25.7.06

Cristóvão de Aguiar (De novo a voz do Ti José Pascoal)





De novo a voz do Ti José Pascoal em mim ressuscitada acotovela-me os recantos iluminados da memória e vem guiar-me no labirinto desta escrita estendida nos refegos de uma madrugada cinzenta.

Estendo-lhe a minha voz fraterna e assim, voz na voz, rompemos juntos numa aventura que nos levará ao reino ignorado e deslumbrante onde os habitantes são palavras à espera da varinha mágica que as transfigure no pão e no vinho da nossa fome e da nossa sede.

Na Ribeira Grande, era de um home ir encomendando a alminha ao Criador, pois o que tinha de mais certo era seguir no endireito da terra dos pés juntos.

Esticava o pernil em mentes o diabo esfrega um olho.

Coitado de quem não tinha um chavo de seu pra mandar cantar um cego.

Era a modos que a petinga, todo o peixe la come.

Se acaso um pobretanas qualquer calhava a apanhar um mal ruim, desses que é logo preciso abrir o corpo com a faquinha dos doutores, não tinha outro remédio senão marchar de atestado de pobreza na mão pra a Misericórdia da Vila.

Uma dor de alma (…).



- CRISTÓVÃO DE AGUIAR, A semente e a seiva, cap. XIII, abertura, da trilogia Raiz Comovida.

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23.7.06

Nuno Júdice (Aparição num dia de inverno)






APARIÇÃO NUM DIA DE INVERNO




Um dia, lendo este poema, lembrar-te-ás:
o amor falou através dele.
Ouvirás no seu ritmo
a voz que tantas vezes desejaste;
reconhecerás nos seus versos
o corpo que encheu a tua vida;
tocarás em cada uma das suas palavras
os dedos que te ensinaram a medir os dias
pelas suas contas de ternura.
E o tempo entrará por ti
como esse rio que alagou os campos do inverno.
Olharás à tua volta, vendo a desolação
de uma paisagem inundada.
Algures, porém, uma árvore antiga sobressai;
e os seus ramos verdes
dar-te-ão a esperança de uma nova primavera,
em que voltes a ouvir a voz
que o poema te trouxe
com os seus dedos de música.



Nuno Júdice
(imagem também daí)

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Fernando Assis Pacheco (Há um veneno em mim)






(VERSOS QUE O AUTOR
MANDOU DE NAMBUANGONGO AO EDITOR)





Há um veneno em mim que me envenena,
um rio que não corre, um arrepio,
há um silêncio aflito quando os ombros
se cobrem de suor pesado e frio.


Há um pavor colado na garganta,
e tiros junto à noite, e o desafio
(algures na escuridão) de alguma coisa
calando o fraco apelo que eu envio.


Há um papa que morre enquanto escrevo
estas linhas de angústia e solidão,
há o fogo da Breda, os olhos gastos.


Há a mulher que espera confiada
um pálido vazio aerograma;
e há meu coração posto de rastos.



Fernando Assis Pacheco

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22.7.06

Ângelo de Lima (Eu ontem vi-te)






EU ONTEM VI-TE...




Eu ontem vi-te...
Andava a luz
do teu olhar,
que me seduz,
a divagar
em torno de mim.
E então pedi-te,
não que me olhasses,
mas que afastasses,
um poucochinho,
do meu caminho,
um tal fulgor.
De medo, amor,
que me cegasse,
me deslumbrasse
fulgor assim.


Ângelo de Lima





Biografia
Nasceu no Porto em 1872, filho do poeta romântico Pedro de Lima.
Frequentou o Colégio Militar, em Lisboa, de onde foi expulso, e a Academia de Belas Artes do Porto.
Conspirador da revolução republicana de 31 de Janeiro, foi enviado, um pouco antes desta ocorrer, numa expedição militar a Moçambique entre 1891 e 1892 .
Após o seu regresso de África começou a manifestar os primeiros sintomas de loucura, que conduziram ao seu internamento, entre 1894 e 1898, no Hospital Conde Ferreira.
Foi nessa época director artístico de «A Geração Nova».
Continuando a sua actividade poética e artística, foi de novo internado em 1901, em Rilhafoles, onde permaneceu grande parte da sua vida.
Acolhido pela primeira geração modernista, a sua poesia foi revelada pela revista modernista “Orpheu”, que publicou pela primeira vez um conjunto significativo de poemas seus no 2.º número da revista.
Nesses poemas notavam-se já algumas das características mais marcantes da sua poesia, nomeadamente o carácter desviante da sua linguagem e o emprego de vocábulos novos, o que o aproximava da corrente simbolista e modernista.
Ângelo de Lima, nos seus momentos de lucidez, foi compondo poemas que vieram a lume em «Poesias Completas» 1971 .
São notáveis alguns dos seus sonetos.
Na sua obra há sinais precursores da escrita automática dos surrealistas.
Tão vaga era a sua poesia que algumas das suas composições não chegavam a exprimir fosse o que fosse de literal.
A sua linguagem poética parece reflectir a doença mental que o vitimou, e os seus versos, se por vezes dão a sensação de terem sido escritos no mais completo estado de alucinação, conseguem também ser extremamente lúcidos e bem construídos.
Ângelo de Lima faleceu em Lisboa em 1921, no Hospital de Rilhafoles.



Fonte (poema) / Mais poemas

Fonte (biografia) / Outros poemas

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18.7.06

Um verso (17)






Um verso de NSQ
(... não sei quem):





"Nenhum dos meus caminhos guarda a tua sombra".

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Maria Teresa Horta (Masturbação)






MASTURBAÇÃO




Eis o centro do corpo
o nosso centro
onde os dedos escorregam devagar
e logo tornam onde nesse
centro
os dedos esfregam - correm
e voltam sem cessar


e então são os meus
já os teus dedos
e são meus dedos
já a tua boca
que vai sorvendo os lábios
dessa boca
que manipulo - conduzo
pensando em tua boca


Ardência funda
planta em movimento
que trepa e fende fundidas
já no tempo
calando o grito nos pulmões da tarde


E todo o corpo
é esse movimento
que trepa e fende fundidas
já no tempo
calando o grito nos pulmões da tarde


E todo o corpo
é esse movimento
em torno
em volta
no centro desses lábios
que a febre toma
engrossa
e vai cedendo a pouco e pouco
nos dedos e na palma



Maria Teresa Horta


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16.7.06

Alexandre Herculano (Porque não adormeço eu)




(Lido aos 18 anos, jamais esquecido…)




Porque não adormeço eu, como o rude barqueiro, ao murmúrio das vagas sonolentas, ao sussurro da brisa do norte?

Porque mulher bárbara não entendeu o que valia o amor de Eurico; porque velho orgulhoso e avaro sabia mais um nome de avós do que eu, e porque nos seus cofres havia mais alguns punhados de ouro do que nos meus.

As mãos imbeles de uma donzela e de um velho esmagaram e despedaçaram o coração de um homem, como os caçadores cobardes assassinam no fojo o leão indomável e generoso.

E, todavia, este coração sentia a voz da consciência pregoar-lhe largos destinos!

Porque não emudeceu essa voz quando do pórtico do templo lancei ao mundo a maldição da despedida?

Porque me lembra com saudade, aqui, a estas horas, o tempo das minhas esperanças?



ALEXANDRE HERCULANO, Eurico, o Presbítero, VI, 2.

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11.7.06

Paul Eluard (Certitude)






CERTITUDE



Si je te parle c'est pour mieux t'entendre
Si je t'entends je suis sûr de te comprendre


Si tu souris c'est pour mieux m'envahir
Si tu souris je vois le monde entier


Si je t'étreins c'est pour me continuer
Si nous vivons tout sera à plaisir


Si je te quitte nous nous souviendrons
En te quittant nous nous retrouverons



Paul Eluard

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7.7.06

Cristóvão de Aguiar (O dia de cozedura de vavó Luzia)





(E vai uma...)



O dia de cozedura de vavó Luzia calhava sempre à sexta-feira.

O chão da cozinha, revestido de tijolos vermelhos e que nos outros dias da semana se podia varrer com a língua, ficava, nesse dia, num verdadeiro esparrame: os molhos de lenha de ramada e de tremoceiros atados com um baraço de tabuga e emedados ao pé do talhão da água, os alguidares de barro da Vila em cima da amassaria com a massa levedando que era um louvar a Deus - ela nunca se esquecia de a benzer e encomendar no fim da amassadura, ao acrescentar-lhe o fermento - e vavó, lenço pela testa e amarrado atrás na nuca, a cova-do-ladrão, numa dobadoira viva, as faces tintas do lume, ora tendendo o pão já lêvedo, ora botando lenha no forno para o esquentar.

Todas as manhãs que Nosso Senhor botava ao mundo, no meu caminho para a escola do senhor professor Anacleto, o Caniço, por ser acrescentado em tamanho e escanzelado de carnes, era certo como a Igreja que tinha paragem obrigatória na tenda do meu avô José dos Reis, à ilharga da casa.

Pedia-lhe a bênçao, vavô subença, Deus te abençoe, meu rico home, e, enquanto o dianho esfregava um olho e coçava o rabo pelado, dava meia volta pelas traseiras e ia ter à cozinha, onde era milagre não se encontrar vavó Luzia na lida das panelas, da lavagem ou do pão.



- CRISTÓVÃO DE AGUIAR, A semente e a seiva, cap. I, abertura, da trilogia Raiz Comovida.

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António Ramos Rosa (Grito claro)






GRITO CLARO



De escadas insubmissas
de fechaduras alerta
de chaves submersas
e roucos subterrâneos
onde a esperança enlouqueceu
de notas dissonantes
dum grito de loucura
de toda a matéria escura
sufocada e contraída
nasce o grito claro



ANTÓNIO RAMOS ROSA
Viagem Através duma Nebulosa
(1960)

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3.7.06

Bernardim Ribeiro (Écloga de Jano e Franco)













ÉCLOGA DE JANO E FRANCO
(Excerto)






Dizem que havia um pastor
antre Tejo e Odiana,
que era perdido de amor
per üa moça Joana.
Joana patas guardava
pela ribeira do Tejo,
seu pai acerca morava
e o pastor, de Alentejo
era, e Jano se chamava.


Quando as fomes grandes foram,
que Alentejo foi perdido,
da aldeia que chamam o Terrão
foi este pastor fugido.
Levava um pouco de gado,
que lhe ficou doutro muito
que lhe morreu de cansado;
que Alentejo era enxuito
d'água e mui seco de prado.


Toda terra foi perdida;
no campo do Tejo só
achava o gado guarida:
ver Alentejo era um dó!
E Jano, pera salvar
o gado que lhe ficou,
foi esta terra buscar;
e, se um cuidado levou,
outro foi ele lá achar.


O dia que ali chegou
com seu gado e com seu fato,
com tudo se agasalhou
em üa bicada de um mato.
E levando-o a pascer,
o outro dia, à ribeira,
Joana acertou de ir ver,
que se andava pela beira
do Tejo a flores colher.


Vestido branco trazia,
um pouco afrontada andava;
fermosa bem parecia
aos olhos de quem na olhava.
Jano, em vendo-a, foi pasmado;
mas, por ver que ela fazia,
escondeu-se antre um prado:
Joana flores colhia,
Jano colhia cuidado.
(…)


Bernardim Ribeiro


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1.7.06

Fernando Assis Pacheco (Chula das fogueiras)






CHULA DAS FOGUEIRAS




Passarei por ti na Visconde da Luz
Passarás por mim na Alexandre Herculano
passaremos um pelo outro distraídos e parvos
na Rua Olímpio Nicolau Rui Femandes


tu fanê eu gato-pingando no meu casibeque velho
vasculhando a Sereia mas sem nunca nos vermos


o teu suspiro sacudirá as águas
acenderei um cigarro pensando que estou triste


é notável tudo isto o amor do amor
em rosa e oiro. E não há cura



Fernando Assis Pacheco

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28.6.06

Um verso (16)

















Um verso de Sophia
(Meditação do Duque de Gandia):




“Nunca mais servirei senhor que possa morrer”.




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Jorge de Sena (Conheço o sal)





Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousada em suor nocturno.


Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.


Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.


Conheço o sal que resta em minhas mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.


Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.


A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.



Jorge de Sena


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23.6.06

Tomaz de Figueiredo (Pulou do quente)





Pulou do quente ainda com estrelas e quase nem molhou a ponta do nariz, engoliu uma água de unto e tragou um dedal de aguardente, descompôs a mulher, à pressa, por lhe questionar e chorar a côdea do cão, e, mal que apresilhado o cinto e embandoleirada a escopeta, ala, que se faz tarde, baforando fumaças e respiração pelo nevoeiro, como se fosse a arder.

Cara de múmia, enxuta, de peliças enfoladas para o vazio de dentes, ainda por cima pelo tabaco de cinquenta anos, logo apagado se o não puxasse, Manuel Félix todo ele era seco: mãos de santo de aldeia, só tendões e osso, tostadas, quadris por onde o cós das calças fugia, esbarrigando a camisa de tomentos, canelas a que umas polainas ressecas e sem boleio davam o ar das pernas de pau levadas a Santo Amaro, de promessa, por coxos sarados.

Como se afiada em rebolo, dir-se-ia quebra-vento apropositado a cana do nariz, e não seriam as costeletas, de ralas, tojo molarinho, que o tolheriam de papar léguas em cima de léguas, tanto como nem os setenta anos, cumpridos em Janeiro, mês dos gatos, que têm sete fôlegos.



TOMAZ DE FIGUEIREDO, “Drama”, em Tiros de Espingarda (Verbo, 1984)

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22.6.06

Jorge Luís Borges (E aprende-se)







Depois de algum tempo,
aprende-se a subtil diferença
entre tomar uma mão
e aprisionar uma alma,
e aprende-se
que o amor não significa deitar-se
e uma companhia não significa segurança
e começamos a aprender…
Que os beijos não são contratos
e os presentes não são promessas
e começamos a aceitar as nossas derrotas
de cabeça erguida e de olhos abertos
e aprendemos a construir
os nossos caminhos no hoje,
porque o terreno do amanhã
é demasiado inseguro para planos…
e os futuros ficam-se pela metade.
E depois de algum tempo
aprende-se que se for de mais
até o calorzito do sol queima.
Daí que plantemos o nosso próprio jardim
e decoremos a própria alma,
em vez de esperar que alguém nos traga flores.
E aprendemos que realmente podemos aguentar,
que realmente somos fortes,
que valemos realmente,
e aprendemos, aprendemos…
e com cada dia aprendemos.



Jorge Luís Borges


Original: Aguarelas-de-Turner
(Trad. A.M.)
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19.6.06

Fernando Assis Pacheco (Canção do ano 86)





CANÇÃO DO ANO 86




Agora quando volto
quando é raro voltar e sempre por um dia
estou à minha espera na ponte de Santa Clara
com um ramo de rosas que levanto
à aproximação do carro
saudando-te caro Fernando Assis Pacheco
filho pródigo destes quintais floridos


quando acontece que volto
que assim volto por pouquíssimo tempo dou comigo
na berma da EN 1 a olhar à esquerda o Vale do Inferno
hoje estragado por um sacana qualquer dum engenheiro
dizendo adeus adeus Fernando Assis Pacheco
menino antigamente sem cuidado


se é que volto intimado pela agenda
do jornal em Condeixa já inquieto espreito
a ver se vens dos lados de Pombal
oitavo duma fila atrás dum camião
coçando a barba gesto bem teu
com que disfarças o nervoso e a pressa


volto sem querer quando decerto
mais não queria voltar
encasacado anónimo de olho circunvago
Leiria num relance prego no fundo
apetecia parar ao pé de ti Fernando Assis Pacheco
cálido aceno do que morreu
conversarmos os dois sobre esse século esses
cafés com quatro mesas e matraquilhos na cave a cheirar a bolor
essas aulas a que faltávamos no último período para empatar cinco a cinco com
os varões todos torcidos
consta que desde então não fazes mais do que perder



Fernando Assis Pacheco

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Claribel Alegria (Cada vez)











CADA VEZ






Cada vez que te amo
vida y muerte
están presentes:
amanecer
y noche
paraíso
sepulcro.


Claribel Alegria



BIOGRAFIA
Poeta centroamericana nacida en Estelí, Nicaragua, en 1924.
Desde muy niña se trasladó y vivió con su familia en El Salvador y en 1943 viajó a EE.UU. donde obtuvo el título en Filosofía y Letras por la Universidad George Washington.
Después de residir por varios años en EE.UU., contrajo matrimonio y viajó por diferentes países, regresando a Nicaragua en 1985 para servir de baluarte en la reconstrucción de su país.
Ha publicado una veintena de libros de poesía y narrativa así como muchos testimonios históricos.
Es además traductora de algunos poetas norteamericanos y autora de la publicación «Nuevas voces de Norteamérica».
En 1978 obtuvo el premio Casa de las Américas por Sobrevivo, y en el año 2000, el Premio de Poesía de Autores Independientes.
De su obra, se destacan además, Anillo de Silencio, Vigilias, Umbrales, Fuga de Canto Grande, La mujer del río y su última producción, Saudade.



Fonte / Mais poemas

Muitos poemas mais

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12.6.06

António Franco Alexandre (É mais fácil de longe imaginar)






É mais fácil de longe imaginar
o que seria ter-te aqui presente
do que seria ter-te e não saber
com que forma de corpo receber-te.
Talvez um amplo véu oriental
ou o brilho mental de uma armadura
me deixassem arder sem ser molesto
no lume horizontal de uma figura.
Se te vejo, já está o meu desejo,
enquanto estavas longe, satisfeito;
no teu olhar encontro tudo quanto
à altura de amor é mais perfeito.
E no entanto, perto, fico incerto
se não é melhor bem o que imagino.



ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE
Duende
(2002)



BIOGRAFIA
António Franco Alexandre nasceu em 1944, em Viseu, onde viveu até ir para Toulouse (França), estudar Matemática, aí vivendo até 1969.
Partiu depois para Harvard para continuar a estudar Matemática.
Regressou em 1971 a França, desta vez Paris.
Em 1975, com um doutoramento em Matemática, voltou a Portugal e foi convidado para leccionar Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Estreou-se como poeta ainda na década de sessenta, mas foi sobretudo a partir da publicação de "Sem Palavras nem Coisas" (1974) que a sua obra se afirmou, com um «discurso centralmente inovador», segundo Joaquim Manuel Magalhães, numa poesia que cruza diversas referências culturais.
Considerado por Óscar Lopes a melhor revelação poética dos anos oitenta, António Franco Alexandre surpreende por uma ostensiva negação dos valores lógicos do discurso: não se trata nem do não-sentido surrealista que encontra a sua ordem na própria desordem do inconsciente, nem do nonsense que procura pelo absurdo colocar em causa a possibilidade de comunicação da linguagem delida pelo seu uso quotidiano; mas, como propõe Óscar Lopes, de um “pré-sentido, ou pré-percepção, um breve indício de sentido”, que confere a impressão de “uma poesia do subliminar, mas de um subliminar que todavia acede à palavra, como configuração semi-inteligível e todavia flagrante”.
Em 1996 reuniu toda a sua poesia (com excepção do primeiro livro, "Distância") no volume "Poemas", e em 1999 publicou "Quatro Caprichos", ao qual foi atribuído o Prémio APE de Poesia 1999.
Franco Alexandre, que na poesia portuguesa contemporânea não se sabe situar – "Não sei quem é a minha família, não sei se existe..." – continua a tomar como influência maior os grandes textos bíblicos.
Foi para os poder ler que esteve diversas vezes em Jerusalém a estudar hebraico. "É uma cultura que hoje quase desconhecemos...", diz ele.
Obras: "A Distância" (1969), "Dos Jogos de Inverno", "Sem Palavras Nem Coisas" (1974), "Os Objectos Principais" (1979), "Visitação" (1982), "A Pequena Face" (1983), "As Moradas 1&2" (1987), "Oásis" (1992), "Poemas" (1996), "Les Objets Principaux" (1996), "Quatro Capricho" (1999).



Fonte (biografia) / Outros poemas

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Um verso (15)






Um verso de Ruy Belo
(com dois de bónus):




Este céu passará e então
teu riso descerá dos montes pelos rios
até desaguar no nosso coração

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