M.)

.

10.4.10

Pedro Eiras (Dois rabis)






Dois rabis discutiam furiosamente sobre um passo da Cabala.

Misericordioso, Deus decidiu intervir e desfazer a discussão: explicou qual dos rabis tinha acertado e qual estava em erro.

Os rabis, porém, voltaram-se para Deus e responderam: Cala-te! Não vês que estamos a discutir?



- PEDRO EIRAS, Substâncias Perigosas - Cem breves lições em que se explica por que meios os livros matam os seus leitores, Livrododia, 2010

.

Rabindranath Tagore (Minha canção)






MINHA CANÇÃO




Minha canção há-de envolver-te com sua música,
como os braços sublimes do amor.
Tocará o teu rosto como um beijo de graças.
Quando estiveres só, sentará a teu lado
e te falará ao ouvido.
Minha canção será como asas para os teus sonhos
e elevará teu coração até ao infinito.
Quando a noite escurecer teu caminho,
minha canção brilhará sobre ti como a estrela fiel.
Se fixará nos teus lindos olhos
e guiará teu olhar até à alma das coisas.
Quando minha voz se calar para sempre,
minha canção te seguirá em teus pensamentos.



Rabindranath Tagore

.

9.4.10

Miguel Hernández (Canção última)






CANCIÓN ÚLTIMA



Pintada, no vacía:
pintada está mi casa
del color de las grandes
pasiones y desgracias.


Regresará del llanto
adonde fue llevada
con su desierta mesa,
con su ruinosa cama.


Florecerán los besos
sobre las almohadas.


Y en torno de los cuerpos
elevará la sábana
su inmensa enredadera
nocturna, perfumada.


El odio se amortigua
detrás de la ventana.
Será la garra suave.
Dejadme la esperanza.


MIGUEL HERNÁNDEZ
Vientos del Pueblo



[Analitica]









Pintada, não vazia:
pintada está minha casa
da cor das grandes
paixões e desgraças.


Regressará do pranto
onde foi levada
com sua deserta mesa,
sua ruinosa cama.


Florescerão os beijos
nas almofadas.


E em torno dos corpos
erguerá o lençol
sua imensa trepadeira
nocturna, perfumada.


O ódio amortece
atrás da janela.
Será a garra suave.
Deixai-me a esperança.


(Trad. A.M.)




>> Joan Manuel Serrat (YouTube)


.

Pedro Mexia (Os dinheiros)






OS DINHEIROS




Judas não se enforcou na figueira.
A figueira é uma árvore benigna.
Judas enforcou-se
nos trinta dinheiros.



PEDRO MEXIA
Senhor Fantasma
(2007)

.

7.4.10

María Sanz (A memória)






LA MEMORIA




Si quieres olvidar, si no te basta
con ahuyentar heridas y desprecios,
acuérdate del día en que un poema
te liberó del mundo y sus engaños.



María Sanz







Se queres esquecer, se não te basta
afugentar feridas e desprezos,
lembra-te do dia em que um poema
te libertou do mundo e seus enganos.


(Trad. A.M.)

.

Um verso (75)











Um verso de Borges:








Só o que morreu é nosso, apenas é nosso o que perdemos.




Jorge Luis Borges

.

6.4.10

Nuno Júdice (Última ceia)






ÚLTIMA CEIA




Com que monotonia penso em mim;
sentimento distante, que me põem à frente,
na mesa, já frio e sem gosto. Mas vou
comendo, sem pressa, este prato
indigesto; e, a cada garfada, antecipo
a dor de estômago que me irá encher
de pesadelos a noite. Eu: pesada
refeição que não desejo,
mas me puseram à frente.


(E se disser que não como?)




NUNO JÚDICE
Meditação sobre Ruínas
(1994)

.

Luis Cernuda (Não é o amor quem morre)







NO ES EL AMOR QUIEN MUERE...





No es el amor quien muere,
somos nosotros mismos.


Inocencia primera
Abolida en deseo,
Olvido de sí mismo en otro olvido,
Ramas entrelazadas,
¿Por qué vivir si desaparecéis un día?


Sólo vive quien mira
Siempre ante sí los ojos de su aurora,
Sólo vive quien besa
Aquel cuerpo de ángel que el amor levantara.


Fantasmas de la pena,
A lo lejos, los otros,
Los que ese amor perdieron,
Como un recuerdo en sueños,
Recorriendo las tumbas
Otro vacío estrechan.


Por allá van y gimen,
Muertos en pie, vidas tras de la piedra,
Golpeando la impotencia,
Arañando la sombra
Con inútil ternura.
No, no es el amor quien muere.



Luis Cernuda








Não é o amor quem morre,
somos nós mesmos.


Inocência primeira
Abolida em desejo,
Olvido de si mesmo em outro olvido,
Ramos entrelaçados,
Para quê viver se desapareceis um dia?


Só vive quem olha
Sempre ante si os olhos da aurora,
Só vive quem beija
Esse corpo de anjo pelo amor levantado.


Fantasmas da dor,
Ao longe, os outros,
Os que esse amor perderam,
Como lembrança em sonhos,
Correndo as tumbas
Abraçam outro vazio.


Por aí vão e gemem,
Mortos em pé, vidas sob a pedra,
Agredindo a impotência,
Arranhando a sombra
Com inútil ternura.
Não, quem morre não é o amor.


(Trad. A.M.)

.

5.4.10

Natália Correia (Queixa das almas jovens censuradas)






QUEIXA DAS ALMAS JOVENS CENSURADAS




Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola


Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade


Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência


Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro


Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós


Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo


Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro


Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco


Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura


Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante


Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino


Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte



Natália Correia


.

Mário Quintana (Censo demográfico)






CENSO DEMOGRÁFICO




Não sei por que diziam que uma humilde cidadezinha
Tinha, por exemplo, umas quinze mil almas...
Almas? Hoje, o que elas têm são quinze mil bocas,
Loucas de fome!



MARIO QUINTANA
Velório sem defunto
(1990)



[Quintanares]

.

4.4.10

Luis Alberto de Cuenca (Dedicatória)






DEDICATORIA



La tierra estaba seca.
No había ríos ni fuentes.
Y brotó de tus ojos
el agua, toda el agua.


Luis Alberto de Cuenca






A terra estava seca.
Não havia rios nem fontes.
E brotou de teus olhos
a água, toda a água.


(Trad. A.M.)

.

Maria Teresa Horta (Joelho)






JOELHO




Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho


Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio


Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo


Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo


Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo


E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento


Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas


Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas.



Maria Teresa Horta

.

3.4.10

Manuel de Freitas (All stripped down)






ALL STRIPPED DOWN




Cavalheiro idoso, calvo e sem jeito
para foder, procura quem o ature
e acredite (às vezes) na ressurreição.


Nunca leu livros, cospe grosso
e ronca. Assunto sério: morrer com alguém.



Manuel de Freitas

.

León Felipe (Deus que tudo sabe)






Dios que lo sabe todo
es un ingenuo
y ahora está secuestrado
por unos arzobispos bandoleros
que le hacen decir desde la radio
«Hallo! Hallo! Estoy aquí con ellos».
Mas no quiere decir que está a su lado
sino que está allí prisionero.
Dice dónde está, nada más,
para que nosotros lo sepamos
y para que nosotros lo salvemos.



León Felipe







Deus que sabe tudo
é um pouco ingénuo
e agora está cativo
duns arcebispos bandidos
que o forçam a dizer pela rádio
“Allô, allô! Eu estou aqui com eles”.
Mas não quer dizer que está do seu lado,
antes que está ali prisioneiro.
Diz onde está, nada mais,
para nós o sabermos
e para nós o salvarmos.


(Trad. A.M.)

.

2.4.10

Olhar (72)









(Caminho de Biscoitos)

Terceira / Açores

.

Manuel da Fonseca (Mataram a Tuna)






MATARAM A TUNA




Nos domingos antigos do bibe e pião
saía a Tuna do Zé Jacinto
tangendo violas e bandolins
tocando a marcha Almadanim.


Abriam janelas meninas sorrindo
parava o comércio pelas portas
e os campaniços de vir à vila
tolhendo os passos escutando em grupo.
Moços da rua tinham pé leve
o burro da nora da Quinta Nova
espetava orelhas apreensivo
Manuel da Água punha gravata!
Tudo mexia como acordado
ao som da marcha Almadanim
cantando a marcha Almadanim.


Quem não sabia aquilo de cor?
A gente cantava assobiava aquilo de cor ...
(só a Marianita se enganava
ai só a Marianita se enganava
e eu matava-me a ensinar ... )
que eu sabia de cor
inteirinha de cor
e para mim domingo não era domingo
era a marcha Almadanim!


Entanto as senhoras não gostavam
faziam troça dizendo coisas
e os senhores também não gostavam
faziam má cara para a Tuna:
- que era indecente aquela marcha parecia
até coisa de doidos:
não era música era raiva
aquela marcha Almadanim.


Mas Zé Jacinto não desistia.
Vinha domingo e a Tuna na rua
enchendo a rua enchendo as casas.
Voavam fitas coloridas
raspavam notas violentas
rasgava a Tuna o quebranto da vila
tangendo nas violas e bandolins
a heróica marcha Almadanim!


Meus companheiros antigos do bibe e pião
agora empregados no comércio
desenrolando fazenda medindo chita
agora sentados
dobrados nas secretárias do comércio
cabeças pendidas jovens-velhinhos
escrevendo no Deve e Haver somando somando
na vila quieta
sem vida
sem nada
mais que o sossego das falas brandas ...
- onde estão os domingos amarelos verdes azuis encarnados
vibrantes tangidos bandolins fitas violas gritos
da heróica marcha Almadanim?!


Ó meus amigos desgraçados
se a vida é curta e a morte infinito
despertemos e vamos
eia!
vamos fazer qualquer coisa de louco e heróico
como era a Tuna do Zé Jacinto
tocando a marcha Almadanim!



Manuel da Fonseca

.

1.4.10

Juan Luis Panero (Testemunha de cinza)






TESTIGO DE CENIZA




En la roca que el mar golpea
o en la seca corteza de ese árbol,
en el viento que aulla contra los cristales,
sobre la huella de la arena o en la tierra más dura,
en el humo que se deshace entre tus manos,
escribe, escribe, como si aún descubrieras las palabras.
Escribe para píeles o piedras,
para blancos caballos, para aquellos ojos
que nunca te miraron y tú jamás miraste.
Escribe sin orgullo, pero tampoco con falsa modestia,
que no fue en vano tu paso por el mundo.
Olvida después tan estúpida frase
y mira el mar, las velas de aquel barco
que viene a rescatarte, su paciente cabecear sobre las olas,
las luces que se reflejan en la espuma.
Y escribe - sobre todo - cuando lo veas hundirse,
cuando desaparezca como el sueño o la bruma,
cuando ya no exista - sabido es que nunca existió -
escribe y repítelo en voz alta para el sordo mar, para el cielo distante.
Aprende así, testigo de ceniza,
el final implacable de tu ilusa labor,
y entonces, sin dudarlo - que no tiemble tu mano –
escribe, escribe, escribe, escribe.



Juan Luis Panero







Na rocha batida pelo mar
ou na casca seca dessa árvore,
é o vento que uiva contra os vidros,
sobre a pegada da areia ou na terra mais dura,
no fumo que se te desfaz entre as mãos,
escreve, escreve, como se descobrisses ainda as palavras.
Escreve para peles ou pedras,
para brancos cavalos, para esses olhos
que nunca te olharam e que tu jamais olhaste.
Escreve sem orgulho, mas tão pouco com falsa modéstia,
que não foi em vão tua passagem pelo mundo.
Esquece a seguir tão estúpida frase
e olha para o mar, as velas desse barco
que vem resgatar-te, seu paciente cabecear sobre as ondas,
as luzes reflectidas na espuma.
E escreve – sobretudo – quando o vires afundar-se,
quando desaparecer como o sonho ou a bruma,
quando já não existir – pois é sabido que jamais existiu –
escreve e repete-o em voz alta para o surdo mar, para o céu distante.
Aprende assim, testemunha de cinza,
o final implacável de teu labor ilusório
e então, sem hesitar - que a mão não te trema –
escreve, escreve, escreve, escreve.


(Trad. A.M.)

.