21.7.17

Charles Bukowski (Nossa curiosa posição)





OUR CURIOUS POSITION



Saroyan on his deathbed said,
"I thought I would never die. . . "

I know what he meant:
I think of myself forever
rolling a cart through a
supermarket
looking for onions, potatoes
and bread
while watching the misshapen
and droll ladies push
by.
I think of myself forever
driving the freeway
looking through a dirty
windshield with the radio tuned to
something I don't want
to hear.
I think of myself forever
tilted back in a
dentist's chair
mouth
crocodiled open
musing that
I'm in
Who's Who in America.
I think of myself forever
in a room with a depressed
and unhappy woman.
I think of myself forever
in the bathtub
farting underwater
watching the bubbles
and feeling proud.

but dead, no. . .
blood pin-pointed out of
the nostrils,
my head cracking across
the desk
my fingers grabbing at
darkspace...
impossible ...

I think of myself forever
sitting upon the edge
of the bed
in my shorts with
toenail clippers
cracking off
huge ugly chunks
of nail
as I smile
while my white cat
sits in the window
looking out over the
town
as the telephone rings...

in between the
punctuating
agonies
life is such a
gentle habit:
I understand what
Saroyan
meant:

I think of myself
forever walking down the
stairs
opening the door
walking to the
mailbox
and finding all that
advertising
which
I don't believe
either.


Charles Bukowski



Saroyan dizia no seu leito de morte
“eu nunca pensei que morria”...

e eu percebo-o,
vendo-me a mim mesmo para sempre
a puxar um carrinho
no supermercado
em busca de cebolas, batatas
e pão,
e a ver passar as matronas
 ao lado a empurrar.
Vejo-me a conduzir eternamente
pela estrada,
olhando pelo vidro sujo, com o rádio
sintonizado em algo que não queria escutar.
Vejo-me recostado para sempre
na cadeira do dentista
a boca aberta como um crocodilo,
a pensar que figuro na lista
dos mais importantes da América.
Vejo-me num quarto para sempre
com uma mulher deprimida, infeliz.
Vejo-me na banheira
 a puxar uns traques subaquáticos
e a contemplar as bolhas, orgulhoso.

Mas morto, não...
o sangue a espirrar-me
do nariz,
a cabeça a estoirar-me no escritório,
os meus dedos filados
no espaço negro,
impossível.

Vejo-me eternamente sentado
na beira da cama,
em calções,
a cortar as unhas dos pés
sorrindo
para o gato sentado na janela
a olhar para fora
enquanto o telefone toca...

Por entre agonias pontuais
é um hábito catita, a vida:
percebo o que Saroyan
queria dizer:

Vejo-me no tempo a descer
as escadas,
abrir a porta,
ir à caixa do correio
e topar com a tralha
da publicidade
em que tão pouco acredito.


(Trad. A.M.)

.

20.7.17

José Daniel Espejo (A máquina)





LA MÁQUINA



Nos perseguimos
para matarnos.
Esperamos el momento oportuno
para el golpe por sorpresa
la emboscada definitiva.
En la práctica esta guerra
se reduce a una larga
continua vigilancia. Lo peor
son las noches afilando cuchillos.


José Daniel Espejo




Para nos matarmos
nos perseguimos.
Esperamos o momento azado
para o ataque de surpresa,
a emboscada fatal.
Na prática, esta guerra
reduz-se a uma longa
contínua vigilância. O pior
são as noites a afiar as facas.

(Trad. A.M.)

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19.7.17

José Corredor-Matheos (Que seja Primavera)





Que sea primavera
cuando escribas,
y el día, como hoy,
tenga un sol cuya luz
no proyecte más sombra
que la que dan las alas
de los pájaros.
Que tus pasos se alejen
más de ti,
y que cada palabra,
cada verso,
sean los que esperabas
y no acababan nunca
de llegar.
Y cuando estés muy lejos
y hayas dejado atrás
las dunas del desierto,
donde las flores vuelvan
a brotar,
no te importe seguir.


José Corredor-Matheos





Que seja Primavera
quando escreveres,
e o dia, como hoje,
tenha um sol cuja luz
não projecte mais sombra
que aquela que dão
as asas dos pássaros.
Que teus passos se afastem
mais de ti,
e cada palavra,
cada verso,
sejam os que esperavas
e nunca mais acabavam de vir.
E quando estiveres muito longe
e tiveres deixado para trás
as dunas do deserto,
onde as flores brotem de novo,
não te importe continuar.



(Trad. A.M.)

.

18.7.17

Camilo Pessanha (Imagens que passais pela retina)





Imagens que passais pela retina
Dos meus olhos, porque não vos fixais?
Que passais como a água cristalina
Por uma fonte para nunca mais!... 

Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
- Porque ides sem mim, não me levais? 

Sem vós o que são os meus olhos abertos?
- O espelho inútil, meus olhos pagãos!
Aridez de sucessivos desertos... 

Fica sequer, sombra das minhas mãos,
Flexão casual de meus dedos incertos,
- Estranha sombra em movimentos vãos. 



Camilo Pessanha

.

17.7.17

José Antonio Fernández Sánchez (Bem-aventurados)





BIENAVENTURADOS



Bienaventurado el latifundista,
suya será, también, la Tierra Prometida.
El dictador de las colonias de ultramar
pues su bigote merecerá el embalsamiento de los años.
Bienaventurado el político que escoge zapatos con cuña,
su voz será lo único que quede bajo el peso de una losa.
Bienaventurado el dios minúsculo
porque se rindió en el último peldaño, el caza recompensas,
suyo es el mérito de los salarios.
Bienaventurado el último poeta, bienaventurado sea, y alguna plaga reciba.
Los cierra sobres, siempre que den por terminada su huelga indefinida.
Y así se les sequen los labios, decía una maldición gitana.
Bienaventurado el lector que cree haber encontrado el doble sentido,
el marido juguetón que utiliza un puño americano.
Bienaventurado el cura de mi pueblo, famoso por sus blancas manos,
los empresarios paternalistas, por incumplir nueve Mandamientos.
Bienaventurado el consentidor de plegarias porque de él será
el privilegio del último suspiro, el saqueador de columnas,
también bienaventurado, inventor de los paraguas desechables.
Bienaventurado el pescador de aguas bravas, el cuerno del unicornio,
la figura de Buda en estado catatónico, el arlequín alegre,
bienaventurado el domador de mariposas, el carcelero que realiza horas extras,
 el listo y la lista, el amo de la casa, las casas sin cosas, los santos oficios.
Bienaventurado el marmolista, merecedor de los royalties de nuestros epitafios y amén.


José Antonio Fernández Sánchez






Bem-aventurado o latifundiário,
sua será também a Terra Prometida.
O ditador das colónias do ultramar
pois seu bigode será embalsamado pelos anos.
Bem-aventurado o político que escolhe sapatos de ponta,
restará apenas sua voz sob o peso do mármore.
Bem-aventurado o deus pequenino
porque se rendeu no último degrau, o caça-recompensas,
que seu é o mérito da paga.
Bem-aventurado o derradeiro poeta, bem-aventurado seja,
e que alguma chaga receba.
Os fechadores de envelopes, sempre que dêem por terminada a sua greve indefinida.
E que lhes fiquem secos os lábios, segundo a maldição dos ciganos.
Bem-aventurado o leitor que pensa ter achado o duplo sentido,
o marido brincalhão que usa um punho americano.
Bem-aventurado o padre lá da paróquia, mais as suas mãos delicadas,
e os empresários paternalistas, por incumprirem nove Mandamentos.
Bem-aventurado o pagador de promessas, porque dele será
o condão do último suspiro, o salteador de estradas,
bem-aventurado seja, inventor dos sombreiros descartáveis.
Bem-aventurado o pescador de águas bravas, o corno do unicórnio,
a figura do Buda em estado catatónico, o arlequim alegre,
bem-aventurado o domador de borboletas, o carcereiro que faz horas extra,
o pronto e a pronta, o dono da casa, as casas sem coisas, os santos ofícios.
Bem-aventurado o marmorista, credor das royalties de tanto epitáfio, amém.


(Trad. A.M.)


.

16.7.17

José Ángel Valente (A poesia)





LA POESÍA



Se fue en el viento,
volvió en el aire.

Le abrí en mi casa
la puerta grande.

Se fue en el viento.
Quedé anhelante.

Se fue en el viento,
volvió en el aire.

Me llevó adonde
no había nadie.

Se fue en el viento,
quedó en mi sangre.

Volvió en el aire.


José Ángel Valente




Foi-se no vento,
voltou pelo ar.

Abri-lhe em casa
a porta grande.

Foi-se no vento.
Fiquei anelante.

Foi-se no vento,
voltou pelo ar.

Levou-me aonde
não havia ninguém.

Foi-se no vento,
ficou em meu sangue.

Voltou pelo ar.



(Trad. A.M.)

.

15.7.17

Bocage (Já Bocage não sou)





Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura;

Conheço agora já quão vã figura,
Em prosa e verso fez meu louco intento:
Musa!... Tivera algum merecimento
Se um raio da razão seguisse pura.

Eu me arrependo; a língua quasi fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui... a santidade
Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!. 



Bocage

.

14.7.17

José Alcaraz (O sol aparece)





SALE EL SOL



Sale el sol y el parque alumbra
otro niño al que se le escapa un globo.
Unos se fijan en lo alto que sube,
otros en el llanto del pequeño,
hay quien ve una metáfora de la vida
(hilo frágil que sujetamos
hasta el último instante).
Y yo, que venía a respirar,
siento vértigo por la altura del globo,
pena por las lágrimas del niño,
rabia por la vida, que nos exige
apretar fuerte los puños para sujetarla.


José Alcaraz






O sol aparece e o jardim ilumina-se,
outro miúdo com um balão a fugir-lhe.
Uns atentam no alto a que sobe,
outros no pranto do pequeno,
havendo quem veja ali uma metáfora da vida
(fio frágil que seguramos
até ao derradeiro momento).
E eu, que vinha só respirar,
tenho vertigens da altura do balão,
pena das lágrimas do miúdo,
raiva da vida, que nos obriga
a cerrar os punhos com força
para a segurar.


(Trad. A.M.)

.

13.7.17

José Agustín Goytisolo (Aquela flor instantânea)





ESA FLOR INSTANTÁNEA



Miedo a perderse ambos
vivir uno sin otro:
miedo a estar alejados
en el viento en la niebla
en los pasos del día
en la luz del relámpago
en cualquier parte. Miedo
que les hace abrazarse
unirse en este aire
que ahora juntos respiran.
Y se buscan y buscan
esa flor instantánea
que cuando se consigue
se deshace en un soplo
y hay que ir a encontrar otras
en el jardín umbrío.
Miedo; bendito miedo
que propicia el deseo
la agonía y el rapto
de los que mueren juntos
y resucitan luego.


José Agustín Goytisolo

[Mi manera de estar solo]




Medo de se perderem ambos
de ficarem um sem o outro:
medo de estarem distantes
no vento na névoa
nos passos do dia
na luz do relâmpago
em qualquer parte. Medo
que os faz abraçar
e unir-se no ar
que juntos agora respiram.
E buscam-se e buscam
aquela flor instantânea
que quando se alcança
se desfaz com um sopro
e outras há que encontrar
no jardim sombrio.
Medo, bendito medo
que gera o desejo
a agonia e o rapto
dos que morrem juntos
e depois ressuscitam.

(Trad. A.M.)

.

12.7.17

Antonia Pozzi (Desânimo)





SFIDUCIA



Tristezza di queste mie mani
troppo pesanti
per non aprire piaghe,
troppo leggere
per lasciare un'impronta –

tristezza di questa mia bocca
che dice le stesse
parole tue
- altre cose intendendo -
e questo è il modo
della più disperata
lontananza.


Antonia Pozzi




Tristeza destas mãos
pesadas de mais
para não abrirem feridas,
demasiado leves
para deixarem marca –

tristeza desta boca
que diz as mesmas
palavras que tu
– significando outras coisas –
este o modo
da mais desesperada
distância.


(Trad. A.M.)



> Outra versão: O melhor amigo (Inês Dias)

.

11.7.17

Jorge Teillier (Sentados à fogueira)





SENTADOS FRENTE AL FUEGO



Sentados frente al fuego que envejece
miro su rostro sin decir palabra.
Miro el jarro de greda donde aún queda vino,
miro nuestras sombras movidas por las llamas.
Esta es la misma estación que descubrimos juntos,
a pesar de su rostro frente al fuego,
y de nuestras sombras movidas por las llamas.
Quizás si yo pudiera encontrar una palabra.
Esta es la misma estación que descubrimos juntos:
aún cae una gotera, brilla el cerezo tras la lluvia.
Pero nuestras sombras movidas por las llamas
viven más que nosotros.
Sí, ésta es la misma estación que descubrimos juntos.
¿Yo llenaba esas manos de cerezas, esas
manos llenaban mi vaso de vino?
Ella mira el fuego que envejece


Jorge Teillier






Sentados à fogueira que envelhece
olho-lhe o rosto sem dizer palavra.
Olho a caneca de grés ainda com vinho,
olho as nossas sombras movidas pelas chamas.
É a mesma estação que juntos descobrimos,
apesar do seu rosto em frente ao lume
e das nossas sombras movidas pelas chamas.
Talvez se eu encontrasse uma palavra.
É a mesma estação que descobrimos juntos,
cai ainda uma bátega e a cerdeira brilha após a chuva.
Mas nossas sombras movidas pelas chamas
vivem mais do que nós próprios.
Sim, é a mesma estação que juntos descobrimos.
Eu enchia aquelas mãos de cerejas, que
 me enchiam de vinho o meu copo?
Ela olha a fogueira que envelhece.


(Trad. A.M.)

.

10.7.17

Jorge Riechmann (Elogio do manjericão)





ELOGIO DE LA ALBAHACA



Ahuyenta a los mosquitos.

Solidaria con los piñones, abnegada,
se sacrifica para que disfrutemos
de unos incomparables spaghetti al pesto.

En el súbito templo de su aroma
no está obligado a arrodillarse nadie.


Jorge Riechmann

[Apología de la luz]




Espanta os mosquitos.

Solidária com os pinhões, abnegada,
sacrifica-se para nós disfrutarmos
os incomparáveis spaghetti al pesto.

No súbito templo do seu aroma
ninguém é obrigado a ajoelhar.


(Trad. A.M.)

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9.7.17

Ângelo de Lima (Não tinha)





NÃO TINHA



Não tinha esse perfume, dos Narcisos!...
Nem o calor fervente dos Abraços!...

Aquela, a quem um dia abri os braços...
- Que me encantava a alma de sorrisos!...

- Vi seus olhos, então!... - os lagos lisos
não são mais cristalinos... nem mais frios!...

- Pobres almas de Moços... - Balbucios
e Inocentes! - e Ínscios!... - E Indecisos!!!...


Ângelo de Lima


.

8.7.17

Jorge Luis Borges (As coisas)





LAS COSAS



El bastón, las monedas, el llavero,
la dócil cerradura, las tardias
notas que no leerán los pocos días
que me quedan, los naipes y el tablero,
un libro y en sus páginas la ajada
violeta, monumento de una tarde
sin duda inolvidable y ya olvidada,
el rojo espejo occidental en que arde
una ilusoria aurora. Cuántas cosas,
limas, umbrales, atlas, copas, clavos,
nos sirven como tácitos esclavos,
ciegas y estrañamente sigilosas!
Durarán más allá de nuestro olvido;
no sabrán nunca que nos hemos ido.

Jorge Luis Borges




A bengala, as moedas, as chaves,
a dócil fechadura, as notas tardias
que os poucos dias que me restam
não hão-de ler, as cartas e o tabuleiro,
um livro e lá dentro a seca
violeta, monumento de uma tarde
por certo inesquecível, mas já esquecida,
o rubro espelho ocidental em que arde
uma ilusória aurora. Quantas coisas,
limas, umbrais, atlas, copos, cravos,
nos servem como tácitos escravos,
cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além do nosso olvido;
não saberão nunca que nos fomos.


(Trad. A.M.)


>>  Outras versões: Silva (M. Vilhena) / O melhor amigo (J.V.Baptista) / Canal de poesia

  
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7.7.17

Jorge Boccanera (Pó para morder)



(III)

Bésale las piernas a la poesía
aunque diga que no que aquí nos pueden ver.
Bésale las palabras, hurga su lengua hasta
que abra los brazos y diga ¡Santo Dios!
o hasta que santodios abra los brazos de escándalo.
Bésale a la poesía a la loba
aunque diga que no que hay mucha gente que aquí
nos pueden ver. Bésale las piernas las palabras
hasta que no de más, hasta que pida más
hasta que cante.


Jorge Boccanera





Beija-lhe as pernas à poesia
embora diga que não que aqui podem ver.
Beija-lhe as palavras, mexe-lhe na língua até
ela abrir os braços e dizer: Santo Deus!
ou até o santodeus abrir os braços de escândalo.
Beija a poesia essa fêmea
embora diga que não, que há muita gente, que
aqui podem ver. Beija-lhe as pernas as palavras
até que não dê mais, até que peça mais
até que comece a cantar.


(Trad. A.M.)


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6.7.17

Ana Salomé (Grandes poetas)





GRANDES POETAS



Agora talvez entendas porque não escrevo
entretida com a arquitectura volátil dos dias
com os afazeres esponsais e profissionais
a apanhar eléctricos em curto-circuitos
às voltas com este tumulto manso que abafo
porque, sejamos sinceros, só grandes tumultos
dão grandes poetas, de resto há a frieza
dos que se mentem a si próprios
e vão chamando a si os pássaros
quando o que deveriam era libertar os seus
numa torrente que não acompanham ortografias
nem radiografias sentimentais.

Desculpa se me tornei naquilo que queria ser
quando escrevia: amante e amada
de tal forma que se tocar em flores elas se multiplicam
se beber água nasce um caudal por entre milhares de minérios
se falar de estrelas um segundo demora anos-luz a passar.
À antiga pergunta se antes a vida que a escrita
melhor a primeira quando pior é a segunda
porque, mais uma vez a sinceridade,
só grandes vidas dão grandes escritas,
grandezas díspares, com certeza, mas grandezas, sem dúvida.

Assim chego eu a casa e faço o jantar
e lavo a loiça – quando não a acumulo em pilhas –
e leio livros – quando não me lembro da televisão –
e sou feliz quando enlaço as mãos na maresia
e vou ao cinema com amigos
e passeio de braço dado com a mamã.

Se isto dá uma grande poeta?
tenho-me perguntado, todos os dias,
e à noite uma cavalgada inquieta
dirige-se à região desamparada do cérebro
à côncava existência do corpo ainda insatisfeito
a essa solidão sublime que me levou em certos dias
aos Himalaias e noutros ao farol de Brest.
Nesses segundos que se dirigem a mim
Von Hofmannsthal volta ao esperma para não nascer
e tudo é possível desde amar mulheres até matar
e sobreviver ao crime limpidamente.
Nesses segundos os meus poemas poderiam ser grandes
e ser eu uma grande poeta
apascentando-me de folhinhas de louro
e para mim ter metros infindos de mundo por explorar.


Ana Salomé



.

5.7.17

Jorge Ampuero (Tacto)





TACTO



Tocas el agua
de mi cuerpo
no tocas
el agua
tocas mi cuerpo
de agua.


Jorge Ampuero


.

4.7.17

Jordi Doce (Invernal)





INVERNAL



El tiempo no te ha dado las respuestas,
sólo nuevas preguntas.
Declina con las horas
la luz, las calles se despueblan,
desde tu cuarto sólo ves
un futuro de ramas harapientas,
la noche agazapada en los tejados,
y crees sentir, incluso, esa quietud
que precede a la nieve
como un aliento contenido,
algo que espera a sério
y desespera.
El invierno
lo hace todo más simple,
con su buril de frío y de carencias.
Es una disciplina,
un acuerdo entre el mundo y su reverso,
el lado de penumbra en que se apoya.

El color de la tarde
se iguala al pensamiento.
Cae sobre la calle
una luz aclarada, casi exenta,
y todo se distancia y adormece
como en un objetivo,
como si el mundo fuera un diagrama del mundo,
un mapa desnutrido y eficaz
que ha dado con el hueso de las cosas.

La mente se complace en el invierno.
Le alivian sus aristas,
su quieta economía,
la forma en que se atiene a lo que tiene.
Todo lo simplifica,
también estas preguntas intranquilas
que cambian con el tiempo,
que no cambian.


Jordi Doce





O tempo não te deu as respostas,
só novas perguntas.
Declina a luz
com as horas, esvaziam-se as ruas,
do teu quarto só vês
um futuro de ramos esfarrapados,
a noite agachada nos telhados,
e julgas sentir até a quietude
que antecede a neve
como respiração sustida,
algo que espera a sério
e desespera.
O inverno
torna tudo mais simples,
com seu buril de frio e de carências.
É uma disciplina,
um acordo entre o mundo e o seu reverso,
o lado de sombra em que se apoia.

A cor da tarde
iguala-se ao pensamento.
Tomba sobre a rua
uma luz clara, difusa,
e tudo se distancia e adormece
como numa objectiva,
como se o mundo fosse um diagrama do mundo,
um mapa desnutrido
que encontrou o osso das coisas.

A mente compraz-se no inverno.
Consolam-na as suas arestas,
sua quieta economia,
o modo como se atém àquilo que tem.
Tudo o torna mais simples,
também estas perguntas intranquilas
que mudam com o tempo,
que não mudam.


(Trad. A.M.)


 .

3.7.17

A.M.Pires Cabral (Pirilampos-III)





PIRILAMPOS-III



Mas também estes negadores das trevas
desertaram:
Já não se vêem pirilampos, o seu lume
deixou de desmentir a escuridão.
Apagaram a lanterna, retiraram
para um lugar qualquer onde talvez
já não valha a pena alumiar
– algures entre o frio e o esquecimento
(se é que frio e esquecimento não são nomes
alternativos da mesma melancolia).
E enroscou-se mais a escuridão
 – essa Boa constrictor incessante –
em torno da nossa noite.



A.M.PIRES CABRAL
Gaveta do Fundo
(2013)

.

2.7.17

Jon Juaristi (Tonton macoute)





TONTON MACOUTE



Afirmas que he matado lo mejor que en mí había
y que por eso sueño con crímenes, y aciertas.

En mi interior acecha un asesino,
tonton macoute de negros anteojos,
avezado a tirar contra las emociones
demasiado abultadas.

No me pidas, amiga, que lo trate
con la ingratitud de un Baby Doc.

Me ha sido siempre fiel.
Más que las otras.


JON JUARISTI
Suma de Varia Intención
(1987)




Alegas que matei o melhor que havia em mim
e por isso sonho com crimes, e está certo.

No meu íntimo espreita um assassino,
tonton macoute de óculos escuros,
avezado a atirar contra as emoções
muito exacerbadas.

Não me peças, amiga, que o trate
com a ingratidão de um Baby Doc.

Foi-me sempre fiel.
Mais do que as outras.


(Trad. A.M.)


.

1.7.17

Joaquín Giannuzi (Amantes na noite)





AMANTES EN LA NOCHE



Nos amamos y apagamos el televisor
como negando la realidad. Pero el mundo
insiste en sus convicciones o las busca
por motivos que ignoramos o acaso
porque el crimen debe seguir su curso.
Desde afuera, sus figuras insomnes
presionan contra las paredes que nos refugian.
Se encarnan en el viento, aullidos
de neumáticos y en las inmediaciones
de todas las cosas, tiroteos
que no resuelven la discordia general.
Ahora acumula hojas secas
al pie de las ventanas y desliza
una carta de origen desconocido
por debajo de la puerta.
Pero florecemos desnudos en medio de la noche
donde el amor decide en su propia voluntad
y por él sabemos cómo hacer de la historia
un rumoroso escándalo que no nos concierne.


Joaquín Giannuzi





Amamo-nos e desligamos a TV
como que negando a realidade. Mas o mundo
teima em suas convicções ou busca-as
por motivos que ignoramos ou talvez
porque o crime deve seguir seu curso.
De fora, suas figuras insones
apertam contra as paredes que nos protegem.
Encarnam no vento, uivos
de pneus e nas imediações, tiros
que não resolvem a discórdia geral.
Agora junta folhas secas
debaixo das janelas e uma carta
desliza por baixo da porta,
de origem desconhecida.
Mas desnudos florescemos a meio da noite
onde o amor decide em seu próprio querer
e por ele sabemos como fazer da história
um escândalo ruidoso que não nos diz respeito.


(Trad. A.M.)

.