1.2.10

Carlos Drummond de Andrade (José)






JOSÉ



E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?


Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?


E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?


Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?


Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse....
Mas você não morre,
você é duro, José!


Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?



Carlos Drummond de Andrade

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Ruy Cinatti (Proclamação)






PROCLAMAÇÃO



A natureza não desce
a contratos. Nem a vida
se mede pela razão.

A vida é toda mistério.

Quem largamente se deu
não ofendeu a justiça
mas viveu do coração.



RUY CINATTI
O Livro do Nómada Meu Amigo
(1981)




>>  As Tormentas  (16p)  /  TriploV (3p)  /  Porto de Abrigo (4p)




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31.1.10

Ana Merino (Trauma)






TRAUMA




Casi no recuerdas
el rastro de su cuerpo
y sin embargo te pesan
sus palabras
como el eco de un alud
que se aproxima.


No existes, no eres nada,
no imagines amor
donde sólo hay sombras.


Eres la carretera secundaria
el desvío de un día sin prisas
para alguien que juega
a cambiar de destino
pero lleva una brújula
y siempre vuelve a casa.



Ana Merino







Não lembras quase
o rasto do seu corpo
e contudo pesam-te
suas palavras
como o eco da derrocada
a aproximar-se.


Não existes, não és nada,
amor não imagines
onde só sombras há.


És a estrada secundária
o desvio de um dia sem pressas
para alguém que brinca
a trocar de destino
mas leva uma bússola
e volta sempre a casa.


(Trad. A.M.)


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Olhar (67)











Talasnal

(Serra da Lousã)

31 Jan 2010

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Alberto Nessi (A Vita)






A VITA




Talvez seja só um ballet
perante alguém que nos olha
com afecto, a vida. Um passo de dança
antes de anoitecer, como o que vejo
sem ser visto pela janela do piso térreo
ao regressar de uma volta pelo campo:
olho e és tu a ensaiar a função
de vestido comprido diante da tua mãe.
Dança dança, não te enganes no pé
dança como a folha que não cede
ao vento, dança ao de leve.


Alberto Nessi


(Trad. A.M.)



[Poesia semanal]

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30.1.10

Adolfo Casais Monteiro (Aurora)






AURORA




A poesia não é voz - é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:

voo sem pássaro dentro.



Adolfo Casais Monteiro

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29.1.10

Rubén Bonifaz Nuño (À tua porta chamei)






A TU PUERTA LLAMÉ, NO ESTABAS...




A tu puerta llamé. No estabas.
Aspas de viaje te arrancaron.
¿Quién volverá cuando regreses?
Viento sin recuerdos, en la noche
se envuelve de inútiles presagios.

Dicen que la vida prosigue.
Entre nieves remotas, luces
que desconozco, abro los brazos
-lazarillos a ciegas-; busco.

Desde aquí, junto a la oreja sorda
amo en secreto, y enmudezco.
Dicen que la vida no perdona.
A tu puerta llego, y sin mirarte,
maravillado te contemplo.

¿Regresaste, vives, te escondiste?
Frente a tu casa silenciosa
-pienso que estás- no llamo. Espero.
Y pasa la vida, y se detiene.



Rubén Bonifaz Nuño







À tua porta chamei. Não estavas.
Aspas de viagem te arrancaram.
Quem voltará quando regresses?
Vento sem lembranças, na noite
se envolve de inúteis presságios.

Dizem que a vida prossegue.
Entre neves remotas, luzes
desconhecidas, abro os braços
- moços de cego às cegas - busco.

Daqui, junto da orelha surda
amo em segredo e emudeço.
Dizem que a vida não perdoa.
À tua porta chego e, sem olhar-te,
maravilhado te contemplo.

Regressaste, vives, escondeste-te?
Diante da tua casa silenciosa
- penso que estás – não chamo. Espero.
E passa a vida e se detém.


(Trad. A.M.)

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28.1.10

Adélia Prado (A rosa mística)







A ROSA MÍSTICA



A primeira vez
que tive a consciência de uma forma,
disse à minha mãe:
dona Armanda tem na cozinha dela uma cesta
onde põe os tomates e as cebolas;
começando a inquietar-me pelo medo
do que era bonito desmanchar-se,
até que um dia escrevi:
”neste quarto meu pai morreu,
aqui deu corda ao relógio
e apoiou os cotovelos
no que pensava ser uma janela
e eram os beirais da morte”.
Entendi que as palavras
daquele modo agrupadas
dispensavam as coisas sobre as quais versavam,
meu próprio pai voltava, indestrutível.
Como se alguém pintasse
a cesta de dona Armanda
me dizendo em seguida:
agora podes comer as frutas.
Havia uma ordem no mundo,
de onde vinha?
E por que contristava a alma
sendo ela própria alegria
e diversa da luz do dia,
banhava-se em outra luz?
Era forçoso garantir o mundo,
da corrosão do tempo, o próprio tempo burlar.
Então prossegui: “neste quarto meu pai morreu.
Podes fechar-te, ó noite,
teu negrume não vela esta lembrança”.
Foi o primeiro poema que escrevi.


Adélia Prado



[Marcelo Leites]


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Adília Lopes (Prémio)








PRÉMIO




Em 72 recebi
o prémio literário
dos pensos rápidos Band-Aid
o prémio foi uma bicicleta
às vezes penso
que me deram uma bicicleta
para eu cair
e ter de comprar pensos
rápidos
Band-Aid
é o que penso dos prémios literários
em geral



ADÍLIA LOPES
Clube da Poetisa Morta

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27.1.10

Zoé Valdés (Castidade, castidade)







CASTIDAD, CASTIDAD



Yo nunca fui casta
regodearnos con el sexo es una hipocresía riquísima
no lo niego
pero yo nunca pude ser hipócrita yo voy al grano
directa y sin límites
sólo las sosas se las dan de interesantes
yo soy inteligente
por eso cuando quiero un hombre no lo pido con melindres
le voy p'arriba y lo asalto y me le aferro
pero por eso también he tenido poca suerte
porque ellos se cansan rápido de las puticas ladillosas.


Yo nunca fui casta
en cuanto cumplí la edad de la pubertad
cuidé mi cutis restregándome con los machos
ni un granito me salió por exceso de masturbaciones
yo a decir verdad no andaba creyendo en virginidades
yo me crié en la calle al garete
y mi sexo iba conmigo.


Yo nunca fui casta zorra sí
nadie me enseñó la malicia yo nací con ella
muy temprano empecé a latir y no masacré mi ritmo
Yo nunca fui casta ¿para qué sirve ser castos?
Si aunque sea con terror temblando de precauciones
amarnos es lo único que nos queda.


Zoé Valdés


[Dalton Trompet]






Eu nunca fui casta
deleitar-se com o sexo é uma hipocrisia mui gostosa
não o nego
mas eu nunca soube ser hipócrita eu vou ao caso
directa e sem limites
só as sonsas passam por interessantes
eu sou inteligente
por isso quando quero um homem não lhe peço com modinhos
salto-lhe para cima e agarro-me a ele
mas também por isso tenho tido pouca sorte
porque eles cansam-se depressa das pudicas chatas.


Eu nunca fui casta
enquanto me durou a idade da puberdade
cuidei da cútis esfregando-me nos machos
nem um grãozinho me saiu por excesso de masturbações
para dizer a verdade eu não acreditava muito em virgindades
criei-me na rua ao deus-dará
e o meu sexo andava comigo.


Eu nunca fui casta manhosa sim
ninguém me ensinou a malícia já nasci com ela
muito cedo comecei a latir e não
abrandei meu ritmo
Eu nunca fui casta, de que serve ser casto?
Se mesmo com terror e tremendo de cautelas
amarmo-nos é só o que nos resta.


(Trad. A.M)



Fontes:  Zoé Valdés (sítio oficial)  /  Wikipedia

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A.M.Pires Cabral (Confesso que voei)







CONFESSO QUE VOEI



Mas, se nestas seis décadas e meia
eu fui capaz de algum voo

– concedo, semelhante ao das galinhas,
isto é, rudimentar, desgracioso,
com muitíssimo dispêndio de energia
para pouca ascensão, breve e apenas
em desespero de causa;
em todo o caso uma forma de voo
pelo qual me sustentei no ar
em horas de menos peso –

devo agora, fechado o ciclo do voo,
como os pássaros pousar.

E isto não é como uma loja
que muda de ramo
ou que em fins de Dezembro
fecha para balanço.
Nem como executar
um mandado de detença.
Nem expiar a desordem
de, sendo pedestre, ter voado.
Nem um remate compulsivo
à sedição.

Pousar, é tudo. Regressar
ao afago das coisas da terra.
A terra cobrar por fim o que lhe devo
e eu cobrar dela o que me deve
desde a primeira hora.

Voei, está voado.
Nada de nostalgias.



A.M. Pires Cabral

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26.1.10

Olhar (66)










Gosende

(Castro Daire)

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Rui Pires Cabral (Nunca se sabe)






NUNCA SE SABE




Papéis velhos com poemas: são o joio
das gavetas. Relê-los causa aversão
e uma espécie de tristeza arrependida –
são tão nossos como as más recordações
e ainda vemos a circunstância precisa,
a causa, a ferida, por detrás de cada um.


Mas na altura havia esperança: é isso
que representam. Não pelas coisas que
dizem – é só descrença e fastio – mas
pela simples razão de termos querido
guardá-los. Com um pouco mais de alento,
de inspiração e trabalho, ainda se endireita
isto. Ou seja, os versos. E até a vida.



RUI PIRES CABRAL
Oráculos de Cabeceira
Averno, 2009



[Lugares Mal Situados]

25.1.10

Rosana Acquaroni (Há janelas)








HÁ JANELAS QUE PODEM HABITAR-SE





Há janelas que podem habitar-se
como se habita uma cidade, durante anos.
Há cenas que acendem uma vida
e vidas
que acendem uma morte enquanto duram.


Foi tão só um instante.
Depois
aquela imagem foi ficando para trás
e tive a certeza
de que ela mesma consentira na sua morte.


O sacrifício é sempre uma forma de vingança.
Na noite anterior
ele havia prometido levá-la a ver o mar.


A janela dum comboio
pode chegar a conter o mundo num instante.


Depois de a bater
ela caiu de joelhos ante ele,
enquanto ele a olhava
e a sua mão homicida se abria sem querer
e a pedra sangrava,
deixava-se cair
e despenhava-se talude abaixo.


Pergunto-me como se terão conhecido.
Onde se apaixonaram.
Se ela sabia coser.
Se haveria alguém a esperá-la.


Não pude dizer nada.
Assistir ao fragmento da vida de outrem.
Sentir a mediania de um corpo malogrado.
Ver-me a afastar-me
e os meus olhos sem tempo
a quererem estirar-se, deter-se,
compreender.


O comboio seguia o seu curso.


(Um homem só que planeia uma morte em campo aberto. Alguém que por acaso olhava nesse instante pela janela dum comboio e o contempla. É tudo).



ROSANA ACQUARONI
Lámparas de arena
(2000)


(Trad. A.M.)


(Original)



Fontes:  Rosana Acquaroni (sítio of.+antologia)  /  Facebook  /  A media voz (19p)  /  Cervantes (30p)


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Um verso (71)










Um verso de Eugénio
(não falam dele, mas da Fundação):







Quanto mais envelheço mais pueril é a luz

 
 
Eugénio de Andrade
 
.
 

Raymond Carver (Passa-se qualquer coisa)








PASSA-SE QUALQUER COISA COMIGO




Passa-se qualquer coisa comigo
a acreditar nos meus
sentidos isto não é só
outra distracção minha cara
Continuo atado
na mesma velha pele
nas ideias puras e nas grandes aspirações
pixota limpa cheia de saúde
custe o que custar
mas começam-me os pés
a dizer coisas
de si
da sua nova relação com
as minhas mãos coração cabelo e olhos


Passa-se qualquer coisa comigo
se pudesse perguntava-te
sentiste isto alguma vez
mas estás tão longe
tu esta noite não penso
que ouvisses e depois
a minha voz também foi afectada


Passa-se qualquer coisa comigo
não te admires se
ao acordares um dia a este claro
sol mediterrânico olhares
para mim e descobrires uma mulher
no meu lugar
ou pior
um estranho homem com brancas
a escrever um poema
alguém que já não sabe formar palavras
que simplesmente move os lábios
e tenta
contar-te qualquer coisa.




RAYMOND CARVER
Heroísmos não, por favor
(Trad. Telma Costa)
Teorema, 1993



[O café dos loucos]


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24.1.10

Rosalía de Castro (Adios ríos, adios fontes)








ADIOS, RÍOS, ADIOS, FONTES




Adios, ríos; adios, fontes;
adios, regatos pequenos;
adios, vista dos meus ollos:
non sei cando nos veremos.


Miña terra, miña terra,
terra donde me eu criei,
hortiña que quero tanto,
figueiriñas que prantei,


prados, ríos, arboredas,
pinares que move o vento,
paxariños piadores,
casiña do meu contento,


muíño dos castañares,
noites craras de luar,
campaniñas trimbadoras
da igrexiña do lugar,


amoriñas das silveiras
que eu lle daba ó meu amor,
camiñiños antre o millo,
¡adios, para sempre adios!


¡Adios groria! ¡Adios contento!
¡Deixo a casa onde nacín,
deixo a aldea que conozo
por un mundo que non vin!


Deixo amigos por estraños,
deixo a veiga polo mar,
deixo, en fin, canto ben quero...
¡Quen pudera non deixar!...


Mais son probe e, ¡mal pecado!,
a miña terra n'é miña,
que hastra lle dan de prestado
a beira por que camiña
ó que naceu desdichado.


Téñovos, pois, que deixar,
hortiña que tanto amei,
fogueiriña do meu lar,
arboriños que prantei,
fontiña do cabañar.


Adios, adios, que me vou,
herbiñas do camposanto,
donde meu pai se enterrou,
herbiñas que biquei tanto,
terriña que nos criou.


Adios Virxe da Asunción,
branca como un serafín;
lévovos no corazón:
Pedídelle a Dios por min,
miña Virxe da Asunción.


Xa se oien lonxe, moi lonxe,
as campanas do Pomar;
para min, ¡ai!, coitadiño,
nunca máis han de tocar.


Xa se oien lonxe, máis lonxe
Cada balada é un dolor;
voume soio, sin arrimo...
Miña terra, ¡adios!, ¡adios!


¡Adios tamén, queridiña!...
¡Adios por sempre quizais!...
Dígoche este adios chorando
desde a beiriña do mar.


Non me olvides, queridiña,
si morro de soidás...
tantas légoas mar adentro...
¡Miña casiña!,¡meu lar!



Rosalía de Castro



>> Amancio Prada (Adios ríos, adios fontes)

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23.1.10

João Miguel Fernandes Jorge (Não sei)








NÃO SEI




Não sei se éramos hóspedes da terra se visitantes da
noite no Portugal de Salazar. As tascas vendiam
o negro vinho, ofereciam a quem passava o cheiro
húmido moldado em serradura. Demorava os lábios
na breve despedida do natal e o dezembro seguinte não
mais chegava, para eu amar o gelo nas poças de água
janeiro, pelo dia de anos da minha mãe, e depois
fevereiro afora. Tinham um ar soturno
esses senhores, sei hoje homens do regime (não melhores
nem piores os de agora, iguaizinhos democracia
adentro), havia um que levava chapéu de coco
na procissão das velas e o forro ardeu, como me ri e jurei
não ir nunca pegar ao pálio, mas como não haveria de
arder, na direita a vara
na esquerda a acendida vela, o redondo chapéu

em fogo
rumorejava um canto republicano nas sarjetas igualzinho
sem tirar nem pôr o homem do regime
ela, a minha avó, por detrás dos vidros enlameados
pelos que passavam em cuidado de reza, demoradamente
falava do rei e do exílio
e então era tudo como se fosse enleadora madrugada, como
se pela maré baixa de agosto me ensinasse a nadar.



João Miguel Fernandes Jorge



Fontes:  DGLB (bio+biblio)  /  As Tormentas (8p)  /  nEscritas (4p)

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Renata Correia Botelho (Falhámos tudo)







falhámos tudo: entregámos
os livros ao sepulcro
das estantes, ao amor

demos um colo de horas
certas, deixámos de abrir
janelas para cheirar a noite.

já nada nos lembra
que o poema só se forma
no fio da navalha.


Renata Correia Botelho




[Bibliotecário de Babel]


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22.1.10

Roque Dalton (E contudo, amor)








Y SIN EMBARGO, AMOR




Y sin embargo, amor, a través de las lágrimas,
yo sabía que al fin iba a quedarme
desnudo en la ribera de la risa.


Aquí,
hoy,
digo:
siempre recordaré tu desnudez en mis manos,
tu olor a disfrutada madera de sándalo
clavada junto al sol de la mañana;
tu risa de muchacha,
o de arroyo,
o de pájaro;
tus manos largas y amantes
como un lirio traidor a sus antiguos colores;
tu voz,
tus ojos,
lo de abarcable en ti que entre mis pasos
pensaba sostener con las palabras.


Pero ya no habrá tiempo de llorar.


Ha terminado
la hora de la ceniza para mi corazón.


Hace frío sin ti,
pero se vive.



Roque Dalton






E contudo, amor, através das lágrimas,
eu sabia que no fim ia ficar nu
na margem do riso.


Aqui,
hoje,
digo:
lembrarei sempre a tua nudez em minhas mãos,
teu cheiro a desfrutada madeira de sândalo
cravada junto do sol da manhã;
teu riso de rapariga,
ou de arroio,
ou pássaro;
tuas mãos compridas e amantes
como um lírio traindo suas antigas cores;
tua voz,
teus olhos,
o de ti abarcável que entre meus passos
pensava suster com palavras.


Mas já não há tempo de chorar.


Terrminou
a hora de cinza do meu coração.


Está frio sem ti,
mas vive-se.


(Trad. A.M.)

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