31.3.16

Jesús Lizano (Mamíferos)





MAMÍFEROS



Yo veo mamíferos.
Mamíferos con nombres extrañísimos.
Han olvidado que son mamíferos
y se creen obispos, fontaneros,
lecheros, diputados. ¿Diputados?
Yo veo mamíferos.

Policías, médicos, conserjes,
profesores, sastres, cantoautores.
¿Cantoautores?
Yo veo mamíferos…

Alcaldes, camareros, oficinistas, aparejadores
¡Aparejadores!
¡Cómo puede creerse aparejador un mamífero!
Miembros, sí, miembros, se creen miembros
del comité central, del colegio oficial de médicos…
Académicos, reyes, coroneles.
Yo veo mamíferos.

Actrices, putas, asistentas, secretarias,
directoras, lesbianas, puericultoras…
La verdad, yo veo mamíferos.
Nadie ve mamíferos,
nadie, al parecer, recuerda que es mamífero.
¿Seré yo el último mamífero?
Demócratas, comunistas, ajedrecistas,
periodistas, soldados, campesinos.
Yo veo mamíferos.

Marqueses, ejecutivos, socios,
italianos, ingleses, catalanes.
¿Catalanes?
Yo veo mamíferos.

Cristianos, musulmanes, coptos,
inspectores, técnicos, benedictinos,
empresarios, cajeros, cosmonautas…
Yo veo mamíferos.

Jesús Lizano




Eu vejo mamíferos.
Com nomes estranhíssimos.
Esqueceram que são mamíferos
e julgam-se bispos, picheleiros,
leiteiros, deputados. Deputados?
Eu vejo mamíferos.

Polícias, médicos, porteiros,
alfaiates, professores, cantautores.
Cantautores?
Eu vejo mamíferos...

Alcaides, escriturários, criados, feitores.
Como é que pode um mamífero julgar-se feitor?
Membros, sim, membros, julgam-se membros
do comité central, da ordem dos médicos...
Académicos, reis, coronéis.
Eu vejo mamíferos.

Actrizes, putas, secretárias,
directoras, lésbicas, educadoras...
Na verdade, eu vejo mamíferos.
Ninguém vê mamíferos,
ninguém, pelos vistos, se lembra que é mamífero.
Serei eu o último mamífero?
Democratas, comunistas, xadrezistas,
camponeses, soldados, jornalistas.
Eu vejo mamíferos.

Executivos, marqueses, sócios,
italianos, ingleses, catalães. Catalães?
Eu vejo mamíferos.

Cristãos, coptas, muçulmanos,
técnicos, inspectores, beneditinos,
empresários, caixas, cosmonautas...
Eu vejo mamíferos.

(Trad. A.M.)

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30.3.16

Paulo Castilho (Valentim)





Mas o Valentim tem as suas vantagens.

Não me constrange, pouco espaço ocupa na minha vida, é o homem mínimo, é quase como se não existisse.

Mais eu não aguentava.

Poucos direitos lhe cedo sobre o meu corpo, nenhuns sobre a minha alma.

Homens é como ‘nouvelle cuisine’: sempre em doses ínfimas.

Além disso, o Valentim é um rafeiro e eu gosto de rafeiros porque ficam agradecidos com muito pouco.
Encontro-lhes sempre uma graça qualquer e afeiçoo-me. (p. 82)



PAULO CASTILHO
Domínio Público
(2011)

.

Pedro César Alcubilla (Estrépito)





ESTRÉPITO



El silencio
es aquello
que se rompe
estrepitosamente
cuando nos miramos
y todo lo que hay
alrededor
deja de existir,
también,
estrepitosamente.


Pedro César Alcubilla

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29.3.16

Manuel Bandeira (Porquinho-da-índia)





PORQUINHO-DA-ÍNDIA



Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...

- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.


Manuel Bandeira

.

28.3.16

Olga Elena Mattei (A senhora burguesa)




LA SEÑORA BURGUESA



Yo soy una señora burguesa
con la barriga inflada
y escribo poesías
con dolor de garganta.
He sido
niña prodigio
muchachita insoportable
mala estudiante
reina de belleza
modelo
de esas que anuncian
sopas, o telas o artículos diversos…
Me metí en este lío inevitable
de enamorarme
y sacrificar a un pobre hombre
hasta convertirlo en un marido
(sin mencionar de paso
en qué me he convertido)
y cometí el abuso social
imperdonable
de tener cinco hijos.
He fracasado como madre
como esposa
como amante
como lectora
como filósofa.
Lo único que puedo hacer
mediocremente bien
es ser
señora burguesa
y despreciable
imperdonablemente inútil.
Y eso
es precisamente lo que me infla
la barriga
y me hace escribir poesías
con el dolor de garganta
que me saca la rabia.
Porque todos los días me acuerdo
de la guerra y el hambre
que son tan reales como las señoras
a la misma hora
en que estoy aquí sentada
como una pendeja.


Olga Elena Mattei

[Emma Gunst]




Eu sou uma senhora burguesa
de barriga inchada
e escrevo poesias
com dor de garganta.
Já fui
menina prodígio
mocinha insuportável
estudante ruim
misse beleza
modelo
dessas que anunciam
sopas, ou malhas, ou artigos diversos...
Meti-me neste laço inevitável
de me apaixonar
e sacrificar a um coitado
até o converter em marido
(sem dizer já agora em que
me converti euzinha)
e cometi o abuso social
imperdoável
de ter cinco filhos.
Fracassei como mãe
como amante
como leitora
como filósofa.
O que sei fazer assim assim
é ser senhora burguesa
e desprezível
imperdoavelmente inútil.
E é isso mesmo
que me incha a barriga
e me faz escrever poesias
com a dor de garganta
que a raiva me tira.
Porque todos os dias me lembro
da fome e da guerra
que são tão reais como as senhoras
à mesma hora
em que estou aqui sentada
como um tonta.

(Trad. A.M.)



>>  Olga Elena Mattei (blogue) / Silabas de Arena 1962 / Pentafonia 1964 / La Gente 1974 /
Regiones del Más Acá 1994 / Cosmoagonia / El Tiempo (entrevista) / Wikipedia

.

27.3.16

Paulo Castilho (Proletária)





- Olha que engraçado, o Tiago desta vez arranjou uma proletária.

É verdade que estava reagindo a uma provocação, porque era uma conversa sobre política e eu tinha proclamado: se alguma vez eu votar num partido da direita podem mandar internar-me no dia seguinte.

Gosto da Filomena e a Filomena gosta de mim, um amor silencioso porque pouco falamos uma com a outra.

Mas no dia em que nos conhecemos, confesso que fiquei irritadiça com a boca da proletária e por isso atirei-lhe logo: não te preocupes, estou de passagem – foi no meio das confusões do Tiago com a Zu e todo aquele mundo da família Alves me parecia estranho.

A Filomena, que estava sentada num sofá ao meu lado, encostou-se a mim, deu-me um pequeno abraço e depois um beijo e disse: deixa lá, estamos todos de passagem.



PAULO CASTILHO
Domínio Público
(2011)

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Rosa Aliaga Ibañez (Agora sei)





AHORA SÉ



Ahora sé por larga experiencia el lugar común:
en realidad no hay adultos
solo niños envejecidos.

Quieren lo que no tienen
el juguete del otro
Sienten miedo de todo
Obedecen siempre a alguien
No disponen de su existencia
Lloran por cualquier cosa

Pero no son valientes
como lo fueron a los diez años
lo hacen de noche y en silencio y a solas.

Hoy cumplo 42 años.


Rosa Aliaga Ibañez

[Trilce-un-lugar]




Agora sei de experiência minha o lugar comum:
de facto, não há adultos
só crianças envelhecidas.

Querem só aquilo que lhes falta
o brinquedo dos outros
Têm medo de tudo
Obedecem sempre a alguém
Não dispõem da sua vida
Choram por qualquer coisa

Mas não têm coragem
como tinham aos dez anos
fazem-no de noite e em silêncio e a sós.

Faço hoje 42 anos.


(Trad. A.M.)

.

26.3.16

Manuel António Pina (Sétimo dia)





SÉTIMO DIA

                      (Ao Manuel Hermínio)


Voltámos, um a um, da tua morte
para a nossa vida como quem regressa a casa
de uma longa viagem. Para trás ficaram recordações, países,
e agora é como se te tivéssemos sonhado.
A voz que, diante da escuridão, suspendemos
quando se desmoronou o mundo para o fundo de ti
erguemo-la de novo para os afazeres diurnos
e para as horas comuns.
Ainda ontem estávamos sozinhos diante do Horror
e já somos reais outra vez.
A própria dor adormeceu no nosso colo
como um animal de companhia.

Manuel António Pina

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25.3.16

Javier Salvago (Nas costas de uma velha foto)





AL DORSO DE UNA VIEJA FOTOGRAFÍA



Todavía no habían llegado los Beatles, ni habían acribillado
a Che Guevara.

Nat King Cole cantaba por la radio ansiedad de tenerte en
mis brazos o solamente una vez se entrega el alma

y en el cine tal vez ponían Siete novias para siete hermanos.

Todavía el comandante Armstrong no había dejado su profana
huella sobre el picado rostro de la luna.

Todavía los viejos seguían contando historias de la guerra
al calor de la lumbre.

Quedaban lejos Vietnam, los hippies, la Primavera, el Mayo
y esta discreta libertad... ¿para hacer qué?


Javier Salvago




Ainda não tinham chegado os Beatles, nem Che Guevara fora
crivado de balas.

Nat King Cole cantava na rádio ansiedade de ter-te em
meus braços ou somente uma vez se entrega a alma
e no cinema levavam talvez Sete noivas para sete irmãos.

Não deixara ainda Armstrong sua marca profana
na face picada da lua.

Ainda os velhos contavam histórias da guerra
ao calor da fogueira.

Estava longe o Vietnam, os hippies, a Primavera, o Maio
e esta discreta liberdade... Para fazer o quê?


(Trad. A.M.)

.

24.3.16

Paulo Castilho (Sogra)





A mãe do Tiago é um caso mais retorcido, insiste em ser sempre super-simpática comigo, mas eu não acredito, a mulher é articulada de mais, lógica de mais, fria de mais, para não falar do pequeno pormenor: detesta-me.

As coisas são como são e as pessoas são humanas e as pessoas-sogras têm uma maneira muito mais humana ainda de serem humanas, sobretudo quando o descendente é do sexo masculino, não me perguntem porquê, não fui eu que fiz as regras, sei apenas que é assim. (p. 88)



PAULO CASTILHO
Domínio Público
(2011)

.

Rocío Wittib (Dói mas mantém-nos vivos)





duele pero nos mantiene vivos
que el olor salvaje del recuerdo
muerda de tanto en tanto el corazón


Rocío Wittib




dói mas mantém-nos vivos
o perfume silvestre da recordação
morder-nos de quando em quando
o coração

(Trad. A.M.)

.

23.3.16

Manoel de Barros (Poema)





POEMA



A poesia está guardada nas palavras – é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.


MANOEL DE BARROS
Compêndio para uso dos pássaros
(Poesia reunida 1937-2004)
Quasi Edições, 2007

.

22.3.16

Javier Galarza (Post Prometeo)





POST PROMETEO



calla ahora
o habla
para siempre
sin el don de los
mortales
ni obstinarte
en
perdurar


Javier Galarza

[Sibilas y pitias]



cala agora
ou fala
para sempre
sem o dom dos
mortais
nem te obstinares
em
perdurar

(Trad. A.M.)

.

21.3.16

Paulo Castilho (Filósofos)





E o que é que se diz a um filósofo?

Eu nem sabia que ainda havia filósofos.

Talvez em França.

A gente ouviu falar do Platão e sombras, de Kierkegaard e como é duro para a alma ser dinamarquês e protestante, do Heidegger e do pequeno azar do nazismo, do Sartre com um Pernod no Deux Magots.

Mas hoje em dia como é que um filósofo ganha a vida?

Onde é o balcão para levantar o subsídio?

E como é que prova que não é o Paulo Coelho?



PAULO CASTILHO
Domínio Público
(2011)

.

Miguel Barnet (No túmulo do poeta desconhecido)





ANTE LA TUMBA DEL POETA DESCONOCIDO



Ante esta tumba
inclínate, pastor, y arroja tus semillas.
Haz tu mejor discurso, hombre de barricada,
ante estos huesos verdes ya del moho de la noche.
Y tú, mujer, recuerda que aquí yace uno
que cantó a tu belleza
solo, en un cuarto oscuro de una casa de huéspedes cualquiera.
Niño gentil, deposita aquí tu flor pequeña,
ésta es también la tumba de un soldado.


MIGUEL BARNET
Carta de noche
(1982)




Diante deste túmulo,
curva-te, pastor, e lança as sementes.
Faz o teu melhor discurso, homem de barricada,
ante estes ossos verdes já do bolor da noite.
E tu, mulher, lembra que jaz aqui alguém
que te cantou a beleza
sozinho, num quarto escuro
de uma casa de hóspedes qualquer.
Menino gentil, depõe aqui a tua pequena flor,
este é também o túmulo de um soldado.

(Trad. A.M.)

.

20.3.16

Luís Quintais (Ílion)






ÍLION


I

O que se conta em Ílion
não é da perfeição
de hexâmetros,
mas da destruição
da cidade,
da impotência de deuses,
homens, bichos.
Padrões
não modelam
sagazmente
a morte.
Tudo é erro, soberba, acidente.


II

Quando Heitor foi morto por Aquiles
e em ira finalmente desatada
seu corpo arrastado ao redor da muralha de Ílion,
uma mudez percorreu o mundo.
De escândalo se arrepiaram os deuses
e as palavras, antes apetrechadas de asas,
cessaram de habitar o nosso sangue
como chama e sombra
do que profetizámos ser.
Sobre a minha mesa está a segura soberania
da violência insistente, nó
que se derrama como líquido metal, negro desígnio.
Porque morremos? Porque matamos
depois do arrepio dos deuses
e dos símbolos sepultados?
Repõe-se a ferocidade em nós,
equilíbrio dinâmico, proporção
que a si mesma se mede e se mutila.


III

Um cavalo fala,
profetiza a morte
de Aquiles.
Depois o dom da fala
escapa-lhe, e o mundo
arrasta-se,
de ira e desespero
contaminado.
Ao instante
entre a fala
do animal
e a mordaça
irremovível,
chamámos-lhe

um dia eternidade.


Luís Quintais

[Amadeu Baptista]

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19.3.16

Fernando Beltrán (Ela)





ELLA



Es fácil escribir a la mujer que amas,
difícil escribir a la mujer que quieres.

Bajo la tinta negra de los días
y el corazón en blanco algunas noches,
es fácil escribir a la mujer que encuentras
en las ramas más altas,

difícil escribir a la mujer que llegas
cada vez y al final.

La escribiste quizá versos muy tiernos
mas te quitaste luego los zapatos
sacudiendo la tierra,

y esa tierra era ella,

la que escarba contigo
en las raíces
y comparte los lobos del invierno,

la que avanza a tu lado
sin que tu ojo la alcance
y sin embargo ve lo que tú ves
piensa lo que tú piensas
y no siente jamás lo que tú sientes

porque savia nació y creció sabiendo

lo que nunca sabrá
porque lo sabe todo.

Trébol de dos hojas,
mujer no escrita,
palabras que no encuentro.

Es difícil amar a la mujer que quiero.

Fernando Beltrán




É fácil escrever à mulher que amas,
difícil escrever à mulher que queres.

Sob a tinta negra dos dias
e o coração em branco certas noites,
é fácil escrever à mulher que encontras
nos ramos mais altos,

difícil escrever à mulher a que chegas
de cada vez e no fim.

Fizeste-lhe quiçá versos muito meigos,
mas depois tiraste os sapatos
sacudindo a terra,

e essa terra era ela,

a que escava contigo
nas raÍzes
e partilha os lobos do Inverno,

a que avança a teu lado
sem que a tua vista a alcance
e todavia ela vê aquilo que tu vês
pensa o que tu pensas
e jamais sente aquilo que tu sentes

porque seiva nasceu e cresceu sabendo

o que nunca saberá
porque já sabe tudo.

Trevo de duas folhas,
mulher não escrita,
palavras que não encontro.

É difícil amar a mulher que quero.

(Trad. A.M.)

.

18.3.16

Paulo Castilho (Dívida de avé-marias)





Meia-noite, hora fatal do crime, onde é que eu li isso?

Mas não me ocorre um crime que me apeteça cometer.

Posso sempre, como dizia o outro, cometer um pouco de prosa.

Terraplanagens, por exemplo.

Sento-me em frente ao computador.

Ora isto eram quinze páginas por dia, mais cinco adicionais todos os dias para recuperar os atrasos acumulados ao longo das semanas.

Quando eu tinha religião, rezava, depois de me deitar, vinte avé-marias.

Na maior parte das noites adormecia no meio e as avé-marias em falta acumulavam-se para o dia seguinte, acrescidas de uma penalidade de cinco.

Quando cheguei aos dezasseis anos a dívida de avé-marias era maior que o défice público e, para me livrar do encargo, não tive outra solução senão deixar de acreditar em Deus.



PAULO CASTILHO
Domínio Público
(2011)

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Eduardo Bechara (Pranto)





LLANTO



Treinta años pidiendo que
no lloráramos tu muerte.

La primera vez en uno
de esos almuerzos de domingo:
Carolina tenía diez años,
Daniel seis
y yo ocho…

Nos miramos,
un ácido quemó
mi estómago,
te pedimos que no hablaras
de esas cosas.

Mamá en silencio…
sus ojos perdidos
ocultaban su miedo.

Te gustaba traer el tema
cuando estábamos juntos.
Empezaste a sumarle al discurso
tu última voluntad:
lanzar tu cuerpo al mar
para volver a la naturaleza.

Siempre que te escuchaba
regresaba la amargura,
el desencanto,
y el ácido volvía a quemar
la boca de mi estómago.

Un año nuevo en Manhattan
te oí decir que habías llevado una
vida larga,
yo tenía treinta y cinco…
Cada vez que lo decías volvía
el desasosiego
para envolvernos
a mamá y a mí.

Entonces, ya respirabas
con dificultad,
te cansabas,
preferías no salir a caminar…

Hoy tengo treinta y ocho,
ella te susurra
y te veo resistir
conectado a una máquina
que respira por ti.

Lloro,
todos lloran,
tú nos miras en silencio.


Eduardo Bechara

[Marcelo Leites]




Trinta anos a pedir que
não chorássemos a tua morte.

A primeira vez num daqueles
almoços de domingo,
a Carolina tinha dez anos,
Daniel seis
e eu oito...

Entreolhámo-nos,
um ácido queimou-me
o estômago,
pedimos-te para não
dizer essas coisas.

Mamã calada...
com os olhos perdidos
ocultando o medo.

Gostavas de puxar o assunto
quando estávamos todos.
Começaste depois a juntar
ao discurso a última vontade:
atirar-te o corpo ao mar
para voltar à natureza.

Sempre que te escutava
regressava a amargura,
o desencanto,
o ácido voltava a queimar-me
a boca do estômago.

Um ano novo em Manhattan
ouvi-te dizer que levavas já
uma vida longa,
tinha eu trinta e cinco...

Cada vez que o dizias
o desassossego voltava
a envolver-nos
a mamã e a mim.

Por então, já respiravas
com dificuldade,
cansavas-te,
antes querias não sair, andar...

Hoje tenho trinta e oito,
ela sussurra-te
e eu vejo-te a resistir
ligado a uma máquina
que respira por ti.

Eu choro,
choram todos,
tu olhas-nos em silêncio.


(Trad. A.M.)

.

17.3.16

Luís Filipe Castro Mendes (O último amor)





O ÚLTIMO AMOR



Era o último amor. A casa fria,
os pés molhados no escuro chão.
Era o último amor e não sabia
esconder o rosto em tanta solidão.

Era o último amor. Quem adivinha
o sabor breve pela escuridão?
Quem oferece frutos nessa neve?
Quem rasga com ternura o que foi verão?

Era o último amor, o mais perfeito
fulgor do que viveu sem as palavras.
Era o último amor, perfil desfeito
entre lumes e vozes e passadas.

Era o último amor e não sabia
que os pés à terra nua oferecia.


Luís Filipe Castro Mendes

[Gaveta de nuvens]

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16.3.16

Hugo Vera Miranda (Os cavaleiros do Apocalipse)





LOS JINETES DEL APOCALIPSIS



¿Cómo defenderse de los solapados inviernos
que anidan las moradas oscuras del deseo?
¿Cómo volver por un instante
al tiempo feroz de la infancia
donde un viejo con cara de sapo
lanza palomas al paso del tren?
¿Cómo descifrar la caricia lejana
y que ahora atormenta el insomnio?
Nos vamos quedando solos,
rodeados de demonios danzando
y un tiro de gracia
que se hará efectivo
apenas crucemos
el umbral de la esperanza.


Hugo Vera Miranda




Como evitar os fementidos invernos
que albergam a escura morada do desejo?
Como voltar por um instante
ao bravo tempo da infância
onde um velho de cara de sapo
solta pombas à passagem do comboio?
Como decifrar a carícia distante
e que ainda atormenta a insónia?
Vamos ficando sós
cercados de demónios bailando,
um tiro de misericórdia, à espera,
mal atravessemos
a porta da esperança.


(Trad. A.M.)

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15.3.16

Paulo Castilho (Também ela me tinha passado)





Odeio sentir-me assim, não sou eu, é uma chata aqui ao lado, quero sacudi-la, mas não se vai embora.

Tentei animá-la: passa, parece que não, mas passa.

Tudo passa, é só uma questão de tempo.

Baixei-me ligeiramente para lhe dar um beijo de boa-noite.

Foi um beijo mais pausado que os beijos bom-dia/boa-noite que trocamos sem pensar.

Tantas vezes nos beijámos de outras maneiras, com amor, com paixão, com urgência e sofreguidão, como se fôssemos um do outro, mas ali, às três da manhã, a Rita atrás do cobertor, cara pisada do cansaço, o cabelo que me roçou os lábios, a presença física, toda ela me pareceu um objecto estranho.

Também ela me tinha passado.


PAULO CASTILHO
Domínio Público
(2011)

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Pedro César Alcubilla (Um bom começo)





UN BUEN COMIENZO



La veo
casi todas las mañanas.
Me siento en un banco
del parque,
y a la misma hora
de siempre,
ella pasa
justo a mi lado,
imperturbable.
Yo la miro
y pienso en que quizá
podría ser el hombre
de su vida.
Ella ni siquiera
me mira.
Nunca lo ha hecho.
Algún día quizás
lo haga.
Quien sabe.
Lo mejor de todo
es que aún
no hemos discutido.
Nadie podría decir
que esto no pudiera ser
un buen comienzo.


Pedro César Alcubilla

[Versos de sangre y barro]



Vejo-a de manhã
quase todos os dias.
Sento-me num banco
do parque
e á mesma hora
de sempre
ela passa
mesmo a meu lado,
imperturbável.
Eu olho-a
e penso que acaso
poderia ser o homem
da sua vida.
Ela nem olha
para mim,
nunca o fez.
Algum dia
talvez olhe,
quem sabe.
O melhor de tudo
é que ainda
não discutimos.
Ninguém pode dizer
que isto não é
um bom começo.

(Trad. A.M.)



>>  Versos de sangre y barro (blogue)

.

14.3.16

Luís de Camões (Lembranças, que lembrais)





Lembranças, que lembrais meu bem passado,
Pera que sinta mais o mal presente,
Deixai-me, se quereis, viver contente,
Não me deixeis morrer em tal estado.

Mas se também de tudo está ordenado
Viver, como se vê, tão descontente,
Venha, se vier, o bem por acidente,
E dê a morte fim a meu cuidado.

Que muito melhor é perder a vida,
Perdendo-se as lembranças da memória,
Pois fazem tanto dano ao pensamento.

Assim que nada perde quem perdida
A esperança traz de sua glória,
Se esta vida há-de ser sempre em tormento.


Luís de Camões

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13.3.16

Hugo Mujica (Há dias apenas)





HACE APENAS DÍAS



Hace apenas días murió mi padre,
hace apenas tanto.

Cayó sin peso,
como los párpados al llegar
la noche o una hoja
cuando el viento no arranca, acuna.

Hoy no es como otras lluvias
hoy llueve por vez primera
sobre el mármol de su tumba.

Bajo cada lluvia
podría ser yo quien yace, ahora lo sé,
ahora que he muerto en otro.


Hugo Mujica




Há dias apenas morreu meu pai,
questão de dias.

Caiu sem peso,
como as pálpebras ao chegar
a noite ou uma folha
que o vento não arranca, embala.

Hoje é diferente, chovendo,
chove pela vez primeira
sobre o mármore do seu túmulo.

Sob a chuva
podia ser eu a jazer, sei-o agora,
agora que morri em outro.

(Trad. A.M.)

.

12.3.16

Paulo Castilho (Marta-2)





A miúda até já tem admiradores que vêm ao Tombo só para a verem, mas lá acabam volta e meia por comprar um livrito ou outro, dos mais baratos, como é evidente.

Há um, coitadito, carita de 15 anos, mas já é licenciado em paradigmas ou coisa afim, vive com os pais, e aparece quase todos os dias para ouvir a Marta dizer ‘são doze euros, com ou sem contribuinte?’

Parece um desses putos que agora tomam posse com secretários de Estado, mas este já leu livros a mais para isso. (pp. 437-8)


PAULO CASTILHO
O Sonho Português
(2015)

.

Rosa Aliaga Ibañez (Testamento)





TESTAMENTO



No quiero que me incineren,
tengo la sensación
de que es como meterte
en una licuadora
y que hagan zumo caducado
de tus huesos.
¿Cómo olerán mis cenizas?
A lo mejor decido
que me embalsamen
y que luego un cirujano plástico
me ponga implantes
de pájaros en los laterales.
Después, me gustaría
que me dejaran abandonada en un bosque
como una estatua moderna de ‘ar.co’,
lánguida y tiesa, tipo ‘blancanieves’.
Quiero que pongan una lápida que diga:
‘tengo que bailar’ o
‘pensé, por eso ya no existo’.


Rosa Aliaga Ibañez

[Emma Gunst]




Não quero ser incinerada,
tenho a sensação
de que é como ser metida
num espremedor
e fazerem-me dos ossos
sumo estragado.
Como é que cheirarão as minhas cinzas?
Se calhar mando-me embalsamar
e que depois um cirurgião plástico
me ponha nos costados
implantes de pássaros.
A seguir, gostava
que me abandonassem num bosque
assim como uma estátua moderna da ‘ar.co’,
lânguida e tesa, tipo ‘branca-de-neve’.
E quero mais uma lápide a dizer:
‘tenho que bailar’, ou então,
‘pensei, logo já não existo’.

(Trad. A.M.)



>>   (blogue) / Emma Gunst (7p) / Trilce-un-lugar

.

11.3.16

Louise Warren (Clamo)





Clamo
uma presença sem rosto
clamo baixinho
sem suplicar
imóvel
de olhos abertos


Louise Warren

(Trad. A.M.)

.

10.3.16

Ernesto Pérez Vallejo (A miúda de negro)





LA CHICA DE NEGRO



Hoy podía haberme enamorado de ti
a pesar de tus botas planas,
podía incluso haberte besado así con el mar de fondo,
los besos los domingos saben distintos,
más intensos.
Podía haberte llevado de la mano a la orilla
y haberte desnudado dulcemente
mientras yo hincaba rodilla en tierra
y me perfumaba la nariz.
Nunca el mar hubiera visto nada tan erótico,
ni siquiera a ella con su bikini naranja.
Hoy podía haber hecho muchas cosas contigo
pero me da miedo lo desconocido
y aunque me dijiste tu nombre
no fue suficiente.


Ernesto Pérez Vallejo

[Los lunes que te debo]




Hoje podia ter-me enamorado de ti
apesar das tuas botas rasas,
podia até ter-te beijado assim com o mar em fundo,
os beijos ao domingo sabem diferente,
são mais intensos.
Podia ter-te levado pela mão até à borda
e ter-te despido docemente,
perfumando o meu nariz
de joelho fincado em terra.
Nunca o mar vira nada tão erótico,
tão pouco a ti de biquini laranja.
Podia ter feito muita coisa contigo,
mas tenho medo do desconhecido
e apesar de me teres dito o teu nome
não foi o bastante.

(Trad. A.M.)

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9.3.16

Paulo Castilho (Voltar)





Decidiste voltar – muito bem, decisão acertada – mas não basta voltar, tens de perceber uma coisa: voltar, para ti, tem de ser a suprema felicidade, tens de voltar sem hesitações e sem dúvidas, com alegria, de braços abertos, é isso que os nossos parceiros querem e esperam, e com todo o direito.

Quando dizes a um homem: eu quero ficar contigo, tens de dizer também, e tens de mostrar, que isso para ti é a suprema felicidade, que é essencial para a saúde da tua alma e até para que a tua vida tenha sentido.

Não basta chegar e assentar: aqui estou eu, trata de mim.

Estas coisas no geral nunca são explicadas porque são intuitivas, mas parece-me, com toda a franqueza, que te falta essa intuição.

Não podes ser tão honesta, ou rígida, ou lá o que é, o amor é um jogo com alguns enganos, porque todos nós gostamos de ser um bocadinho enganados desde que seja no bom sentido.

Resumindo: eles têm de sentir que nós os queremos mais do que tudo o que há no mundo – exagera-se um pouco, não tem mal, eles sabem que é exagero, mas gostam.

E nós, a partir desse momento, mas não antes, ficamos com o direito de lhes exigir o céu e a terra. (p. 391)



PAULO CASTILHO
O Sonho Português
(2015)

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Eloy Sánchez Rosillo (O segredo)





EL SECRETO



Por si acaso se asusta la alegría
y se apresura a irse,
se la escondo a la gente y no le digo a nadie
que ha llegado a mi casa después de mucho tiempo.
Hablo con ella, y con frecuencia verla
de nuevo tan cercana
me hace llorar, y río.
Después la dejo sola y yo me voy
a la calle muy serio.
A nadie le diré que ha venido a mi casa.
Espero que esté aquí cuando regrese.


Eloy Sánchez Rosilllo

[Apología de la luz]




Não vá a alegria assustar-se
ou teimar em ir-se embora,
escondo-a do mundo e não digo a ninguém
que me entrou em casa depois de muito tempo.
Falo com ela e muitas vezes
vê-la de novo tão próxima
dá-me para chorar e rio.
Depois deixo-a sozinha e saio
à rua muito sério.
Sem dizer a ninguém que a tenho em casa.
E espero que lá esteja, quando eu voltar.

(Trad. A.M.)

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8.3.16

Louise Glück (O passado)





THE PAST



Small light in the sky appearing suddenly between
two pine boughs, their fine needles
now etched onto the radiant surface
and above this high, feathery heaven...

Smell the air. That is the smell of the white pine,
most intense when the wind blows through it
and the sound it makes equally strange,
like the sound of the wind in a movie...

Shadows moving. The ropes
making the sound they make. What you hear now
will be the sound of the nightingale, Chordata,
the male bird courting the female...

The ropes shift. The hammock
sways in the wind, tied
firmly between two pine trees.

Smell the air. That is the smell of the white pine.

It is my mother’s voice you hear
or is it only the sound the trees make
when the air passes through them
because what sound would it make,
passing through nothing?


Louise Glück

[Poets]




Uma luzinha aparecendo no céu de repente,
entre dois ramos de pinheiro, com as agulhas
caídas no solo e por cima disto
o céu alto, muito leve...

Há um cheiro no ar, o cheiro dos pinheiros,
mais intenso quando o vento sopra,
com um som estranho, a lembrar
o som que o vento faz no cinema...

Sombras deslocam-se, as cordas fazem um ruído.
O que se ouve agora é o canto do rouxinol, Chordata,
o macho assediando a fêmea...

As cordas rangem, a rede baloiça ao vento,
firme e segura entre dois pinheiros.

Há um cheiro no ar, dos pinheiros.

É a voz de minha mãe que se ouve,
ou apenas o rumor das árvores roçadas pelo vento?
Que som havia de fazer o vento
ao roçar pelo nada?

(Trad. A.M.)

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7.3.16

Cristian Aliaga (Os versinhos)





LOS VERSITOS



Los versitos,
esos frascos sin tinta
donde ponemos lo mejor de la memoria.
¿Paredes de iluminación, torres amargas,
palabras solamente?

Pero a quién encomendar nuestra historia,
salvo a estas pequeñas nubes
de espuma.

Os quedaréis ciegos
de tanto cerrar los ojos.


Cristian Aliaga




Os versinhos,
estes frascos sem tinta
onde pomos o melhor da memória.
Muros de iluminação, amargas torres,
palavras somente?

Mas a quem encomendar a história,
senão a estas nuvens pequenas
de espuma?

Heis-de ficar cegos
de tanto cerrar os olhos.

(Trad. A.M.)

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6.3.16

Paulo Castilho (Praxe)





Um grupo de estudantes universitários submetendo-se a praxes estúpidas, humilhantes e de uma grosseria difícil de imaginar num canto da Europa que se julga civilizado – infeliz prenúncio do que vai ser o nosso pobre país quando estas gerações tentarem ser gente.

Cresci e formei-me nos anos 60 do século findo, fizemos muito disparate, cometemos a nossa dose de erros, mas nunca deixámos que nos humilhassem e menos ainda que a humilhação organizada fosse uma forma socialmente aceitável de iniciar a vida de adulto. (...)

Alguns de nós, enquanto estudantes, fomos presos, fomos torturados, fomos julgados, fomos expulsos, fomos perseguidos, fomos espancados em manifestações, mas nunca, jamais, permitimos que a PIDE, a Legião, o Governo e muito menos os nossos próprios colegas nos humilhassem, nem tal hipótese absurda lhes passava pela cabeça.

Os estudantes auto-educavam-se nos valores do humanismo e na luta contra a ditadura.

Agora educam-se nas praxes e na cerveja.

Dir-me-ão que hoje os estudantes não consideram a praxe um fenómeno humilhante e eu responderei que essa atitude é a coisa mais triste e preocupante de tudo isto. (pp. 387-8)



PAULO CASTILHO
O Sonho Português
(2015)

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Rocío Wittib (Dirão que tudo passa)





dirán que todo pasa
que no hay nada que el tiempo no cure
que poco a poco
que queda mucho por vivir
pero la poesía será siempre
el corazón roto del mundo
y eso no tiene consuelo


Rocío Wittib





dirão que tudo passa
que não há nada que o tempo não cure
que pouco a pouco
que há muito ainda para viver
mas a poesia será sempre
o coração partido do mundo
e não há consolo para isso


(Trad. A.M.)



>>  Lifevest under your seat (blogue) / Círculo de poesia (14p)

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5.3.16

José Miguel Silva (Esconde-esconde)





ESCONDE-ESCONDE



A nossa vida, libertada, pode agora
começar, dissemos, com o optimismo
de quem inaugura um abrigo decente
e se pretende a salvo das cargas
do mundo. A salvo? Lá mais para
diante se verá que não é bem assim.
Mas por enquanto não pensemos nisso.
Apreciemos a herança de cada tarde,
quando o oiro do crepúsculo acumula
sentimento sobre muros tão perfeitos
que podiam estar no British Museum
e nenhuma convulsão nos prende a vista.


José Miguel Silva

[Canal de poesia]

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4.3.16

Biel Vila (Sou um animal sangrando)





Soy un animal sangrado
por decisión propia.
No vengáis
a cerrar las heridas.
Lamed solo su rastro.


Biel Vila

[Vol de milana]




Sou um animal a sangrar
por decisão própria.
Não me fecheis as feridas.
Lambei apenas o rasto.

(Trad. A.M.)

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3.3.16

Ver (159)









[Lucien Clergue]

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Batania (A abelha mestra)





LA ABEJA REINA



Tantos panales de plata, canela y estaño
y tantas abejas de antenas moradas
brillando y batiéndose cerca de ti,

sus alas nerviosas como un tren eléctrico,

y fuiste a enamorarte de la abeja reina,
tenías que prendarte del plutonio
de la abeja reina,

amarla
como aman las moscas los ojos de las vacas,
con un amor mezquino y magnífico,
tan bello y miserable que mejor no decirlo

ahora que te ha dejado,
a quién se le ocurre enamorarse
de la abeja reina,

te echó de sus mieles a trompa y garrotazo,
apenas te dio tiempo a decir

qué espanto de amor, y qué grande.


Batania

[El poeta ocasional]




Tantos favos de prata, canela e estanho
e tantas abelhas de antenas roxas
a brilhar e batendo-se ao pé de ti,

as asas nervosas como comboio eléctrico,

e foste enamorar-te da abelha mestra,
tinhas de agarrar-te ao plutónio
da abelha mestra,

amá-la a ela
como amam as moscas os olhos das vacas,
um amor mesquinho e magnífico,
tão belo e miserável que será melhor não dizer

agora que te deixou,
quem se lembraria de se apaixonar
pela abelha mestra,

expulsou-te dos seus méis a empurrão e cacete
mal te deu tempo de dizer

que espanto de amor e que grande.

(Trad. A.M.)

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2.3.16

José Alberto Oliveira (Portugal)





PORTUGAL



Três sílabas de quê? de bancarrotas,
de naufrágios, do Minho a Timor,
ou dos dividendos do Banco de Angola?

Nasce-se por aqui, em aldeias
na serra, ou vilas na planície, e o cercado
vai ficando cheio de mortos:

tantos, que não se arrumam em três
sílabas. Pátria? (outras tantas
com ditongo) - cais de partida,

calabouço de memórias: as que vingam
e as que estariam melhor esquecidas.
Problema sem solução? - que solução

terráqueos coubesse nesta língua,
em que por sorte e maravilha
prevaricamos? Promessa

não cumprida? - há por aí soutos,
pomares, ribeiras do Mar Atlântico,
que garantem quebra ossos

ou cinzas a terra não será dura.


JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA
Como se nada fosse
(2015)

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1.3.16

Ángel González (Bosque)





BOSQUE



Cruzas por el crepúsculo.
El aire
tienes que separarlo casi con las manos
de tan denso, de tan impenetrable.
Andas. No dejan huellas
tus pies. Cientos de árboles
contienen el aliento sobre tu
cabeza. Un pájaro no sabe
que estás allí, y lanza su silbido
largo al otro lado del paisaje.
El mundo cambia de color: es como el eco
del mundo. Eco distante
que tú estremeces, traspasando
las últimas fronteras de la tarde.

Angel González




Atravessas o crepúsculo.
O ar
tens que afastá-lo quase com as mãos,
de tão denso, impenetrável.
Caminhas. Os teus pés
não deixam rasto. Centenas de árvores
suspendem a respiração acima
da tua cabeça. Um pássaro ignora
que estás ali e lança o seu assobio
longo dum lado ao outro da paisagem.
O mundo muda de cor, é como o eco
do mundo. Eco distante
que te faz estremecer, passando
as últimas fronteiras da tarde.


(Trad. A.M.)

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