8.4.26

Javier Olalde (Voltou a chuva)




VOLVIÓ LA LLUVIA

 

Mi sentimiento es un crepúsculo de plomo 
mojado,
desleído entre las luces de las calles 
por las que no regresas 
a esta casa de cuando éramos otros 
y todas las aceras nos llevaban 
camino del encuentro.

Volvió la lluvia. 
Será un invierno largo. 


Javier Olalde

 

 

Meu sentimento é um crepúsculo de chumbo
molhado,
diluído entre as luzes das ruas
por onde não regressas
a esta casa de quando éramos outros
e os caminhos todos nos levavam
em direcção ao encontro.

Voltou a chuva.
Será um inverno longo.


(Trad. A.M.)

.

7.4.26

Javier Cánaves (Canção para os dias de mudança)




CANCIÓN PARA LOS DÍAS DE MUDANZA 

 

Los días de mudanza
tienen su propia luz.
 

Es la luz que en los puertos
avienta los pañuelos
y las ensoñaciones. 

Es la luz indecisa
de un domingo sin ella
después de muchos meses. 

Es la luz que enmarcaba
el perfil de mi padre
una tarde de fútbol.
 

Los días de mudanza
tienen su propia luz.
 

Es la luz que retienen
algunas fotos viejas
cuando toca balance.
 

Es la luz detenida
en un trozo del muro
de la que fue tu casa. 

Es la luz de Lisboa
una tarde en La Baixa
antes de ser acróbatas.
 

Los días de mudanza
tienen su propia luz.
 

Y es esta luz que acuna
el temor y el deseo
en un mismo regazo, 

el ayer y el mañana,
la ruleta y la inercia,
al niño y al adulto.
 

Es la luz que te impone
el gesto de la duda
en la casa vacía.
 

Javier Cánaves 

 

Os dias de mudança
têm sua própria luz.

É a luz que nos portos
aventa os panais
e as fantasias.

É a luz indecisa
de um domingo sem ela
depois de muitos meses.

É a luz que enquadrava
o perfil de meu pai
uma tarde de futebol.

Os dias de mudança
têm sua própria luz.

É a luz que retêm
certas fotos antigas
quando toca balanço.

É a luz detida
num trecho de muro
da que foi tua casa.

É a luz de Lisboa
uma tarde na Baixa
antes dos acrobatas.

Os dias de mudança
têm sua própria luz.

E é esta luz que embala
o temor e o desejo
num mesmo regaço,

Ontem e amanhã,
a roleta e a inércia,
menino e adulto.

É a luz que te impõe
o gesto de dúvida
na casa vazia.


(Trad. A.M.)

.

5.4.26

Lêdo Ivo (A Johannes Vermeer)




A JOHANNES VERMEER

 

Pintas apenas formas sob vários espaços:
a moça de turbante azul, cenas, paisagens.

Fazes, Johannes Vermeer, a claridade, o sol
de tua vida obscura entre as ruas de Delft.

Operário da luz!


Lêdo Ivo

 .

3.4.26

Jaime Sabines (Tal como noite de bebedeira)



Igual que la noche de la embriaguez,
igual fue la vida.
¿Qué hice?, ¿que tengo entre las manos?
Sólo desear, desear, desear,
ir detrás de los sueños
igual que un perro ciego ladrándole a los ruidos.
 

Jaime Sabines

[Sureando] 

 

Tal como noite de bebedeira,
assim foi a vida.
O que fiz eu? O que tenho nas mãos?[
Desejar, desejar, só desejar,
ir a correr atrás dos sonhos
como um cachorro cego a ladrar aos barulhos.
 

(Trad.A.M.)

 .

2.4.26

Jaime Gil de Biedma (Hino à juventude)




HIMNO A LA JUVENTUD

 

A qué vienes ahora,
juventud,
encanto descarado de la vida?
Qué te trae a la playa?
Estábamos tranquilos los mayores
y tú vienes a herirnos, reviviendo
los más temibles sueños imposibles,
tú vienes para hurgarnos las imaginaciones. 

De las ondas surgida,
toda brillos, fulgor, sensación pura
y ondulaciones de animal latente,
hacia la orilla avanzas
con sonrosados pechos diminutos,
con nalgas maliciosas lo mismo que sonrisas,
oh diosa esbelta de tobillos gruesos,
y con la insinuación
(tan propiamente tuya)
del vientre dando paso al nacimiento
de los muslos: belleza delicada,
precisa e indecisa,
donde posar la frente derramando lágrimas. 

Y te vemos llegar -figuración
de un fabuloso espacio ribereño
con toros, caracolas y delfines,
sobre la arena blanda, entre la mar y el cielo,
aún trémula de gotas,
deslumbrada de sol y sonriendo. 

Nos anuncias el reino de la vida,
el sueño de otra vida, más intensa y más libre,
sin deseo enconado como un remordimiento
-sin deseo de ti, sofisticada
bestezuela infantil, en quien coinciden
la directa belleza de la starlet
y la graciosa timidez del príncipe. 

Aunque de pronto frunzas
la frente que atormenta un pensamiento
conmovedor y obtuso,
y volviendo hacia el mar tu rostro donde brilla
entre mojadas mechas rubias
la expresión melancólica de Antínoos,
oh bella indiferente,
por la playa camines como si no supieses
que te siguen los hombres y los perros,
los dioses y los ángeles,
y los arcángeles,
los tronos, las abominaciones...
 

Jaime Gil de Biedma 

 

A que vens tu agora,
juventude,
encanto descarado da vida?
O que é que te traz à praia?
Estávamos tranquilos os mais velhos
e cá vens tu a ferir-nos, com reviver
os nossos sonhos impossíveis,
cá vens a remexer-nos a imaginação. 

Erguida das ondas,
toda brilho, fulgor, sensação pura
e jeito de animal bravio,
avanças para a margem
com teus peitos pequenos e rosados,
com nádegas de malícia tal como o sorriso,
ó deusa esbelta de tornozelo grosso
e com a insinuação (tão tua)
do ventre, a dar passagem
para as coxas, beleza delicada,
precisa e indecisa,
para se pousar a fronte 
e deixar correr as lágrimas. 

E vemos-te chegar - figuração 
de um fabuloso espaço ribeirinho
com toiros, búzios e golfinhos,
sobre a areia mole, entre o mar e o céu,
ainda trémula de gotas,
deslumbrada de sol e sorrindo. 

Anuncias-nos o reino da vida,
o sonho de outra vida, mais intensa e mais livre,
sem desejo inflamado como um remorso
 - sem desejo de ti, bestinha
infantil sofisticada, juntando
a beleza directa da starlet
e a timidez graciosa do príncipe. 

Embora de repente franzas 
a testa com um pensamento 
obtuso e comovido, 
e virando a cara para o mar,
onde brilha a expressão melancólica de Antinoo,
ó bela indiferente,
pela praia caminhes como se não te soubesses
seguida pelos homens e pelos cães,
pelos deuses e anjos e arcanjos,
por trovões, por abominações…
 

(Trad. A.M.)

 .

31.3.26

Jorge Sousa Braga (O jacarandá)




O JACARANDÁ 

 

Extravasou do largo o jacarandá
Com as suas flores miúdas
ocupa agora toda a manhã

 

Jorge de Sousa Braga

 .

29.3.26

Isabel Fraire (O nome da luz)




O nome da luz
nos mandam as estrelas 

lâmpada
escura luz
tirada da terra 

luz e noite se assombram
mutuamente  

amanhecer

de repente
a luz se faz silêncio  

a luz
nada no silêncio 
o dia move-se 

a luz brinca de espelho
e baila
coquete excitada
com a própria sombra 

corre na água 
a luz
perseguida por seus cabelos 

luz nos vidros
pássaro detido
luz na água
bando em fuga 

luz lânguida suspira
em teu corpo calado 

assomo a teus olhos
e atravesso
países luminosos
 

Isabel Fraire 

(Trad. A.M.)

 .


28.3.26

Iosu Moracho Cortés (Dia 167)




DÍA CIENTO SESENTA Y SIETE

 

Lo dice Ernesto Sábato:
Es el otro el que siempre nos salva.

Tiene razón,
por sí solos, nosotros
estamos perdidos.

Iosu Moracho Cortés

 


Di-lo Ernesto Sábato:
É o outro quem nos salva sempre.

E tem razão,
sozinhos, nós
estamos perdidos.


(Trad. A.M.)

.

26.3.26

Helga Moreira (Tenho a vida feita num novelo)




Tenho a vida feita num novelo,
não pertenço a lado nenhum,
não tenho
país ou terra, nenhuma raiz,
nem escolhas ou nome,
nada a dizer, nada a calar, 

nem harmonias ou crenças
nem desígnios. 

Uma linha apenas
num mar de mós
sem moinhos.

Helga Moreira

 .

24.3.26

Idea Vilariño (Quando comprar um espelho)




Cuando compre un espejo para el baño
voy a verme la cara
voy a verme
pues qué otra manera hay decíme
qué otra manera de saber quién soy.
Cada vez que desprenda la cabeza
del fárrago de libros y de hojas
y que la lleve hueca atiborrada
y la deje en reposo allí un momento
la miraré a los ojos con un poco
de ansiedad de curiosidad de miedo
o sólo con cansancio con hastío
con la vieja amistad correspondiente
o atenta y seriamente mirarme
como esa extraña vez-mis once años-
y me diré mirá ahí estás
seguro
pensaré no me gusta o pensaré
que esa cara fue la única posible
y me diré esa soy yo ésa es idea
y le sonreiré dándome ánimos.


Idea Vilariño 

 

Quando comprar um espelho
vou ver a minha cara
vou ver-me
pois que outro modo há dizei-me
que outro modo de saber quem sou.
Cada vez que soltar a cabeça
da desordem de livros e folhas
e a trouxer oca a abarrotar
e a deixar um momento ali em repouso
hei-de olhá-la nos olhos com um pouco
de ansiedade, medo, curiosidade
ou só com cansaço ou fastio
com a velha e devida amizade
ou olhar-me atenta e séria
como daquela vez – nos meus onze anos –
e direi olha, estás aí,
decerto
pensarei não me agrada ou pensarei
que essa cara foi a única possível
e direi essa sou eu essa é Idea
e hei-de sorrir-lhe e dar-me ânimo.
 

(Trad. A.M.)

 .

23.3.26

Horacio Castillo (Geração)




GENERACIÓN 

 

Animales de carne y hueso, con un poco de luz
   irremediable en los ojos,
a veces nos creíamos criaturas heroicas
y corríamos a las plazas. Escuchábamos
bellísimas palabras, las voces se otorgaban idéntico calor
y sentíamos el placer de la acción.
Pero luego, entre ruinas, comiendo el pan del sobreviviente,
comprendíamos. Y al salir el sol,
mientras los escarabajos emergían de las piedras,
avivábamos el fuego para ahuyentar la peste
y llorábamos por la siguiente generación.
 

Horacio Castillo  

[Otra iglesia]

  

Animais de carne e osso, com um pouco de luz
nos olhos, irremediável,
às vezes julgávamo-nos criaturas heróicas
e corríamos às praças. Escutávamos 
belas palavras, as vozes assumiam o mesmo calor
e sentíamos o prazer da acção.
Mas depois, entre ruínas, comendo o pão do sobrevivente,
compreendíamos enfim. E ao vir o sol,
com os escaravelhos a emergir dentre as pedras,
avivávamos o fogo para afugentar a peste
e chorávamos pela geração seguinte.
 

(Trad. A.M.)

 .

21.3.26

Armando Silva Carvalho (Janeiro de sessenta e dois)

 



JANEIRO DE SESSENTA E DOIS

 

Janeiro português que entrou mansinho
desistiu quase pela chuva
mas entrou
limpando docemente os pés. 

Mas quase um janeiro de almanaque:
com burros em Lisboa cochichando
com damas coroadas de cinzento
e os pobres aos pulinhos nos cafés. 

Sacodem-no apressadas as varinas,
ideias adoecem-no sem asas
e os burgueses roçam com a língua
plo ventre melancólico das casas. 

Seus dias vão depressa para os ardinas,
poleiro persistente onde um cavalo
relincha no colo das semanas
miando desastrado como os sinos,
metido com vamps americanas. 

Janeiro português por onde poisas,
doméstica abelha sem corola
arrastas sem saber o gosto as coisas
e a tia chega ao fim da camisola.

Armando Silva Carvalho 

[Instituto Camões]

.

 

19.3.26

Hilario Barrero (Maré alta)




MAREA ALTA



Somos como dos islas separadas
porque nos cubre el agua
y solo deja ver nuestras cabezas.
Si en el mar que vivimos hubiera una marea,
cuando el agua bajara,
los que miran con ojos de secano,
verían que la base es una roca firme,
incrustada de fechas, pasiones y recuerdos,
que la vida que todo lo erosiona
intenta separar, pero no puede.


Hilario Barrero

 

 

Somos como duas ilhas separadas
porque nos cobre a água,
deixando à mostra só as cabeças.
Se no mar que vivemos houvesse maré,
quando a água baixasse,
os que olham com olhos de sequeiro     
veriam que o fundo é rocha firme,
incrustada de datas, paixões e lembranças,
que a vida que tudo rompe
tenta separar, mas não consegue.


(Trad. A.M.)

.

18.3.26

Pedro López Lara (O outro autor)




O OUTRO AUTOR 

Ler os próprios versos é tarefa ingrata.
Falam de modo estranho, como se estivessem
pendentes sempre de si mesmos.
Dizem coisas estranhas.

Quem neles se expressa é um desconhecido
cansado e amargo, que finge surpreender-se
com as coisas mais triviais:
que o tempo passe, que os amigos o traiam,
que as mulheres o deixem.

Assombra-o que não seja aquilo aquilo que já não é.
Parece obcecado com a morte.

Pedro López Lara

(Trad. A.M.)

.

15.3.26

Giuseppe Ungaretti (Rosas em chamas)

 



ROSE IN FIAMME

 

Su un oceano
di scampanellii
repentina
galeggia un’altra mattina

Giuseppe Ungaretti

  

Num oceano
de zumbidos
súbita
bóia uma nova manhã


(Trad. A.M.)


12.3.26

Francisco Duarte Mangas (Macela)

 



MACELA

 

brevíssimos sóis dos muros
vivem em cardume 
observando a estrada
a sua resistência é infinita
que o digam os antigos cantoneiros
no início da primavera
arrancavam essa luz aromática 
com medo de a sua beleza
distrair os raros e vagarosos automobilistas

Francisco Duarte Mangas

 .

10.3.26

Fernando Beltrán (Batota para perder)




TRAMPAS PARA PERDER


Mi madre me enseñó a hacer trampas

Trampas para perder

Ganar era tan fácil que lloraba de noche
y no podía conciliar el sueño

Cogidos de la mano me calmaba
relatándome historias que sucedieron luego

La culpa fue mía,

madre me preguntaba
si las quería reales o inventadas,
y yo pedía siempre que le hubieran
sucedido a ella

Y casi sin quererlo
una noche mi madre inventó la realidad

 

 Fernando Beltrán

[Aula de las metaforas]



Minha mãe ensinou-me a fazer batota

Batota para perder

Ganhar era tão fácil que eu chorava de noite
e não conseguia adormecer 

Ela acalmava-me com a mão dela na minha
contando-me histórias que depois aconteceram

A culpa foi minha,

ela perguntava se eu as queria reais ou inventadas
e eu dizia sempre, que lhe tivessem
acontecido a a ela

E aí quase sem querer
uma noite minha mãe inventou a realidade 

(Trad. A. M.)

 .

8.3.26

Francisco Caro (Altas nuvens de Janeiro)




ALTAS NUBES DE ENERO

 

Ojalá y nunca, Konstandino,
necesitemos a tus bárbaros

y sea la llegada de un poema
el hecho que nos salve
de la inacción,
del envilecimiento.


Francisco Caro

 

Oxalá que nunca, Konstandino,
precisemos dos teus bárbaros

e seja a chegada de um poema
o facto que nos salve
da inacção,
da vil tristeza.


(Trad. A.M.)

.

6.3.26

Georgina Ramírez (Outubro)




OCTUBRE

 

Nunca hubo tanto vacío
en nuestras vidas
como este tiempo
de tu ausencia
Hemos sido desierto y sed
pero en tu orilla
siempre agua fresca
amparo
Una espalda
siempre fuiste
y sin ti
somos apenas
trozos de familia
espacios en blanco
que se llenan
de silencio


Georgina Ramírez

 


Nunca houve tanto vazio
nas nossas vidas
como neste tempo
da tua falta
Temos sido deserto e sede
mas na tua margem
sempre amparo
e água fresca
Umas costas
foste-nos sempre
e sem ti
somos apenas
bocados de família
espaços em branco
cheios de silêncio.


(Trad. A.M.)



OCTUBRE

 

Nunca hubo tanto vacío
en nuestras vidas
como este tiempo
de tu ausencia
Hemos sido desierto y sed
pero en tu orilla
siempre agua fresca
amparo
Una espalda
siempre fuiste
y sin ti
somos apenas
trozos de familia
espacios en blanco
que se llenan
de silencio


Georgina Ramírez

 


Nunca houve tanto vazio
nas nossas vidas
como neste tempo
da tua falta
Temos sido deserto e sede
mas na tua margem
sempre amparo
e água fresca
Umas costas
foste-nos sempre
e sem ti
somos apenas
bocados de família
espaços em branco
cheios de silêncio.


(Trad. A.M.)



OCTUBRE

 

Nunca hubo tanto vacío
en nuestras vidas
como este tiempo
de tu ausencia
Hemos sido desierto y sed
pero en tu orilla
siempre agua fresca
amparo
Una espalda
siempre fuiste
y sin ti
somos apenas
trozos de familia
espacios en blanco
que se llenan
de silencio


Georgina Ramírez

 


Nunca houve tanto vazio
nas nossas vidas
como neste tempo
da tua falta
Temos sido deserto e sede
mas na tua margem
sempre amparo
e água fresca
Umas costas
foste-nos sempre
e sem ti
somos apenas
bocados de família
espaços em branco
cheios de silêncio.


(Trad. A.M.)

.

4.3.26

Jonio González (Rabino)




RABINO

 

si todo peso es ligero
con respecto a otro
y la moneda en la mesa
es un signo del hambre

si una vara de oro
mide igual
que una vara de sueño

¿por qué apoyar la frente
en la luz
a la hora doméstica
en que la verdad se revela?

sólo el hombre justo
sabe que no lo es

Jonio González



se todo o peso é leve
com relação a outro
e a moeda sobre a mesa
é um sinal da fome

se uma vara de ouro
mede igualmente
como uma vara de sonho

porque apoiar a fronte
na luz
à hora doméstica
em que a verdade se revela?

só o homem justo
sabe que o não é


(Trad. A.M.)

.

2.3.26

Francisco J. Craveiro Carvalho (Geminação)




GEMINAÇÃO 

 

Pelo jornal de hoje eu
inesperado acabo
de saber que morreu
uma vizinha. Na casa
geminada com a minha.      
 

FRANCISCO J. CRAVEIRO CARVALHO
Cinco
(2023)

                         

.

28.2.26

Efi Cubero (Presente)

 



PRESENTE 

 

No queda otro remedio
que replegarme al fondo de mí misma
de una justa manera
cuando el presente ya es solo pasado
y el futuro ilusorio apunta a lo finito.
Atenta a jerarquías más precisas,
me inclino hacia otro tiempo
para hallar esta voz que parpadea:
fulgor que sobrevive.
Aún no he pasado, como las estrellas.
 

Efi Cubero

 

Não há outro remédio
senão recolar-me no fundo de mim mesma
de um modo justo
quando o presente é só passado já
e o futuro ilusório aponta para o finito.
Atenta a hierarquias mais precisas,
inclino-me para outro tempo
para achar esta voz que cintila
- fulgor que sobrevive.
Eu não passei ainda, como as estrelas.

 
(Trad. A.M.)

.

27.2.26

José Cereijo (Nunca)

 



NUNCA

 

Nunca dormí en tus brazos.
Nunca me desperté de madrugada y vi el armario, la ventana, los libros,
o escuché el ruido de las cañerías, los pasos solitarios en la calle,
y pensé, incrédulo, que, puesto que todo aquello era real,
tú también debías serlo.
No supe a qué sabían tus labios, o tu risa.
No te vi desnudarte.
No supe ni sabré jamás cómo tus ojos, en el acto del amor,
incendiaban la noche.
Esa ausencia es, lo sé bien, una mutilación irremediable;
es un triste muñón, que llevaré conmigo hasta la muerte.
También es, a su modo, forma y prueba de amor,
de lúcido y humillado amor,
de devastado y verdadero amor, que ofrezco a tu recuerdo.
 

José Cereijo

 

Nunca dormi em teus braços,
nunca acordei de manhã a ver o armário, a janela, os livros,
ou escutei o ruído dos canos, os passos solitários na rua,
e pensei, incrédulo, que sendo tudo isso real
tu também devias ser.
Não soube a que sabiam teus lábios, ou teu riso,
não te vi a despir,
não soube nem saberei nunca como teus olhos, no amor,
incendiavam a noite.
Essa falta, bem sei, é uma mutilação sem remédio,
um triste coto de um braço que levarei comigo até à morte.
É também, a seu modo, forma e prova de amor,
de lúcido humilhado amor,
de devastado e verdadeiro amor,
que eu ofereço à tua lembrança.
 

(Trad. A.M.)

 .

25.2.26

Lêdo Ivo (Minha pátria)




MINHA PÁTRIA

 

Minha pátria não é a língua portuguesa.

Nenhuma língua é a pátria.
Minha pátria é a terra mole e peganhenta onde nasci
e o vento que sopra em Maceió.
São os caranguejos que correm na lama dos mangues
e o oceano cujas ondas continuam molhando os meus pés quando sonho.
Minha pátria são os morcegos suspensos no forro das igrejas carcomidas,
os loucos que dançam ao entardecer no hospício junto ao mar,
e o céu encurvado pelas constelações.
Minha pátria são os apitos dos navios
e o farol no alto da colina.
Minha pátria é a mão do mendigo na manhã radiosa.
São os estaleiros apodrecidos
e os cemitérios marinhos onde os meus ancestrais tuberculosos e
implaudados não param de tossir e tremer nas noite frias
e o cheiro de açúcar nos armazéns portuários
e as tainhas que se debatem nas redes dos pescadores
e as résteas de cebola enrodilhadas na treva
e a chuva que cai sobre os currais de peixe.
A língua de que me utilizo não é e nunca foi a minha pátria.
Nenhuma língua enganosa é a pátria.
Ela serve apenas para que eu celebre a minha grande e pobre pátria muda,
minha pátria desintérica e desdentada, sem gramática e sem dicionário,
minha pátria sem língua e sem palavras.


Lêdo Ivo

 .

23.2.26

Felipe Benítez Reyes (Eu disse-lhe)




Le dije que lo nuestro envenenaba
a los dos por igual, que era sensato
olvidarnos de todo, cada uno
tenía ya su vida, cada cual
su equipaje de sombras
en distintos andenes. 

Muere siempre el amor
de forma violenta.
                          Ahora puedo
decir que soy el tipo
más desdichado de este mundo.

Felipe Benítez Reyes 

[Sopa de poetes] 

 

Eu disse-lhe que o nosso caso
envenenava os dois, o melhor
era esquecer tudo, cada um
tinha já a sua vida,
sua bagagem de sombras
em distintas plataformas. 

Morre sempre o amor
de forma violenta.
                              Agora posso
dizer que sou o tipo
mais infeliz deste mundo.
 

(Trad. A.M.)

.

22.2.26

Federico Gallego Ripoll (Esponsais de vida)




ESPONSALES DE VIDA

 

Hace falta atención, 
mucho silencio,
para oír cómo el alma de la tierra
genera un nuevo anillo
en el centro del árbol.

Esponsales de vida:
eso es el tiempo.

Federico Gallego Ripoll

[Hector Castilla]

 

É preciso atenção,
muito silêncio,
para ouvir como a alma da terra
gera um novo anel
no centro da árvore.

Esponsais de vida,
isso é o tempo.


(Trad. A.M.)Federico

.