28.3.07

Machado de Assis (Toma um conselho)











Toma um conselho de amigo
Não te cases, Belzebú;
Que a mulher, como ser humano,
É mais fina do que tu.




Machado de Assis



Fonte: Corte na Aldeia
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Herberto Hélder (Aos amigos)










AOS AMIGOS










Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
-Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.



Herberto Hélder



Antes, aqui: Fonte-I / O amor em visita

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24.3.07

Jaime Sabines (Tia Chofi)





TÍA CHOFI





Amanecí triste el día de tu muerte, tía Chofi,
pero esa tarde me fui al cine e hice el amor.
Yo no sabía que a cien leguas de aquí estabas muerta
con tus setenta años de virgen definitiva,
tendida sobre un catre, estúpidamente muerta.
Hiciste bien en morirte, tía Chofi,
porque no hacías nada, porque nadie te hacía caso,
porque desde que murió abuelita, a quien te consagraste,
ya no tenías qué hacer y a leguas se miraba
que querías morirte y te aguantabas.
Hiciste bien!
Yo no quiero elogiarte como acostumbran los arrepentidos,
porque te quise a tu hora, en el lugar preciso,
y harto sé lo que fuiste, tan corriente, tan simple,
pero me he puesto a llorar como una niña porque te moriste.
Te siento tan desamparada,
tan sola, sin nadie que te ayude a pasar la esquina,
sin quien te dé un pan!
Me aflige pensar que estás bajo la tierra
tan fría de Berriozábal,
sola, sola, terriblemente sola …



Jaime Sabines






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19.3.07

Francisco Rodrigues Lobo (Coração)












Coração, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...



Tão tirana e desigual
Sustentam sempre a vontade,
Que a quem lhes quer de verdade
Confessam que querem mal;
Se Amor para elas não val,
Coração, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...



Se alguma tem afeição
Há-de ser a quem lha nega,
Porque nenhuma se entrega
Fora desta condição;
Não lhes queiras, coração,
E senão, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...



São tais, que é melhor partido
Para obrigá-las e tê-las,
Ir sempre fugindo delas,
Que andar por elas perdido;
E pois o tens conhecido,
Coração, que mais lhe queres?
Que, em fim, todas são mulheres!



Francisco Roíz Lobo



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Alexandre O'Neill (Que bela noite)





Que bela noite ordinária que eu passei!
.............................
Gritei por calculado amor
por brilhantina
por miséria
gritei até por vitória
(supremo humor!)
dos que se batem contra a Cara-Alegre
gritei p'ra não parar de gritar
gritei «Chapultepec!» e «Oaxaca!»
(nomes por excelência afrodisíacos)
gritei até descobrir
o sítio em que te «escondias»
e então deixei-te gritar ...




Alexandre O'Neill
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16.3.07

Um verso (31)





Um verso de Ferreira Gullar

(e bonda):









Os mortos vêem o mundo pelos olhos dos vivos.

Hilda Hilst (Dez chamamentos ao amigo-I)







DEZ CHAMAMENTOS AO AMIGO



(I)

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse


Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.


Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta


Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.



Hilda Hilst



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14.3.07

Aquilino Ribeiro (Outro dia a romper)






(Outro dia a romper…)





Estava a limpar de todo a manhã, e pelas faxas lés a lés do Oriente, agora da cor do pálio, vinha lá um sol criador.

Falava gente pelas portelas, e suas vozes, na rijeza do ar, pareciam sopradas por canudos de lata.

A folha despedia por ali abaixo, coberta de verde, mal amarelejando, de trato em trato, a tez maninha dos pousios.

No souto, que fechava a vista a uma banda, o cuco erguia, muito pausado como a afinar, o seu canto mofareiro.

Fuminhos de névoa voltejavam, ao fundo sobre o Paiva, leves que nem velo de ovelhas brancas, tirado da carda.

Vinha o sol e lambia aquilo mais depressa que a uma laranja o viandante que tem sede.





- AQUILINO RIBEIRO, Terras do Demo, ed. 1963, p. 155.


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Fernando Assis Pacheco (Com a tua letra)





(Suplemento de Assis, por assim dizer...)






COM A TUA LETRA





Porque eu amo-te, quer dizer, estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.




Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.




Fernando Assis Pacheco




Fonte: nEscritas
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10.3.07

Casimiro de Brito (Dois poeminhas)





DOIS POEMINHAS





Não te canses, mosquito,
voando da luz para a sombra.
Pousa no meu coração




Levo para a montanha
meus rios interiores.
Perdem-se com os outros



Casimiro de Brito
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7.3.07

Sor Juana Inés de la Cruz (Redondillas)







REDONDILLAS




Hombres necios que acusáis
a la mujer sin razón,
sin ver que sois la ocasión
de lo mismo que culpáis,


Si con ansias sin igual
solicitáis su desdén
porque quereis que obre bien
si la incitais al mal?


Combatis su resistencia
y luego con gravedad,
decís que fue liviandad
lo que hizo la diligencia.


Parecer quiere el denuedo
de vuestro parecer loco,
al niño que pone el coco
y luego le tiene miedo...



Sor Juana Inés de la Cruz



(Integral: Los Poetas)

>> Cervantes / Los Poetas

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5.3.07

Edgar Morin (O importante na vida)






A sabedoria deve saber que traz em si uma contradição: é louco viver muito sabiamente.

Devemos reconhecer que, na loucura que é o amor, há a sabedoria do amor.

O amor da sabedoria (filosofia) tem falta de amor.

O importante na vida é mesmo o amor.
Com todos os perigos que carrega.




- EDGAR MORIN, Amor, poesia e sabedoria, Lisboa (Piaget), 1999, p. 70.

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Maria do Rosário Pedreira (Diz-me o teu nome)







Diz-me o teu nome - agora, que perdi
quase tudo, um nome pode ser o princípio
de alguma coisa. Escreve-o na minha mão


com os teus dedos - como as poeiras se
escrevem, irrequietas, nos caminhos e os
lobos mancham o lençol da neve com os
sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,


como a levares as palavras de um livro para
dentro de outro - assim conquista o vento
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão
na casa fria. E, antes de partires, pousa-o


nos meus lábios devagar: é um poema
açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.


Ninguém esquece um corpo que teve
nos braços um segundo - um nome sim.




Maria do Rosário Pedreira



Antes, aqui: Guarda tu (com sinopse) / Não adormeças


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1.3.07

Paul Valéry (Poema e romance)


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O poema está para o romance como o som para o ruído.
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Paul Valéry
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Carlos Drummond de Andrade (Ainda que mal)









AINDA QUE MAL












Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.




Carlos Drummond de Andrade




Antes, aqui: Amor (sinopse) / O seu santo nome / No meio do caminho

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27.2.07

Um verso (30)






Um verso de Sabines
(e com este vão dois):




“Não me ponhas o amor nas mãos como um pássaro morto”.
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23.2.07

Yannis Ritsos (Explicação necessária)

Punta del Este
Uruguay
(Foto: Milka)




EXPLICAÇÃO NECESSÁRIA



Há certos versos - às vezes poemas inteiros -
que eu próprio não sei o que querem dizer. O que ignoro
retém-me ainda. E tu, tu tens razão em interrogar. Não interrogues.
Já te disse que não sei.
Duas luzes paralelas
vindo do mesmo centro. O ruído da água
que cai, no inverno, da goteira a transbordar
ou o ruído de uma gota de água caindo
de uma rosa no jardim, regado há pouco,
devagar, devagarinho, uma tarde de primavera,
como o soluço de um pássaro. Não sei que quer dizer este ruído; contudo aceito-o.
As coisas que sei explico-tas,
sem negligência.
Mas as outras também acrescentam a nossa vida.
Eu olhava
o seu joelho dobrado, como ela dormia,
levantando o lençol -
não era apenas amor. Este ângulo
era o cume da ternura, e o cheiro
do lençol, a lavado e a primavera, completava
este inexplicável, que eu procurei,
em vão ainda, explicar-te.



Yannis Ritsos
(1909-1990)

(Trad. Eugénio de Andrade)


Antes, aqui: O sentido da simplicidade

Manuel Bandeira (Irene no céu)





IRENE NO CÉU





Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.



Imagino Irene entrando no céu:
Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.



Manuel Bandeira

Jorge de Aguiar (Contra as molheres)






CONTRA AS MOLHERES





Esforça-te meu coraçom,
não te mates, se quiseres,
lembra-te que sam molheres.



Lembra-te qu’é por naçer
nenhûa que nam errasse
lembrete que seu prazer,
por bondade e mereçer,
nam vi que dele gostasse,
pois nam te des a paixam,
toma prazer se poderes,
lembra-te que sam molheres.



Descansa, triste, descansa,
que seus males sam vingãças,
tuas lagrimas amansa,
leix’as suas esperanças.
Ca pois naçem sem rezã,
nunca por ella lhesperes;
lembra-te que sam molheres.



Tuas mui grãdes firmezas,
tuas grandes perdições
suas desleais nações
causaram tuas tristezas.
Pois nã te mates em vão,
que quanto mais as quiseres,
veras que sam molheres.



Que te presta padeçer,
que taproveita chorar,
pois nunc’outras ham de ser,
nem sam nunca de mudar?
Deix’as com sua naçam,
seu bem nunca lho esperes;
lembra-te que sam molheres.



Não te mates cruamente
por que fez ta grande errada,
que quem de si se nam sente,
por ti nam lhe dará nada.
Vive lançando pregam
por hu fores e vieres,
que sam molheres, molheres.


Cabo

Espanha foi já perdida
por Letabla hûa vez,
e a Troia destroida
por males qu’Elena fez.
Desabafa, coraçam,
vive, nam te desesperes,
que quem fez pecar Adam
foi a mãi destas molheres.



Jorge d’Aguiar

(Cancioneiro Geral, II, 281)


Fonte: Multiculturas