24.3.17

João Guimarães Rosa (Quando escrevo)





Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas,
um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo
vivendo no rio São Francisco.
Gostaria de ser um crocodilo
porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranquilos
e escuros como o sofrimento dos homens.



Guimarães Rosa

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23.3.17

Batania (Sementeira)





SIEMBRA



El miedo que tuve,
 si pudiera encerrarlo en una ballena muerta
 y ponerlo al sol colgado de unos cables eléctricos,

el miedo a vuestra necesidad de fruto,
 a vuestros pájaros con números de oro
 cantando en las jaulas registradoras,

el miedo que tuve
 y ya no tengo porque sembré una casa:
 la que ahora estalla de gerundios en flor.


Batania



O medo que eu tive,
se pudesse enfiá-lo numa baleia morta
e pendurá-lo nos fios ao sol,

o medo da vossa precisão de fruto,
dos vossos pássaros com números de oiro
a cantar em jaulas registadoras,

o medo que eu tive
e já não tenho porque semeei uma casa,
esta que explode agora de gerúndios em flor.



(Trad. A.M.)

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22.3.17

Ape Rotoma (Embebedo-me todas as noites)





Me emborracho cada noche para no pensar en ti
y poder dormir. Despierto de madrugada con resaca
y el jodido insomnio alcohólico me impide dormir de nuevo.
Como un zombi, me acerco al ordenador de un compañero de piso
y tecleo cosas ya escritas, para no pensar en ti
y poder vivir un rato. La mañana pasa lenta
y el puto guión me aburre. Tecleo alguna otra cosa,
leo el periódico de ayer y "Hollywood" de Bukowski,
fumo mucho y pienso más, procuro que no sea en ti
y no lo consigo. Vuelta al guión. Otro café. Y, por fin,
grabo en ese mismo software muy despacio este poema.
Y me gusta. Y me entretengo en juguetear con su ritmo,
en respetar su estructura y en multiplicar enlaces,
aunque parezca mentira, para no pensar en ti.

Ape Rotoma




Embebedo-me todas as noites para não pensar em ti
e poder dormir. Desperto de madrugada com ressaca
e a porra da insónia do álcool não me deixa adormecer novamente.
Como um zombi, vou ao computador de um colega de casa
e teclo umas coisas já escritas, para não pensar em ti
e poder viver um bocado. A manhã escorre lenta
e o puto do guião chateia-me. Teclo uma outra coisa qualquer,
leio o jornal de ontem e ‘Hollywood’ de Bukowski,
fumo bastante e penso mais, procuro que não seja em ti
mas não consigo. Torno ao guião. Outro café. E, por fim,
gravo no teclado muito devagar este poema.
E agrada-me. E entretenho-me a brincar-lhe com o ritmo,
respeitar-lhe a estrutura e multiplicar ligações,
embora pareça mentira, para não pensar em ti.


(Trad. A.M.)


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21.3.17

Inês Dias (Regressámos à praia)






Regressámos à praia,
esgotada essa série de acidentes
em que o menor foi o amor,
ao contrário do que se previa.
Deixámos a maré subir
na memória, cancelar-nos
a areia sob os pés, levar
até os restos do navio encalhado
que ressuscitava todas as manhãs,
corpo de ossos já limpos.
Podia ter sido o meu.
Somos, afinal, dos últimos:
desfiamos gerações, contando onda após onda
após onda, até ao mergulho final.

E escrevemos como vivemos,
na espuma ou nos vidros embaciados
da cidade, com a teimosa convicção de que
nada ficará – nós não ficaremos.


Inês Dias



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19.3.17

Antonio Pérez Morte (Perdidos)





PERDIDOS



Nos fuimos distanciando paso a paso,
casi sin saberlo, distraídos,
caminamos dejando en el olvido
la vieja ilusión de ser nosotros.
Y seguimos desde entonces, sin motivo,
deambulando a un ritmo acelerado,
sin saber a dónde, por qué lado,
conscientes sí, de traicionarnos,
como siempre, una vez más,
¡por cobardía!
Rebeldes de sueños
y actitud conformista
paseamos las reliquias del pasado
por las calles vacías de la vida,
y donde hubo una esperanza
hay una herida.

Antonio Pérez Morte



Fomo-nos distanciando passo a passo,
sem saber quase, distraídos,
caminhamos deixando esquecida
a velha ideia de sermos nós mesmos.
E continuamos desde então, sem motivo,
a deambular em passo acelerado,
sem saber para onde ou por que lado,
cientes sim de nos trairmos,
como sempre, uma vez mais,
por cobardia!
Rebeldes de sonhos
e atitude conformista,
passeamos as relíquias do passado
pelas ruas vazias da vida,
e onde houve já uma esperança
há agora uma ferida.

(Trad. A.M.)

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18.3.17

Hilda Hilst (Roteiro do silêncio)





ROTEIRO DO SILÊNCIO



Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.
Nas prisões e nos conventos
Nas igrejas e na noite
Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.

Os amantes no quarto.
Os ratos no muro.
A menina
Nos longos corredores do colégio.
Todos os cães perdidos
Pelos quais tenho sofrido
Quero que saibam:
O meu silêncio é maior
Que toda solidão
E que todo silêncio.


Hilda Hilst


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17.3.17

Antonio Orihuela (Pegas-me na mão)

 




Me tomas de la mano
y a mitad de un cigarro
me dices que la herida de la operación de hernia estrangulada
no termina de cerrar por falta de plaquetas en los glóbulos rojos,
que se te ha disparado el azúcar
y la tensión va a su puta bola
dispuesta a joderte el corazón en cualquier momento,
y además está lo del hígado, los pies, los pulmones...
y aun así
brilla en tus ojos
la extraña luz de los rebeldes.

Me dices que aquí no te va quedando nadie,
que tal vez te bajes al sur, con tus hijos,
definitivamente.

Me dices que España es una caverna
habitada por cuarenta millones de cadáveres.

Me dices que estás paseando por Picadilly
debajo de una gabardina
y llevas un ómnibus rojo en el bolsillo para tus hijos.

Me dices que en medio de la escasez y de las sombras
has decido casarte con una comunista
por la Iglesia.

Me dices que es domingo
y hombres sonrientes,
con un mundo nuevo en los corazones,
se agitan dentro de monos azules
y marchan hacia el Alcázar.

Me dices que estás jugando con metralla
en el último agujero de obús
en el Parque del Oeste
en el frente de Madrid.

Me dices que eres un niño,
pero yo
solo veo
a un hombre
que se está muriendo.


Antonio Orihuela

[Apología de la luz]




Pegas-me na mão
e a meio dum cigarro
dizes-me que a ferida da operação da hérnia
não acaba de fechar por falta de plaquetas no sangue,
que o açúcar disparou
e a tensão está descontrolada
disposta a lixar-te o coração a qualquer instante,
e há também o fígado, os pés, os pulmões...
e apesar de tudo
brilha-te nos olhos
a estranha luz dos rebeldes.

Dizes-me que aqui quase não te resta ninguém,
que talvez partas para o sul, com os filhos,
definitivamente.

Dizes-me que a Espanha é apenas uma caverna
com quarenta milhões de cadáveres.

Dizes-me que andas a passear por Picadilly
de gabardina
e tens um carrinho vermelho no bolso
para os teus filhos.

Dizes-me que no meio da escassez e das sombras
decidiste casar pela Igreja
com uma comunista.

Dizes-me que é domingo
e homens sorridentes,
com um mundo novo no coração,
agitam-se por dentro de macacos azuis
e marcham para o Alcázar.

Dizes-me que estás a brincar com metralha
no último buraco de obús
no Parque Oeste
na frente de Madrid.

Dizes-me que és uma criança,
mas eu
vejo só
um homem
a morrer.


(Trad. A.M.)

.

16.3.17

Antonio Martínez Sarrión (Cinema de sábado)






EL CINE DE LOS SÁBADOS




maravillas del cine galerías
de luz parpadeante entre silbidos
niños con su mamá que iban abajo
entre panteras un indio se esfuerza
por alcanzar los frutos más dorados
ivonne de carlo baila en scherezade
no sé si danza musulmana o tango
amor de mis quince años marilyn
ríos de la memoria tan amargos
luego la cena desabrida y fría
y los ojos ardiendo como faros

Antonio Martínez Sarrión




maravilhas do cinema galerias
de luzes piscando entre assobios
crianças ao colo das mães caindo
entre panteras um índio a esforçar-se
por alcançar os frutos mais dourados
ivone de carlo baila em xerazade
não sei se dança muçulmana ou tango
marilyn amor dos meus quinze anos
rios da memória tão amargos
depois o jantar frio e desabrido
e os olhos a arder como faróis

(Trad. A.M.)

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15.3.17

Helder Moura Pereira (Eras mesmo a fonte de tudo)





Eras mesmo a fonte de tudo, pelo menos
naquele dia a que chamámos perfeito.
Os dias tinham-se entranhado nos dias,
a tal ponto que a vida era só dias, dias
a seguir uns aos outros. Apenas dias.
De olhos vendados e sem bater numa única
parede, pegados a isto, ao cheiro reconhecido
só quando um dos corpos se afasta.
Sente-se a falta, eu farejo como um cão
e depois sento-me triste a um canto
com um livro na mão. Mas naquele dia
que ambos classificámos de perfeito
eu pude ver a vida ali desdobrada em duas
à minha frente. E a tua inocência poderosa
a dizer-me uma vez sem exemplo faz
de mim o que quiseres, dobra o cabo
dos trabalhos e atira-te de cabeça.


Helder Moura Pereira

[Canal de poesia]

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14.3.17

Antonio Machado (À noite quando dormia)





ANOCHE CUANDO DORMÍA



Anoche cuando dormía
soñé, ¡bendita ilusión!,
que una fontana fluía
dentro de mi corazón.

Di, ¿por qué acequia escondida,
agua, vienes hasta mí,
manantial de nueva vida
de donde nunca bebí?

Anoche cuando dormía
soñé, ¡bendita ilusión!,
que una colmena tenía
dentro de mi corazón;

y las doradas abejas
iban fabricando en él,
con las amarguras viejas
blanca cera y dulce miel.

Anoche cuando dormía
soñé, ¡bendita ilusión!,
que un ardiente sol lucía
dentro de mi corazón.

Era ardiente porque daba
calores de rojo hogar,
y era sol porque alumbraba
y porque hacía llorar.

Anoche cuando dormía
soñé, ¡bendita ilusión!,
que era Dios lo que tenía
dentro de mi corazón.


Antonio Machado




À noite quando dormia
sonhei, bendita ilusão,
que uma fontinha corria
dentro do meu coração.

Diz-me, que regueira escondida,
água, te trouxe até mim,
nascente de nova vida
onde eu nunca bebi?

À noite quando dormia
sonhei, bendita ilusão,
que uma colmeia surgia
dentro do meu coração;

e as douradas abelhas
iam fazendo nele
com as tristezas velhas
branca cera e doce mel.

À noite quando dormia
sonhei, bendita ilusão,
que um sol ardente luzia
dentro do meu coração.

Era ardente porque dava
calor até para queimar,
e sol porque alumiava
e também fazia chorar.

À noite quando dormia
sonhei, bendita ilusão,
que era Deus que eu sentia
dentro do meu coração.


(Trad. A.M.)

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13.3.17

Antonio Gamoneda (Eu calo-me e espero)





Yo me callo, yo espero
hasta que mi pasión
y mi poesía y mi esperanza
sean como la que anda por la calle;
hasta que pueda ver con los ojos cerrados
el dolor que ya veo con los ojos abiertos.


Antonio Gamoneda

[Tinta en las manos]





Eu calo-me e espero
até que minha paixão,
minha poesia e esperança
sejam como a que anda pelas ruas;
até poder ver de olhos fechados
a dor que vejo de olhos abertos.


(Trad. A.M.)

.

12.3.17

Gil T. Sousa (Não há nada tão triste)





(47)

não há nada tão triste
como a primeira coisa
que escondemos numa gaveta


ou a última pessoa
que enterrámos num papel



GIL T. SOUSA
Falso Lugar
(2004)

.

11.3.17

Ángeles Mora (Claudicar e morrer)





CLAUDICAR Y MURIENDO



A rastras se te acerca                   
y te lame las piernas,                   
perro fiel, con sus ojos de agua,                             
y te tiende las manos,                 
y te pide socorro.                          

Y tú le miras                      
como un sol que se cae                              
sin poder detenerse,                   
y le tiñes de rojo,                           
y el pecho le traspasas                
con tus hojas de cobre.                              

A rastras se te acerca,                  
asomado a una lágrima,                              
y una luz criminal                           
le muerde en el silencio.                            

Malherido,                        
dando vueltas,                
aullando se estremece.                              

Tú, miserable, le acaricias,                         
mientras tu corazón está muy lejos.                     


Ángeles Mora





Chega-se de rastos
a lamber-te as pernas,
cachorro fiel, com seus olhos de água,
a estender-te as mãos,
a pedir-te socorro.

E tu olhas para ele
como para um sol a cair
sem poder segurar-se,
tinge-lo de vermelho
e cravas-lhe o peito
com tuas folhas de cobre.

Chega-se de rastos,
lágrima no olho,
uma luz culpada
a  mordê-lo em silêncio.

Malferido,
às voltas e voltas,
uivando a tremer.

Tu, mísero, fazes-lhe festas,
com o coração lá muito longe.


(Trad. A.M.)

 .

10.3.17

Ángel Guinda (Tu)









Lo imposible posible eres tú.
La furia que me calma eres tú.
La órbita en que giro eres tú.
La quietud que me exalta eres tú.
Lo que nombra el misterio eres tú.
La ausencia que acompaña eres tú.
El sol que me congela eres tú.
El aire que me envuelve eres tú.
La prez del terremoto eres tú.
La raíz que me eleva eres tú.
La luz de cada noche eres tú.
El imán que me atrapa eres tú.
El glaciar que me quema eres tú.
Lo que llena el vacío eres tú.
El silencio que me habla eres tú.
La brújula que embruja eres tú.
El hambre que me come eres tú.
La sed embriagadora eres tú.
La fuerza que me empuja eres tú.
El cielo en el infierno eres tú.
El rayo que me parte eres tú.
El dolor placentero eres tú.
Lo invisible visible eres tú.
La vida que me mata eres tú.
Lo que me resucita eres tú.
El eco del abismo eres tú.
Lo que queda de todo eres tú.


Ángel Guinda

[Antón Castro]




O impossível possível és tu.
A fúria que me acalma és tu.
A órbita em que giro és tu.
A quietude que me exalta és tu.
O que o mistério nomeia és tu.
A ausência que acompanha és tu.
O sol que me gela és tu.
O ar que me envolve és tu.
A paixão do terramoto és tu.
A raiz que me eleva és tu.
A luz de cada noite és tu.
O íman que me atrai és tu.
O glaciar que me queima és tu.
O que enche o vazio és tu.
O silêncio que me fala és tu.
A bússola que enfeitiça és tu.
A fome que me come és tu.
A sede que embriaga és tu.
A força que me empurra és tu.
O céu no inferno és tu.
O raio que me parte és tu.
A dor prazenteira és tu.
O invisível visível és tu.
A vida que me mata és tu.
O que me ressuscita és tu.
O eco do abismo és tu.
O que fica de tudo és tu.

(Trad. A.M.)

.

9.3.17

Fernando Pessoa / A. Campos (Ao volante do Chevrolet)





Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?

Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem conseqüência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...

Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo
Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!

À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.

À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?

Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?

Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,
Acelero...
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,
À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exato que a vida.

Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...


Álvaro de Campos


[Poemblog]

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8.3.17

Ángel González (Aniversário)





CUMPLEAÑOS



Yo lo noto: cómo me voy volviendo
menos cierto, confuso,
disolviéndome en el aire
cotidiano, burdo
jirón de mí, deshilachado
y roto por los puños.
Yo comprendo: he vivido
un año más, y eso es muy duro.
¡Mover el corazón todos los días
casi cien veces por minuto!

Para viver un año es necesario
morirse muchas vezes mucho.


Ángel González

[Life vest under your seat]




Bem dou conta, como me vou tornando
menos certo, confuso,
a dissolver-me no ar
quotidiano, tosco farrapo
de mim mesmo, desfiado
e rompido nos punhos.
Compreendo, lá vivi
um ano mais, coisa dura.
Mover o coração todos os dias
quase cem vezes por minuto.

Para viver um ano é preciso
morrer muito muitas vezes.


(Trad. A.M.)

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7.3.17

Ángel Crespo (Um copo de água para a mãe)





UN VASO DE AGUA PARA LA MADRE DE JUAN ALCAIDE



Te recuerdo callando entre mujeres
mientras tu Juan, ya huésped de la caja,
aguardaba los puentes de la tierra.

Yo no lo quise ver porque me daba miedo.
No porque de la muerte me estremezca
ni un muerto me dé espanto,
sino porque era Juan con su calva y su frente
y con sus labios gordos y sus manos helándose.

Entonces me dio miedo de estar en Valdepeñas,
de haber llegado en tren por la mañana
y haber bebido vino antes de verte.
Porque tú estabas, blanca, en una silla
sin pronunciar un verbo
y con gesto de nuca.
No sabías
si estabas en tu casa, si de lejos
veías su tejado, negro ahora.

Transitaba la gente por el patio,
y tú, entonces, pensabas
en camisas planchadas y en pañuelos;
en perfumes de flor y de maderas,
y nada de la muerte y de su prisa.

Cerca estaba tu hijo:
fuerzas hacían por alzarle algunos.


Ángel Crespo




Recordo-te calada entre as mulheres
enquanto o teu Juan, posto já no caixão,
aguardava as pázadas de terra.

Eu nem o quis ver porque me dava medo.
Não por estremecer com a morte
ou me espantar com um morto,
mas por ser Juan com sua calva e a testa
e os lábios gordos e as mãos geladas.

Então fiquei com medo de estar em Valdepeñas,
de chegar de manhã no comboio,
de beber antes de te ver.
Porque tu estavas numa cadeira, branca,
sem dizer palavra
e a abanar a cabeça.
Não sabias se estavas em tua casa, se vias
de longe o telhado, agora negro.

As pessoas andavam pelo pátio,
enquanto tu pensavas
em camisas passadas e lenços,
em perfumes florais e de madeiras,
nada da morte e da sua urgência.

Ao pé estava o teu filho
e alguns puxavam para o erguer.

(Trad. A.M.)


> Outra versão: Luz & sombra (J.E.Simões)

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6.3.17

Eugénio de Andrade (Com a manhã)





COM A MANHÃ

                                     

Vem dos lados do rio, as mãos fresquíssimas,
algumas gotas de água ainda nos cabelos.
Com a manhã chega o anónimo respirar do mundo.
Um cheiro a pão fresco invade o pátio todo.
Vem dos lados do rio:
para levar à boca, ou ao poema.


Eugénio de Andrade



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5.3.17

Andrés Neuman (Folha caída)





Hoja caída
sobre el cristal del coche.
Envejecer.

Andrés Neuman




Folha caída
no vidro do carro.
Envelhecer.


(Trad. A.M.)

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4.3.17

Ana Pérez Cañamares (Contrato)





EL CONTRATO



A todo me he entregado
como si fuera a durar.
Con cada persona
cada casa
cada ciudad
firmé un contrato
escrito sobre la piel.

Para decir adiós
he tenido que arrancarme
las cláusulas
a tiras.
Así ha sido
una y otra vez.
Con cada persona
cada casa
cada ciudad.

La letra pequeña
se esconde ya
entre cicatrices.


Ana Pérez Cañamares




A tudo me entreguei
como se fosse para durar.
Com cada pessoa
cada casa
cada cidade
assinei um contrato
escrito sobre a pele.

Para dizer adeus
tive que arrancar
as cláusulas
uma a uma.
Assim sempre
uma vez e outra.
Com cada pessoa
cada casa
cada cidade.

As letras pequenas
mal se vêem
entre as cicatrizes.


(Trad. A.M.)

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3.3.17

Dinis Moura (Funeral)





FUNERAL                           



O meu tio levou um requintado fato preto
feito por medida, tecido italiano, caríssimo.
O meu irmão, que detesta gravatas pretas,
colocou uma, porém, talvez para dissimulá-la,
vestiu uma camisa preta.
As minhas primas, umas de calças, outras de vestido,
outras de saia, foram todas vestidas de preto.
A minha tia, sempre exagerada,
levou uma minissaia quase curtíssima e uma camisola
exageradamente decotada, tudo da mesma cor, tudo preto.
A minha avó levou um vestido e um xaile da cor
que vem ostentando ininterruptamente há dez anos:
a cor que a morte do meu avô sepultou em todas
as suas roupas: a cor do luto – o preto.
O médico foi de preto,
o advogado também.
Foram alguns amigos, alguns conhecidos,
todos eles vestidos de preto.
De preto foi também a única pessoa
que não conheci.

Só eu chorei.


Dinis Moura



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2.3.17

América Martínez Ferrer (Cada dia)





V

Cada día
una parte de mí se derrumba
como aquellas casas viejas
inhóspitas
que se desploman
de tanto contener ausencias


América Martínez Ferrer




Cada dia
se desmorona uma parte de mim
como essas casas velhas
inóspitas
que desabam
de abrigarem tanta ausência

(Trad. A.M.)


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1.3.17

Amalia Bautista (Nada sabemos)





NADA SABEMOS



Nunca sabremos si los engañados
son los sentidos o los sentimientos,
si viaja el tren o viajan nuestras ganas,
si las ciudades cambian de lugar
o si todas las casas son la misma.
Nunca sabremos si quién nos espera
es quién debe esperarnos, ni tampoco
a quién tenemos que aguardar en medio
de un frío andén. Nada sabemos.
Avanzamos a tientas y dudamos
si esto que se parece a la alegría
es la señal definitiva
de que hemos vuelto a equivocarnos.


Amalia Bautista




Nunca sabemos se os enganados
são os sentidos ou os sentimentos,
se viaja o comboio ou o nosso desejo,
se as cidades mudam de lugar
ou todas as casas são a mesma.
Nunca sabemos se quem nos espera
é quem esperamos, num frio cais.
Não sabemos nada. Avançamos
às apalpadelas, duvidando
se isto que parece alegria
é o sinal seguro
de que voltámos a enganar-nos.

(Trad. A.M.)


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