31.3.21

Antonia Pozzi (Largo)



LARGO



O lasciate lasciate che io sia
una cosa di nessuno
per queste vecchie strade
in cui la sera affonda -

O lasciate lasciate ch'io mi perda
ombra nell'ombra -
gli occhi
due coppe alzate
verso l'ultima luce -

E non chiedetemi - non chiedetemi
quello che voglio
e quello che sono
se per me nella folla è il vuoto
e nel vuoto l'arcana folla
dei miei fantasmi -
e non cercate - non cercate
quello ch'io cerco
se l'estremo pallore del cielo
m'illumina la porta di una chiesa
e mi sospinge a entrare -
Non domandatemi se prego
e chi prego
e perché prego -

Io entro soltanto
per avere un po' di tregua
e una panca e il silenzio
in cui parlino le cose sorelle -
Poi ch'io sono una cosa -
una cosa di nessuno
che va per le vecchie vie del suo mondo -
gli occhi
due coppe alzate
verso l'ultima luce.

Antonia Pozzi




Oh deixai-me ser
uma coisa de ninguém 
por estes velhos caminhos
em que a tarde se afunda

Deixai-me perder
sombra na sombra 
- os olhos
duas taças erguidas
para a derradeira luz -

E não me pergunteis - não me pergunteis 
o que é que eu quero
e o que é que eu sou
se para mim na turba é o vazio
e no vazio a turba antiga
dos meus fantasmas -
e não busqueis - não busqueis
aquilo que eu busco
quando o céu lívido
me ilumina a porta de uma igreja
e me incita a entrar -
Não me pergunteis se rezo
a quem rezo 
e por que rezo -

Eu entro apenas
para ter um pouco de paz
e um banco e o silêncio 
onde me falam as coisas irmãs
 - Porque eu sou uma coisa,
uma coisa de ninguém 
que vai pelos caminhos do seu mundo -
os olhos
duas taças erguidas
para a derrradeira luz.

(Trad. A.M.)

.

29.3.21

Luis Cernuda (Adolescente fui)



Adolescente fui en días idénticos a nubes,
Cosa grácil, visible por penumbra y reflejo, 
Y extraño es, si ese recuerdo busco, 
Que tanto, tanto duela sobre el cuerpo de hoy.

Perder placer es triste 
Como la dulce lámpara sobre el lento nocturno; 
Aquel fui, aquel fui, aquel he sido; 
Era la ignorancia mi sombra.

Ni gozo ni pena; fui niño 
Prisionero entre muros cambiantes; 
Historias como cuerpos, cristales como cielos, 
Sueño luego, un sueño más alto que la vida.

Cuando la muerte quiera 
Una verdad quitar de entre mis manos, 
Las hallará vacías, como en la adolescencia 
Ardientes de deseo, tendidas hacia el aire.


LUIS CERNUDA
Donde habite el olvido
(1932-3) 





Adolescente fui em dias tal como nuvens,
algo subtil, visível por sombra e reflexo,
e estranho é, se tal lembrança busco,
que tanto, tanto doa neste corpo de hoje.

Ficar sem prazer é triste
como a lâmpada suave com o lento nocturno;
esse fui, esse fui, sempre tendo
a ignorância por minha sombra.

Nem gozo, nem mágoa; menino preso
fui entre muros de mudança;
histórias como corpos, vidros como céus,
logo depois sonho, mais alto do que a vida.

Quando a morte quiser
uma verdade tirar-me das mãos,
há-de achá-las vazias, ardentes de desejo,
como na adolescência, erguidas para o ar.


(Trad. A.M.)

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28.3.21

Miguel Gaya (Não é verdade)



No es verdad que habitemos a merced del tiempo.
El tiempo no existe. 
Nadie lo ha visto, nadie lo huele, nadie lo toca.
Cuando estamos reunidos, o caminamos a solas, 
o nos quedamos mirando el vacío, 
el tiempo no está entre nosotros. 
Repetidas veces he dado vuelta la cabeza
y nunca lo he sorprendido, 
y cuando estiro el cuello para ver el mañana
el tiempo no se encuentra más adelante.
Ahora en la habitación que continúa a oscuras
preveo las rayas de luz, diminutas, 
que irán transitando en la pared
según avance el día.
Y más tarde ya no estaré allí.

Miguel Gaya



Não é verdade que vivamos à mercê do tempo.
O tempo não existe.
Ninguém o viu, ninguém o cheira, ninguém o toca.
Quando estamos juntos, ou caminhamos sozinhos,
ou ficamos a olhar para o vazio,
o tempo não está entre nós.
Muitas vezes virei a cabeça
e nunca o surpreendi,
e quando estico o pescoço para ver o amanhã
o tempo não se encontra mais adiante.
Agora mesmo na sala às escuras
eu antevejo os raios de luz, diminutos,
que irão transitando na parede
conforme o avanço do dia.
E mais tarde eu já ali não estarei.

(Trad. A.M.)


>>  La infancia del procedimiento (16p) / Otra iglesia (16p) / Scribd (anto) / Sibilas y pitias (8p) / El infinito viajar (5p)


.

27.3.21

Jorge Luís Borges (Os justos)



OS JUSTOS 


Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece o existir música na terra.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acaricia um animal adormecido.
O que justifica, ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece haver Stevenson neste mundo.
O que prefere que tenham razão os outros.
Essas pessoas, ignoradas, estão salvando o mundo.


JORGE LUÍS BORGES
La Cifra
 (1981)

 (Trad. A.M.)
.

26.3.21

Hilda Hilst (Testamento lírico)



TESTAMENTO LÍRICO



Se quiserem saber se pedi muito
Ou se nada pedi, nesta minha vida,
Saiba, senhor, que sempre me perdi
Na criança que fui, tão confundida.
À noite ouvia vozes e regressos.
A noite me falava sempre sempre
Do possível de fábulas. De fadas.
O mundo na varanda. Céu aberto.
Castanheiras douradas. Meu espanto
Diante das muitas falas, das risadas.
Eu era uma criança delirante.
Nem soube defender-me das palavras.
Nem soube dizer das aflições, da mágoa
De não saber dizer coisas amantes.
O que vivia em mim, sempre calava.

E não sou mais que a infância. Nem pretendo
Ser outra, comedida. Ah, se soubésseis!
Ter escolhido um mundo, este em que vivo,
Ter rituais e gestos e lembranças.
Viver secretamente. Em sigilo
Permanecer aquela, esquiva e dócil.
Querer deixar um testamento lírico
E escutar (apesar) entre as paredes
Um ruído inquietante de sorrisos
Uma boca de plumas, murmurante.

Nem sempre há de falar-vos um poeta.
E ainda que minha voz não seja ouvida
Um dentre vós, resguardará (por certo)
A criança que foi. Tão confundida.


Hilda Hilst


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24.3.21

Jorge Riechmann (Há-os que morrem de silêncio)



Los hay que mueren de silencio
de tragarse demasiadas palabras y del cólico fenomenal que sigue
y los hay que mueren por hablar demasiado
pues las paredes —al contrario que las tapias, que están sordas— oyen.

Los hay que mueren de cansancio
de todo lo que hay que cambiar para que nada cambie
y hay quien muere de aburrimiento
en esta feria universal donde continuamente ocurren cosas
y nunca pasa nada.

Hay quienes mueren de miedo
ante la mera sospecha de que podrían darse de bruces
con la verdad de sus actos
y hay a quienes les da tanto coraje
que alguien pudiera sospechar que hay una verdad tras sus actos
que sencillamente se mueren.

Los hay que no mueren nunca
porque ya están muertos.


Jorge Riechmann

[Militia lyrica]

 

 

Há-os que morrem de silêncio
de engolir muitas palavras e da cólica que se segue
e há-os que morrem por falar demasiado
pois as paredes – ao contrário das portas, que são surdas –
têm ouvidos.

Há-os que morrem de cansaço
de tudo que é preciso mudar para que nada mude
e há quem morra de tédio
nesta feira universal onde estão sempre a ocorrer coisas
e nunca acontece nada.

Há-os que morrem de medo
ante a mera possibilidade de dar de caras
com a verdade dos seus actos
e há outros com tanta coragem
por alguém suspeitar uma verdade por trás dos seus actos
que simplesmente se morrem.

Há-os que não morrem nunca
porque estão já mortos.


(Trad. A.M.)

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23.3.21

Efi Cubero (Estado próprio)



ESTADO PROPIO



Cuando la niebla se disipa,
sientes
que en la extensión del mar
allá, a lo lejos,
la luz intermitente te señala
un espacio...

(Todo desplazamiento
presupone una fuga)


Efi Cubero




Quando se dissipa a névoa,
sentes
que na extensão do mar
lá, ao longe,
a luz intermitente assinala-te
um espaço...

(Todo o movimento
pressupõe uma fuga)

(Trad. A.M.)


>>  Letralia-I (9p) / Letralia-II (9p) / Trianarts (9p) / Poetas siglo XXI (8p) / Letralia-III (bio/linques) / Wikipedia

.


21.3.21

Alexandre O'Neill (A bicicleta)



A BICICLETA



O meu marido
saiu de casa no dia
25 de Janeiro. Levava uma bicicleta
a pedais, caixa de ferramenta de pedreiro,
vestia calças azuis de zuarte, camisa verde,
blusão cinzento, tipo militar, e calçava
botas de borracha e tinha chapéu cinzento
e levava na bicicleta um saco com uma manta
e uma pele de ovelha, um fogão a petróleo
e uma panela de esmalte azul.
Como não tive mais notícias, espero o pior.


Alexandre O’Neill

.

19.3.21

Leopoldo María Panero (A canção do croupier do Mississipi)




LA CANCIÓN DEL CROUPIER DEL MISSISSIPI



Fumo mucho. Demasiado.
Fumo para frotar el tiempo y a veces oigo la radio,
y oigo pasar la vida como quien pone la radio.
Fumo mucho. En el cenicero hay
ideas y poemas y voces
de amigos que no tengo. Y tengo
la boca llena de sangre,
y sangre que sale de las grietas de mi cráneo
y toda mi alma sabe a sangre,
sangre fresca no sé si de cerdo o de hombre que soy,
en toda mi alma acuchillada por mujeres y niños
que se mueven ingenuos, torpes, en
esta vida que ya sé.
Me palpo el pecho de pronto, nervioso,
y no siento un corazón. No hay,
no existe en nadie esa cosa que llaman corazón
sino quizá en el alcohol, en esa
sangre que yo bebo y que es la sangre de Cristo,
la única sangre en este mundo que no existe
que es como el mal programado, o
como fábrica de vida o un sastre
que ha olvidado quién es y sigue viviendo, o
quizá el reloj y las horas pasan.
Me palpo, nervioso, los ojos y los pies y el dedo gordo
de la mano lo meto en el ojo, y estoy sucio
y mi vida oliendo.
Y sueño que he vivido y que me llamo de algún modo
y que este cuento es cierto, este
absurdo que delatan mis ojos,
este delirio en Veracruz, y que este
país es cierto este lugar parecido al Infierno,
que llaman España, he oído
a los muertos que el Infierno
es mejor que esto y se parece más.
Me digo que soy Pessoa, como Pessoa era Álvaro de Campos,
me digo que estar borracho es no estarlo
toda la vida, es
estar borracho de vida y no de muerte,
es una sangre distinta de esa otra
espesa que se cuela por los tejados y por las paredes
y los agujeros de la vida.
Y es que no hay otra comunión
ni otro espasmo que este del vino
y ningún otro sexo ni mujer
que el vaso de alcohol besándome los labios
que este vaso de alcohol que llevo en el
cerebro, en los pies, en la sangre.
Que este vaso de vino oscuro o blanco,
de ginebra o de ron o lo que sea
¿ginebra y cerveza, por ejemplo?
que es como la infancia, y no es
huida, ni evasión, ni sueño
sino la única vida real y todo lo posible
y agarro de nuevo la copa como el cuello de la vida y cuento
a algún ser que es probable que esté
ahí la vida de los dioses
y unos días soy Caín, y otros
un jugador de poker que bebe whisky perfectamente y otros
un cazador de dotes que por otra parte he sido
pero lo mío es como en «Dulce pájaro de juventud»
un cazador de dotes hermoso y alcohólico, y otros días,
un asesino tímido y psicótico, y otros
alguien que ha muerto quién sabe hace cuánto,
en qué ciudad, entre marineros ebrios. Algunos me
recuerdan, dicen
con la copa en la mano, hablando mucho,
hablando para poder existir de que
no hay nada mejor que decirse
a sí mismo una proposición de Wittgenstein mientras sube
la marea del vino en la sangre y el alma.
O bien alguien perdido en las galerías del espejo
buscando a su Novia. Y otras veces
soy Abel que tiene un plan perfecto
para rescatar la vida y restaurar a los hombres
y también a veces lloro por no ser un esclavo
negro en el sur, llorando
entre las plantaciones!
Es tan bella la ruina, tan profunda
sé todos sus colores y es
como una sinfonía la música del acabamiento,
como música que tocan en el más allá,
y ya no tengo sangre en las venas, sino alcohol,
tengo sangre en los ojos de borracho
y el alma invadida de sangre como de una vomitona,
y vomito el alma por las mañanas,
después de pasar toda la noche jurando
frente a una muñeca de goma que existe Dios.
Escribir en España no es llorar, es beber,
es beber la rabia del que no se resigna
a morir en las esquinas, es beber y mal
decir, blasfemar contra España
contra este país sin dioses pero con
estatuas de dioses, es
beber en la iglesia con música de órgano
es caerse borracho en los recitales y manchas de vino
tinto y sangre «Le livre des masques» de Rémy de Gourmont
caerse húmedo babeante y tonto y
derrumbarse como un árbol ante los farolillos
de esta verbena cultural. Escribir en España 
es tener
hasta el borde en la sangre este alcohol de locura que ya
no justifica nada ni nadie, ninguna sombra
de las que allí había al principio.
Y decir al morir, cuando tenga
ya en la boca y cabeza la baba del suicidio
gritarle a las sombras, a las tantas que hay y fantasmas
en este paraíso para espectros
y también a los ciervos que he visto en el bosque,
y a los pájaros y a los lobos en la calle y
acechando en las esquinas
«Fifteen men on the Dead Man's Chest
Fifteen men on the Dead Man's Chest
Yahoo! And a bottle of rum!»

Leopoldo María Panero



Fumo muito. Demasiado.
Fumo para passar o tempo e oiço rádio às vezes,
e oiço a vida passar como quem liga o rádio.
Fumo muito. No cinzeiro há
ideias e poemas e vozes
de amigos que não tenho. E tenho
a boca cheia de sangue,
e sangue que me sai das rachas da cabeça
e a minha alma toda sabe a sangue,
sangue fresco não sei se de porco ou
de homem que sou,
minha alma acutilada por mulheres e crianças
que andam por esta vida canhestras e ingénuas.
Palpo o peito de repente, nervoso, e não sinto coração. Não há,
não existe em ninguém isso que chamam coração,
mas talvez no álcool, neste
sangue que eu bebo e que é o sangue de Cristo
o único sangue neste mundo que não existe,
que é o como o mal programado, ou
como fábrica de vida ou um alfaiate
esquecido de quem é mas que continua a viver
ou talvez o relógio e as horas que passam.
Apalpo-me, nervoso, os olhos e pés e o dedo grande
da mão meto-o no olho, e estou sujo e minha vida tresandando.
E sonho que vivi, que tenho um nome,
e que é verdadeira esta história, este
absurdo que meus olhos denunciam,
este delírio de Veracruz, que este país é real,
este lugar semelhante ao Inferno,
que se chama Espanha, ouvi
aos mortos que o Inferno é melhor do que isto e mais parecido.
Digo para mim que sou Pessoa, como Pessoa era Álvaro de Campos,
digo que estar bêbedo é não o estar a vida toda, é
estar bêbedo de vida, não de morte,
é um sangue distinto desse outro sangue espesso
que se coa por telhados, por paredes, pelos buracos da vida.
E não há outra comunhão
nem outro espasmo que este do vinho,
nem outro sexo ou mulher
senão o copo de álcool a beijar-me os lábios,
este copo de álcool que tenho nos pés, no sangue, no cérebro.
Este copo de vinho escuro ou branco,
de genebra ou rum ou seja do que for, genebra e cerveja, por exemplo?,
que é como a infância e não é
fuga, nem sonho, nem evasão,
mas a única vida real, o possível todo,
e agarro o copo de novo como o pescoço da vida, dizendo 
que provavelmente estará aí a vida dos deuses
e uns dias sou Caim, outros 
um jogador de póquer e outros 
um caçador de dotes que aliás fui,
mas o meu é como o do ‘Doce pássaro da juventude’
um caçador de dotes belo e alcoólico,
e outros dias ainda um assassino tímido e psicótico, e outros
alguém que morreu sabe-se lá quando,
em que cidade, entre marinheiros ébrios.
Alguns recordam-me, dizem, 
de copo na mão, a falar muito,
a falar para poder existir,
que não há nada como dizer a si próprio
uma proposição de Wittgenstein enquanto
a maré do vinho sobe no sangue e na alma.
Ou então alguém perdido nas galerias do espelho
à procura da Noiva. E outras vezes 
sou Abel, que tem um plano perfeito para
salvar a vida e restaurar a humanidade
e também às vezes choro por não ser escravo
negro no sul, a chorar
no meio da plantação!
É tão bela a ruína, tão profunda,
sei-lhe as cores todas e é
como uma sinfonia a música do acabamento,
como música que tocam no além,
e eu não tenho já sangue nas veias, mas álcool,
tenho sangue nos olhos de bêbedo,
a alma invadida de sangue, que vomito pela manhã,
depois de passar a noite jurando 
a uma boneca de borracha que Deus existe.
Escrever em Espanha não é chorar, é beber,
é beber a raiva de quem não se resigna
a morrer pelas esquinas, é beber e maldizer,
blasfemar contra Espanha
contra este país sem deuses mas com estátuas de deuses, é
beber na igreja com música de órgão,
é cair de bêbedo nos recitais,
tombar de tonto e coberto de baba, 
ruir como árvore diante dos balõezinhos 
desta verbena cultural. Escrever em Espanha
é ter
no sangue até ao limite este álcool de loucura que não
justifica já nada nem ninguém, nenhuma sombra
das que havia aí no princípio.
E dizer ao morrer, já com a baba do suicídio na boca e na cabeça,
berrar às sombras, tantas que há e fantasmas neste paraíso para espectros,
e aos cervos também que vi no bosque,
e aos pássaros e aos lobos na rua, espreitando às esquinas:
«Fifteen men on the Dead Man's Chest
Fifteen men on the Dead Man's Chest
Yahoo! And a bottle of rum!»


(Trad. A.M.)

.

18.3.21

Leopoldo Castilla (Fuga da pedra)



FUGA DE LA PIEDRA



La piedra se acumula
se suma a sí misma
-cree que suma-
asciende

y luego se desmorona
se resta a sí misma
-cree que resta-
cae

y es la misma
en el polvo
y más allá del polvo
ya vacía
en el viento que vuela
persiguiéndola.

Así se fuga. Y todo sería invisible
si no fuera
que el espacio tarda en comenzar
donde estuvo una piedra.


Leopoldo Castilla





A pedra acumula-se
a si mesma se soma
- pensa que soma -
ascende

e depois desmorona-se
subtrai-se a si mesma
- pensa que subtrai -
cai

e é a mesma
no pó
e para além do pó
já vazia
no vento que voa
a persegui-la.

Assim foge. E tudo seria invisível
se não fosse
que o espaço tarda a começar
onde havia uma pedra.


(Trad. A.M.)

.

16.3.21

Artur Cruzeiro Seixas (A tua boca adormeceu)


A tua boca adormeceu 
parece um cais muito antigo 
à volta da minha boca. 

Mas as palavras querem voltar à terra 
ao fogo do silêncio que sustém as pontes 
perdidas na sua própria sombra. 

E há um cão de pedra como um fruto 
que nos cobre com o seu uivo 
enquanto pássaros de ouro com mãos de marfim 
transplantam as árvores transparentes 
para o ponto mais fundo do mar. 

As lágrimas que não chorei 
arrependidas 
fazem transbordar a eterna agonia do mar 
como um lençol fúnebre 
com que tivesse alguém coberto o rosto metafórico 
dos cinco continentes que em nós existem. 

Assim é ao mesmo tempo 
que sou eu e não o sou 
aquele relógio das horas de ouro 
que além flutua. 


Artur do Cruzeiro Seixas


>>  Aberta no tempo (50p) / U.Lusiada (bio) / USP (tese) / Wikipedia

.

 


14.3.21

Laura Wittner (Respondendo a Carver)



RESPONDIÉNDOLE A CARVER DIEZ AÑOS DESPUÉS



El cuerpo no pesa lo suficiente sobre el colchón
y el deseo de dormir se diluye
en el deseo de todo. Este hartazgo
no se puede glosar.
Ni siquiera es hartazgo.
Para que el cuerpo logre algún reposo
la mente tiene que salir al aire gélido
en estampida, pero estampida silenciosa
como todo lo iluminado por la luna.

Laura Wittner





O corpo não pesa o bastante no colchão
e o desejo de dormir dilui-se
no desejo de tudo. Este fartote
não se pode glosar.
Nem sequer é bem fartote.
Para o corpo lograr algum repouso
a mente tem de sair para o ar gelado
com estrépito, mas estrépito silencioso
como tudo o que a lua ilumina.

(Trad. A.M.)

.

13.3.21

Karmelo C. Iribarren (Aqueles dias)



ESOS DÍAS 


Hay días 
en los que levantarte de la cama 
suele terminar siendo 
más que un acto rutinario 
un gesto épico.

Y no me refiero ahora a las resacas 
ni a que caigan chuzos 
de punta ahí fuera 
ni a que hayas roto con ella.

Me refiero 
a cuando te quieren y hace sol 
y no te duele nada, 
a cuando tienes el mundo 
rendido a tus pies,

y no te basta.

KARMELO C. IRIBARREN
Mientras me alejo
Visor (2017)



Há dias
em que levantar-te da cama
acaba por ser
mais que um acto rotineiro
um gesto épico.

E não me refiro agora a ressacas
nem a choverem canivetes
lá fora
ou a teres rompido com ela.

Refiro-me
a quando te amam e faz sol
e não te dói nada,
quando tens o mundo 
rendido a teus pés,

e não te basta.

(Trad. A.M.)

.

11.3.21

António Ramos Rosa (A palavra é uma estátua submersa)



A palavra é uma estátua submersa, um leopardo
que estremece em escuros bosques, uma anémona
sobre uma cabeleira. Por vezes é uma estrela
que projecta a sua sombra sobre um torso.
Ei-la sem destino no clamor da noite,
cega e nua, mas vibrante de desejo
como uma magnólia molhada. Rápida é a boca
que apenas aflora os raios de uma outra luz.
Toco-lhe os subtis tornozelos, os cabelos ardentes
e vejo uma água límpida numa concha marinha.
É sempre um corpo amante e fugidio
que canta num mar musical o sangue das vogais.


António Ramos Rosa

.

9.3.21

Juanjo Barral (Chamam à porta)



LLAMAN A LA PUERTA Y NO ABRIMOS

 

El hombre llega
a la Luna y luego
es incapaz
de alcanzar
el brazo
del hombre
que se ahoga
en un estrecho
paso
hacia la vida
que podía ser.

 

 Juanjo Barral

Militia lyrica]

 

 

O homem chega
à Lua e depois
é incapaz
de alcançar
o braço
do homem
a afogar-se
num estreito
passo
para a vida
que podia ser.

(Trad. A.M.)

.

8.3.21

Yolanda Castaño (Se falasse de ti)



Si hablase de ti no pronunciaría
                                            as sílabas supremas
pero besas bien y me gusta estar contigo.
Mi verde con tu azul.
Delirio de ramas.
Mi verde con tu azul.

Me abstengo de pronunciar esas sílabas sublimes
pero me gusta cómo abrazas y tu pelo hace juego con mi vestido.
Tus dedos patinan en mis medias.
Mi verde con tu azul.


Yolanda Castaño

 

 

Se falasse de ti não pronunciaria
                                            as sílabas supremas
mas beijas bem e eu gosto de estar contigo.
Meu verde com teu azul.
Delírio de ramos.
Meu verde com teu azul.

Não pronunciarei essas sílabas sublimes
mas gosto de como abraças
 e teu cabelo joga com meu vestido.
Teus dedos patinam nas minhas meias.
Meu verde com teu azul.


(Trad. A.M.)



 

>>  Yolanda Castano (sítio of) / A media voz (12p) / Poeticous (11p) / Wikipedia

.

6.3.21

Antonia Pozzi (Confiar)



CONFIDARE

 

Ho tanta fede in te. 
Mi sembra
che saprei aspettare la tua voce
in silenzio, per secoli
di oscurità. 

Tu sai tutti i segreti,
come il sole:
potresti far fiorire
i gerani e la zàgara selvaggia
sul fondo delle cave
di pietra, delle prigioni
leggendarie. 

Ho tanta fede in te. 
Son quieta
come l'arabo avvolto
nel barracano bianco,
che ascolta Dio maturargli
l'orzo intorno alla casa.

 
Antonia Pozzi

 

 

Tenho tanta fé em ti,
e parece-me
que podia esperar pela tua voz,
em silêncio, no escuro
de séculos.

Tu conheces os segredos todos,
tal como o sol:
podias até fazer desabrochar
os gerânios ou a flor de laranjeira
no chão de pedra das cadeias
lendárias.

Tenho tanta fé em ti,
e estou tranquila
como esse árabe embrulhado
no seu albornó branco
a ouvir Deus amadurar-lhe
a cevada à volta da casa.

(Trad. A.M.)

.

4.3.21

Juan Vicente Piqueras (Édipo precavido)

 



EDIPO PRECAVIDO

 

Llevo siempre esta espada de juguete,
porque nunca se sabe,
y una pistola de agua, por si acaso.

Voy siempre preparado
no vaya a ser que, así, en cualquier momento,
siempre el menos pensado,
me asalte la niñez y me desarme,
me pida explicaciones, me someta
a su feroz nostalgia, a sus caprichos,
que no sería la primera vez.

Llevo siempre esta espada y una pistola de agua
por si la sed de entonces arrecia de repente
y debo suicidarme de mentiras.

Voy siempre bien armado porque el coco
acecha en cada esquina a cada instante.

Con los tiempos que corren,
y corren bien a escape,
ya ni muerto puede uno estar tranquilo.

Por eso llevo siempre esta pistola,
esta espada, este miedo, esta nostalgia,
y un tarrito de miel por si las moscas.

Juan Vicente Piqueras

[Life vest under your seat]



Ando sempre com esta espada de brincar,
porque nunca se sabe,
e uma pistola de água, para o caso de.

Ando sempre prevenido,
não se dê o caso, quando menos espere,
de me assaltar a infância e me desarmar,
de pedir-me explicações ou submeter-me
aos seus caprichos ou à saudade,
que não seria já a primeira vez.

Ando sempre com a espada e a pistola
para o caso de me atacar a sede desse tempo
e de me ter de suicidar de mentiras.

Ando sempre bem armado porque o coco
está sempre à espreita,
em cada esquina a cada instante.

Nos tempos que correm,
e correm bem depressa,
uma pessoa nem morta pode já estar descansada.

Por isso uso sempre esta pistola,
esta espada, este medo, esta saudade,
e um frasquito de mel por causa das moscas.


(Trad. A.M.)

 .

3.3.21

Juan Luis Panero (Used words)



USED WORDS



Con palabras usadas,
gastadas por el tiempo y la costumbre,
cuyo último temblor ya no se siente.
Con palabras, como sueños, quemadas por la vida,
esta noche de lluvia hablo contigo,
trato de hablar al menos, ligeramente ebrio,
construyendo cada sílaba en el país de nunca jamás,
y sintiendo esa repentina lucidez
con la que, de pronto, rompemos la rutina de ser y conocemos,
sintiendo, digo, esa rara sensación, distante y desangrada,
del whisky, de la noche y el silencio,
de la entusiasta desesperación con que aceptamos la derrota,
de ese vértigo, a veces, sólo a veces, tuyo y mío,
donde morimos sonriendo con los ojos abiertos.

Sintiendo lo poco que es un beso al fondo de tu lengua,
o tus ojos mirándose en los míos,
o nuestras manos unidas en el aire,
recorriendo un museo de aceptados fracasos.
Desfilan, batallón desolado de fantasmas,
nombres y nombres con distinto eco.
Pretendemos, con abolidos rostros, fechas caducadas, 
ciudades imposibles,
contestar una vieja pregunta
cuya respuesta sólo la muerte ya conoce.
Años y años, voluntarios exilios de seres y países,
los hijos que no quise tener, los que tú sí tuviste,
el temblor del deseo que aún guardas en tu piel,
mi repetido navegar de cama en cama,
se reúnen y afirman su destino
frente a la ceremonia del amanecer.
Y todo lo sabemos y está escrito en tus ojos,
sin embargo hoy, este día con sol, -tan raro en Bogotá-
de finales de julio, de algún año cualquiera,
te propongo mi amor, sé que tú aceptarás,
con palabras usadas, te propongo mentirnos.
Pasada ya la noche, quietos frente al espejo,
mientras yo me afeito y tú pintas tus labios,
te propongo mi amor, decir que nos queremos.

Decir -y son tan sólo ejemplos- «hoy existe la vida por nosotros»
o «tú no te morirás nunca»
o, tal vez, «aún hay noches y noches que esperan
nuestros brazos, ese especial calor de dormir abrazados».
Olvidando, tratando de olvidar nuestro pasado,
ignorando el futuro, sin duda inalcanzable,
con palabras gastadas, decir y repetir
-es otro ejemplo- «gracias mi amor por haber existido».
Al menos por un rato -a nadie molestamos-
con palabras usadas mentirnos y mentirnos,
mentirnos contra el tiempo, despreciar su victoria.

Envío:
Te dejo este poema
confuso, absurdo, largo,
para que tú lo tengas como un pañuelo viejo
a los pies de tu cama, para que tú lo tengas,
y un día te lo encuentres, confuso, absurdo, largo,
un día como éste -cuando ya no estaremos-
y recuerdes, debajo de la ducha,
que alguna vez te quise -mentiras y mentiras-
que alguna vez te quise -era un día de julio-
con palabras usadas, como un disco rayado,
que recuerdes, mi amor, esta letra de tango.

JUAN LUIS PANERO 
Desapariciones y fracasos
(1978)




Com palavras usadas,
gastas pelo tempo e pelo uso,
cujo tremor derradeiro já não se sente.
Com palavras, como sonhos, queimadas pela vida,
falo contigo nesta noite de chuva,
tento pelo menos falar, ligeiramente ébrio,
construindo cada sílaba no país do nunca mais,
e sentindo essa repentina lucidez
com que de repente rasgamos a rotina e conhecemos,
sentimos, a estranha sensação, distante e mortiça,
do uísque, da noite e do silêncio,
do desespero eufórico com que aceitamos a derrota,
dessa vertigem, às vezes, só às vezes, tua e minha,
em que morremos sorrindo de olhos abertos.

Sentindo o pouco que é um beijo na tua língua,
ou teus olhos a mirar-se nos meus,
ou nossas mãos enlaçadas no ar,
percorrendo um museu de assumidos fracassos.
Desfilam, batalhão desolado de fantasmas,
nomes e nomes com ecos diferentes.
Com abolidos rostos, datas caducas,
cidades impossíveis, pretendemos
responder à velha pergunta
cuja resposta é só conhecida da morte.
Anos e anos, exílios voluntários de seres e países,
os filhos que eu não quis ter, aqueles que tu sim tiveste,
o tremor do desejo que sentes ainda na pele,
o meu navegar de cama em cama,
tudo se junta e afirma seu destino
diante da cerimónia da aurora.
E tudo sabemos e está escrito em teus olhos,
eu no entanto, neste dia de sol - tão raro em Bogotá - 
em fins de Junho, de um ano qualquer,
lego-te o meu amor, sabendo que o aceitas,
com palavras usadas, propondo mentir-nos.
Passada a noite, parados ao espelho, 
enquanto eu me barbeio e tu pintas os lábios,
proponho-te o meu amor, dizer que nos queremos.

Dizer - e são apenas exemplos - "hoje a vida existe por nós"
ou "tu nunca hás-de morrer"
ou talvez "há noites e noites ainda que esperam
nossos braços, o calor especial de dormir abraçado".
Esquecendo, procurando esquecer o passado,
ignorando o futuro, sem dúvida inatingível,
com gastas palavras, dizer e repetir
- eis outro exemplo - "obrigado amor por ter existido".
Ao menos por um pouco - sem incomodarmos ninguém -
mentir-nos e mentir-nos com palavras usadas,
mentir-nos contra o tempo, desprezando a sua vitória.

Recado:
Deixo-te este poema
confuso, longo, absurdo,
para tu o pores aos pés da cama,
como um lenço velho,
e o achares um dia, confuso, longo, absurdo,
um dia como este - quando já não estivermos -
e lembrares, debaixo do chuveiro,
que eu te amei um dia - mentiras, mais mentiras -
que eu te amei um dia - e era um dia de Julho -
com palavras usadas, como um disco riscado,
para lembrares, meu amor, esta letra de tango.


(Trad. A.M.)

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1.3.21

Amadeu Baptista (Poema para o septuagésimo aniversário)



POEMA PARA O SEPTUAGÉSIMO ANIVERSÁRIO

 

Para a minha decrepitude peço bondade
E um resto de memória para que saiba quem fui.
Quanto aos apelos, quero que fiquem esquecidos,
Bem como o modo como a casa envelheceu. 

Se tive feridas, já as limpei algures
E delas nem a crosta sobre a pele quis ficar.
Com as mãos no andarilho faço força
Para me manter de pé, embora às vezes caia. 

Continuo a abrir a boca para a sopa
Mas isso é uma questão, digamos, não mais que técnica.
A árvore recebe a chuva e nada diz e eu
É desse silêncio fidedigno que sobrevivo. 

Quanto aos amores que tive o peito os cale
Como se de um sedimento se tratasse.
Cada uma das camadas permanece
E entre elas agora só há fósseis. 

Na gaveta de baixo guardo o lume
Que me afogueava os sentidos antigamente.
Por ora, com a ressaca, já não vibro,
Desmantelei as rosas com o tempo.

Só vejo construções paradas neste sítio,
Andaimes apodrecidos e pregos ferrugentos.
Algo está mal na cidade indefesa e, por prudência,
Contrariado obrigo-me a carregar a máscara insuportável. 

Na constelação do vazio há bizarrias
Que são de levar à loucura os heróis do dia-a-dia.
Nunca se sabe o que nos bate à porta, se Godot, se a fome,
Se o cobrador de impostos, se um monte de cadáveres. 

A vida é poderosa, um arrebatamento que não cessa,
A doce e amarga preposição que nos identifica.
Vivi ao abandono e será ao abandono que vou morrer,
A ouvir a mãe a chamar do outro lado do abismo. 

Como Cristo, não parti nenhum osso e se inclinei
A cabeça não por foi por reverência mas para conferir
Se o chão estava limpo, a altura do gelo, a quantidade
De destroços acumulados à minha volta. 

A decadência é só a decadência,
Uma vassoura gasta que é preciso deitar fora.
Não tenho pão nem vinho que possa repartir
E não creio que após esta noite ressuscite. 

Se alguma coisa devo à escrita
É o sabor da viagem que senti no comboio
Que me trouxe até aqui quase sem norte
Mas com a estrela polar no pensamento. 

Andei sempre ao contrário do ocaso
Ou andei sempre ao contrário do acaso?
Tomei os sinais do sacrifício por beleza
E é essa evocação que mais me interessa.

Digam de mim que ao olhar o horizonte
Confundi fúria com caminho, utopia com ímpeto
E dúvida com dádiva. Depois não digam nada,
Que eu hei-de ficar calado para sempre 


Amadeu Baptista

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