2.8.19

Oliverio Girondo (O que esperamos)





LO QUE ESPERAMOS



Tardará, tardará.

Ya sé que todavía
los émbolos,
la usura,
el sudor,
las bobinas
seguirán produciendo,
al por mayor,
en serie,
iniquidad,
ayuno,
rencor,
desesperanza;
para que las lombrices con huecos portasenos,
las vacas de embajada,
los viejos paquidermos de esfínteres crinudos,
se sacien de adulterios,
de hastío,
de diamantes,
de caviar,
de remedios.

Ya sé que todavía pasarán muchos años
para que estos crustáceos
del asfalto
y la mugre
se limpien la cabeza,
se alejen de la envidia,
no idolatren la saña,
no adoren la impostura,
y abandonen su costra
de opresión,
de ceguera,
de mezquindad.
de bosta.

Pero, quizás, un día,
antes de que la tierra se canse de atraernos
y brindarnos su seno,
el cerebro les sirva para sentirse humanos,
ser hombres,
ser mujeres
- no cajas de caudales,
ni perchas desoladas -
someter a las ruedas,
impedir que nos maten,
comprobar que la vida se arranca y despedaza
los chalecos de fuerza de todos los sistemas;
y descubrir, de nuevo, que todas las riquezas
se encuentran en nosotros y no bajo la tierra.

Y entonces...
¡Ah!, ese día
abriremos los brazos
sin temer que el instinto nos muerda los garrones,
ni recelar de todo,
hasta de nuestra sombra;
y seremos capaces de acercarnos al pasto,
a la noche,
a los ríos,
sin rubor,
mansamente,
con las pupilas claras,
con las manos tranquilas;
y usaremos palabras sustanciosas,
auténticas;
no como esos vocablos erizados de inquina
que babean las hienas al instarnos al odio,
ni aquellos que se asfixian
en estrofas de almíbar
y fustigada clara de huevo corrompido;
sino palabras simples,
de arroyo,
de raíces,
que en vez de separarnos
nos acerquen un poco;
o mejor todavía
guardaremos silencio
para tomar el pulso a todo lo que existe
y vivir el milagro de cuanto nos rodea,
mientras alguien nos diga,
con una voz de roble,
lo que desde hace siglos
esperamos en vano.


Oliverio Girondo

[Atlas de poesia]




Demorará, demorará.

Eu sei que ainda
os êmbolos,
a usura,
o suor,
as bobinas
continuarão a produzir,
em quantidade,
em série,
iniquidade,
jejum,
rancor,
desespero;
para que as lombrigas de ocos sutiãs,
as vacas de embaixada,
os velhos paquidermes de esfíncter cabeludo,
se saciem de adultérios,
de fastio,
de diamantes,
de caviar,
de remédios.

Já sei que hão-de passar muitos anos
para estes crustáceos
do asfalto
e da sujeira
limparem a cabeça,
afastarem a inveja,
não idolatrarem a sanha,
não adorarem a impostura
e abandonarem sua crosta
de opressão,
de cegueira,
de mesquinhez,
de bosta.

Mas, talvez, um dia,
antes de a terra se cansar de nos atrair
e oferecer o seio,
o cérebro lhes sirva para se sentirem humanos,
homens,
mulheres
- não cofres
nem cabides desolados -
dominarem as rodas,
impedirem que nos matem,
verificarem que a vida arranca e rasga
os coletes de forças de todos os sistemas;
e descobrirem, novamente, que todas as riquezas
estão em nós e não debaixo da terra.

E então...
Ah, nesse dia
abriremos os braços
sem temer que o instinto nos morda as canelas,
nem ter medo de tudo
até da própria sombra;
e seremos capazes de chegar-nos ao pasto,
à noite,
aos rios,
sem rubor,
mansamente,
com as pupilas claras,
comas mãos tranquilas;
e usaremos palavras de substância,
autênticas;
não desses vocábulos eriçados de aversão
que as hienas babam incitando ao ódio,
nem daqueles que abafam
em estrofes xaroposas
com clara de ovo estragado;
mas palavras simples,
de ribeiro,
de raízes,
que nós aproximem um pouco,
em vez de nos separar;
ou melhor ainda
guardaremos silêncio
para tomar o pulso
a tudo o que existe
e viver o milagre de quanto nos cerca,
enquanto alguém nos disser
com uma voz de carvalho
o que desde há séculos
esperamos em vão.

(Trad. A.M.)

.

1.8.19

Nicanor Parra (Advertência ao leitor)





ADVERTENCIA AL LECTOR



El autor no responde de las molestias que puedan ocasionar sus escritos:
Aunque le pese.
El lector tendrá que darse siempre por satisfecho.
Sabelius, que además de teólogo fue un humorista consumado,
Después de haber reducido a polvo el dogma de la Santísima Trinidad
¿Respondió acaso de su herejía?
Y si llegó a responder, ¡cómo lo hizo!
¡En qué forma descabellada!
¡Basándose en qué cúmulo de contradicciones!

Según los doctores de la ley este libro no debiera publicarse:
La palabra arco iris no aparece en él en ninguna parte,
Menos aún la palabra dolor,
La palabra torcuato.
Sillas y mesas sí que figuran a granel,
¡Ataúdes!, ¡útiles de escritorio!
Lo que me llena de orgullo
Porque, a mi modo de ver, el cielo se está cayendo a pedazos.

Los mortales que hayan leído el Tractatus de Wittgenstein
Pueden darse con una piedra en el pecho
Porque es una obra difícil de conseguir:
Pero el Círculo de Viena se disolvió hace años,
Sus miembros se dispersaron sin dejar huella
Y yo he decidido declarar la guerra a los cavalieri della luna.

Mi poesía puede perfectamente no conducir a ninguna parte:
“¡Las risas de este libro son falsas!”, argumentarán mis detractores
“Sus lágrimas, ¡artificiales!”
“En vez de suspirar, en estas páginas se bosteza”
“Se patalea como un niño de pecho”
“El autor se da a entender a estornudos”
Conforme: os invito a quemar vuestras naves,
Como los fenicios pretendo formarme mi propio alfabeto.
“¿A qué molestar al público entonces?”, se preguntarán los amigos lectores:
“Si el propio autor empieza por desprestigiar sus escritos,
¡Qué podrá esperarse de ellos!”
Cuidado, yo no desprestigio nada
O, mejor dicho, yo exalto mi punto de vista,
Me vanaglorio de mis limitaciones
Pongo por las nubes mis creaciones.

Los pájaros de Aristófanes
Enterraban en sus propias cabezas
Los cadáveres de sus padres.
(Cada pájaro era un verdadero cementerio volante)
A mi modo de ver
Ha llegado la hora de modernizar esta ceremonia
¡Y yo entierro mis plumas en la cabeza de los señores lectores!


Nicanor Parra




O autor não responde pelos incómodos que seus escritos possam causar.
Embora lhe custe.
O leitor terá de dar-se sempre por satisfeito.
Sabelius, que além de teólogo foi humorista consumado,
depois de reduzir a pó o dogma da Santíssima Trindade
acaso respondeu pela sua heresia?
E se chegou a responder, como é que o fez?
Em que forma descabelada,
baseando-se em que rima de contradições?

Este livro, segundo os doutores da lei, não devia ser publicado:
A palavra arco-íris não aparece em lado nenhum,
e menos ainda a palavra dor,
como também a palavra torquato.
Cadeiras e mesas, sim, entram a granel,
ataúdes, artigos de escritório!
O que me enche de orgulho,
já que, a meu ver, o céu está a cair aos pedaços.

Os mortais que leram o Tractatus de Wittgenstein
podem bater com uma pedra no peito
pois é uma obra difícil de conseguir;
mas o Círculo de Viena dissolveu-se há anos,
os membros dispersaram-se sem deixar rasto
e eu decidi declarar guerra aos ‘cavalieri della luna’.

A minha poesia pode perfeitamente não levar a nenhum lado:
‘São falsos os risos deste livro!’,
argumentarão os meus detractores
‘As suas lágrimas, artificiais’
‘Em vez de suspirar, nestas páginas boceja-se’
‘Esperneia-se como uma criança de peito’
‘O autor faz-se entender aos soluços’
Certo, convido-vos a queimar os vossos navios,
já que pretendo criar como os fenícios o meu próprio alfabeto.
‘Para quê incomodar então o público’,
perguntarão os amigos leitores:
‘Se o próprio autor começa por desprestigiar seus escritos,
o que poderá esperar-se dos mesmos?’
Atenção, eu não desprestigio nada,
ou melhor, eu exalto o meu ponto de vista,
vanglorio-me das minhas limitações
ponho as minhas criações nas nuvens.

Os pássaros de Aristófanes
enterravam os cadáveres dos pais
em suas próprias cabeças.
(Cada pássaro era um verdadeiro
cemitério ambulante)
No meu modo de ver
chegou a hora de modernizar a cerimónia:
Eu enterro as minhas plumas na cabeça
dos senhores leitores.


(Trad. A.M.)

.

30.7.19

Giuseppe Ungaretti (Manhã)





MATTINA



M’illumino
d’immenso

Giuseppe Ungaretti




Ilumino-me
de imenso

(Trad. A.M.)

.

29.7.19

Miquel Martí i Pol (Ausência)





AUSÊNCIA



É bom ter sempre a jeito o recurso
de uma palavra para encher o vazio de ti,
para fazer dela a couraça que me proteja
do pesadelo da ânsia e da tristeza.

E então fazes-te-me presente em cada
verso que escrevo e quando, a sós, o repito
não há distância entre teu corpo e o meu,
unidos no poema para sempre.


Miquel Martí i Pol

(Trad. A.M./ sobre versão cast. Joan B. Fort i Olivella)

.

27.7.19

Miguel Hernández (Ausência em tudo vejo)





Ausencia en todo veo:
tus ojos la reflejan.

Ausencia en todo escucho:
tu voz a tiempo suena.

Ausencia en todo aspiro:
tu aliento huele a hierba.

Ausencia en todo toco:
tu cuerpo se despuebla.

Ausencia en todo pruebo:
tu boca me destierra.

Ausencia en todo siento:
ausencia, ausencia, ausencia.


Miguel Hernández




Ausência em tudo vejo:
teus olhos a reflectem.

Ausência em tudo ouço:
tua voz a tempo soa.

Ausência em tudo aspiro:
teu hálito tem cheiro de erva.

Ausência em tudo toco:
teu corpo se despovoa.

Ausência em tudo encontro:
tua boca me desterra.

Ausência em tudo sinto:
ausência, ausência, ausência.


(Trad. A.M.)

.

26.7.19

Luciano de Giovanni (Os pássaros)





Gli uccelli
possono volare
perché sono
innocenti
non è questione
d’ali

Luciano de Giovanni




Os pássaros
conseguem voar
porque são
inocentes
não é questão
de asas

(Trad. A.M.)


>>  Il fatto quotidiano (6p) / Zret (6p) / La poesia (perfil)

.

24.7.19

José A. Ramírez Losano (Vaca de Espanha)





VACA DE ESPAÑA



Era una vez una vaca
que en su piel traía pintado
el mapa negro de España.

Vaca enorme y singular,
ponía los cuernos a Francia,
su boñiga en Portugal.

Vaca sola que pastaba
la grama de esta heredad
patria de los cementerios

y amamantaba a sus muertos
con leche verde de ortigas,
flor de la envidia
y maldición de los huertos.

Y sí mugía
—¡maldita vaca!—
partía en dos la cruz
de Caravaca.


José A. Ramírez Lozano

[Trianarts]




Era uma vez uma vaca
que tinha pintado na pele
o mapa negro de Espanha.

Vaca enorme e singular,
punha os cornos em França
e a trampa em Portugal.

Uma vaca que pastava
a erva desta herdade,
pátria dos cemitérios;

e amamentava os mortos
com leite verde de ortigas,
flor de inveja
e maldição dos pomares.

E se mugia
– maldita vaca! –
rachava ao meio
a cruz de Caravaca.

(Trad. A.M.)

.

23.7.19

Andrés Trapiello (Vontades)





VOLUNTADES



Dejó dicho:
             En mi entierro
ni responsos ni misas, ni música ni flores.
Si acaso, de estas últimas,
sólo las que en un vaso pusimos tantas veces:
lilas, rosas, jazmines.
Pero mejor aún: ese trabajo
de ser flores dejadlo a las que crecen
sin nombre entre las tumbas. Y la música,
a jilgueros y mirlos, que ninguno
lo hará mejor que ellos,
con tanta suavidad ni su constancia.
Deberían responsos y misas reservarse
a aquellos que en verdad los ganaron a pulso.
No quiero que incumplir
algunas de estas mandas os aflija:
bien sé yo que la vida va por libre.
Y si podéis, venid sólo vosotros,
que la muerte no sea diferente
a ninguna otra fiesta de nuestra intimidad:
lilas, rosas, jazmines.


Andrés Trapiello

[Susana Benet]




Deixou dito:
            No meu enterro
nem responsos nem missas, nem música nem flores.
Se porventura, destas últimas,
só as que num vaso pusemos tanta vez,
lilases, rosas, jasmins.
Mas melhor ainda, esse papel
das flores deixai-o para as que crescem
sem nome entre as campas. E a música,
por conta de melros e rouxinóis, que ninguém
fará melhor do que eles,
nem com tanto aprumo e suavidade.
Missas e responsos devem reservar-se para
quem lhes ganhou direito.
Em todo o caso, que não vos aflija
incumprir estas vontades,
a vida é assim mesmo, já se sabe.
E se puderdes, vinde só vós mesmo,
que a morte não seja diferente
de outra festa qualquer da nossa intimidade:
lilases, rosas, jasmins.

(Trad. A.M.)

.

21.7.19

Gil Vicente (Vanse mis amores)





Vanse mis amores, madre,
luengas tierras van morar:
yo no los puedo olvidar,
¿quién me los hará tornar?

Yo soñara, madre, un sueño
que me dio en el corazón:
que se iban los mis amores
a las islas de la mar.
Yo no los puedo olvidar,
¿quién me los hará tornar?

Yo soñara, madre, un sueño
que me dio en el corazón:
que se iban los mis amores
a las tierras de Aragón.
Allá se van a morar:
yo no los puedo olvidar,
¿quién me los hará tornar?


Gil Vicente

[Un poema cada dia]

.

19.7.19

Miguel d'Ors (Onde o poeta se despede)





DONDE EL POETA SE DESPIDE
DEFINITIVAMENTE DEL COTARRO



Adiós, adiós revistas, premios, antologías,
fulgores de El País y el Segundo Canal,
adiós generación del 70, divino
tesoro, te he perdido para nunca jamás.

Para ser comunista me falta la langosta
(que no es poco faltar)
y, como don Antonio, tampoco soy un ave
de ésas (menudos pájaros) del nuevo gay trinar,
y no versificando ni a la izquierda
ni debajo de nadie, ustedes me dirán.

Adiós entonces, fama, adiós obras completas,
adiós escalinatas hacia Carlos Barral,
adiós muchachos, nunca compañeros
de mi vida (a Dios gracias –y gracias además
a los sabios consejos sobre las compañías
que me dio mi papá–).

Pero todos felices: la Poesía
y yo tendremos más intimidad,
y vosotros qué gozo: en la carpeta
de Félix Grande un poco menos de original
y un poco más de alfalfa en los amenos prados
del Parnaso local.


Miguel d’Ors




Adeus, adeus revistas, prémios, antologias,
fulgores de El País e do Segundo Canal,
adeus geração de 70, divino tesouro,
que te perdi para nunca mais.

Para ser comunista falta-me a lagosta
(o que não é pouco faltar)
e, como don Antonio, também não sou ave
dessas (miúdos pássaros) do novo gay trinar,
e não versificando nem à esquerda
nem debaixo de ninguém, vocês me dirão.

Adeus então, fama, adeus obras completas,
adeus escadas para Carlos Barral,
adeus muchachos, jamais companheiros
de mi vida (a Deus graças – e graças também
aos sábios conselhos de companhias
que me deu meu paizinho).

Mas todos felizes, teremos
mais intimidade eu e a Poesia,
e que consolo para vós: na pasta
de Félix Grande um pouco menos de original
e um pouco mais de alfafa nos prados amenos
do Parnaso local.


(Trad. A.M.)

.

18.7.19

Mario Míguez (O milagre do velho Manuel)





EL MILAGRO DEL VIEJO MANUEL



Ya están definitivamente quietas:
hoy se fueron enfriando entre las mías
y no hubo nadie más para estrecharlas.
Qué milagro tan tierno en sus caricias.
Porque aquellas dos manos delicadas,
las temblorosas manos del anciano
que era huérfano y pobre desde niño,
y se crió con hambre y abandono
y vivió el desamparo de las lágrimas,
esas manos cansadas ya y enfermas,
transmitían lo más inesperado:
ofrecían el más puro cariño,
el necesario y limpio amor que siempre
le fue negado a él desde la infancia.


Mario Míguez





Já não mexem mais,
foram arrefecendo hoje entre as minhas
e não havia mais ninguém para apertá-las.
Que milagre de ternura nas suas carícias!
Porque aquelas duas mãos delicadas,
as mãos tremidas do ancião
que era pobre e órfão desde pequeno,
criado com fome e abandono,
no desamparo das lágrimas,
essas mãos cansadas já e doentes
transmitiam o mais inesperado,
ofereciam o mais puro carinho,
o necessário e limpo amor que sempre
lhe foi negado a ele desde criança.

(Trad. A.M.)

.

16.7.19

Eugénio de Andrade (Foz do Douro)






FOZ DO DOURO



É outra vez abril
– e tão perfeito é o azul
que o estendo
ao longo do meu corpo.
Não sei de ninguém tão bem vestido!


Eugénio de Andrade

[Canal de poesia]

.

14.7.19

Eugénia de Vasconcellos (Lembra)





LEMBRA



Digo-te isto para que saibas quem és,
às vezes,
esquecemos, confundimos,
desconseguimos e ao fim, desacreditamos,
colam-se-nos os fantasmas
dos vivos e as memórias dos mortos
e da voz faz-se um fio à míngua de palavras
- e onde a palavra não chega, o pensamento
não cria o acto e morre-se, morre-se, morre-se
um dia de cada vez de tanto não ser. Então
digo-te isto para que saibas quem és:
és um ponto suspenso no infinito, e
lembra: o infinito cabe num ponto.


Eugénia de Vasconcellos

.

13.7.19

Miguel Barnet (Saimos para a rua)





Salimos a la calle, caminamos bajo la llovizna,
entramos en un bar, bebemos, compramos una pizza,
la envolvemos, se enfría, la tiramos,
seguimos malecón abajo, las olas blancas
levantan sobre nuestras cabezas,
la noche es lenta, acuosa, no sé si triste,
tomamos café, tú casi no me ves, no me oyes
Te acompaño al ómnibus
No puedo articular palabra
Te vas en silencio
Yo tomo el ómnibus siguiente,
nada me molesta, ni el tumulto ni el vocerío,
me quedo en el puente,
las parejas jugueteando en la yerba,
demasiado lejos mi casa
Entro, subo las escaleras
Repaso mi vida, y en cada imagen estás,
en cada imagen perteneces,
abro la puerta, el apagón, qué maravilla,
me tiro en la cama, oscuro, silencioso.
Alguien llama al teléfono. No respondo.
Afuera es posible que siga cayendo la llovizna.


Miguel Barnet




Saímos para a rua, caminhamos à chuva,
entramos num bar, bebemos, compramos uma piza,
embrulhamo-la, arrefece, deitamo-la fora,
seguimos pela marginal, as ondas brancas
erguem-se sobre as nossas cabeças,
a noite é lenta, aquosa, não sei se triste,
tomamos café, tu quase não me vês, não me ouves
Acompanho-te ao ónibus
Não posso articular palavra
Vais-te em silêncio
Eu tomo o ónibus seguinte,
nada me incomoda, nem o tumulto nem as vozes,
detenho-me na ponte,
os pares a brincar sobre a erva,
muito longe a minha casa
Entro, subo a escada
Revejo a minha vida e em cada imagem tu estás,
em cada imagem pertences,
abro a porta, o apagão da luz, que maravilha,
estiro-me na cama, escuro, em silêncio.
Lá fora, se calhar, continua a cair a chuva.

(Trad. A.M.)

.

11.7.19

Meira Delmar (Hóspede sem sombra)





HUÉSPED SIN SOMBRA



Nada deja mi paso por la tierra.
En el momento del callado viaje
he de llevar lo que al nacer me traje:
el rostro en paz y el corazón en guerra.

Ninguna voz repetirá la mía
de nostálgico ardor y fiel asombro.
La voz estremecida con que nombro
el mar, la rosa, la melancolía.

No volverán mis ojos renacidos
de la noche a la vida siempre ilesa,
a beber como un vino la belleza
de los mágicos cielos encendidos.

Esta sangre sedienta de hermosura
por otras venas no será cobrada.
No habrá manos que tomen, de pasada,
la viva antorcha que en mis manos dura.

Ni frente que mi sueño mutilado
recoja y cumpla victoriosamente.
Conjuga mi existir tiempo presente
sin futuro después de su pasado.

Término de mí misma, me rodeo
con el anillo cegador del canto.
Vana marea de pasión y llanto
en mí naufraga cuanto miro y creo.

A nadie doy mi soledad. Conmigo
vuelve a la orilla del pavor, ignota.
Mido en silencio la final derrota.
Tiemblo del día. Pero no lo digo.


Meira Delmar




Nada fica da minha passagem na terra.
No momento da partida,
levarei o que trouxe ao nascer,
o rosto em paz, o coração em guerra.

Nenhuma voz repetirá a minha
de ardor nostálgico, de fiel assombro,
a voz estremecida com que nomeio
o mar, a rosa, a melancolia.

Meus olhos renascidos da noite
para a vida sempre ilesa
não voltarão a beber o vinho da beleza
dos mágicos céus incendidos.

Este sangue sedento de beleza
não será cobrado por outras veias.
Nem mãos haverá que tomem, de passagem,
a tocha viva que me arde nas mãos.

Nem frente que meu sonho mutilado
recolha e cumpra vitorioso.
Meu existir combina tempo presente
sem futuro depois de seu passado.

Termo de mim mesma, ponho
o anel cegador do canto.
Maré vã de pranto e paixão,
em mim naufraga quanto olho e creio.

A ninguém dou minha solidão. Ignota,
volta comigo à margem do pavor.
Em silêncio meço a derrota final,
tremo do dia, mas não o digo.


(Trad. A.M.)

.

10.7.19

Eucanaã Ferraz (O ator)






O ATOR



Pensei em mentir, pensei em fingir,
dizer: eu tenho um tipo raro de,
estou à beira,
embora não aparente. Não aparento?
Providências: outra cor na pele,
a mais pálida; outro fundo para a foto:
nada; os braços caídos, um mel
pungente entre os dentes.
Quanto à tristeza
que a distância de você me faz,
está perfeita, fica como está: fria,
espantosa, sete dedos
em cada mão. Tudo para que seus olhos
vissem, para que seu corpo
se apiedasse do meu e, quem sabe,
sua compaixão, por um instante,
transmutasse em boca, a boca em pele,
a pele abrigando-nos da tempestade lá fora.
Daria a isso o nome de felicidade,
e morreria.
Eu tenho um tipo raro.


Eucanaã Ferraz

.

8.7.19

Pedro Sevilla (O tempo)





EL TIEMPO



Era en el alto espejo del tocador aquel.

Mi madre, jovencísima, adolescente casi,
con los hombros desnudos,
se retoca el peinado
y a través del cristal me mira y me sonríe.

Por el postigo abierto de la ventana azul,
mariposa amarilla,
entra un rayo de sol que se posa en su cuello,
tiembla un poco y se va
dejando imperceptibles quemaduras.

Luego llegó el incendio de los años.


Pedro Sevilla

[La mirada del lobo]




Era no espelho alto do toucador.

Minha mãe, muito jovem, quase adolescente,
os ombros despidos,
retoca o penteado
e pelo vidro olha para mim e sorri-me.

Pelo postigo aberto da janela azul,
borboleta amarela,
entra um raio de sol que lhe pousa no pescoço,
estremece um pouco e vai-se,
deixando queimaduras imperceptíveis.

Depois veio o incêndio dos anos.

(Trad. A.M.)

.

7.7.19

Raúl González Tuñón (A liberdade)




LA LIBERTAD


I

De pronto entró la Libertad.

La Libertad no tiene nombre,
no tiene estatua ni parientes.
La Libertad es feroz.
La Libertad es delicada.

La Libertad es simplemente
la Libertad.

Ella se alimenta de muertos.
Los Héroes cayeron por Ella.
Sin angustia no hay Libertad,
sin alegría tampoco.
Entre ambas la Libertad
es el armonioso equilibrio.

Nosotros tenemos vergüenza,
la Libertad no la tiene,
la Libertad anda desnuda.
(Y el señor Jesucristo dijo
que el reino de Dios vendrá
cuando andemos de nuevo desnudos
y no tengamos vergüenza.)

Hermanos, nosotros sabemos,
pero la Libertad no sabe.


II

Hay que ser piedra o pura flor o agua,
conocer el secreto violeta de la pólvora,
haber visto morir delante del relámpago,
conocer la importancia del ajo y el espliego,
haber andado al sol, bajo la lluvia, al frío,
haber visto a un soldado con el fusil ardiente,
cantando, sin embargo, la Libertad querida.

Viva el amor, la vida poderosa,
la muerte creadora de olores penetrantes
y eso porque uno muere y resucita,
la luz sobre los techos de la aurora,
sobre las torres del petróleo,
sobre las azoteas de las parvas,
sobre los mástiles del queso y el vino,
sobre las pirámides del cuero y el pan,
la gente retornando,
una ventana con la bandera en familiar bordado
y la exacta ambulancia, con heridos,
cantando, sin embargo, la Libertad querida.

Hay que ser como el puente necesario,
natural como el lirio, como el toro,
saber llegar al fondo del silencio,
al subsuelo del brote y a la raíz del grito,
hay que haber conocido el miedo y el valor,
haber visto una mano que agita una linterna
de noche, hacia el distante nido de metralla,
hay que haber visto a un muerto cicatrizado y solo
cantando, sin embargo, la Libertad querida.


III

De pronto entró la Libertad.

Estábamos todos dormidos,
algunos bajo los árboles,
otros sobre los ríos,
algunos más entre el cemento,
otros más bajo la tierra.

De pronto entró la Libertad
con una antorcha en la mano.

Estábamos todos despiertos,
algunos con picos y palas,
otros con una pantalla verde,
algunos más entre libros,
otros más arrastrándose, solos.

De pronto entró la Libertad
con una espada en la mano.

Estábamos todos dormidos,
estábamos todos despiertos
y andaban el amor y el odio
más allá de las calaveras.

De pronto entró la Libertad,
no traía nada en la mano.

La Libertad cerró el puño.
¡Ay! Entonces...


Raúl González Tuñón




I

De repente entrou a Liberdade.

A Liberdade não tem nome,
não tem estátua nem parentes,
a Liberdade é feroz,
a Liberdade é delicada.

A Liberdade é simplesmente
a Liberdade.

Ela alimenta-se de mortos,
os Heróis caíram por Ela.
Sem angústia não há Liberdade,
sem alegria tão pouco.
Entre ambas a Liberdade
é o harmonioso equilíbrio.

Nós todos temos vergonha,
a Liberdade não,
a Liberdade anda despida.
(E Jesus Cristo, Nosso Senhor, disse
que o reino de Deus há-de vir
quando andarmos novamente despidos
e não tivermos vergonha)

Irmão, nós sabemos,
mas a liberdade não sabe.


II

Há que ser pedra, água ou pura flor,
conhecer o segredo violeta da pólvora,
ter visto a morte face ao relâmpago,
saber a importância do alho, da alfazema,
ter andado ao sol, à chuva, ao frio,
ter visto um soldado com a arma escaldante,
cantando, não obstante, a Liberdade querida.

Viva o amor, a vida poderosa,
a morte criadora de cheiros penetrantes,
já que a gente morre e ressuscita,
viva a luz nos telhados da aurora,
nas torres de petróleo,
nos sótãos e nos terraços,
nos braços do queijo e do vinho,
nas pirâmides do couro e do pão,
as pessoas a regressar,
uma janela de cortina bordada
e a exacta ambulância, com feridos,
cantando, não obstante, a Liberdade querida.

Há que ser como a ponte necessária,
natural como o lírio, como o touro,
saber ir ao fundo do silêncio,
ao subsolo do rebento, à raiz do grito,
há que ter conhecido o medo e a coragem,
ter visto uma mão agitando a lanterna
de noite, para o distante ninho da metralha,
há que ter visto um morto recuperado e solitário,
cantando, não obstante, a Liberdade querida.


III

De repente, entrou a Liberdade.

Estávamos todos dormindo,
uns debaixo das árvores,
outros sobre os rios,
outros ainda sobre o betão
ou mesmo debaixo de terra.

De repente entrou a Liberdade
com uma tocha na mão.

Estávamos todos despertos,
uns armados de pau e pico
e outros de lenço verde,
uns no meio dos livros
e outros ainda pelo chão,
arrastando-se, sozinhos.

De repente entrou a Liberdade
com uma espada na mão.

Estávamos todos dormindo,
estávamos todos despertos,
enquanto o amor e o ódio
vagavam entre as caveiras.

De repente entrou a Liberdade
e não trazia nada na mão.

A Liberdade cerrou o punho.
Ai, então…


(Trad. A.M.)

.

5.7.19

Egito Gonçalves (Notícia para colar na parede)





NOTÍCIA PARA COLAR NA PAREDE



Por aqui andamos a morder as palavras
dia a dia no tédio dos cafés
por aqui andaremos até quando
a fabricar tempestades particulares
a escrever poemas com as unhas à mostra
e uma faca de gelo nas espáduas
por aqui continuamos ácidos cortantes
a rugir quotidianamente até ao limite da respiração
enquanto os corações se vão enchendo de areia
lentamente
lentamente


Egito Gonçalves

.

3.7.19

José Cereijo (Testamento)





TESTAMENTO



Este profundo azul del cielo en primavera,
el canto de los pájaros, el rumor de los sueños,
el amor de los libros, siempre correspondido,
el silencio del alba,
el de mi corazón, algunas veces,
las horas que hacen dulce, secreta la memoria:
es todo para ella.

Todo para la muerte, que me ha querido tanto.


José Cereijo





Este profundo azul do céu na primavera,
o canto dos pássaros, o rumor dos sonhos,
o amor dos livros, sempre correspondido,
o silêncio da aurora,
o do meu coração, certas vezes,
as horas que fazem doce, secreta a memória,
é tudo para ela.

Tudo para a morte, que tanto me quis.

(Trad. A.M.)

.