31.5.16

João Guimarães Rosa (Na Mantiqueira)





NA MANTIQUEIRA



Por entre as ameias da cordilheira
dormida,
a lua se esgueira,
como um lótus branco
na serra de dorso de um crocodilo,
brincando de esconder.
Dá para o alto um arranco,
repentino,
de balão sem lastro.
E sobe, mais clara que as outras luas,
quase um sol frio,
redonda, esvaindo-se, derramando,
esfarelando luz pelos rasgões, do bojo
farpeado nas pontas da montanha.


João Guimarães Rosa

[Sopoesia]

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30.5.16

Carina Sedevich (Minha vizinha lavou)





Mi vecina ha lavado ropa oscura
y la ha extendido en una cuerda al sol.

Admiro la coherencia del conjunto.

Me regocija
la pulcritud de mi vecina:
la economía con que ordenó el tendido
y dispuso los broches de madera
sin encimar las prendas
ni estirarlas.

Solía tender cuando tenía un patio,
un hijo pequeño, un compañero.

Fui dulce y cuidadosa con sus ropas.


Carina Sedevich

[Marcelo Leites]





A minha vizinha lavou roupa escura
e estendeu-a na corda ao sol.

Admiro a coerência do conjunto.

Regozijo-me
com a limpeza da vizinha,
o jeito com que ordenou o estendal
e pôs as molas de madeira
sem empinar as peças
nem as esticar.

Eu também estendia
no tempo em que tinha um pátio,
um filho pequeno, um companheiro.

Bem doce e cuidadosa fui eu com as roupas deles.


(Trad. A.M.)

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29.5.16

Hilda Hilst (Dez chamamentos ao amigo-IV)





DEZ CHAMAMENTOS AO AMIGO


(IV)

Minha medida? Amor.
E tua boca na minha
Imerecida.

Minha vergonha? O verso
Ardente. E o meu rosto
Reverso de quem sonha.

Meu chamamento? Sagitário
Ao meu lado
Enlaçado ao Touro.

Minha riqueza? Procura
Obstinada, tua presença
Em tudo: julho, agosto
Zodíaco antevisto, página

Ilustrada de revista
Editoria; de jornal
Teia cindida.

Em cada canto da Casa
Evidência veemente
Do teu rosto.


Hilda Hilst


.

28.5.16

Mercedes Araujo (Não adianta)





No vale hacer de la ocasión
una carnicería, invocar fulgores
que se han apagado:
lo mejor es tomar la lanza
empuñarla suavemente
y abandonarse en el campo de batalla.

Ver correr la sangre ajena siempre nos atrapa.

Ver correr la propia es descubrir
quién uno es.


Mercedes Araujo




Não adianta fazer da ocasião
uma carnificina, invocar fulgores
já apagados:
o melhor é tomar a lança
empunhá-la suavemente
e adentrar-se no campo de batalha.

Ver correr o sangue alheio apanha-nos sempre.

Ver correr o nosso é descobrir
quem somos.


(Trad. A.M.)




>>  Cartas desde el jardin (blogue) / Octavo Boulevard (9p)


.

27.5.16

Helder Moura Pereira (Eu não tinha nada de felino)






Eu não tinha nada de felino, tu sabias
que eu não tinha nada de felino.
Nenhum de nós se admirou quando
medi mal a distância e falhei o salto.
Enquanto ia no ar parecia que era
um salto bom, porém houve qualquer
coisa que correu mal e caí com estrondo
no chão. Ninguém riu. Não era caso
para rir. Grande ilusão ir pelo ar a pensar
que o salto podia ser bom, sem eu ter
nada de felino, sem nunca ter treinado,
sem fazer sequer aquecimento, sem
olho para medir distâncias. Saber medir
distâncias é uma coisa muito importante,
pode falhar-se a vida por milímetros.


Helder Moura Pereira

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26.5.16

Gloria Bosch (Até aqui chegámos)




Hasta aquí hemos llegado
después de algunos viajes de ida y vuelta
de abundantes luchas y fracasos
de decir no puedo más y adelante
de tantos gestos incontables en el aire.

Hasta aquí hemos llegado
mientras la historia nos daba la espalda
y nos hacía muchas veces invisibles
teniendo que mostrar lo indemostrable
callando para siempre lo indecible.

Hasta aquí ha llegado nuestro silencio
nuestro grito quebrado, nuestra rabia,
nuestros buenos modales, nuestro llanto
nuestra espina clavada en el alma.

Hemos llegado hasta aquí y nos quedamos
con la ternura y las manos enlazadas
con el camino medio hecho y los gestos solidarios
con las ganas de luchar
sin más arma que la palabra.

Hasta aquí hemos llegado
y decimos, con nuestra fuerza en los labios,
un no rotundo al abuso y al maltrato
al racismo y al lenguaje sexista
a los velos del alma
a la intolerancia
a la discriminación sexual
a los salarios basura
a la explotación de la infancia
y decimos un ‘no’ rotundo
a que una sola mujer sea asesinada
ni en Ciudad Juárez
ni en cualquier rincón del mundo.
Lo decimos bien claro y bien alto:

HASTA AQUÍ HEMOS LLEGADO!


Gloria Bosch

[Veus de dones]




Até aqui chegámos
depois de algumas viagens de ida e volta
de muitas lutas e fracassos
de dizer não posso mais e avante
de tantos gestos sem conta pelo ar.

Até aqui chegámos
enquanto a história nos virava as costas
e nos fazia tanta vez invisíveis
a ter de mostrar o indemonstrável
e de calar para sempre o indizível.

Até aqui chegou nosso silêncio,
nosso grito trespassado, nossa raiva,
nossos bons modos, nosso pranto,
nosso espinho cravado na alma.

Chegámos até aqui e parámos
com a ternura e de mãos enlaçadas,
o caminho meio feito e os gestos solidários,
com ganas de lutar tendo por arma a palavra.

Até aqui chegámos
e dizemos, com a força nos lábios,
um rotundo não ao abuso e maus-tratos,
ao racismo e à treta sexista,
aos véus da alma
à intolerância
à discriminação sexual
aos salários de miséria
à exploração infantil,
um ‘não’ rotundo
à morte de uma só mulher que seja,
em Ciudad Juárez
ou em qualquer canto do mundo.
Dizemos bem alto e muito claro:

ATÉ AQUI CHEGÁMOS!

(Trad. A.M.)



>>  Veus de dones (blogue) / Poemario de mujeres (5p) / Ojos de papel (5p)

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25.5.16

Gonçalo M. Tavares (Escritor)





ESCRITOR



É um escritor ou então a mulher partiu com outro,
e o corpo não recuperou a vontade
de se preocupar com a roupa.
Espontâneo, vê-se; tudo o que traz vestido
apareceu-lhe à frente como numa colisão.
No entanto é discreto.
Tem a idade em que já não se desejam os olhares dos outros.
Branco, o cabelo transmite paz e
uma pequena desistência.
Tem cachimbo, óculos,
na mesa revistas francesas sobre a alma e os laboratórios que a
estudam;
pega numa folha e começa a escrever.
Tem ar sóbrio, o corpo não dança,
vê-se que há muito venceu o medo de não ser igual aos outros.
Escreve; passa a mão sobre a orelha.
É um escritor, em definitivo.
A luta não é com a solidão, vê-se que sabe usá-la,
percebe a sua natureza.



Gonçalo M. Tavares

[Troca de olhares]

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24.5.16

Antonio Martínez Sarrión (A miúda que conheci)





LA CHICA QUE CONOCÍ EN UNA BODA



fue la prima que entonces se casó
luego hubo baile
piano y batería mucho vino
yo diría que gentes más bien pobres
con los trajes de muerto de las fiestas
nevaba muchos viejos
que echaban la colilla en un barreño
y sacudían la mota
mucha música
la pizpireta que se está
bajando las bragas
se pone de puntillas
mira a la galería
con aquellos ojazos virgen santa
y aquel reír el vino
estuvo luego haciendo lo restante
hasta que ya no pude contenerme y se lo dije
no a ella
a mis amigos
y estuve enamorado como un mes

Antonio Martínez Sarrión




foi a prima que então se casou
depois houve baile
piano e bateria muito vinho
eu diria que mais pessoas pobres
com as vestes de morto das festas
estava a nevar muitos velhos
que jogavam a pirisca numa bacia
muita música
a pespineta põe-se a descer a cueca
em bicos de pés
olha para a assistência
com aqueles olhões virgem maria
e aquele riso o vinho
depois é que fez o resto
até que eu já não me aguentava e confessei-o
não a ela
mas aos amigos
e estive apaixonado coisa de um mês

(Trad. A.M.)



>>  Cervantes (antologia) / A media voz (30p) / Wikipedia

.

23.5.16

Gil T. Sousa (Passagem)





PASSAGEM



e se nas mãos fechadas
as grandes portas se abrissem

e passasses tu
como este silêncio passa!



Gil T. Sousa


[Canal de poesia]

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22.5.16

Fernando Valverde (Um lobo)





UN LOBO



Dentro de este poema pasa un lobo
que deja sus pisadas en la nieve.

Sigiloso y hambriento,
recorre una ciudad
que miró confiada hacia el futuro.

Hoy han bajado todas las persianas.

Es tarde,
trato de no hacer ruido
y que avancen los versos como pasan los días
para que el lobo escoja
un camino que lleve a otro lugar,
una presa más débil.

Pero en este poema espera un lobo
que ha venido a buscarme.

Aunque intente estar quieto y no hacer ruido
salta por las palabras un recuerdo
que me arranca un aullido y me devora.


Fernando Valverde





Dentro deste poema passa um lobo
deixando as pegadas na neve.

Em silêncio e faminto
corre uma cidade
que olhou confiada para o futuro.

Hoje baixaram todas as persianas.

É tarde,
tento não fazer barulho,
que os versos avancem como passam os dias
para o lobo escolher
outro caminho, uma presa mais débil.

Mas neste poema espera um lobo
que me veio procurar.

Apesar de tentar ficar quieto
e não fazer ruído,
salta nas palavras uma lembrança
que me arranca um uivo e me devora.


(Trad. A.M.)

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21.5.16

Fernando Pessoa / A. Campos (Ai Margarida)





Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
—Tirava os brincos do prego,
Casava c’um homem cego
E ia morar para a Estrela.

Mas Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.

E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.

Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.


Álvaro de Campos


[Casa Fernando Pessoa]

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20.5.16

Elena Soto (Para que meus passos)





PARA QUE MIS PASOS Y TUS PASOS...



He recogido el polvo de tus pasos,
y lo he puesto en un cesto de mimbre sobre el agua,
lo he esparcido en el viento,
lo he arrojado en la hoguera,
para que mis pasos y tus pasos se encuentren tras la lluvia,
y llames a mi puerta,
y busques el fuego de mi casa
cuando azote tu rostro el crudo viento del norte.

Elena Soto




Apanhei o pó de teus passos,
e pu-lo num cesto na água,
espalhei-o ao vento,
atirei-o à fogueira,
para os meus passos e os teus se cruzarem após a chuva,
e tu chamares à minha porta
e buscares o lume da minha casa
quando te açoitar o vento duro do norte.

(Trad. A.M.)



>>  El establo de Pegaso (blogue) / Letralia (6p) / Poemario de mujeres (5p) / El Mundo (perfil)

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19.5.16

Eugénio de Andrade (É quando a chuva cai)





É quando a chuva cai, é quando
olhado devagar que brilha o corpo.
Para dizê-lo a boca é muito pouco,
era preciso que também as mãos
vissem esse brilho, dele fizessem
não só a música, mas a casa.
Todas as palavras falam desse lume,
sabem à pele dessa luz molhada.


Eugénio de Andrade


[Canal de poesia]

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18.5.16

Miguel d'Ors (À fogueira)





CERCA DEL FUEGO



A mí dejadme así, cerca del fuego.
Yo solo quiero que mi vida sea
como un pueblo humeando pensativo
-la nieve en los tejados-
con su mañana llena de balidos
y del olor caliente de la panadería.
Yo no quiero excelencias, ni mármoles, ni cifras.
Los libros no me sirven
si no me dejan contemplar la hierba.
Con esto me conformo, con el don de los días,
con los tenues manzanos florecidos,
con una voz sencilla que me diga
cerca del fuego cosas verdaderas.


Miguel d’Ors

[Life vest under your seat]





A mim deixai-me assim, ao pé da fogueira.
Eu só quero que a minha vida seja
como um povoado a fumegar pensativo
- a neve nos telhados -
com a manhã cheia de balidos,
além do cheiro do pão quente.
Eu não quero cá excelências, nem mármores, nem cifras.
Os livros não me servem,
se não me deixarem contemplar a relva.
Com isto me basto, com o dom dos dias,
com as macieiras floridas
com uma voz simples que me diga
ao pé do lume coisas verdadeiras.

(Trad. A.M.)

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17.5.16

Dinis Moura (Um sonho)





Um sonho:
que Portugal pintou
a sua bandeira
com o vermelho da ira
que mora no coração dos portugueses
e com o verde da esperança
que esses mesmos corações perderam.
Pois seja esta a nossa nova bandeira!



Dinis Moura

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16.5.16

Carina Sedevich (Hoje acabei um amor)





Hoy disolví un amor.

Algunos signos se vieron desplazados.

Algunos otros
quedaron en el aire.

Podría pensarse que es un día distinto.

Lo único cierto es que empezó el invierno.


Carina Sedevich





Hoje acabei um amor.

Alguns signos viram-se deslocados.

Outros
ficaram no ar.

Podia pensar-se que é um dia diferente.

Certo, certo, é que começou o Inverno.

(Trad. A.M.)



>>  Letralia (15p) / Emma Gunst (19p)

.

15.5.16

Charles Bukowski (À puta que me levou os poemas)





TO THE WHORE WHO TOOK MY POEMS




some say we should keep personal remorse from the
poem,
stay abstract, and there is some reason in this,
but jezus;
twelve poems gone and I don't keep carbons and you have
my
paintings too, my best ones; its stifling:
are you trying to crush me out like the rest of them?
why didn't you take my money? they usually do
from the sleeping drunken pants sick in the corner.
next time take my left arm or a fifty
but not my poems:
I'm not Shakespeare
but sometime simply
there won't be any more, abstract or otherwise;
there'll always be money and whores and drunkards
down to the last bomb,
but as God said,
crossing his legs,
I see where I have made plenty of poets
but not so very much
poetry.


Charles Bukowski

[Hello Poetry]




há quem diga que devemos excluir do poema problemas pessoais,
ficar no abstracto, e alguma razão há nisso,
mas Jesus!
doze poemas se foram e eu sem cópias,
e também me levaste as telas, as melhores,
é horrível, queres-me lixar, como os outros?
porque não me levaste o dinheiro?
é o costume, tirá-lo a bêbedos dormindo
com as calças a um canto.
para a próxima leva-me o braço esquerdo
ou uma nota de cinquenta, mas não os poemas:
não sou nenhum Shakespeare,
o problema é que às vezes não há mais versos,
abstractos ou não;
dinheiro há-de haver sempre, e putas, e bêbedos,
até vir a bomba final,
mas como disse Deus,
traçando a perna
‘estou a ver que fiz muitos poetas
mas muito pouca
poesia’.

(Trad. A.M.)

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14.5.16

Miguel Barnet (Errata)





FE DE ERRATAS



Donde dice un gran barco blanco
debe decir nube
donde dice gris
debe decir un país lejano y olvidado
donde dice aroma
debe decir madre mía querida
donde dice César
debe decir muerto ya reventando
donde dice Abril
puede decir árbol o columna o fuego
pero donde dice espalda
donde dice idioma
donde dice extraño amor aquel
debe decir naufragio
en letras grandes

Miguel Barnet





Onde diz um grande barco branco
deve dizer nuvem
onde diz cinzento
deve dizer um país distante, esquecido
onde diz aroma
deve dizer mãezinha querida
onde diz César
deve dizer morto e rebentado
onde diz Abril
pode dizer árvore, coluna ou fogo
mas onde diz espalda
onde diz idioma
onde diz estranho amor aquele
deve dizer naufrágio
em letras grandes

(Trad. A.M.)


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13.5.16

Bocage (Chorosos versos meus)






Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados.

Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz a tirania.

Desculpa tendes, se valeis tão pouco;
Que não pode cantar com melodia
Um peito, de gemer cansado e rouco.



Bocage

.

12.5.16

Mariano Crespo (Epitáfio de amantes)





EPITAFIO PARA AMANTES



Morir de amor
es un dolor asumible.

Lo insoportable es resucitar solo.


Mariano Crespo





Morrer de amor
é uma dor tolerável.

Insuportável é ressuscitar
sozinho.

(Trad. A.M.)

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11.5.16

Antonia Pozzi (Amor da lonjura)




AMORE DI LONTANNANZA



Ricordo che, quand’ero nella casa
della mia mamma, in mezzo alla pianura,
avevo una finestra che guardava
sui prati; in fondo, l’argine boscoso
nascondeva il Ticino e, ancor più in fondo,
c’era una striscia scura di colline.
Io allora non avevo visto il mare
che una sol volta, ma ne conservavo
un’aspra nostalgia da innamorata.
Verso sera fissavo l’orizzonte;
socchiudevo un po’ gli occhi; accarezzavo
i contorni e i colori tra le ciglia:
e la striscia dei colli si spianava,
tremula, azzurra: a me pareva il mare
e mi piaceva più del mare vero.

Antonia Pozzi




Lembro-me que, quando estava em casa
da minha mãe, no meio da planície,
havia uma janela que olhava
para os campos; ao fundo, a linha do bosque
ocultava o Ticino e, mais ao longe,
havia uma tira escura de colinas.
Eu não vira o mar então senão
uma vez, mas tinha-lhe uma áspera
saudade de enamorada.
Para a noite, fitava o horizonte,
cerrava um pouco os olhos, afagava
as cores e contornos por entre os cílios.
E a linha do relevo aplainava-se,
azul, trémula – para mim era o mar
e agradava-me mais que o mar verdadeiro.

(Trad. A.M.)



>>  Antonia Pozzi (sítio) / Crisis de papel (recensão) / Antologia do esquecimento (recensão) / Issuu-El alma desnuda

.

10.5.16

Rosa Aliaga Ibañez (Quero mais)





QUIERO MÁS, SOBRE TODO,
CUANDO TENGO LAS MANOS VACÍAS DE ANHELOS



La vida es como esa sensación
que tienes cuando lees un libro
o ves una película
o descubres una canción
y piensas, estoy segura:
me va a encantar;
sin haberlo leído,
sin haberlo visto,
sin haberla escuchado.


Rosa Aliaga Ibañez

[Emma Gunst]




A vida é como aquela sensação
que temos quando lemos um livro
ou vemos um filme
ou descobrimos uma canção
e pensamos: tenho a certeza,
vou adorar;
sem ter lido,
sem ter visto,
sem ter ouvido.

(Trad. A.M.)

.

9.5.16

8.5.16

Eduardo Bechara (Silêncio)





SILENCIO


(I)

El silencio es un arma poderosa,
un ruido blanco en el que los
pájaros
cantan su desesperanza,
la ausencia de la lengua,
un pálpito mudo
en el que se ahogan
las miradas.


(IV)

Tu silencio me hiela,
es el filo
de la montaña donde
solo aúlla el viento.


Eduardo Bechara

[Marcelo Leites]




(I)

O silêncio é uma arma poderosa,
um ruído branco em que os
pássaros
cantam sua desesperança,
a ausência da língua,
mudo pressentimento
em que se afogam
os olhares.

(IV)

Teu silêncio gela-me,
é o fio
do monte onde
uiva apenas o vento.

(Trad. A.M.)

.

7.5.16

A.M.Pires Cabral (Flor da esteva-I)





FLOR DA ESTEVA-I



Mal toquei na flor da esteva,
logo ela se desfez,
frágil como névoas de Verão.

A corola branca
desconjuntou-se em pétalas dispersas
como flocos de neve fora de tempo
pousando com cautela sobre a terra.

Passou assim a haver
no campo um astro a menos.

Mas passou a haver também
um odor a esteva nos meus dedos.

Ficou ela por ela.


A.M.PIRES CABRAL
Gaveta do Fundo
(2013)

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6.5.16

Olga Elena Mattei (Outra realidade)





OTRA REALIDAD



Soy un yo compuesto de
tus enigmas y mi ego.
Vivo el tiempo
como una vida paralela
en donde eres protagonista
central de la otra
realidad que me duplica.
Y mientras vivo en dualidad
con un ser fantasmal,
ya no percibo cuál
es la verdad:
si mi realidad es esta trama cotidiana
en la que se ubica mi humanidad corpórea,
o es este transcurrir mental de tu presencia,
donde transita mi alma.


Olga Elena Mattei

[Emma Gunst]




Sou um composto dos
teus enigmas e do meu ego.
Vivo o tempo
como uma vida paralela
onde és protagonista
central da outra
realidade que me duplica.
E vivendo em dualidade
com um ser fantasma,
eu não percebo já
onde está a verdade:
se nesta trama quotidiana
da minha humanidade corpórea,
se neste curso mental da tua presença,
onde minha alma transita.


(Trad. A.M.)

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5.5.16

Cecília Meireles (Ai palavras, ai palavras)





Ai, palavras, ai palavras,
que estranha potência, a vossa!
Ai, palavras, ai palavras,
sois o vento, ides no vento,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!
Sois de vento, ides no vento,
e quedais, com sorte nova!
Ai, palavras, ai palavras,
que estranha potência, a vossa!
Todo o sentido da vida
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois audácia,
calúnia, fúria, derrota…
A liberdade das almas,
ai! com letras se elabora…
E dos venenos humanos
sois a mais fina retorta:
frágil como o vidro
e mais que o são poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,
pelo vosso impulso rodam…



Cecília Meireles

[Lusografias]

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4.5.16

Luis Rosales (Quando vivemos tanto)





Cuando vivimos tanto que hay que pagar exceso
hay algo en el amor como una luz suicida,
tal vez es sólo eso,
y hay amores que duran algo menos que un beso,
y besos que han durado algo más que una vida.


Luis Rosales




Quando vivemos tanto que temos de pagar excesso
há algo no amor como uma luz suicida,
é talvez só isso,
havendo amores que duram algo menos que um beijo,
e beijos que duram algo mais que uma vida.


(Trad. A.M.)

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3.5.16

António Osório (Um sentido)





UM SENTIDO



Porque há um sentido
no lírio, incensar-se;
e no choupo, erguer-se;
e na urze arborescente,
ampliar-se;
e no cobre, primeira cura
que dou à vinha,
procriar-se.

E outro, pressago,
sentido há na memória,
explodir-se. E outro, imensurável,
no amor, entregar-se.
E outro, definitivo,
na morte, render-se.


ANTÓNIO OSÓRIO
Casa das Sementes
- Poesia Escolhida
Assírio e Alvim (2006)

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2.5.16

Fernando Valverde (Madrugadas-XII)





MADRUGADAS XII



Y recorrer al niño
que quiso parecerse
al hombre que no ha sido.
Y cada noche verle
llorar en los rincones.
Y cada noche oírle
decir que lo sabía.


Fernando Valverde





E acudir ao menino
que quis parecer
o homem que não foi.
E vê-lo todas as noites
a chorar pelos cantos.
E ouvi-lo todas as noites
dizer que já sabia.

(Trad. A.M.)



>>  Fernando Valverde (sítio) / Los ojos del pelicano (blogue) / Festival de poesia de Medellin (15p) /  Wikipedia

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1.5.16

Vasco Graça Moura (Morte de Assis Pacheco)





MORTE DE ASSIS PACHECO



Com novembro a findar morreu fernando
assis pacheco numa livraria,
entrava nela sempre que podia
a ver as novidades e foi quando

de ensaios ou romance ou poesia
alguns volumes ia folheando
que o coração então lhe vacilando
lhe emudeceu a escrita nesse dia.

que musa irregular não lhe prestou
cuidados intensivos, não se sabe
e se calhar nem ele perguntou,

nem constava dos livros e não cabe
dizê-lo a mais ninguém, mesmo que o voo
da morte uma outra vez ali desabe.


Vasco Graça Moura

.