2.6.09

Ver (20)










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Manoel de Barros (Mundo pequeno)









MUNDO PEQUENO




(VI)




Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas
-Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.




Manoel de Barros



[Jornal-de-Poesia]



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Mário-Henrique Leiria (Educação cívica)









EDUCAÇÃO CÍVICA





Faz-se de tudo
o abano da anca
o olho sorridente
o rebolado
perante o presidente
da república
faz-se o bailado
e a pirueta
para agradar
e arejar o presidente
do conselho
lubricamente
mostra-se o joelho
aos ministros todos
lança-se
simpatia a rodos
aos generais
e aos marechais
também aos furriéis
se for preciso
afinal
o que é preciso
é ter juízo

faz-se de tudo
sempre a abanar
a anca



Mário-Henrique Leiria



[Insónia]


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1.6.09

Manuel de Freitas (Heiliger tod)









HEILIGER TOD





Não é uma fotografia artística.
Se fosse, não falaria dela.
Estou ao lado do meu avô,
pareço feliz e ele também,
encostados a sorrir debaixo
de uma buganvília. A alegria
dele é simples, muito de avô sentado
com chapéu de feltro antigo.
A minha, por sua vez, segura
na mão a caixa de soldados nazis
que matavam ou morriam,
obedecendo a uma inocente decisão.


Ainda existirão soldadinhos?
Agora, com a idade que
tenho na mesma fotografia,
pegam numa arma e matam
porque sim, dispensando intermediários,
simulacros, lúdicas insinuações.
terão talvez maior razão, não sei.
Têm, seguramente, uma eficácia maior:
matam em vez de quererem matar.
E é belo, sempre o soubemos,
este paiol de esterco chamado humanidade.


Ninguém, da fotografia, sobreviveu.



Manuel de Freitas
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Fontes: Poetry int (nota+8p) / Poesias e prosas (8p)




Jaime Gil de Biedma (Manhã de ontem, de hoje)









MAÑANA DE AYER, DE HOY






Es la lluvia sobre el mar.
En la abierta ventana,
contemplándola, descansas
la sien en el cristal.


Imagen de unos segundos,
quieto en el contraluz
tu cuerpo distinto, aún
de la noche desnudo.


Y te vuelves hacia mí,
sonriéndome. Yo pienso
en cómo ha pasado el tiempo,
y te recuerdo así.



Jaime Gil de Biedma


[Noctambulario]






É a chuva sobre o mar.
Na janela aberta,
contemplando, encostas
a face no vidro.


Imagem de alguns segundos,
parado em contraluz,
teu corpo distinto, ainda
da noite despido.


E viras-te para mim,
a sorrir. Eu penso
em como o tempo passou
e recordo-te assim.



(Trad. A.M.)


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28.5.09

Adolfo Casais Monteiro (Eu falo das casas e dos homens)









EU FALO DAS CASAS E DOS HOMENS





Eu falo das casas e dos homens,
dos vivos e dos mortos:
do que passa e não volta nunca mais...
Não me venham dizer que estava materialmente
previsto,
ah, não me venham com teorias!
Eu vejo a desolação e a fome,
as angústias sem nome,
os pavores marcados para sempre nas faces trágicas
das vítimas.

E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,
uma insignificante parcela da tragédia.
Eu, se visse, não acreditava.
Se visse, dava em louco ou profeta,
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,
- mas não acreditava!

Olho os homens, as casas e os bichos.
Olho num pasmo sem limites,
e fico sem palavras,
na dor de serem homens que fizeram tudo isto:
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,
esta lama de sangue e alma,
de coisa a ser,
e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança,
se o ódio sequer servirá para alguma coisa...
Deixai-me chorar - e chorai!

As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição
e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama,
por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio,
por um segundo seremos os mortos e os torturados,
os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados,
seremos a terra podre de tanto cadáver,
seremos o sangue das árvores,
o ventre doloroso das casas saqueadas,
- sim, por um momento seremos a dor de tudo isto...

Eu não sei porque me caem as lágrimas,
porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra,
eu que sou estrangeiro diante de tudo isto,
eu que estou na minha casa sossegada,
eu que não tenho guerra à porta,
- eu porque tremo e soluço?
Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós?

Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:
as ruas são ruas com gente e automóveis,
não há sereias a gritar pavores irreprimíveis,
e a miséria é a mesma miséria que já havia...
E se tudo é igual aos dias antigos,
apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir,
eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,
sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,
sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta,
uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada...




Adolfo Casais Monteiro



Antes, aqui: A tua morte em mim





24.5.09

Mário Cesariny (Homenagem a Cesário Verde)













Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo-rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas



Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda há poetas cá no país!




Mário Cesariny


José Carlos Ary dos Santos (A máquina fotográfica)









A MÁQUINA FOTOGRÁFICA






É na câmara escura dos teus olhos
que se revela a água
água imagem
água nítida e fixa
água paisagem
boca nariz cabelos e cintura
terra sem nome
rosto sem figura
água móvel nos rios
parada nos retratos
água escorrida e pura
água viagem trânsito hiato.


Chego de longe. Venho em férias. Estou cansado.
Já suei o suor de oito séculos de mar
o tempo de onze meses de ordenado;
por isso, meu amor, viajo a nado
não por ser português mal empregado
mas por sofrer dos pés
e estar desidratado.


Chego. Mudo de fato. Calço a idade
que melhor quadra à minha solidão
e saio a procurar-te na cidade
contrastada violenta negativa
tu única sombra murmurada
única rua mal iluminada
única imagem desfocada e viva.


Moras aonde eu sei. É na distância
onde chego de táxi.
Sou turista
com trinta e seis hipóteses no rolo;
venho ao teu miradoiro ver a pista
trago a minha tristeza a tiracolo.


Enquadro-te regulo-te disparo-te
revelo-te retoco-te repito-te
compro um frasco de tédio e um aparo
nas tuas costas ponho uma estampilha
e escrevo aos meus amigos que estão longe
charmant pays
the sun is shinning
love.


Emendo-te rasuro-te preencho-te
assino-te destino-te comando-te
és o lugar concreto onde procuro
a noite de passagem o abrigo seguro
a hora de acordar que se diz ao porteiro
o tempo que não segue o tempo em que não duro
senão um dia inteiro.


Invento-te desbravo-te desvendo-te
surges letra por letra, película sonora,
do sentido à vogal do tema à consoante
sem presença no espaço sem diferença na hora.
És a rota da Índia o sarcasmo do vento
a cãibra do gajeiro o erro do sextante
o acaso a maré o mapa a descoberta
num novo continente itinerante.



José Carlos Ary dos Santos
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22.5.09

Olhar (49)












Serra da Freita


(Arouca)
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Gonçalo M. Tavares (Os braços)









OS BRAÇOS





Como viver? Não há outra pergunta séria.
Um velho com o braço direito partido
folheia o jornal com a mão esquerda.
Penso: assim seria mais fácil.
O corpo a decidir por nós.
Olho para mim: os dois braços intactos.
Que fazer?




Gonçalo M. Tavares


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Mario Benedetti (Dos afectos)









DOS AFECTOS




Como fazer-te saber que há sempre tempo?

Que temos que buscá-lo e dá-lo…
Que ninguém estabelece normas, senão a vida…
Que a vida sem certas normas perde formas…
Que a forma não se perde com abrirmo-nos…
Que abrirmo-nos não é amar indiscriminadamente…
Que não é proibido amar…
Que também se pode odiar…
Que a agressão porque sim, fere muito…
Que as feridas fecham-se…
Que as portas não devem fechar-se…
Que a maior porta é o afecto…
Que os afectos definem-nos…
Que definir-se não é remar contra a corrente…
Que não quanto mais se carrega no traço mais se desenha…
Que negar palavras é abrir distâncias…
Que encontrar-se é lindo…
Que o sexo faz parte da lindeza da vida…
Que a vida parte do sexo…
Que o porquê das crianças tem o seu porquê…
Que querer saber de alguém não é só curiosidade…
Que saber tudo de todos é curiosidade malsã…
Que nunca é demais agradecer…
Que autodeterminação não é fazer as coisas sozinho…
Que ninguém quer estar só…
Que para não estar só há que dar…
Que para dar devemos antes receber…
Que para nos darem há também que saber pedir…
Que saber pedir não é oferecer-se…
Que oferecer-se, em definitivo, não é querer-se…
Que para nos quererem devemos mostrar quem somos…
Que para alguém ser é preciso dar-lhe ajuda…
Que ajudar é poder dar ânimo e apoiar…
Que adular não é apoiar…
Que adular é tão pernicioso como virar a cara…
Que as coisas cara a cara são honestas…
Que ninguém é honesto por não roubar…
Que quando não se tira prazer das coisas não se vive…
Que para sentir a vida temos de esquecer que existe a morte…
Que se pode estar morto em vida…
Que sentimos com o corpo e a mente…
Que com os ouvidos se escuta…
Que custa ser sensível e não se ferir…
Que ferir-se não é sangrar…
Que para não nos ferirmos levantamos muros…
Que melhor seria fazer pontes…
Que por elas se vai à outra margem e ninguém volta…
Que voltar não implica retroceder…
Que retroceder também pode ser avançar…
Que não é por muito avançar que se amanhece mais perto do sol…

Como fazer-te saber que ninguém estabelece normas, senão a vida?



Mario Benedetti


(Trad. A.M.)






> Cervantes (Biblioteca de autor)

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20.5.09

Jorge Luís Borges (Religio Medici)









RELIGIO MEDICI, 1643






Defende-me, Senhor. (O vocativo
não implica Ninguém. É só uma palavra
deste exercício que o tédio lavra
e que redijo na tarde do temor.)
Defende-me de mim. Disseram-no já
Montaigne e Browne e um espanhol que ignoro;
algo me resta ainda de todo esse ouro
que recolheram meus olhos de sombra.
Defende-me, Senhor, do impaciente
apetite de ser mármore e olvido;
defende-me de ser o que já fui,
o que já fui irreparavelmente.
Não da espada ou da rubra lança
defende-me, mas é da esperança.




JORGE LUIS BORGES,
El Oro de los Tigres (1972)




(Trad. A.M.)


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Um verso (54)











Um verso de Paul Eluard
(voilà):











Fiz-te à medida da minha solidão
(je t’ai faite à la taille de ma solitude)

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Ferreira Gullar (Subversiva)








SUBVERSIVA




A poesia
quando chega
não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas
relincha
como puta
nova
em frente ao Palácio da Alvorada.


E só depois
reconsidera: beija
nos olhos os que ganham mal
embala no colo
os que têm sede de felicidade
e de justiça


E promete incendiar o país



Ferreira Gullar




18.5.09

Celso Emílio Ferreiro (Monólogo do velho trabalhador)








MONÓLOGO DO VELLO TRABALLADOR





Agora tomo o sol. Pero até agora
traballei cincoenta anos sin sosego.
Comín o pan suando día a día
nun labourar arreo.
Gastei o tempo co xornal dos sábados,
pasou a primavera, veu o inverno.
Dinlle ao patrón a frol do meu esforzo
i a miña mocedade. Nada teño.
O patrón está rico á miña conta,
eu, á súa, estou vello.
Ben pensado, o patrón todo mo debe.
Eu non lle debo
nin xiquera iste sol que agora tomo.
Mentras o tomo, espero.




Celso Emílio Ferreiro




Fontes: CTV (longa noite de pedra) / Wikipedia / Colóquio/Letras (perfil) / BVG (bio+antologia)







16.5.09

Olhar (48)









Doiro / Foz


(by Nokia)
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Nuno Júdice (Passeio no campo)





PASSEIO NO CAMPO (variante)



As vedações, os muros, as cercas
que limitam os campos
são mais visíveis no inverno. Para
passar de um campo a outro
as mãos têm de agarrar a pedra,
de prender o arame, de afastar
os ramos; e o frio da manhã
greta os dedos, imobiliza
o gesto, faz vir as lágrimas
aos olhos - apesar do sol.

É assim que me demoro neste
caminho que nos leva de
um ao outro. É possível que
o Inverno não seja mais
do que uma ilusão; e que os campos
estejam livres de obstáculos,
povoados por pássaros
e coelhos. Mas o frio separa-nos;
muros e muros entre um e outro,
vedações entre o que dizemos,
cercas em que as mãos
se arranham-

E se tentássemos
outro caminho?


NUNO JÚDICE
Teoria Geral do Sentimento (1999)

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Sophia de Mello Breyner Andresen (O velho abutre)









O VELHO ABUTRE





O velho abutre é sábio e alisa suas penas
a podridão lhe agrada e seus discursos
têm o dom de tornar as almas mais pequenas




Sophia de Mello Breyner Andresen


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14.5.09

Vicente Aleixandre (Mais além)







MÁS ALLÁ





Más allá de la vida, mi amor, más allá siempre,
Ahora ligeros, únicos, sobre un lecho de estrellas,
Poblamos a la noche sin límites, vivimos
En muerte, oh hermosa mía, una noche infinita.


Sobre un seno azulado reposa blandamente
Su testa fatigada del mundo. Siento sólo
Tu sangre ya poblada de luces, de miríadas
De astros, y beso el pulso suave del universo y todo
Tu rostro con el leve fulgor de mi mejilla.


Oh triste, oh grave noche completa. Amada, yaces
Perfecta y te repaso, te ciño. Mundo solo.
Universal vivir de un cuerpo que, hecho luces,
Más allá de la vida de un hombre amor permites.



Vicente Aleixandre








Para além da vida, amor meu, sempre mais além,
ligeiros, agora, únicos, sobre um leito de estrelas,
povoamos a noite sem limites, vivemos
em morte, ó formosa minha, uma noite infinita.


Sobre um seio azulado repousa-lhe a cabeça,
brandamente, fatigada do mundo. Sinto apenas
o teu sangue povoado de luzes, de miríades
de astros, beijando o pulso suave do universo
e o teu rosto com o leve fulgor da minha maxila.


Ó triste, ó grave noite completa. Amada, jazes
perfeita e eu revejo-te, cinjo-te. Mundo apenas.
Universal viver de um corpo que, feito luzes,
para lá da vida de um homem amor permites.


(Trad. A.M.)


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Konstandinos Kavafis (Velas)









VELAS






Temos à frente os dias do futuro
como uma fila de velas acesas
– quentes e vivas e douradas velas.


Ficam atrás os dias passados,
fileira triste de velas sem chama:
ainda sobe fumo das que estão mais perto,
vergadas pelas frias que já se apagaram.


Eu não quero vê-las: tanto me entristece o seu ar de agora
como relembrar o fulgor antigo.
Olho à minha frente as velas acesas.


Não vou voltar-me nem vou ver num arrepio
como cresce tanto a fileira escura,
como é tão veloz o apagar das velas.



Konstandinos Kavafis



[Canal de poesia]


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