30.6.16

José Paulo Paes (Termo de responsabilidade)





TERMO DE RESPONSABILIDADE



mais nada
a dizer: só o vício
de roer os ossos
do ofício

já nenhum estandarte
à mão
enfim a tripa feita
coração

silêncio
por dentro sol de graça
o resto literatura
às traças!


José Paulo Paes



>>  Antonio Miranda (15p) / Jornal de poesia (7p/mais)

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29.6.16

Miguel Barnet (O ofício)





EL OFICIO




Quédate con tu misterio,
describe la mesa, el animal doméstico,
el delantal floreado de la madre,
el presuroso amor si lo deseas,
pero no lo digas todo en el poema,
que permanezca siempre una puerta abierta y golpeando,
un campo no surcado a la intemperie,
deja para el otro que vendrá, amigo o enemigo,
esa leve ambigüedad, ese otro poema.


MIGUEL BARNET
Carta de noche
(1982)





Guarda o teu mistério,
descreve a mesa, o animal doméstico,
o avental às flores da tua mãe,
o pressuroso amor se desejares,
mas não digas tudo no poema,
que fique sempre uma porta aberta e a bater,
um campo não sulcado à intempérie,
deixa para outro que há-de vir, amigo ou inimigo,
essa leve ambiguidade, esse outro poema.


(Trad. A.M.)

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28.6.16

Alberto Pimenta (Nada falta)





NADA FALTA



Ao cair da tarde,
passa lá fora
a melancólica,
antiquíssima flauta
do amolador.

Vai-se afastando
e deixando atrás de si,
como uma cascata,
a toada
magoada e urgente
da noite que vem
e promete ser
varrida de água
e de vento,
fatal para vagabundos
e para espíritos aflitos
ou afligidos.

Mas
entre os múltiplos golpes
executados por aí
com um cutelo de dois gumes
de fabrico euro-alemão,
esta tormenta,
no ritmo da flauta
anuncia sobretudo a queixa
de mais um trabalho
em liberdade e em gosto
prestes a morrer.

Parece
que mais ninguém a ouve,
e,
pelo silêncio que fica,
parece até
que já não há ninguém vivo na rua.
Nem os cães...
Estarão
a ver
as inundações
na América...

- Os cães também?

Claro, nem ladram.

A televisão
inunda-lhes a casa lá longe
e eles gostam.
Também lhes afia as facas
que trazem na cabeça
e todos gostam.
Não precisam de amolador.
Não precisam de mais nada.


Alberto Pimenta

[Domingos Mota]

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27.6.16

Luis Alberto de Cuenca (Quando vivias na Castellana)





Cuando vivías en la Castellana
usabas un perfume tan amargo
que mis manos sufrían al rozarte
y se me ahogaban de melancolía.
Si íbamos a cenar, o si las gordas
daban alguna fiesta, tu perfume
lo echaba a perder todo. No sé dónde
compraste aquel extracto de tragedia,
aquel ácido aroma de martirio.
Lo que sé es que lo huelo todavía
cuando paseo por la Castellana
muerto de amor, junto al antiguo hipódromo,
y me sigue matando su veneno.


Luis Alberto de Cuenca




Quando vivias na Castellana
usavas um perfume tão amargo
que as minhas mãos sofriam só de tocar-te
e afogavam-se-me de melancolia.
Se íamos jantar, ou se as gordas
davam uma festa, o teu perfume
deitava tudo a perder. Não sei onde
compraste aquele extracto de tragédia,
aquele ácido aroma de martírio.
O que sei é que ainda o sinto
quando passeio na Castellana,
morto de amor, ao pé do hipódromo,
e mata-me ainda o seu veneno.


(Trad. A.M.)

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26.6.16

Manuel de Freitas (A Humanidade em Agosto)





A HUMANIDADE EM AGOSTO



Era uma tarde assim, como já sabíamos
ou devíamos, pelo menos, calcular:
insuportável o calor, duvidosa a alegria.
Mas íamos fazer compras e
era Agosto, mês de pouca gente

que viu, como nós, o autocarro
parar bruscamente.
Quatro pequenos cães, de famílias
por certo bem diferentes, atravessavam
num sereno susto o alcatrão. Desconheciam
que tudo (sim, não é apenas o tabaco)
pode matar num dia qualquer os que estão vivos.

Seguiam quase ordeiros, sem caminho.
E não sabiam. Como poderiam saber
que eram as vítimas ocasionais
de umas férias mais tranquilas
para esses mesmos que, na sua excessiva
humanidade, os abandonaram à nenhuma sorte?

E a caravana passou, rodeada de silêncio.
O mais pequeno e farrusco, o que
vinha atrás, parecia não acreditar ainda
que era este o seu destino, nem urbano
nem campestre; simplesmente intolerável.
Doía muito ver-lhe os olhos, e ser humano
como os humanos que ali se libertaram
dele, para garantir a liberdade que não têm.

Pouco tempo depois, o autocarro arrancou.
Chegaremos mais devagar à mesma morte. Mas
chegaremos. Eu sempre achei a humanidade o que
de pior havia sobre a terra. Preferia, às vezes, não ter razão.


Manuel de Freitas

[Arquivo de cabeceira]

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25.6.16

Leopoldo María Panero (Projecto de um beijo)





PROYECTO DE UN BESO



Te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra
te mataré mañana poco antes del alba
cuando estés en el lecho, perdida entre los sueños
y será como cópula o semen en los labios
como beso o abrazo, o como acción de gracias
te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra
y en el pico me traiga la orden de tu muerte
que será como beso o como acción de gracias
o como una oración porque el día no salga
te mataré mañana cuando la luna salga
y ladre el tercer perro en la hora novena
en el décimo árbol sin hojas ya ni savia
que nadie sabe ya por qué está en pie en la tierra
te mataré mañana cuando caiga la hoja
decimotercera al suelo de miseria
y serás tú una hoja o algún tordo pálido
que vuelve en el secreto remoto de la tarde
te mataré mañana, y pedirás perdón
por esa carne obscena, por ese sexo oscuro
que va a tener por falo el brillo de este hierro
que va a tener por beso el sepulcro, el olvido
te mataré mañana cuando la luna salga
y verás cómo eres de bella cuando muerta
toda llena de flores, y los brazos cruzados
y los labios cerrados como cuando rezabas
o cuando me implorabas otra vez la palabra
te mataré mañana cuando la luna salga,
y así desde aquel cielo que dicen las leyendas
pedirás ya mañana por mí y mi salvación
te mataré mañana cuando la luna salga
cuando veas a un ángel armado de una daga
desnudo y en silencio frente a tu cama pálida
te mataré mañana y verás que eyaculas
cuando pase aquel frío por entre tus dos piernas
te mataré mañana cuando la luna salga
te mataré mañana y amaré tu fantasma
y correré a tu tumba las noches en que ardan
de nuevo en ese falo tembloroso que tengo
los ensueños del sexo, los misterios del semen
y será así tu lápida para mí el primer lecho
para soñar con dioses, y árboles, y madres
para jugar también con los dados de noche
te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra.


Leopoldo María Panero

[Once upon a midnight dreary]




Vou-te matar amanhã quando a lua vier
e me falar o primeiro mergulhão
vou-te matar amanhã pouco antes da aurora
quando estejas na cama, perdida entre os sonhos
e será como cópula ou sémen nos lábios
como beijo ou abraço, ou como acção de graças,
vou-te matar amanhã quando a lua vier
e me falar o primeiro mergulhão
que me trouxer no bico a ordem da tua morte,
que será como beijo ou como acção de graças
ou como oração para o dia não vir,
vou-te matar amanhã quando a lua vier
e o terceiro cão ladrar na hora nona
na décima árvore desfolhada e sem seiva
que ninguém sabe como está de pé sobre a terra,
vou-te matar amanhã quando no chão
da miséria cair a décima terceira folha
e serás tu uma folha ou algum tordo pálido
voltando no remoto segredo da tarde,
vou-te matar amanhã e hás-de pedir perdão
por essa carne obscena, por esse escuro sexo
que vai ter por falo o brilho deste ferro,
que vai ter por beijo o sepulcro, o olvido,
vou-te matar amanhã quando a lua vier
e hás-de ver como serás bela em morta,
toda coberta de flores, com os braços em cruz
e os lábios cerrados como quando rezavas
ou me imploravas outra vez a palavra,
vou-te matar amanhã quando a lua vier
quando vires um anjo armado de adaga
silencioso e desnudo à beira da tua cama pálida,
vou-te matar amanhã e verás que ejaculas,
quando te passar aquele frio por entre as pernas,
vou-te matar amanhã quando a lua vier
vou-te matar amanhã e amarei teu fantasma
e irei à tua cova nas noites
em que me ardam novamente no falo
os sonhos do sexo, os mistérios do sémen,
farei da tua lápide o meu primeiro leito
de sonhar com deuses, e árvores, e mães,
para brincar também com os dados da noite,
vou-te matar amanhã quando a lua vier
e me falar o primeiro mergulhão.


(Trad. A.M.)

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24.6.16

Manuel Bandeira (Evocação do Recife)





EVOCAÇÃO DO RECIFE




Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstadt dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
— Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância

A Rua da União, onde eu brincava de chicote-queimado
e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê
na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras
mexericos, namoros, risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:
Coelho sai!
Não sai!

À distância as vozes macias das meninas politonavam:
Roseira dá-me uma rosa!
Craveiro dá-me um botão!

(Dessas rosas muita rosa
terá morrido em botão...)

De repente
nos longos da noite
um sino
Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era São José.
Os homens punham o chapéu e saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.

Rua da União...
Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame rua dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
...onde se ia pescar escondido
Capiberibe
— Capibaribe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado, o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento
Cheia! As cheias! Barro, boi morto, árvores, destroços, redemoinho, sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro
os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras

Novenas
Cavalhadas
E eu me deitei no colo da menina e ela começou
a passar a mão nos meus cabelos
Capiberibe
— Capibaribe
Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
o que fazemos
é macaquear
a sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam

Recife...
Rua da União...
A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
Meu avô morto.

Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro
como a casa de meu avô.


Manuel Bandeira


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23.6.16

Ramón Irigoyen (La vraie vie est absente)





LA VRAIE VIE EST ABSENTE



Hoy tampoco vendrá
llueve ceniza en la entrepierna de la tarde
y siento el frío ese que se siente cuando no hace frío
y hasta Rimbaud se me cae de las manos
en la memoria nieva lana sucia
mientras el otoño con sus dientes de rata despelleja los árboles
con sus dientes de rata los despelleja.
Y sé que no vendrá
porque la tarde se ha puesto ya su jersey negro
y el aire apesta a espinas oxidadas.

Ramón Irigoyen



Hoje também não virá
chove cinza nos entrefolhos da tarde
e eu sinto frio
aquele que se sente quando não está frio
e até Rimbaud me cai das mãos
neva na memória, lã suja
enquanto o Outono, de dentes de rato
descasca as árvores
com seus dentes de rato tira-lhes a casca.
Já sei que não virá
porque a tarde cobriu o seu manto negro
e o ar tresanda a peixe estragado.

(Trad. A.M.)



>>  Ramon Irigoyen (sítio of.) / Poetas siglo XXI (5p) / Zurgai (entrevista-1982) / Facebook / Wikipedia

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22.6.16

Manuel António Pina (Ruínas)





RUÍNAS



Por onde quer que tenha começado,
pelo corpo ou pelo sentido,
ficou tudo por fazer, o feito e o não feito,
como num sono agitado interrompido.

O teu nome tinha alturas inacessíveis
e lugares mal iluminados onde
se escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam
e deveria talvez ter começado por aí.

Agora é tarde, do que podia
ter sido restam ruínas;
sobre elas construirei a minha igreja
como quem, ao fim do dia, volta a uma casa.


Manuel António Pina


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21.6.16

Miquel Martí i Pol (Tempo perdido)





TEMPO PERDIDO



O tempo não se perde nem se ganha,
transcorre, e nós vivemo-lo, umas vezes
com vento propício, outras com angústia.

Tudo é incerto, e à uma necessário,
e nunca se sabe o que há por trás das dunas
do grande esforço de crescer e compreender.

Transcorre o tempo,
ninguém o perde nem o ganha.
Transcorre o tempo e nós com ele.


Miquel Martí i Pol

(Trad. A.M./ sobre versão cast. Joan B. Fort i Olivella)




>>  Escriptors (muito+variado) / Lletra (idem) / Círculo de poesia (14p) / A media voz (26p) / Wikipedia

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20.6.16

Luís Filipe Castro Mendes (Como um adeus português)





COMO UM ADEUS PORTUGUÊS



Meu amor, desaparecido no sono como sonho de outro sonho,
meu amor, perdido na música dos versos que faço e recomeço,
meu amor por fim perdido.

Nenhuma lâmpada se acende na câmara escura do esquecimento,
onde revelo em banho de prata as imagens que guardo de ti,
imagens que se desfiam na memória de haver corpos,
na memória da alegria que sempre guardamos para dar a alguém,
tremendo de medo, tropeçando de angústia,
enternecidos,
entontecidos,
como aves canoras soltas nos vendavais.

Perdi-te no momento certo de perder-te.
Aqui estão os augúrios, além o discernimento.
O amor em surdina desfez-se no seu dizer,
entre versos pobres, um corpo cansado,
e a doença sem fim do desejo mortal.

Apagaram-se as luzes. Nunca o vento da indiferença
me abrirá as mãos.
Nunca abdicarei deste quinhão de luz, o meu amor.
E agora vejo bem como as palavras caem,
não valem,
se desfolham e são pisadas por qualquer afirmação da vida,
da vida que não era para nós.


LUIS FILIPE CASTRO MENDES
Os Amantes Obscuros
(1985-2001)



Alexandre O'Neill - Um adeus português

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19.6.16

Roberto Vivas Sanz (Deslizar com o destino)





Deslizarse a través del destino,
sin forzarlo,
dejándose llevar como una pluma
a través de corrientes aéreas.
Permitir mecerse por caprichosas
incertidumbres.
No lucho por cambiarlo…
sé que los diferentes caminos
están escritos para que confluyan
en un único punto,
en un único encuentro,
sé que ocurrirá
por eso…
sigo esperándote.


Roberto Vivas Sanz

[Crepusculario siglo XXI]





Deslizar com o destino,
sem o forçar,
deixar-se ir com o vento
como uma pena pelo ar.
Deixar-se embalar por caprichosas
incertezas.
Não me esforço por mudá-lo...
sei que os diferentes caminhos
estão desenhados para confluir
num certo ponto,
num só encontro,
sei que virá,
por isso...
continuo a esperar-te.


(Trad. A.M.)




>>  Crepusculario siglo XXI (vários p)

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18.6.16

Luís de Camões (Um mover de olhos)





Um mover de olhos, brando e piedoso,
Sem ver de quê; um riso brando e honesto,
Quase forçado; um doce e humilde gesto,
De qualquer alegria duvidoso;

Um despejo quieto e vergonhoso;
Um repouso gravíssimo e modesto;
Ũa pura bondade, manifesto
Indício da alma, limpo e gracioso;

Um encolhido ousar; ũa brandura;
Um medo sem ter culpa; um ar sereno;
Um longo e obediente sofrimento;

Esta foi a celeste fermosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu pensamento.


Luís de Camões

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17.6.16

Maria Laura Decésare (Somos o que damos)





SOMOS LO QUE DAMOS



Te ofrezco una palabra
la que se necesita
cuando una herida se abre
y la noche nos derrumba.
Te ofrezco una promesa
que nos salve
de los temores del mundo.


María Laura Decésare




Uma palavra te ofereço
a que é precisa
quando uma ferida se abre
e a noite nos derruba.
Uma promessa te ofereço
que nos salve
dos temores deste mundo.

(Trad. A.M.)



>>  MLDecesare (blogue) / Círculo de poesia (6p) / Cartas desde el jardin (4p)


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16.6.16

Louise Warren (A verdadeira noite)






A verdadeira noite começa fora,
sensível e apaixonada por dentro.
Meus olhos habituam-se ao escuro e vêem,
para lá dos círculos de ouro, das faces de vidro.
Ver e sentir. Viva de todo, a retina.

Aceito o vagar do sopro da brisa,
este silêncio escuro,
pela paixão de olhar
e achar belo.


Louise Warren


(Trad. A.M.)

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15.6.16

Antonio Colinas (Envio)





ENVÍO



¿Recuerdas todavía el débil canto
del ruiseñor perdido en la enramada?
Viste temblar conmigo aquella noche
la copa del ciprés.
Desmadejó
el cielo hilos de luna por tu rostro.
Pero después del pájaro y la luna
se apagaron los astros.
Vi pasar
no sé qué brisa extraña por tu cuerpo.
¿Recuerdas nuestras manos en el agua?
¿Recuerdas el silencio sobre el campo
y, como un dios sangrante, el nuevo día
incendiando las torres, las palomas?


Antonio Colinas




Recordas ainda o canto débil
do rouxinol perdido na ramaria?
Viste tremer comigo nessa noite
a copa do cipreste.
Desfez o céu
fios de luar no teu rosto.
Mas depois do pássaro e da lua
apagaram-se os astros.
E eu vi passar
não sei que estranha brisa por teu corpo.
Lembras nossas mãos na água?
Lembras o silêncio sobre o campo
e, como um deus terrível, o novo dia
incendiando as torres, as pombas?

(Trad. A.M.)



>>  Antonio Colinas (sítio of.) / A media voz (30p) / Poesi.as (30p) / Wikipedia


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14.6.16

Louise Glück (Vésperas)





VESPERS ["ONCE I BELIEVED IN YOU..."]




Once I believed in you; I planted a fig tree.
Here, in Vermont, country
of no summer. It was a test: if the tree lived,
it would mean you existed.

By this logic, you do not exist. Or you exist
exclusively in warmer climates,
in fervent Sicily and Mexico and California,
where are grown the unimaginable
apricot and fragile peach. Perhaps
they see your face in Sicily; here we barely see
the hem of your garment. I have to discipline myself
to share with John and Noah the tomato crop.

If there is justice in some other world, those
like myself, whom nature forces
into lives of abstinence, should get
the lion's share of all things, all
objects of hunger, greed being
praise of you. And no one praises
more intensely than I, with more
painfully checked desire, or more deserves
to sit at your right hand, if it exists, partaking
of the perishable, the immortal fig,
which does not travel.


Louise Glück

[Otra iglesia]




Acreditei em ti em tempos, e plantei uma figueira.
Aqui, em Vermont, o país que não tem
Verão. Era uma experiência, vivesse a árvore,
queria dizer que tu existias.

Ora, por esta lógica, tu não existes.
Ou existes, sim, mas em climas mais quentes,
na ardente Sicília, ou México, ou Califórnia,
onde se dão os incríveis damascos
e os pêssegos delicados. Talvez
te vejam a cara na Sicília, aqui nós mal conseguimos
ver-te a fímbria da veste. E eu tenho de me controlar
para fazer a apanha do tomate com John e Noah.

Se houver justiça em outro mundo, pessoas
como eu, que a natureza força
a vidas de abstinência, deviam receber
o melhor de tudo, de todos
os objectos da fome, pela cupidez
de te louvar. E ninguém te louva
mais do que eu, nem com mais dorido anseio,
nem merece mais sentar-se ninguém
à tua direita, se é que existe, partilhando
do perecível, a imortal figueira,
a que não se desloca.


(Trad. A.M.)

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13.6.16

Mercedes Araujo (Silêncio)





SILENCIO



Hay que llegar al silencio
por otros caminos.

¿O será cosa de morir allí,
a sus pies
sin más?


Mercedes Araujo

[Emma Gunst]




Há que chegar ao silêncio
por outros caminhos.

Ou será caso de morrer ali,
sem mais,
a seus pés?

(Trad. A.M.)

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12.6.16

José Miguel Silva (A caminho do fogão)





A CAMINHO DO FOGÃO




Adoro essa paixão absurda que tens por Hitchcock,
o ar despenteado com que chegas a casa e me dizes:
outra vez sopa de nabos; adoro a impaciência com
que me arrancas aos diálogos com o nada, quando
me contas os teus feitos na república do frio; adoro
a tua insónia, os teus escrúpulos morais, a tua esponja
de banho, o teu espírito lavado por agudos desenganos;
outrossim acompanhar-te nas perguntas sublinhadas
pelo tempo, e o teu corpo possuído pela mágica
da música amorosa, quando dança seminu à minha
frente e eu só penso: que bem feito está o mundo.



José Miguel Silva

[Canal de poesia]

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11.6.16

Gloria Bosch (A despedida)






LA DESPEDIDA



Si te despides, hazlo con suavidad,
sin brusquedades.
No me digas: "Estaremos un tiempo sin vernos".
¿Qué es el tiempo?, te respondería.
¿Un puente entre la despedida y el reencuentro?
Si te despides, que tu adiós me reconforte
que sea como el bálsamo a mis heridas,
que tus labios me digan: "hasta luego",
"ya formas parte de mi vida",
que pueda sentir que en cualquier momento
nuestras manos se buscarán en la sala de espera
y hablaremos de amores, de cómo pasa el tiempo,
de lo interesante que te encuentro.


Gloria Bosch

[Emma Gunst]




Se te despedires, fá-lo de mansinho,
nada de brusquidão.
Não me digas: ‘Vamos estar um tempo sem nos ver’.
O que é o tempo?, responder-te-ia.
Uma ponte entre o adeus e o reencontro?
Se te despedires, que teu adeus me conforte,
que seja o bálsamo de minhas feridas,
que teus lábios me digam: ‘até depois’,
‘fazes já parte da minha vida’,
que eu possa sentir que em todo o momento
nossas mãos se buscarão na sala de espera
e falaremos de amores, de como passa o tempo,
de quão interessante te acho.

(Trad. A.M.)


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10.6.16

Jorge de Sousa Braga (Mimosas)





MIMOSAS




Todos os anos na mesma altura
a montanha veste o mesmo vestido amarelo
para ver se ainda lhe serve na cintura.


Jorge de Sousa Braga

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9.6.16

Antonio Martínez Sarrión (Outra poética improvável)





OTRA POÉTICA IMPROBABLE



Ni arma cargada de futuro,
ni con tal lastre de pasado
que suponga sacarse de la manga
una estólida tienda de abalorios
con la oculta intención de levantar efebos.
La poesía es fábrica de castigados muros
con alto tragaluz que sólo al azar filtra
la más perecedera luz del sueño.


Antonio Martínez Sarrión




Nem arma carregada de futuro,
nem com tal lastro de passado
que suponha tirar da manga
um rosário de bugigangas
com a intenção de levantar efebos.
A poesia é fábrica de castigados muros
com quebra-luz que só por acaso filtra
a mais perecível luz do sonho.


(Trad. A.M.)

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8.6.16

João José Cochofel (Vocábulo)





VOCÁBULO



Rosa
não mais que um vocábulo
mas com perfume,
cor,
alegria,
no som mental que vem aos lábios,
às letras que uma a uma
a enunciam.

Vermelha
a cor para ser a exacta
rosa
que pronuncio.


João José Cochofel

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7.6.16

Karmelo C. Iribarren (Algo se quebrou para sempre)





ALGO SE HA ROTO PARA SIEMPRE



No importan las palabras,
ya
ni siquiera importa la verdad.

Algo se ha roto
para siempre:

está en sus ojos, su mirada
como un puente
partido
sobre el abismo de los días...


Karmelo C. Iribarren




Não importam as palavras,
nem sequer importa já
a verdade.

Algo se quebrou
para sempre:

vê-se-lhe nos olhos, no olhar
como uma ponte
partida
sobre o abismo dos dias...

(Trad. A.M.)

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6.6.16

Armando Silva Carvalho (Os amigos)





OS AMIGOS



Vamos vendo os amigos cada vez mais longe,
muitas vezes de costas,
a sacudir o espaço dos seus tempos como se entrassem
no mundo pela primeira vez.

São pequenas formações quase desumanas
que às vezes se reconhecem
disformes quase sempre sós e aos pés oculto de todos
corre um rio.

Um rio que nos vai confundindo a vida
e a memória.
Que percorre os lugares do júbilo como uma água
aflita e sem regresso.

Quando os olho por dentro no começo da tarde
os amigos cintilam como corpos estranhos
entre os nossos desastres bebemos o anoitecer
e adormeceríamos juntos se soubéssemos.


Armando Silva Carvalho

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5.6.16

Elena Soto (Eufemismo)





EUFEMISMO



Es tan terrible decir que te he olvidado
que digo que tengo algodón en la memoria,
para que creas al menos que tu recuerdo me es grato.
Pero nada hay que me lleve a evocarte,
ni el dolor, ni la dicha,
nada.

Rectifico,
me mueve el afán por encontrar un pretexto,
el afán por escribir sobre la palabra eufemismo.
Terrible paradoja
tener que recordarte
para decir amable
que sólo eres algodón en mi memoria.


Elena Soto




É tão terrível dizer que te esqueci
que digo que tenho algodão na memória
para creres ao menos que me é grata a lembrança.
Mas não há nada que me faça lembrar-te,
nem dor, nem ventura,
nada.

Corrijo,
move-me o afã de encontrar um pretexto,
o afã de escrever sobre a palavra eufemismo.
Terrível paradoxo
ter de recordar-te
para amável dizer
que és só algodão
na minha memória.


(Trad. A.M.)

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4.6.16

Antonia Pozzi (Grito)





GRIDO



Non avere un Dio
non avere una tomba
non avere nulla di fermo
ma solo cose vive che sfuggono -
essere senza ieri
essere senza domani
ed acciecarsi nel nulla –
- aiuto –
per la miseria
che non ha fine

Antonia Pozzi




Não ter um Deus
nem sepulcro
não ter nada seguro
só coisas vivas fugazes
– não ter ontem
nem amanhã
e ficar cega no nada –
(socorro)
pela miséria
sem fim.

(Trad. A.M.)

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3.6.16

Miriam Reyes (Começos suspensos)





COMIENZOS SUSPENDIDOS



He comenzado decenas de historias
y no he terminado ninguna,
no sé hacia dónde van mis personajes
por qué empiezan a hablar
y de pronto se callan.

Sobre el papel me sucede lo mismo que fuera de él:
mi vida es un puñado de comienzos
suspendidos.

Miriam Reyes




Comecei dezenas de histórias
e nem uma terminei,
não sei para onde me vão as personagens
porque começam a falar
e de repente calam-se.

Acontece-me o mesmo no papel e fora dele:
a minha vida é uma série de começos
suspensos.

(Trad. A.M.)

.

2.6.16

João Habitualmente (Piancha)





PIANCHA



Já estou com o semblante todo fodido
e ainda só vou no nono bagaço

ia jurar que não estou no trapézio

e no entanto o caminho envieso-o
isto oscila tanto
fico tonto e tento

tento o quê? Se até já estou a
perder a consciência política

Ouço-me por dentro como
quando um cavalo trinca aveia palpita-me que
já troco palavras por um apartamento no Estoril

os sóbrios dizem:
beber é um acto vazio
não sabem o que dizem e acertam profundamente

mas não tem mal
volta-se a encher o copo


João Habitualmente

.

1.6.16

Luis García Montero (Problemas de geografia pessoal)





PROBLEMAS DE GEOGRAFÍA PERSONAL



Nunca sé despedirme de ti, siempre me quedo
con el frío de alguna palabra que no he dicho,
con un malentendido que temer,
ese hueco de torpe inexistencia
que a veces, gota a gota, se convierte
en desesperación.
Nunca se despedirme de ti, porque no soy
el viajero que cruza por la gente,
el que va de aeropuerto en aeropuerto
o el que mira los coches, en dirección contraria,
corriendo a la ciudad
en la que acabas de quedarte.
Nunca sé despedirme, porque soy
un ciego que tantea por el túnel
de tu mano y tus labios cuando dicen adiós,
un ciego que tropieza con los malentendidos
y con esas palabras
que no saben pronunciar.
Extrañado de amor,
nunca puedo alejarme de todo lo que eres.
En un hueco de torpe inexistencia,
me voy de mí
camino a la nada.


Luis García Montero

[Crepusculario siglo 21]




Nunca sei despedir-me de ti, fico sempre
com o frio de alguma palavra não dita,
um mal-entendido a temer,
aquele vazio de torpe inexistência
que às vezes, gota a gota, se converte
em desespero.
Nunca sei despedir-me de ti, porque não sou
o viajante que atravessa a multidão,
que vai de aeroporto em aeroporto
ou olha para os carros, em sentido contrário,
a correr para a cidade
em que venho de deixar-te.
Nunca sei despedir-me, porque sou
um cego tacteando pelo túnel
da tua mão e dos lábios dizendo adeus,
um cego que tropeçanos mal-entendidos
e nas palavras
que não sabe pronunciar.
Desterrado de amor,
nunca pude afastar-me de tudo o que és.
Num vazio de torpe inexistência,
parto de mim
a caminho do nada.

(Trad. A.M.)

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