28.2.17

Bocage (Chorosos versos meus desentoados)





Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados.

Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz a tirania.

Desculpa tendes, se valeis tão pouco;
Que não pode cantar com melodia
Um peito, de gemer cansado e rouco.


Bocage

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27.2.17

Flor Codagnone (Corri para a tua angústia)





Corrí hacia tu angustia
tajeé la carne,
me abrí en pedazos,
arranqué mi cuerpo. Quise
que no hubiese modo
de hacer con el sexo.

Poesía es más allá
de la literatura
(lo que no duele no pasa).


Flor Codagnone




Corri para a tua angústia,
cortei-me na carne,
abri-me em pedaços,
meu corpo arranquei. Quis
fazer impossível o sexo.

A poesia está para além
da literatura
(o que não dói não existe).



(Trad. A.M.)

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26.2.17

Joaquín Benito de Lucas (Escândalo de olvido)





ESCÁNDALO DE OLVIDO



Te llevaré como la caracola
lleva el rumor del mar entre sus dedos,
laberinto de viento y de sonaja,
ruido de selva, escándalo de olvido.
Te llevaré como la estela
de los barcos, perfume de eucalipto,
incienso de jardín, brasa de espuma
que purifica el fuego, escapulario
contra las rocas de los malos sueños.
Porque tu cuerpo suena por mi cuerpo,
tu lengua por mi boca, tu mirada
por el bosque abrasado de mis ojos.
Y no te olvidaré. No. Nunca. Nunca.
Aunque la mar desate sus delfines,
aunque la noche cambie en mediodía,
aunque mi corazón se haga ceniza.


Joaquín Benito de Lucas




Hei-de levar-te como leva o búzio
o rumor do mar dentro de si,
labirinto de vento e de chocalhos,
ruído de selva, escândalo de olvido.
Hei-de levar-te como a esteira
dos navios, perfume de eucalipto,
incenso de jardim, brasa de espuma
que o fogo purifica, escapulário 
contra as rochas dos maus sonhos.
Porque teu corpo soa por meu corpo,
tua língua por minha boca, teu olhar
pelo bosque abrasado de meus olhos.
E não te esquecerei, não. Nunca, nunca.
Mesmo que solte o mar seus delfins,
mesmo que mude a noite em meio-dia,
mesmo que se faça em cinza meu coração.


(Trad. A.M.)


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25.2.17

Antonia Pozzi (Canto da minha nudez)





CANTO DELLA MIA NUDITÀ



Guardami: sono nuda. Dall'inquieto
languore della mia capigliatura
alla tensione snella del mio piede,
io sono tutta una magrezza acerca
inguainata in un color d'avorio.
Guarda: pallida è la carne mia.
Si direbbe che il sangue non vi scorra.
Rosso non ne traspare. Solo un languido
palpito azzurro sfuma in mezzo al petto.
Vedi come incavato ho il ventre. Incerta
è la curva dei fianchi, ma i ginocchi
e le caviglie e tutte le giunture,
ho scarne e salde come un puro sangue.
Oggi, m'inarco nuda, nel nitore
del bagno bianco e m'inarcherò nuda
domani sopra un letto, se qualcuno
mi prenderà. E un giorno nuda, sola,
stesa supina sotto troppa terra,
starò, quando la morte avrá chiamato.


Antonia Pozzi




Olha para mim, estou nua. Do langor
 inquieto dos cabelos
à tensão ligeira dos pés,
toda eu sou uma magreza amarga
embrulhada em cor de marfim.
Olha, é pálida a minha carne,
o sangue dir-se-ia que aí não corre.
O vermelho não transparece, só um lânguido
pulsar azul se esbate a meio do peito.
Vê como é cavado meu ventre, a curva
dos flancos incerta, mas os joelhos
e os tornozelos e as articulações
são descarnados e duros como os de um puro-sangue.
Hoje, deito-me nua, na limpidez
da banheira branca e amanhã
deitar-me-ei nua sobre um leito, se alguém
me quiser tomar. E um dia nua, sozinha,
hei-de ficar, de costas por baixo da terra,
quando a morte vier me chamar.


(Trad. A.M.)

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24.2.17

Estela Figueroa (Os ossos de meu pai)





LOS HUESOS DE MI PADRE         



Hace más de veinte años que murió
y no renovamos el derecho de sus huesos
a permanecer en el nicho.

De mi parte fue intencional.
A mi padre no le gustaba estar encerrado.

Ojalá un sepulturero los haya vendido
y haya comido algo especial con su mujer y sus hijos
o se haya tomado unos vinos
en rueda de amigos.

Y con esos huesos un joven estudie medicina
-esos huesos largos y bien formados-
sin pensar en la muerte.


Estela Figueroa




Morreu há mais de vinte anos
e não renovámos o direito de os ossos
permanecerem na campa.

Da minha parte foi intencional,
pois meu pai não gostava de ficar fechado.

Oxalá o coveiro os vendesse
para comer algo especial com a mulher e os filhos
ou beber uns copos em roda de amigos.

E com esses ossos um jovem estude medicina
– aqueles ossos compridos, bem conformados –
sem pensar na morte.



(Trad. A.M.)

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23.2.17

Irene Gruss (Silêncio)





SILENCIO                           



Es aquí un misterio natural,
aquí donde el silencio es mago,
mi señor. Lo único que cruje es el pasto.
El amor resuena
como un verso antiguo.
Resuena menos que el silencio
y más que los grillos.
Nadie ocupará su lugar, su silla.
Canta conmigo como yo,
con la boca cerrada. Tranquilo como yo despierta
y pone a mover las cosas,
a que hagan su ruido. El silencio sabe
por qué calla; hace decir y calla.
Misterio natural a la hora dorada.

Irene Gruss




Eis aqui um mistério natural,
aqui onde reina o silêncio,
meu senhor. O que se ouve é o prado.
O amor ressoa
como um verso antigo.
Menos que o silêncio, ressoa,
mais do que os grilos.
Ninguém lhe ocupará o lugar, o assento.
Cujo canta comigo, tal como eu,
com a boca fechada.
Sereno como eu desperta,
faz mexer as coisas,
fazerem ruído. O silêncio sabe
por que se cala; faz falar e cala-se.
Mistério natural da hora dourada.


(Trad. A.M.)

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22.2.17

Eugénio de Andrade (O silêncio)





O SILÊNCIO       



Dai-me outro verão nem que seja
de rastos, um verão
onde sinta o rastejar
do silêncio,
a secura do silêncio,
a lâmina acerada do silêncio.
Dai-me outro verão nem que fique
à mercê da sede.
Para mais uma canção.


EUGÉNIO DE ANDRADE
Rente ao Dizer(1992)

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21.2.17

Álvaro Valverde (Mecânica terrestre)





MECÁNICA TERRESTRE



Lo mismo que una imagen
recuerda a alguna análoga
y una sombra a la fresca
humedad de otra estancia
y un olor a una escena
cercana por remota
y esta ciudad a aquélla
habitable y distante,
así, cuando la tarde
se hace eterna y es julio
todo expresa una múltiple,
inasible presencia,
y el agua es más que el filtro
de lo que fluye y pasa
y la luz más que el velo
que ilumina las cosas
y el viento más que el nombre
de una oscura noticia.

Álvaro Valverde



Tal como uma imagem
evoca outra parecida
e uma sombra lembra
a humidade de outra sala
e um cheiro aproxima
uma cena remota
e esta cidade a outra
mais distante,
assim, quando em Julho
a tarde se eterniza
tudo assume uma rara,
impalpável presença,
e a água é mais que o filtro
daquilo que flui e passa
e a luz mais do que o véu
que ilumina as coisas
e o vento mais que o nome
de uma obscura notícia.


(Trad. A.M.)

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20.2.17

Joaquín Benito de Lucas (Do lado da luz)





DEL LADO DE LA LUZ                     



Miro la tumba de mi madre y creo
que no debe de estar debajo de la tierra.
Siempre le horrorizaron los espacios oscuros.
Tan pequeña de cuerpo, se ha debido
escapar por los huecos
que entre el cemento dejan los ladrillos
o por alguna de las
rendijas de la caja, ventanas a la aurora. 
O, quizás, por lo inquieta que siempre fue, ha tomado
el secreto camino que ofrecen las raíces
del rosal, del ciprés o el crisantemo,
y andando y desandando
por sendas donde nace la vida de las flores
ha llegado hasta el tronco
y, luego, hasta las ramas
y, después, a la flor, y se ha escapado
en las alas fecundas de alguna mariposa.
O, tal vez, nunca ha estado
allí, sino que el día,
ese día en que todos dijimos que había muerto,
no fue verdad. Tan sólo se había ido
de su cansado cuerpo para vernos
desde la luz más claramente.

Joaquín Benito de Lucas



Olho a sepultura de minha mãe e penso
que ela não deve estar lá debaixo,
o escuro sempre a horrorizou.
Tão pisca, decerto se escapou
pelos buracos dos ladrilhos no chão
ou por uma fresta do caixão,
qual janela para a aurora.
Ou talvez, rabina como sempre foi, meteu
pelo caminho secreto oferecido pelas raízes
das roseiras, do cipreste ou do crisântemo,
e andando e desandando
por sendas onde nasce a vida das flores,
chegou até ao tronco, 
depois aos ramos,
e depois à flor, fugindo
nas asas fecundas de uma borboleta.
Ou porventura nunca ali esteve,
por o dia,
aquele dia que nós dissemos da sua morte,
não ter na verdade acontecido. E porque afinal
ela soltou-se apenas do seu exausto corpo, para nos ver
lá do lado da luz mais claramente.


(Trad. A.M.)




>>  Periodista digital (6p) / Cover Talavera (entrevista) / Wikipedia

.

19.2.17

Ana Salomé (Diário)





DIÁRIO



A partir de agora, todo o poema que fale de amor, fora.
Todo o poema que não revolucione, fora.
Todo o poema que não ensine, fora.
Todo o poema que não salve vidas, fora.
Todo o poema que não se sobreviva, fora.
Vou deixar um anúncio no jornal:
Procura-se poeta. Trespasso-me.


Ana Salomé



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18.2.17

Álvaro Mutis (Canção do leste)

 




CANCIÓN DEL ESTE



A la vuelta de la esquina
un ángel invisible espera;
una vaga niebla, un espectro desvaído
te dirá algunas palabras del pasado.
Como agua de acequia, el tiempo
cava en ti su arduo trabajo
de días y semanas,
de años sin nombre ni recuerdo.
A la vuelta de la esquina
te seguirá esperando vanamente
ese que no fuiste, ese que murió
de tanto ser tú mismo lo que eres.
Ni la más leve sospecha,
ni la más leve sombra
te indica lo que pudiera haber sido
ese encuentro. Y, sin embargo,
allí estaba la clave
de tu breve dicha sobre la tierra.

Álvaro Mutis




Ao virar da esquina
um anjo invisível te espera,
uma vaga névoa, um espectro esvaído
dir-te-á palavras do passado.
Como água de levada, o tempo
cava em ti seu árduo trabalho
de dias e semanas,
de anos sem nome nem lembrança.
Ao virar da esquina lá estará
esperando em vão
aquele que não foste, o que morreu
de tanto ser tu mesmo aquilo que és.
Nem a mais leve suspeita,
nem a sombra mais ténue
te dizem o que poderia ter sido
esse encontro. E, contudo,
estava ali a chave 
da tua breve ventura na terra.


(Trad. A.M.)

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17.2.17

Alfredo Buxán (Aparição)





APARIÇÃO




Vi-te a sair com o sorriso posto
como um broche e fiquei-me a olhar-te
perdidinho de assombro e alegria.
Não creio que volte a ver-te, bem sei,
mas tão pouco creio que te esqueça.


ALFREDO BUXÁN
Las Palabras Perdidas
(Poesía 1989-2008)
Bartleby Editores (2011)

(Trad. A.M.)

.

16.2.17

Alberto de Lacerda (Os pássaros)





Os pássaros
estabelecem diálogos
que ninguém entende
felizmente

Como tudo o que é puro
de raiz
o que os pássaros dizem
não se traduz


ALBERTO DE LACERDA
Átrio
IN-CM (1997)


.

15.2.17

Flor Codagnone (As palavras vão morrer)





Las palabras van a morir
a la angustia
y no hay signo
que escape a ese paso.
Estamos condenados
a la música del adiós.


Flor Codagnone




As palavras vão morrer
na angústia
e não há signo
que escape a tal.
Estamos condenados
à música do adeus.


(Trad. A.M.)


>>  Emma Gunst (21p) / Poetas siglo XXI (24p) / Transtierros (5p) / Poetas peronistas (5p)

.

14.2.17

Eduardo Dalter (Faltam as palavras)





Faltan las palabras,                        
o sobran otras veces.
Los hechos las deciden
necesarias o las ahogan.
Las abren y evidencian,
y las golpean día a día.
Están bajo juicio sumarísimo.

Eduardo Dalter




Faltam as palavras
ou sobram outras vezes.
Os factos as fazem
necessárias ou afogam-nas.
Abrem-nas, mostram-nas,
agridem-nas dia a dia.
São rés, rés em processo sumário.


(Trad. A.M.)

.

13.2.17

A.M.Pires Cabral (Pirilampos-I)





PIRILAMPOS-I



Em noites muito quentes de Verão,
passeando em direcção à serra
em busca de frescura,
víamos nos buracos das paredes
aquelas mansamente incandescentes
criaturas em forma de brasa: os pirilampos.
(O povo, contudo, que não tem
papas na língua e gosta de chamar
às coisas pelo nome que tem mais à mão,
com licença do leitor, dizia luze-cus,
aludindo à tranquila combustão interior
que lhes põe a luzir no extremo do abdómen
 – ou seja, no cu – uma lanterna.)



A.M.PIRES CABRAL
Gaveta do Fundo
(2013)

______________

> Mais pirilampos, a apanhar: F.A.Pacheco

.

12.2.17

Antonio Porchia (Quien ha visto vaciarse todo)






Quien ha visto vaciarse todo,
casi sabe
de qué se llena todo.


Antonio Porchia





Quem viu tudo esvaziar-se,
sabe quase
o que tudo tem dentro.

(Trad. A.M.)

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11.2.17

Irene Gruss (Postal)





POSTAL



La canilla que gotea en realidad es la aguja
sistemática del reloj. Sigo con la mirada
los árboles allá en el bosque alado;
perduran.
El tema no es el tiempo sino el verde.


Irene Gruss 



A caleira que goteja na realidade
é a agulha do relógio. Com os olhos
sigo as árvores acolá no bosque próximo;
perduram.
O caso não é o tempo, mas o verde.


(Trad. A.M.)


>>  Casta diva (blogue/pp) / Humo- Antologia / Pagina de poesia (9p) / Wikipedia

.

10.2.17

Fernando Assis Pacheco (Um homem tem que viver)





Um homem tem que viver.
E tu vê lá não te fiques
– um homem tem que viver
com um pé na Primavera.
Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.
Cheio de luz – como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio dos mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.
Palavra, um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.


Fernando Assis Pacheco




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9.2.17

Estela Figueroa (Meu corpo)





MI CUERPO



Hay momentos en que mi cuerpo me parece
como una casa abandonada.

Y no sé si soy yo
o es mi fantasma
que ha entrado en él
por error.


Estela Figueroa




Há momentos em que meu corpo me aparece
como uma casa abandonada.


E eu não sei se fui eu
ou o meu fantasma
quem nele entrou
por engano.



(Trad. A.M.)


>>  Poetas siglo XXI (26p) / Osvaldo Aguirre (16p)

.

8.2.17

Vasco Graça Moura (Maio 1968)





MAIO DE 68



um belo dia em maio
de sessenta e oito, tempo
feito de equívocos,
em alfama, as vizinhas conversavam.

a roupa secava ao sol.
os filhos estavam na escola.
elas falavam dos maridos.
e comentavam luísa, a

apanhadora de malhas em meias,
com o marido fora há dez anos,
sem dar notícias. tinha havido
desordens entre quatro

homens daquele bairro, por causa
de luísa, que os
ignorou e continuava a
cuidar do filho e a

apanhar malhas, sossegadamente,
na janela do rés-do-chão,
inclinando a cabeça como
a rendilheira de vermeer.

estavam as vizinhas
nisto, deplorando
o desperdício da
juventude de luísa,

por absurda esperança e
por delicadeza
assim perdendo a vida, quando
se aproximou um estranho.

deitam-se a adivinhar.
aquele bem podia ser fernando,
marido de luísa
e alvoroçaram-se e um cão ladrou.

no beco, entre
os potes de sardinheiras
e a roupa ainda a secar,
estavam enganadas, mas
tinham razão num ponto:
era um marinheiro grego,
exausto, ainda a ofegar,
depois de uma cena de porrada

das antigas, que não tinha
nada a ver com luísa,
mas que se
chamava odisseus.


Vasco Graça Moura


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7.2.17

Eduardo Dalter (Um poema é uma pedra)





Un poema es una piedra
y dos de esas piedras
       no son
sino el comienzo
o parte de un camino.
Un poema es una piedra
que bien puede
       en la niebla
marcar rumbo.
Un poema en la noche
       brilla
con luz propia.


Eduardo Dalter




Um poema é uma pedra
e duas pedras dessas
não são
senão o começo
ou parte de um caminho.
Um poema é uma pedra
que pode bem
marcar um rumo
na névoa.
Um poema na noite
brilha
com luz própria.


(Trad. A.M.)



>>  Eduardo Dalter (sítio) / Pagina de poesia (15p) / Medellin (17p) / Marcelo Leites (5p)

.

6.2.17

Rui Knopfli (Fim de tarde no café)





FIM DE TARDE NO CAFÉ



Na tarde cor de azebre 
falávamos de coisas amargas. 
Ali, na mesa triste do café 
com moscas adejando 
sobre restos de açúcar 
e um copo de água 
morna de esquecida, 
falávamos da amargura das coisas, 
entre rostos graníticos e enxovalhados, 
entre estranhos e estranhos 
de estranhos e os que, 
nada tendo de estranhos, 
cuidam de cuidar 
o que se passa entre estranhos. 
Na tarde comprida e silenciosa 
tecíamos gestos inúteis 
e palavras entre dentes, 
mergulhados na paisagem geométrica 
do café. Do café tão cheio de gente 
e fumo e moscas e caras tristes 
e afinal tão profundamente, 
tão desesperadamente vazio.


Rui Knopfli


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5.2.17

Ángeles Mora (Poética)






POÉTICA



Yo sé que estoy aquí
para escribir mi vida.
Que vine poco a poco
hasta esta silla.

Y no quiero engañarme.

Sé que voy a contártela
y que será mentira:
Sobre la mesa sucia
una gota de tinta.


Ángeles Mora




Eu sei que estou aqui
para escrever minha vida.
E que pouco a pouco cheguei
a esta cadeira.

E não quero errar.

Sei que vou contá-la
e que será mentira:
Em cima da mesa suja
uma gota de tinta.


(Trad. A.M.)


4.2.17

W. C. Williams (Landscape with the fall of Icarus)





LANDSCAPE WITH THE FALL OF ICARUS



According to Brueghel
when Icarus fell
it was Spring

a farmer was ploughing
his field
the whole pageantry

of the year was
awake tingling
near

the edge of the sea
concerned
with itself

sweating in the sun
that melted
the wings’ wax

unsignificantly
off the coast
there was

a splash quite unnoticed
this was
Icarus drowning



W. C. Williams

[Sibilas y pitias]




Era Primavera
segundo Brueghel
quando Ícaro caiu

um agricultor lavrava
no campo
a magnificência toda

do ano repicava
muito viva
perto

da beira-mar
preocupado
consigo mesmo

a suar ao sol
que derretera
a cera das asas

insignificante
ao longe da costa
um barulho

em que ninguém reparava
era Ícaro
a afogar-se


(Trad. A.M.)

.

3.2.17

Alfonso Costafreda (Palavras pequenas)





LAS PEQUEÑAS PALABRAS



Decías tú palabras
íntimas, silenciosas.

Palabras que se dicen
del amor al amor,
de una boca a otra boca.

El poema secreto
para todos se hacía,
las pequeñas palabras
memorables, dichosas.

Las hazañas diarias,
ilusiones del día,
las más pequeñas cosas;
palabras compartidas,
útiles, generosas.

El poema secreto
para todos se hacía,
las pequeñas palabras
–otras no he de decir–
durarán como rocas.


Alfonso Costafreda




Palavras que tu dizias,
íntimas, silenciosas.

Palavras que se dizem,
de amor para amor,
de uma boca a outra boca.

O poema secreto
para todos se fazia,
pequenas palavras,
memoráveis, ditosas.

Os feitos diários,
ilusões de um dia,
as coisas mais pequenas;
palavras partilhadas,
úteis e generosas.

O poema secreto
para todos se fazia,
as pequenas palavras
- outras eu não direi -
hão-de durar como rochas.

(Trad. A.M.)

.

2.2.17

Sebastião Alba (No meu país)





NO MEU PAÍS



No meu país
dardejado do sol e da caca dos gaios
só há estâncias
(de veraneio) na poesia.
Nossos lábios
a um metro e sessenta e tal
do chão amarelecido
dos símbolos
abrem para fora
por dois gomos de frio.
Nossos lábios outonais, digo,
outonais doze meses.
No entanto
o equilíbrio jacente
faz florir as acácias;
a terra incha;
na derme da possível
geografia,
um frémito cinde
as estações do ano.


Sebastião Alba

.

1.2.17

Alfonso Brezmes (Entardecer)





ATARDECER



Ha tardado en prender
esta mañana fría de noviembre;
y ahora llega la tarde,
con su asombro de árboles
que al sol ofrecen 
su luz y su elegía.

Cómo hablan de mí, 
cómo los entiendo. 

“Arde – parece
que murmuran- es bello 
arder y seguir vivo”.

Como esos días que nunca
quisieras que pasaran.
Y pasan.

Y no pasa nada.


Alfonso Brezmes




Demorou a compor-se
esta manhã fria de Novembro;
agora vem aí a tarde,
com seu assombro de árvores
oferecendo ao sol
sua luz e elegia.

Como falam de mim,
como as entendo.

‘Arde – parecem
murmurar – é lindo
arder e continuar vivo’.

Como esses dias que
gostavas que nunca passassem.
E passam.

E não acontece nada.



(Trad. A.M.)

.