22.8.19

Luciano de Giovanni (Verás)





Tu lo vedi, non sono poesie,
non vogliono essere
poesie, vogliono essere
amore
un umile cercare
attraverso parole
di poco conto
quell’unica parola
che ricordiamo
quando non ricordiamo
nulla
e liberi sostiamo
al margine del dire
nell’estasi che ci culla

Luciano de Giovanni




Verás, não são poesias
não querem ser
poesias, querem ser
amor
uma busca humilde
entre palavras
de pouca conta
daquela palavra única
que recordamos
quando não recordamos
nada
e livres paramos
na fronteira do dito
do êxtase que nos embala

(Trad. A.M.)

.

21.8.19

Pedro A. González Moreno (O picão da infância)





EL PICÓN DE LA INFANCIA

                                (A mi padre)


Uno de aquellos días de los duros inviernos
de La Mancha, mi padre
me llevó a hacer picón.
Bajo la luz incierta de aquel amanecer
tenía el campo un brillo distinto, un color nuevo
de frío y aventura.
Recogidos los haces
de leña a campo abierto
hicimos una hoguera y, fascinado,
vi levantarse el humo
en una alta columna, más alta que la luz
de la mañana. Supe
después que aquellas llamas
eran un misterioso reflejo del poema;
algo estaba creándose al mismo tiempo que algo
también se destruía.

Con unos cubos de agua, baldeándola a mano,
apagamos las brasas
para que el fuego no las consumiese.
Era preciso el agua en el momento exacto
(un momento anterior a la ceniza)
para que la madera conservase
ese oscuro tesoro de su fuego escondido.
Finalmente, con horcas
íbamos removiendo el montón humeante
hasta que se enfriaba.

Pensé que aquel oficio consistía
tan sólo en extraerle
el humo a la madera,
o tal vez en guardar, para después, la lumbre
que había oculta dentro de las ramas.

Muchos años más tarde
pensé que sólo en eso
consistía el oficio del poeta:
en quemar las palabras muy cuidadosamente
hasta que ardiera toda la hojarasca
y su corteza impura;
en dejar que los versos, ya vaciados de humo,
quedasen reducidos a su ascua,
y pudieran así guardar un poco
de lumbre para el luego.

Después, ya muchos años
después, algunas veces he pensado
que al escribir poemas
sólo seguía haciendo picón con las palabras:
negro picón
para este duro invierno
de la vida.


Pedro A. González Moreno

[Mientras la luz]




Um desses dias dos invernos duros da Mancha, meu pai
levou-me a fazer carvão de brasa.
Na luz incerta desse amanhecer
o campo tinha um brilho distinto, uma cor nova
de frio e aventura.
Apanhados os feixes
de lenha em campo aberto,
fizemos uma fogueira e eu,
fascinado, vi o fumo erguer-se
numa coluna muito alta, mais alta
que a luz da manhã. Soube
depois que essas chamas
eram um misterioso reflexo do poema;
algo se criava ali, ao mesmo tempo
que algo
também se destruía.

Com uns baldes de água, passando-a à mão,
amortecemos as brasas
para o fogo as não consumir.
Era precisa a água no momento exacto
(um momento anterior à cinza)
para a madeira conservar
o escuro tesouro do seu fogo escondido.
Por fim, íamos remexendo
o montão fumegante com paus,
até arrefecer.

Eu pensava que o serviço era apenas
extrair o fumo à madeira,
ou talvez guardar, para depois, o lume
que havia dentro dos ramos.

Muitos anos mais tarde
pensei que era só isso
o ofício do poeta,
queimar as palavras com todo o cuidado
até arder a folharada toda
e a sua impura casca;
deixar que os versos, esvaziados já de fumo,
ficassem reduzidos à sua brasa,
conseguindo assim guardar um pouco
de lume para o fogo.

Depois, já muitos anos
depois, algumas vezes pensei
que ao fazer poemas
continuava só a fazer carvão com as palavras:
negro carvão
para este duro inverno
da vida.


(Trad. A.M.)

.


19.8.19

Pablo Neruda (Testamento)





TESTAMENTO



Dejo a los sindicatos
del cobre, del carbón y del salitre
mi casa junto al mar de Isla Negra.
Quiero que allí reposen los maltratados hijos
de mi patria, saqueada por hachas y traidores,
desbaratada en su sagrada sangre,
consumida en volcánicos harapos.

Quiero que al limpio amor que recorriera
mi dominio, descansen los cansados,
se sienten a mi mesa los oscuros,
duerman sobre mi cama los heridos.

Hermano, ésta es mi casa, entra en el mundo
de flor marina y piedra constelada
que levanté luchando en mi pobreza.
Aquí nació el sonido en mi ventana
como en una creciente caracola
y luego estableció sus latitudes
en mi desordenada geología.

Tu vienes de abrasados corredores,
de túneles mordidos por el odio,
por el salto sulfúrico del viento:
aquí tienes la paz que te destino,
agua y espacio de mi oceanía.


Pablo Neruda

[Voar fora da asa]




Deixo aos sindicatos
do cobre, do carvão e do salitre
minha casa junto ao mar em Isla Negra.
Quero que ali repousem os maltratados filhos
da minha pátria, saqueada por machados e traidores,
desbaratada em seu sangue sagrado,
consumida em vulcânicos farrapos.

Quero que ao limpo amor que percorreu
meu domínio, descansem os cansados,
sentem-se à mesa os humildes,
durmam os feridos na minha cama.

Irmão, esta é minha casa, entra no mundo
de flor marinha e pedra constelada
que eu ergui lutando em minha pobreza.
Aqui nasceu o som em minha janela
como num búzio,
e depois fixou as latitudes
em minha desordenada geologia.

Tu vens de abrasados corredores,
de túneis mordidos pelo ódio,
pelo salto sulfúrico do vento:
aqui tens a paz que te deixo,
água e espaço de minha oceania.

(Trad. A.M.)

.

18.8.19

João Habitualmente (Em toda a casa)





EM TODA A CASA



pelas paredes cheira ainda à tua pele cutânea

mas desde que te foste estar aqui é oco,
cansativo, uma espera. E às vezes (como se
tivéssemos chorado) respirar custa.

sobretudo nada apetece.
sair para a rua? Ir então em frente a repetir
os passos, passear nas avenidas a espaçar as
horas – dispersar a espera?

tudo cinzento. Choverá?
aqui é que não fico. No quarto onde dormimos
o espaço sobra, e cada coisa já morreu ou está a mais.
em toda a casa uma violência subterrânea:
a tua ausência


João Habitualmente

.

16.8.19

Pablo García Casado (Publicidade enganosa)





PUBLICIDAD ENGAÑOSA



es cierto reconozco todos los cargos
mentí lo sé lo sabía desde el principio
todos lo hacemos es la manera de vender

el producto qué quieres que te diga no soy
el que andabas buscando sí soy un cerdo
un grandísimo cabrón un hijoputa... pero dime

qué tiene todo eso que ver con el amor?


Pablo García Casado

[Ulises sin Joyce]




certo reconheço as acusações
menti bem sei sabia desde início
todos mentimos é o modo de vender

o produto o que queres que te diga não sou
aquele que tu querias sim sou um porco
um cabrão um filho da puta... mas diz-me

o que tem isso tudo a ver com o amor?

(Trad. A.M.)

.

13.8.19

Patrizia Cavalli (O coração nunca está seguro)




Il cuore non è mai al sicuro e dunque,
fosse pure in silenzio, non vantarti
della vittoria o dell’indifferenza.
Rendi comunque onore a ciò che hai amato
anche quando ti sembra di non amarlo più.
Te ne stai lì tranquilla? Ti senti soddisfatta?
Potresti finalmente dopo anni
d’ingloriosa incertezza, di smanie e umiliazioni,
rovesciare le parti, essere tu
che umili e che comandi? No, non farlo,
fingi piuttosto, fingi l’amore che sentivi
vero, fingi perfettamente e vinci
la natura. L’amore stanco
forse è l’unico perfetto

Patrizia Cavalli




O coração nunca está seguro, por isso
não te vanglories, mesmo em silêncio,
da vitória ou da indiferença.
Honra o objecto do teu amor,
mesmo quando sintas não amá-lo já.
Estás tranquila? Satisfeita?
Podias agora, após anos
de inquietação, de incertezas e humilhações,
trocar de papéis, ser tu doravante
a mandar e humilhar? Não caias nessa,
finge antes, finge o amor que sentias
real, finge perfeitamente e vence
a natureza. O amor cansado
é talvez o único perfeito.

(Trad. A.M.)



>>  L'ombra delle parole (18p) / Poesia (5p) / Poesia 2.0 (infos) / Wikipedia

.

11.8.19

Pablo Casares (Catedrais)




CATEDRALES



Construimos nuestras vidas
con pequeñas ficciones,
miedos con los que somos
incapaces de reconciliarnos,
distancias con puntos de fuga infinitos
y frágiles andamios
cubiertos de apariencias.

Monumentales catedrales del fracaso
que levantamos cada mañana
con el pie izquierdo.


Pablo Casares





Construímos nossas vidas
com pequenas ficções,
medos com que não
conseguimos reconciliar-nos,
distâncias com pontos de fuga infinitos
e frágeis andaimes
cobertos de aparências.

Monumentais catedrais do fracasso
que levantamos cada manhã
com o pé esquerdo.

(Trad. A.M.)

.

10.8.19

Pablo de Rokha (Mordido de canalhas)





Mordido de canallas, yo fui "el gran solitario
de las letras chilenas", guerrero malherido,
arrastro un desgarrado corazón proletario
y la decisión épica de no caer vencido.

Sobre la patria arada de espanto, mi calvario
chorrea sangre humana, y un sol despavorido
me va ciñendo el cuerpo de fuego extraordinario,
como un caballo de oro con el freno perdido.

Irreductible al látigo, salvaje e innumerable,
el instinto social me da el imponderable,
y descubro un subsuelo que el drama humano aprueba.

Con tu recuerdo, al hombro, mi rol específico,
y como andando solo, en ti me identifico,
fundo con tus cenizas una religión nueva.


Pablo de Rokha




Mordido de canalhas, eu fui ‘o grande solitário
das letras chilenas’, guerreiro malferido,
arrasto um rasgado coração proletário
e a decisão épica de não tombar vencido.

Sobre a pátria arada de espanto, meu calvário
espicha sangue e suor, e um sol espavorido
cinge-me o corpo de um lume extraordinário,
como um cavalo de oiro com freio perdido.

Imune ao látego, selvagem e inumerável,
o instinto social me dá o imponderável,
e descubro um chão que a humanidade aprova.

Em teu nome e com meu papel específico,
caminho só, mas contigo me identifico,
e fundo com tuas cinzas religião nova.

(Trad. A.M.)

.

8.8.19

João Guimarães Rosa (Alaranjado)




ALARANJADO



No campo seco, a crepitar em brasas,
dançam as últimas chamas da queimada,
tão quente, que o sol pende no ocaso,
bicado
pelos sanhaços das nuvens,
para cair, redondo e pesado,
como uma tangerina temporã madura…


João Guimarães Rosa


[Só poesia]

.

7.8.19

Pablo Albornoz (O amanhecer)





el amanecer
un rayo de luz quiere
limpiar el mundo


Pablo Albornoz




amanhecer
um raio de luz quer
limpar o mundo

(Trad. A.M.)

.

5.8.19

Óscar Hahn (No túmulo do poeta desconhecido)





EN LA TUMBA DEL POETA DESCONOCIDO




Aquí yace Ene Ene
el poeta desconocido
No corrió la suerte de Lorca
ni de Neruda ni de Eliot
ni de Rimbaud ni de Rilke
ni de ninguno de los que duermen
en túmulos famosos
Escribió lo que pudo y como pudo
y su felicidad no fue la fama
sino la epifanía de componer unos versos
y releerlos y guardarlos
como un pequeño tesoro
Yo te admiro poeta invisible
por tu coraje para enfrentar el anonimato
sin claudicar jamás
de tu vocación creadora
Nadie conoce tus poemas
y casi nadie ha leído tu epitafio
escrito por ti mismo
para este nicho visitado
tan sólo por los que te quieren
Y en esta vida amigo mío
eso es lo único que cuenta


Óscar Hahn




Aqui jaz N-N
o poeta desconhecido
Não teve a sorte de Lorca
nem de Neruda nem de Eliot
nem de Rimbaud nem de Rilke
nem de nenhum dos que dormem
em túmulos famosos
Escreveu o que pôde e como pôde
e a sua Ventura não foi a fama
mas a epifania de compor alguns versos
e relê-los e guardá-los
como um pequeno tesouro
Eu te admiro poeta invisível
pela coragem de enfrentar o anonimato
sem claudicar jamais
de tua vocação criadora
Ninguém te conhece os poemas
e ninguém quase te leu o epitáfio
escrito por ti mesmo
para este nicho visitado
só por aqueles que te amam
E na vida meu amigo
isso é o que conta

(Trad. A.M.)

.

4.8.19

João de Mancelos (Saudade definida)





SAUDADE DEFINIDA



e o que é a saudade
senão um poço aberto no peito
de onde içamos água de sombra?


João de Mancelos

.

2.8.19

Oliverio Girondo (O que esperamos)





LO QUE ESPERAMOS



Tardará, tardará.

Ya sé que todavía
los émbolos,
la usura,
el sudor,
las bobinas
seguirán produciendo,
al por mayor,
en serie,
iniquidad,
ayuno,
rencor,
desesperanza;
para que las lombrices con huecos portasenos,
las vacas de embajada,
los viejos paquidermos de esfínteres crinudos,
se sacien de adulterios,
de hastío,
de diamantes,
de caviar,
de remedios.

Ya sé que todavía pasarán muchos años
para que estos crustáceos
del asfalto
y la mugre
se limpien la cabeza,
se alejen de la envidia,
no idolatren la saña,
no adoren la impostura,
y abandonen su costra
de opresión,
de ceguera,
de mezquindad.
de bosta.

Pero, quizás, un día,
antes de que la tierra se canse de atraernos
y brindarnos su seno,
el cerebro les sirva para sentirse humanos,
ser hombres,
ser mujeres
- no cajas de caudales,
ni perchas desoladas -
someter a las ruedas,
impedir que nos maten,
comprobar que la vida se arranca y despedaza
los chalecos de fuerza de todos los sistemas;
y descubrir, de nuevo, que todas las riquezas
se encuentran en nosotros y no bajo la tierra.

Y entonces...
¡Ah!, ese día
abriremos los brazos
sin temer que el instinto nos muerda los garrones,
ni recelar de todo,
hasta de nuestra sombra;
y seremos capaces de acercarnos al pasto,
a la noche,
a los ríos,
sin rubor,
mansamente,
con las pupilas claras,
con las manos tranquilas;
y usaremos palabras sustanciosas,
auténticas;
no como esos vocablos erizados de inquina
que babean las hienas al instarnos al odio,
ni aquellos que se asfixian
en estrofas de almíbar
y fustigada clara de huevo corrompido;
sino palabras simples,
de arroyo,
de raíces,
que en vez de separarnos
nos acerquen un poco;
o mejor todavía
guardaremos silencio
para tomar el pulso a todo lo que existe
y vivir el milagro de cuanto nos rodea,
mientras alguien nos diga,
con una voz de roble,
lo que desde hace siglos
esperamos en vano.


Oliverio Girondo

[Atlas de poesia]




Demorará, demorará.

Eu sei que ainda
os êmbolos,
a usura,
o suor,
as bobinas
continuarão a produzir,
em quantidade,
em série,
iniquidade,
jejum,
rancor,
desespero;
para que as lombrigas de ocos sutiãs,
as vacas de embaixada,
os velhos paquidermes de esfíncter cabeludo,
se saciem de adultérios,
de fastio,
de diamantes,
de caviar,
de remédios.

Já sei que hão-de passar muitos anos
para estes crustáceos
do asfalto
e da sujeira
limparem a cabeça,
afastarem a inveja,
não idolatrarem a sanha,
não adorarem a impostura
e abandonarem sua crosta
de opressão,
de cegueira,
de mesquinhez,
de bosta.

Mas, talvez, um dia,
antes de a terra se cansar de nos atrair
e oferecer o seio,
o cérebro lhes sirva para se sentirem humanos,
homens,
mulheres
- não cofres
nem cabides desolados -
dominarem as rodas,
impedirem que nos matem,
verificarem que a vida arranca e rasga
os coletes de forças de todos os sistemas;
e descobrirem, novamente, que todas as riquezas
estão em nós e não debaixo da terra.

E então...
Ah, nesse dia
abriremos os braços
sem temer que o instinto nos morda as canelas,
nem ter medo de tudo
até da própria sombra;
e seremos capazes de chegar-nos ao pasto,
à noite,
aos rios,
sem rubor,
mansamente,
com as pupilas claras,
comas mãos tranquilas;
e usaremos palavras de substância,
autênticas;
não desses vocábulos eriçados de aversão
que as hienas babam incitando ao ódio,
nem daqueles que abafam
em estrofes xaroposas
com clara de ovo estragado;
mas palavras simples,
de ribeiro,
de raízes,
que nós aproximem um pouco,
em vez de nos separar;
ou melhor ainda
guardaremos silêncio
para tomar o pulso
a tudo o que existe
e viver o milagre de quanto nos cerca,
enquanto alguém nos disser
com uma voz de carvalho
o que desde há séculos
esperamos em vão.

(Trad. A.M.)

.

1.8.19

Nicanor Parra (Advertência ao leitor)





ADVERTENCIA AL LECTOR



El autor no responde de las molestias que puedan ocasionar sus escritos:
Aunque le pese.
El lector tendrá que darse siempre por satisfecho.
Sabelius, que además de teólogo fue un humorista consumado,
Después de haber reducido a polvo el dogma de la Santísima Trinidad
¿Respondió acaso de su herejía?
Y si llegó a responder, ¡cómo lo hizo!
¡En qué forma descabellada!
¡Basándose en qué cúmulo de contradicciones!

Según los doctores de la ley este libro no debiera publicarse:
La palabra arco iris no aparece en él en ninguna parte,
Menos aún la palabra dolor,
La palabra torcuato.
Sillas y mesas sí que figuran a granel,
¡Ataúdes!, ¡útiles de escritorio!
Lo que me llena de orgullo
Porque, a mi modo de ver, el cielo se está cayendo a pedazos.

Los mortales que hayan leído el Tractatus de Wittgenstein
Pueden darse con una piedra en el pecho
Porque es una obra difícil de conseguir:
Pero el Círculo de Viena se disolvió hace años,
Sus miembros se dispersaron sin dejar huella
Y yo he decidido declarar la guerra a los cavalieri della luna.

Mi poesía puede perfectamente no conducir a ninguna parte:
“¡Las risas de este libro son falsas!”, argumentarán mis detractores
“Sus lágrimas, ¡artificiales!”
“En vez de suspirar, en estas páginas se bosteza”
“Se patalea como un niño de pecho”
“El autor se da a entender a estornudos”
Conforme: os invito a quemar vuestras naves,
Como los fenicios pretendo formarme mi propio alfabeto.
“¿A qué molestar al público entonces?”, se preguntarán los amigos lectores:
“Si el propio autor empieza por desprestigiar sus escritos,
¡Qué podrá esperarse de ellos!”
Cuidado, yo no desprestigio nada
O, mejor dicho, yo exalto mi punto de vista,
Me vanaglorio de mis limitaciones
Pongo por las nubes mis creaciones.

Los pájaros de Aristófanes
Enterraban en sus propias cabezas
Los cadáveres de sus padres.
(Cada pájaro era un verdadero cementerio volante)
A mi modo de ver
Ha llegado la hora de modernizar esta ceremonia
¡Y yo entierro mis plumas en la cabeza de los señores lectores!


Nicanor Parra




O autor não responde pelos incómodos que seus escritos possam causar.
Embora lhe custe.
O leitor terá de dar-se sempre por satisfeito.
Sabelius, que além de teólogo foi humorista consumado,
depois de reduzir a pó o dogma da Santíssima Trindade
acaso respondeu pela sua heresia?
E se chegou a responder, como é que o fez?
Em que forma descabelada,
baseando-se em que rima de contradições?

Este livro, segundo os doutores da lei, não devia ser publicado:
A palavra arco-íris não aparece em lado nenhum,
e menos ainda a palavra dor,
como também a palavra torquato.
Cadeiras e mesas, sim, entram a granel,
ataúdes, artigos de escritório!
O que me enche de orgulho,
já que, a meu ver, o céu está a cair aos pedaços.

Os mortais que leram o Tractatus de Wittgenstein
podem bater com uma pedra no peito
pois é uma obra difícil de conseguir;
mas o Círculo de Viena dissolveu-se há anos,
os membros dispersaram-se sem deixar rasto
e eu decidi declarar guerra aos ‘cavalieri della luna’.

A minha poesia pode perfeitamente não levar a nenhum lado:
‘São falsos os risos deste livro!’,
argumentarão os meus detractores
‘As suas lágrimas, artificiais’
‘Em vez de suspirar, nestas páginas boceja-se’
‘Esperneia-se como uma criança de peito’
‘O autor faz-se entender aos soluços’
Certo, convido-vos a queimar os vossos navios,
já que pretendo criar como os fenícios o meu próprio alfabeto.
‘Para quê incomodar então o público’,
perguntarão os amigos leitores:
‘Se o próprio autor começa por desprestigiar seus escritos,
o que poderá esperar-se dos mesmos?’
Atenção, eu não desprestigio nada,
ou melhor, eu exalto o meu ponto de vista,
vanglorio-me das minhas limitações
ponho as minhas criações nas nuvens.

Os pássaros de Aristófanes
enterravam os cadáveres dos pais
em suas próprias cabeças.
(Cada pássaro era um verdadeiro
cemitério ambulante)
No meu modo de ver
chegou a hora de modernizar a cerimónia:
Eu enterro as minhas plumas na cabeça
dos senhores leitores.


(Trad. A.M.)

.

30.7.19

Giuseppe Ungaretti (Manhã)





MATTINA



M’illumino
d’immenso

Giuseppe Ungaretti




Ilumino-me
de imenso

(Trad. A.M.)

.

29.7.19

Miquel Martí i Pol (Ausência)





AUSÊNCIA



É bom ter sempre a jeito o recurso
de uma palavra para encher o vazio de ti,
para fazer dela a couraça que me proteja
do pesadelo da ânsia e da tristeza.

E então fazes-te-me presente em cada
verso que escrevo e quando, a sós, o repito
não há distância entre teu corpo e o meu,
unidos no poema para sempre.


Miquel Martí i Pol

(Trad. A.M./ sobre versão cast. Joan B. Fort i Olivella)

.

27.7.19

Miguel Hernández (Ausência em tudo vejo)





Ausencia en todo veo:
tus ojos la reflejan.

Ausencia en todo escucho:
tu voz a tiempo suena.

Ausencia en todo aspiro:
tu aliento huele a hierba.

Ausencia en todo toco:
tu cuerpo se despuebla.

Ausencia en todo pruebo:
tu boca me destierra.

Ausencia en todo siento:
ausencia, ausencia, ausencia.


Miguel Hernández




Ausência em tudo vejo:
teus olhos a reflectem.

Ausência em tudo ouço:
tua voz a tempo soa.

Ausência em tudo aspiro:
teu hálito tem cheiro de erva.

Ausência em tudo toco:
teu corpo se despovoa.

Ausência em tudo encontro:
tua boca me desterra.

Ausência em tudo sinto:
ausência, ausência, ausência.


(Trad. A.M.)

.

26.7.19

Luciano de Giovanni (Os pássaros)





Gli uccelli
possono volare
perché sono
innocenti
non è questione
d’ali

Luciano de Giovanni




Os pássaros
conseguem voar
porque são
inocentes
não é questão
de asas

(Trad. A.M.)


>>  Il fatto quotidiano (6p) / Zret (6p) / La poesia (perfil)

.

24.7.19

José A. Ramírez Losano (Vaca de Espanha)





VACA DE ESPAÑA



Era una vez una vaca
que en su piel traía pintado
el mapa negro de España.

Vaca enorme y singular,
ponía los cuernos a Francia,
su boñiga en Portugal.

Vaca sola que pastaba
la grama de esta heredad
patria de los cementerios

y amamantaba a sus muertos
con leche verde de ortigas,
flor de la envidia
y maldición de los huertos.

Y sí mugía
—¡maldita vaca!—
partía en dos la cruz
de Caravaca.


José A. Ramírez Lozano

[Trianarts]




Era uma vez uma vaca
que tinha pintado na pele
o mapa negro de Espanha.

Vaca enorme e singular,
punha os cornos em França
e a trampa em Portugal.

Uma vaca que pastava
a erva desta herdade,
pátria dos cemitérios;

e amamentava os mortos
com leite verde de ortigas,
flor de inveja
e maldição dos pomares.

E se mugia
– maldita vaca! –
rachava ao meio
a cruz de Caravaca.

(Trad. A.M.)

.