30.7.16

Rocío Wittib (Mais uma vez)





otra vez miras el mundo como si fuera demasiado tarde
te preguntas si el tiempo es una respuesta
y aceptas la duda del tal vez como consuelo
has aprendido a renunciar siempre a algo
pero sobre todo a renunciar a ti mismo
por eso huyes del deseo como un animal herido
te refugias en la certeza fiel de alguna rutina
y procuras olvidar que pronto volverá a caer la noche
otro día se irá aunque prefieras no ver cómo se apaga el sol
también a eso aprendiste a renunciar
porque sabes que ahí donde es difusa la luz
es exacto el sentimiento


Rocío Wittib

[Revista Fogal]




mais uma vez olhas para o mundo como se fosse tarde de mais
interrogas-te se o tempo é uma resposta
e aceitas como consolo a dúvida do ‘talvez’
aprendeste a renunciar sempre a alguma coisa
mas sobretudo a ti mesmo
por isso foges do desejo qual animal ferido
refugias-te na certeza fiel da rotina
procurando esquecer que breve tornará a noite a cair
outro dia se irá embora não queiras ver como o sol se apaga
também a isso aprendeste a renunciar
pois sabes que lá onde a luz é difusa
é exacto o sentimento

(Trad. A.M.)

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29.7.16

Eça de Queiroz (O ministério bexigoso)





O ministério antecedente, denominado Ministério Bexigoso (de cinco ministros, coincidência singular, três eram picados das bexigas) não caíra segundo os métodos parlamentares: aluíra, sumira-se.

Em plena maioria, sem razão, sem discussão, de repente, desaparecera – caso singular, depois, muitas vezes repetido, e comparável à conhecida catástrofe da corveta Saragoça.

A Saragoça, num dia delicioso de Junho, num mar tão calmo como uma larga taça de leite, sem borrasca, sem vento, caiu no fundo do mar.

O casco, parece, estava tão podre que se dissolveu como açúcar numa xícara de chá.

Um indivíduo que estava na esplanada vendo-a dar uma curva magnífica sob um sol resplandecente, abaixara-se para apertar um atilho do sapato, e, ao erguer-se, não viu mais a corveta: sondou ansiosamente com o óculo o horizonte azul-ferrete; olhou aflito em redor, pela praia; mesmo, num gesto grotesco mas muito naturalmente instintivo, apalpou sofregamente as algibeiras: – nada!

O mar brilhava sereno, azul, imóvel, coberto de sol.



EÇA DE QUEIROZ
O Conde de Abranhos


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Roberto Juarroz (Vão-me ditando coisas)





Me están dictando cosas,
pero no desde otro mundo u otros seres,
sino, más humildemente, desde adentro.

Pero ¿quién está adentro,
además de estar yo?
¿O tal vez no estoy yo
y he dejado mi lugar
para que otro me dicte?

Si esto es así,
no importa que el dictado
no lo comprenda nadie.
No importa ni siquiera
que lo comprenda yo.

Ser no es comprender.


Roberto Juarroz




Vão-me ditando coisas,
não do outro mundo ou de outros seres,
mas de dentro, mais humildemente.

Mas quem está dentro,
além de estar eu?
Ou acaso não estou eu
e deixei meu lugar
para que outro me dite?

Se assim é,
não importa que ninguém
compreenda o ditado.
Não importa sequer
que eu o compreenda.

Ser não é compreender.


(Trad. A.M.)

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28.7.16

Mark Strand (Os restos)





THE REMAINS



I empty myself of the names of others. I empty my pockets.
I empty my shoes and leave them beside the road.
At night I turn back the clocks;
I open the family album and look at myself as a boy.
What good does it do? The hours have done their job.
I say my own name. I say goodbye.
The words follow each other downwind.
I love my wife but send her away.
My parents rise out of their thrones
into the milky rooms of clouds. How can I sing?
Time tells me what I am. I change and I am the same.
I empty myself of my life and my life remains.


Mark Strand

[Circulo de poesia]




Esvazio-me dos nomes dos outros, esvazio os bolsos,
tiro os sapatos e deixo-os na berma.
À noite atraso os relógios,
abro o álbum de família e vejo-me em criança.
De que adianta? O tempo fez o seu trabalho.
Pronuncio o meu nome, despeço-me,
as palavras vão no vento umas após outras.
Amo a mulher, mas mando-a embora.
Meus pais deixam o trono,
recolhem ao quarto feito de nuvens. Como posso eu cantar?
O tempo me diz aquilo que eu sou,
mudo, mas sou o mesmo,
esvazio-me da vida e a vida continua.


(Trad. A.M.)

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27.7.16

Rita Ramones (Maldições)





MALDICIONES



Maldita la lucha de clases
porque me llena de esperanzas.
Mejores los tiempos en que no cabía duda
de que uno si en un hueco nacía,
en ese mismo hueco moría.

Maldita la hora en que me creo
que yo pude haber sido presidente (a).

Maldita la esperanza
porque nos impide tomar decisiones.

Maldita esa sensación que tengo a veces
de que ya casi alcanzo
mis terrazas en el mediterráneo
mi piscina con diseño de Hockney
mi mármol transparente
y mi techo de espejos.


Rita Ramones

[Tamal de peluche]




Maldita seja a luta de classes
porque me enche de esperanças.
Melhor o tempo em que não havia dúvida
de que quem nascia num buraco
no mesmo buraco morria.

Maldita a hora em que pensei
que podia ser presidente.

Maldita seja a esperança
porque impede de tomar decisões.

Maldita seja a sensação que tenho às vezes
de que estou quase a alcançar
meus terraços no mediterrâneo
minha piscina com desenho de Hockney
meu mármore transparente
e meu tecto de espelhos.


(Trad. A.M.)

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26.7.16

Eça de Queiroz (O Desembargador Amado)





O Sr. Desembargador Amado era de uma boa família do Norte e tivera uma carreira singularmente fácil.

Dizia-se dele: «aquele deixou-se ir e chegou».

Sustentado pela vasta influência da parentela, fora com efeito levado, sem abalos nem choques, numa ascensão gradual e confortável, até à sua poltrona de damasco vermelho da Relação de Lisboa.

Aí se deixara cair com o peso da sua obesidade, e cruzando as mãos sobre o estômago, começara a ruminar regaladamente.

Que de modo nenhum se creia que eu queira diminuir com azedume os méritos deste varão obeso: quero somente mostrar a natureza, toda de indolência e de egoísmo, do Desembargador Amado, ocupado em se nutrir com abundância, atento exclusivamente ao jogo das suas funções, assustado se a bexiga, ou o baço, ou o fígado denunciavam alterações, sem ter coragem de se mexer do sofá durante noites inteiras, completamente desinteressado dos homens – e mesmo de Deus.

O nosso imortal José Estêvão, vendo-o um dia entrar numa recepção em casa do chorado duque de Saldanha, exclamou, designando-o com um verso conhecido de Juvenal: – Aquele ventre que ali vem, é o Amado!



EÇA DE QUEIROZ
O Conde de Abranhos


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Raquel Lanseros (In nomine libertatis)





IN NOMINE LIBERTATIS



Si es verdad que el rencor
desgasta y envejece lentamente
con su rumor callado de piedra de molino
apuesto por ser joven ahora y siempre.

Mi casa está vacía
de chivos expiatorios y culpables.
Acumulo tan sólo
el valor necesario para seguir viviendo
bajo la protección de la alegría.

No me he inclinado nunca por el ánimo fácil
de tomar y obligar. Incluso lo pequeño
se me ha antojado siempre un mecanismo frágil
con más de una respuesta.

En mi alcoba no reinan
prohibiciones ni leyes. Mi palabra
es un patio sin llave
donde es bien recibido quien aprecie
la sombra de una higuera y un vaso de buen vino.

No frecuento los presos ni los jueces.
Sentencias y dictámenes les dejo
a aquellos que no dudan. Yo sólo estoy segura
que amo la libertad y sus orillas.

Cuando falte, buscadme entre las alas
de un pájaro que escapa del invierno.
Con las manos vacías se hace mejor camino.
No me pesan los créditos. En este mundo nuestro
toda deuda es de juego.


Raquel Lanseros

[Emma Gunst]




Se é verdade que o rancor
desgasta e envelhece lentamente
com seu calado rumor de mó de moinho
eu cá aposto em ser jovem agora e sempre.

A minha casa está vazia
de bodes expiatórios e de culpados.
Junto só o valor necessário
para ir vivendo
com a bênção da alegria.

Jamais me inclinei para o ânimo fácil
de tomar e obrigar. Mesmo o pequeno
sempre me pareceu um mecanismo frágil
com mais de uma resposta.

No meu quarto não há leis
nem proibições. A minha palavra
é um pátio sem chave
onde é bem recebido quem apreciar
a sombra da figueira e um bom copo de vinho.

Não frequento nem presos nem juízes.
Ditames e sentenças deixo-as
a quem não tem dúvidas. Eu só tenho a certeza
de que amo a liberdade e suas margens.

Quando eu faltar, buscai-me entre as asas
de um pássaro a fugir do inverno.
De mãos vazias caminha-se melhor.
Não me pesam cá empréstimos. Neste mundo nosso
todas as dívidas são de jogo.


(Trad. A.M.)

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25.7.16

Jacques Prévert (Este amor)





CET AMOUR



Cet amour
Si violent
Si fragile
Si tendre
Si désespéré
Cet amour
Beau comme le jour
Et mauvais comme le temps
Quand le temps est mauvais
Cet amour si vrai
Cet amour si beau
Si heureux
Si joyeux
Et si dérisoire
Tremblant de peur comme un enfant dans le noir
Et si sûr de lui
Comme un homme tranquille au milieu de la nuit
Cet amour qui faisait peur aux autres
Qui les faisait parler
Qui les faisait blêmir
Cet amour guetté
Parce que nous le guettions
Traqué blessé piétiné achevé nié oublié
Parce que nous l’avons traqué blessé piétiné achevé nié oublié
Cet amour tout entier
Si vivant encore
Et tout ensoleillé
C’est le tien
C’est le mien
Celui qui a été
Cette chose toujours nouvelle
Et qui n’a pas changé
Aussi vrai qu’une plante
Aussi tremblante qu’un oiseau
Aussi chaude aussi vivant que l’été
Nous pouvons tous les deux
Aller et revenir
Nous pouvons oublier
Et puis nous rendormir
Nous réveiller souffrir vieillir
Nous endormir encore
Rêver à la mort,
Nous éveiller sourire et rire
Et rajeunir
Notre amour reste là
Têtu comme une bourrique
Vivant comme le désir
Cruel comme la mémoire
Bête comme les regrets
Tendre comme le souvenir
Froid comme le marbre
Beau comme le jour
Fragile comme un enfant
Il nous regarde en souriant
Et il nous parle sans rien dire
Et moi je l’écoute en tremblant
Et je crie
Je crie pour toi
Je crie pour moi
Je te supplie
Pour toi pour moi et pour tous ceux qui s’aiment
Et qui se sont aimés
Oui je lui crie
Pour toi pour moi et pour tous les autres
Que je ne connais pas
Reste là
Lá où tu es
Lá où tu étais autrefois
Reste là
Ne bouge pas
Ne t’en va pas
Nous qui nous sommes aimés
Nous t’avons oublié
Toi ne nous oublie pas
Nous n’avions que toi sur la terre
Ne nous laisse pas devenir froids
Beaucoup plus loin toujours
Et n’importe où
Donne-nous signe de vie
Beaucoup plus tard au coin d’un bois
Dans la forêt de la mémoire
Surgis soudain
Tends-nous la main
Et sauve-nous.


JACQUES PREVERT
Paroles
Paris, Gallimard
(1946)




Este amor
Tão violento
Tão frágil
Tão terno
Tão desesperado
Este amor
Lindo como o sol
E mau como o tempo
Quando o tempo é mau
Este amor tão real
Este amor tão belo
Tão feliz
Tão alegre
E tão irrisório
A tremer de medo como criança no escuro
E tão seguro de si
Como um homem tranquilo a meio da noite
Este amor que metia medo aos outros
Que os fazia falar
E os fazia empalidecer
Este amor vigiado
Pois nós o vigiávamos
Acossado ferido pisado morto negado esquecido
Posto que nós o acossámos ferimos pisámos
matámos negámos e esquecemos
Este amor inteiro
Tão vivo ainda
E cheio de sol
É o teu
É o meu
O que foi
Isto sempre novo
E sempre o mesmo
Tão real como uma planta
Tão tremente como um pássaro
Tão quente e vivo como o Verão
Podemos nós ambos
Ir e vir
Podemos esquecer
E depois adormecer
Acordar sofrer envelhecer
Voltar a adormecer
Sonhar com a morte
Acordar rir sorrir
E rejuvenescer
O nosso amor lá continua
Teimoso como um jerico
Vivo como o desejo
Cruel como a memória
Tolo como o desgosto
Terno como a lembrança
Frio como mármore
Lindo como o sol
Frágil como criança
Olha-nos a sorrir
E fala-nos sem dizer nada
E eu escuto-o a tremer
E grito
Eu grito por ti
Eu grito por mim
Suplico-te
Por ti por mim por todos que amam
E que são amados
Sim grito-lhe
Por ti por mim e por todos os outros
que não conheço
Fica
Aí onde estás
Onde estavas em tempos
Fica
Não te mexas
Não te vás
Nós que nos amámos
Nós esquecemos-te
Tu não nos esqueças
Nós só te tínhamos a ti neste mundo
Não nos deixes arrefecer
Sempre muito mais longe
E seja onde for
Dá-nos um sinal de vida
Muito mais tarde num recanto de um bosque
Na floresta da lembrança
Aparece de repente
Estende-nos a mão
E dá-nos a salvação.

(Trad. A.M.)

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24.7.16

Raúl Ferruz (Quando nos abrirem na autópsia)





el día que nos autopsien
sólo van a encontrar rabia
dentro de nosotros


Raúl Ferruz




quando nos abrirem na autópsia
vão achar só raiva
dentro de nós

(Trad. A.M.)

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23.7.16

Eça de Queiroz (Ele há questões terríveis)





O Conselheiro Gama Torres, colocando-se no meio da casa, as pernas afastadas, o ventre saliente, as mãos atrás das costas, fitava o soalho e bamboleando o crânio fecundo, murmurava surdamente:

- Ele há muitas questões!... Há questões terríveis. Há a prostituição... o pauperismo... Ele há muitas questões... (...)

- Ele há muitas questões! Questões terríveis: o pauperismo, a prostituição! São grandes questões! Questões terríveis!... (...)

Nunca esquecerei a terrível impressão que me deixou aquele grande homem, de pé no meio da sala, esgazeando o olhar em redor e dizendo cavamente:

- Os senhores podem crê-lo, nem tudo são chalaças; ele há questões terríveis... A prostituição, o pauperismo, o ultramontanismo... Questões terríveis!



EÇA DE QUEIROZ
O Conde de Abranhos

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Piedad Bonnett (Volta à poesia)





VUELTA A LA POESÍA



Otra vez vuelvo a tí.
Cansada vengo, definitivamente solitaria.
Mi faltriquera llena de penas traigo, desbordada
de penas infinitas,
de dolor.
De los desiertos vengo con los labios ardidos
y la mirada ciega
de tanto duro viento y ardua arena.
Abrazada de sed,
vengo a beber de tus profundos manantiales,
a rendirme en tus brazos,
hondos brazos de madre, y en tu pecho
de amante, misterioso,
donde late tu corazón como un enigma.
Ahora
que descansando estoy junto al camino,
te veo aparecer en cada cosa:
en la humilde carreta
en que es más verde el verde de las coles,
y en el azul en que la tarde estalla.
Humilde vuelvo a ti con el alma desnuda
a buscar el reflejo de mi rostro,
mi verdadero rostro
entre tus aguas.


Piedad Bonnett




A ti volto outra vez.
Cansada, definitivamente solitária.
A saca cheia de penas trago,
a deitar por fora de infinitas penas,
de dor.
Dos desertos venho com os lábios ardidos
e olhar cego
de tanto duro vento e árdua areia.
Abrasada de sede,
venho beber de tuas fontes,
render-me em teus braços,
fundos braços de mãe, e em teu peito
de amante, misterioso,
onde te bate o coração qual enigma.
Agora
que descansando estou junto ao caminho,
vejo-te aparecer em cada coisa,
no carro humilde
em que é mais verde o verde das couves
e no azul em que a tarde explode.
Humilde volto a ti de alma desnuda,
em busca do reflexo de meu rosto,
meu verdadeiro rosto
em tuas águas.

(Trad. A.M.)

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22.7.16

António Ramos Rosa (Arte poética)





ARTE POÉTICA



Se o poema não serve para dar o nome às coisas
outro nome e ao seu silêncio outro silêncio,
se não serve para abrir o dia
em duas metades como dois dias resplandecentes
e para dizer o que cada um quer e precisa
ou o que a si mesmo nunca disse.

Se o poema não serve para que o amigo ou a amiga
entrem nele como numa ampla esplanada
e se sentem a conversar longamente com um copo de vinho na mão
sobre as raízes do tempo ou o sabor da coragem
ou como tarda a chegar o tempo frio.

Se o poema não serve para tirar o sono a um canalha
ou a ajudar a dormir um inocente
se é inútil para o desejo e o assombro,
para a memória e para o esquecimento.

Se o poema não serve para tornar quem o lê
num fanático
que o poeta então se cale.


António Ramos Rosa


[Domingos Mota]

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21.7.16

Pedro César Alcubilla (Estamos nisto)





ESTAMOS EN ELLO



Y un día,
hace años,
me dió
por escribir
poemas,
así,
como
el que no
quiere
la cosa.
Estás tonto - me dijeron.
Y en eso estamos.

Pedro César Alcubilla




E um dia,
há que anos,
deu-me
para escrever
poemas,
assim,
como
quem
não quer
a coisa.
Estás tonto, disseram-me.
E nisto estamos.

(Trad. A.M.)

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20.7.16

Eça de Queiroz (A universidade)





A primeira vantagem da Universidade, como instituição social, é a separação que se forma naturalmente entre estudantes e futricas, entre os que apenas vivem de revolver ideias ou teorias e aqueles que vivem do trabalho.

Assim, o estudante fica para sempre penetrado desta grande ideia social: que há duas classes – uma que sabe, outra que produz.

A primeira, naturalmente, sendo o cérebro, governa; a segunda, sendo a mão, opera, e veste, calça, nutre e paga a primeira.


EÇA DE QUEIROZ
O Conde de Abranhos

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Pedro A. González Moreno (A luz não escrita)





A LUZ NÃO ESCRITA



Algo se acende às vezes
no poema:
uma chispa só
que vem de distantes
fogueiras, o fugaz
resplendor de um relâmpago, o reflexo
de um mineral explodindo para além da linguagem,
um violento clarão de enxofre,
farol de náufragos que serve só
para alumiar a noite dos signos.

Quantas vezes queríamos
soletrar o fogo
ou talvez, chama a chama, traduzi-lo,
converter em fogueira
cada palavra, reduzir cada nome
à sua própria brasa.

Mas inútil é pretender
que a luz brilhe em cada sílaba.


Pedro A. González Moreno

(Trad. A.M.)

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19.7.16

Francisco Sá de Miranda (Aquela fé tão clara e verdadeira)





Aquela fé tão clara e verdadeira,
A vontade tão limpa e tão sem mágoa,
Tantas vezes provada em viva frágua
De fogo, i apurada, e sempre inteira;

Aquela confiança, de maneira
Que encheu de fogo o peito, os olhos de água,
Por que eu ledo passei por tanta mágoa,
Culpa primeira minha e derradeira,

De que me aproveitou? Não de al por certo
Que dum só nome tão leve e tão vão,
Custoso ao rosto, tão custoso à vida.

Dei de mim que falar ao longe e ao perto;
E já assi se consola a alma perdida,
Se não achar piedade, ache perdão.


Francisco Sá de Miranda

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18.7.16

Vicente Aleixandre (O sonho)





EL SUEÑO



Hay momentos de soledad en que el corazón reconoce,
atónito, que no ama.
Acabamos de incorporarnos, cansados: el día oscuro.
Alguien duerme, inocente, todavía sobre ese lecho.
Pero quizá nosotros dormimos...
Ah, no: nos movemos.
Y estamos tristes, callados. La lluvia, allí insiste.
Mañana de bruma lenta, impiadosa. ¡Cuán solos!
Miramos por los cristales. Las ropas, caídas;
el aire, pesado; el agua, sonando. Y el cuarto,
helado en este duro invierno que, fuera, es distinto.

Así te quedas callado, tu rostro en tu palma.
Tu codo sobre la mesa. La silla, en silencio.
Y sólo suena el pausado respiro de alguien,
de aquella que allí, serena, bellísima, duerme
y sueña que no la quieres, y tú eres su sueño.


Vicente Aleixandre




Há momentos de solidão em que o peito reconhece,
atónito, que não ama.
Acabamos de erguer-nos, cansados, um dia brusco.
Alguém dorme ainda, inocente, nessa cama.
Ou então dormimos nós, talvez...
Mas não, movemo-nos.
E estamos tristes, calados; a chuva insiste;
manhã de bruma, lenta, impiedosa. Quão sós!
Olhamos pelos vidros. As roupas, caídas;
o ar, pesado; a água, zoando. E o quarto,
gelado neste duro inverno, que é diferente, lá fora.

Assim ficas calado, o rosto entre as mãos,
os cotovelos na mesa, a cadeira em silêncio.
E ouve-se apenas o respirar tranquilo de alguém,
dessa que ali dorme, serena, belíssima,
e sonha que a não amas,
e és tu o sonho dela.


(Trad. A.M.)

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17.7.16

Eça de Queiroz (Poetas)





Um poeta não pode ser ministro do Reino, mas pode muito bem ser ministro da Marinha...


Deus existe! Tudo o prova,
tanto tu, altivo sol,
como tu, raminho humilde,
onde canta o rouxinol.



EÇA DE QUEIROZ
O Conde de Abranhos

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Mercedes Araujo (Pedra)

 




PIEDRA



Hay en mí un fuego de serena actitud,
cenizas de serena actitud.
No es el cielo que me cae encima,
no es la tierra que retuerce
mis pies enraizados.

[leve y mórbida]

Es el espanto de tu ausencia.
Es el silencio que vuelve el cuerpo
piedra.
La piedra que enmudece.


Mercedes Araujo

[Emma Gunst]




Há em mim uma fogueira de serenidade,
cinzas de serenidade.
Não é o céu que me cai em cima,
não é a terra que retorce
meus pés arraigados.

[leve e mórbida]

É o espanto da tua ausência.
É o silêncio que faz do corpo
pedra.
A pedra que emudece.


(Trad. A.M.)

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16.7.16

Yvette Centeno (Em Setembro, no Algarve)





EM SETEMBRO, NO ALGARVE



Deito-me no muro do quintal.
Aguardo o pôr-do-sol
quando os pássaros cantam
e a terra exala um cheiro quente
a caruma e tojo.
No meio das árvores
a romãzeira florida parece descansar.
Chegou ao fim do seu dia.
Olho o sol.
E eu
quando chegarei eu?


Yvette Centeno

[Canal de poesia]

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15.7.16

Ramón Irigoyen (Ervinha do coração)





YERBIN DEL CORAZÓN



La amistad es una mata fresca que echa flores
blancas, rojas, azules y amarillas
y desparrama un aroma espeso
a alcoba alegre y recogida
donde durmieron muchos cuerpos jóvenes.
La amistad es una tormenta de licores
dulces, secos, amargos, lujuriantes
y uno se emborracha algunas noches
hasta rodar abriéndose hasta el cielo.
La amistad más caliente
huele a campo y a bar con mucha gente
y tiene las holguras bien dispuestas
de un puerto con mil barcas.
La amistad es una liebre con maneras de reina.
En su bosque cobija compañía y delicias,
también alguna espina.
Pero, igual que el amor se desmorona
y se convierte en una sombra paralítica,
la amistad más radiante se apaga algunas veces.
Y entonces el amigo del alma
te invita a su chalé con muchas rosas
y saca unas cervezas poco frescas.
y en el jardín te sientas a su lado
y cuando aún con emoción le dices
¡Qué hermosos los ciruelos!
te contesta a un tiro de honda
acércame ese plato de aceitunas,
y ya nada hay que hablar.
Y te levantarás con la tristeza de los árboles
y por primera vez no apretarás su mano al estrecharla
y rodarán al césped doce barbos.


Ramón Irigoyen




A amizade é um bosque viçoso que deita flores
brancas, vermelhas, azuis, amarelas,
e espalha um aroma espesso
de alcova alegre e recolhida
onde dormiram cem corpos jovens.
A amizade é um temporal de licores
doces, secos, amargos, luxuriantes,
em que a gente se embriaga em certas noites
até rolar e se abrir em cima o céu.
A amizade mais calorosa
cheira a campo e a bar com muita gente,
tendo a larguea e as folgas
de um porto com mil barcos.
A amizade é uma lebre com modos de rainha,
abrigando-se em seu bosque companhia e mil delícias,
e também alguns espinhos.
Mas assim como o amor se esbarronda
e se converte numa sombra paralítica,
a amizade mais radiosa também se apaga algumas vezes.
E então o amigo do coração
convida-te para o seu chalé florido,
e vai buscar umas cervejas mal geladas
e senta-te a seu lado no jardim
e quando tu lhe dizes 'Que belas ameixas!'
ele aí responde distante:
'Chega-me esse prato de azeitonas',
e acabou a conversa.
Aí, tu levantas-te, triste como as árvores,
sem lhe apertar a mão com força,
pela vez primeira.
E doze barbos rolarão pela relva, e duas bogas.


(Trad. A.M.)

.

14.7.16

Pedro da Silveira (Outra vez Porto Santo)





OUTRA VEZ PORTO SANTO



A terra tem sede;
nuvens passam e vão-se.

O céu, azul de lado a lado,
e o sol, vermelho-lume no poente.

Virá a noite,
hão-de brilhar estrelas...
E a terra seca, sonhando:
- É a chuva que vem?

Um dragoeiro, ouvindo-a,
não diz nada.


Pedro da Silveira

[Poemas & poetas]

.

13.7.16

Miquel Martí i Pol (Tua solidão)





TUA SOLIDÃO



Enquanto puderes, pois, não malbarates
a solidão dedicando-a à busca
absurda do nada, nem te persigas
teimosamente por escuros corredores,
amedrontado pela luz dos preceitos.
Sai à luz do sol e atenta
em coisas duras. Pensa
que o jogo sem mesura das palavras
não te servirá de nada se o não apoiares
naquilo que te cerca. As pedras
e as árvores e as pessoas e tantas coisas
que podes tocar com as mãos. Oxalá
não dês conta um dia, com espanto,
que os anos passam-te e tu moves-te só
em torno da tua sombra.


Miquel Martí i Pol

(Trad. A.M./ sobre versão cast. Joan B. Fort i Olivella)

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12.7.16

Paulo Leminski (Moinho de versos)





moinho de versos
movido a vento
em noites de boémia

vai vir o dia
quando tudo que eu diga
seja poesia


Paulo Leminski


[Cartas do meu moinho]

.

11.7.16

Fernando Valverde (Postal de Inverno)





POSTAL DE INVIERNO




Está sola en el mundo y es febrero,
le duelen los pulgares,
se toca la nariz para medir el frío.

Puede ver su reflejo sobre el lago,
los peces melancólicos son ya lunas de octubre
que dibujan sus pasos sobre el hielo.

Allí están los poemas,
en el fondo del lago
justo un paso detrás de la palabra nunca.


Fernando Valverde

[Life vest under your seat]




Está sozinha no mundo e é Fevereiro,
doem-lhe os dedos,
toca no nariz a medir o frio.

Consegue ver o seu reflexo na água do lago,
os peixes melancólicos são já luas de Outubro
desenhando os passos no gelo.

Ali estão os poemas,
no fundo do lago,
um passo só, atrás da palavra nunca.


(Trad. A.M.)

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10.7.16

Miguel Martins (Agora)






Agora, levantava-me...
Lá fora, outra cidade,
inusitada e mansa,
um útero de néon.


Agora, era para sempre
e sem monotonia:
um fogo-de-artifício,
a cona-abelha-mestra.


Agora, era de tarde,
toda lavanda e mel,
ambos em demasia,
exacta demasia.


Agora, tinha sido
um amanhã canoro,
memória antecipada,
um cinzel expectante.


E depois era agora:
o medo de não ser,
o medo de não ter
teu coração no bolso.


Miguel Martins



[Miss Marble]

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9.7.16

Roberto Vivas Sanz (Beber-te aos goles)





Bebiéndote a sorbos,
pequeños sorbos…
dilatando el momento,
esperando no termine nunca.

Hace tiempo sentí ese calor mutuo
que poco a poco se fue apagando,
hasta quedar diluido en la monotonía
una monotonía asesina y descafeinada.
Tuve que pasear entre tus lágrimas,
acordándome de la humedad de tus besos
y el calor de tus caricias,
pero ahora ya son tan solo rescoldos muertos y yermos,
de lo que fue un día fuego y pasión.


Roberto Vivas Sanz

[Crepusculario siglo XXI]




Beber-te aos goles,
pequeninos...
esticando o tempo,
para não acabar mais.

Faz tempo que senti esse calor mútuo,
depois apagando-se pouco a pouco
até ficar diluído na monotonia,
uma monotonia assassina e descafeinada.
Tive de errar pelas tuas lágrimas,
lembrando o húmido dos beijos,
o calor das carícias,
agora apenas rescaldo morto e estéril,
do que foi a seu tempo fogo e paixão.


(Trad. A.M.)

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8.7.16

Mario Quintana (Canção dos romances perdidos)





CANÇÃO DOS ROMANCES PERDIDOS




Oh! o silêncio das salas de espera
Onde esses pobres guarda-chuvas lentamente escorrem...
O silêncio das salas de espera
E aquela última estrela...

Aquela última estrela
Que bale, bale, bale,
Perdida na enchente da luz...

Aquela última estrela
E, na parede, esses quadrados lívidos,
De onde fugiram os retratos...

De onde fugiram todos os retratos...

E esta minha ternura,
Meu Deus,
Oh! toda esta minha ternura inútil, desaproveitada!...


Mario Quintana

[Poemblog]

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7.7.16

Nicanor Parra (Ritos)





RITOS



Cada vez que regreso
a mi país
después de un viaje largo
lo primero que hago
es preguntar por los que se murieron:
Todo hombre es un héroe
por el sencillo hecho de morir
y los héroes son nuestros maestros.

Y en segundo lugar
por los heridos
Sólo después
no antes de cumplir
este pequeño rito funerario
me considero con derecho a la vida:
Cierro los ojos para ver mejor
y canto con rencor
Una canción de comienzos de siglo


Nicanor Parra

[El alma disponible]




Cada vez que regresso
ao meu país
após uma longa viagem
a primeira coisa que faço
é perguntar pelos que morreram:
Todo o homem é um herói
pelo simples feito de morrer
e os heróis são os nossos mestres.

Em segundo lugar
pelos feridos.
Só depois
não antes de cumprir
este pequeno rito funerário
me considero com direito à vida:
Fecho os olhos para ver melhor
e canto com rancor
uma canção dos princípios do século.

(Trad. A.M.)

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6.7.16

Marina Colasanti (Rota de colisão)





ROTA DE COLISÃO



De quem é esta pele
que cobre a minha mão
como uma luva?
Que vento é este
que sopra sem soprar
encrespando a sensível superfície?
Por fora a alheia casca
dentro a polpa
e a distância entre as duas
que me atropela.
Pensei entrar na velhice
por inteiro
como um barco
ou um cavalo.
Mas me surpreendo
jovem velha e madura
ao mesmo tempo.
E ainda aprendo a viver
enquanto avanço
na rota em cujo fim
a vida
colide com a morte.


Marina Colasanti

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5.7.16

María Laura Decésare (Silêncio)





SILENCIO



Una lluvia incesante
detiene el canto de los pájaros
y empaña los vidrios de la casa.
No se oye nada,
ni siquiera la voz de mamá
que reza sentada en su sillón.
¿Por quién reza?
Será por nosotras o acaso
eleva sus plegarias al cielo
para oír en la tarde oscura
la sinfonía de las aves?


María Laura Decésare




Uma chuva incessante
suspende o canto dos pássaros
e embacia os vidros da casa.
Não se ouve nada,
nem sequer a voz da mãe
no cadeirão a rezar.
Por quem reza?
Será por nós, ou ergue
talvez suas preces ao céu
para ouvir no escuro da tarde
a sinfonia das aves?


(Trad. A.M.)

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4.7.16

Maria do Rosário Pedreira (Quantas pessoas caminham)





Quantas pessoas caminham na
minha direcção? Quantas me
descobrem por entre a multidão
e pousam os seus olhos inteiros
nos meus olhos? Podia acreditar

que entre elas está o homem que
trocaria comigo os dedos sobre a
mesa, uma palavra que fosse gomo
de laranja e poema, o corpo aceso

sob o lençol cansado de mais um
dia. Mas quantos destes rostos de
pedra que me cercam escondem o
seu pelas ruas desta tarde? Quantos
nomes de acaso e de silêncio terei
eu de escutar para descobrir o seu

no meu ouvido? Quantas pessoas
caminham contra mim?


Maria do Rosário Pedreira

[Emma Gunst]

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3.7.16

Antonio Colinas (Ribeiras do Órbigo)





RIBERAS DEL ÓRBIGO




Aquí, en estas riberas, donde atisbé la luz
por vez primera, dejo también el corazón.
No pasará otra onda rumorosa del río,
no quedará este chopo envuelto en fuego verde,
no cantará otra vez el pájaro en su rama,
sin que deje en el aire todo el amor que siento.
Aquí, en estas riberas que llevan hasta el llano
la nieve de las cumbres, planto sueños hermosos.
Aquí también las piedras relucen: piedras mínimas,
miniadas piedras verdes que corroe el arroyo.
Hojas o llamas, fuegos diminutos, resol,
crisol del soto oscuro cuando amanece lento.
Qué fresca placidez, que lenta luz suave
pasa entonces al ojo, que dulzura decanta
el oro de la tarde en el cuerpo cansado.
Hojas o llamas verdes por dónde va la brisa,
diminuto carmín, flor roja por el césped.
Y, entre tanta hermosura, rebosa el río, corre,
relumbra entre los troncos, abre su cuerpo al sol,
sus brazos cristalinos, sus gargantas sonoras.
Aquí, en estas riberas, donde atisbé la luz
por vez primera, miro arder todas las tardes
las copas de los álamos, el perfil de los montes,
cada piedra minúscula, enjoyada del río,
del dios río que llena de frutos nuestros pechos.
Aquí, en estas riberas, donde atisbé la luz
por vez primera, dejo también el corazón.


Antonio Colinas




Aqui, nestas ribeiras, onde vi a luz
a vez primeira, deixo também o coração.
Não passará outra onda do rio,
não restará este choupo envolto em fogo verde,
não cantará mais o pássaro em seu ramo,
sem que paire no ar o amor todo que eu sinto.
Aqui, nestas ribeiras que levam ao plaino
a neve dos cumes, planto eu belos sonhos.
Aqui também as pedras brilham, pedras mínimas,
jogas verdes que o ribeiro corrói.
Folhas, chamas, pequenas fogueiras, réstia,
crisol do escuro bosque amanhecendo devagar.
Que fresca serena, que lenta luz suave
nos entra pela vista, que doçura escorre
o oiro da tarde no corpo cansado.
Folhas, chamas verdes por onde se vai a brisa,
diminuto carmim, flor rubra pela relva.
E, em meio de tanta beleza, o rio transborda, corre,
reluz entre as pedras, abre seu corpo ao sol,
seus braços cristalinos, suas gargantas sonoras.
Aqui, nestas ribeiras, onde vi a luz
a vez primeira, vejo arder à tarde
as copas dos álamos, o perfil dos montes,
cada pedra miúda, adornada do rio,
do deus rio que nos cumula de frutos o peito.
Aqui, nestas ribeiras, onde vi a luz
a vez primeira, deixo também o coração.

(Trad. A.M.)

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2.7.16

Marcos Siscar (A Eugenio Montale)





A EUGENIO MONTALE




meio-dia o sol apaga as arestas
a brisa perpetrou o mormaço
estalo de folha seca palha de milho pássaro
o tempo dorme com suas estátuas
a sombra encontra-se inteira com seu corpo
todas as coisas intactas
na hora morta do dia as formigas
sobre a sintaxe da terra inculta elaboram
sua tácita filosofia


Marcos Siscar

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1.7.16

Miriam Reyes (Imóvel)





Inmóvil
abandonado a tu pesadez de hombre inmóvil
me miras con antiquísimos resentimientos.

Óyeme bien
soy inocente de tu pasado
no soy tu puta madre
ni tu enferma madre
ni tu loca madre
aunque sea puta loca.
No merezco recibir agresiones ajenas
retrasadas y caducas.
No proyectes sobre mí los espectros de tu niñez
tengo forma, color y dimensiones propias.

Tampoco vengas a mí
llorando como un niño
cuando no lo eres
este regazo que te acoge también te desea.

No sobreactúes
a mí también me expulsaron del paraíso
antes de tiempo
y sin notificación previa
¿a quién no?

Anda hombre
levántate de ti.


Miriam Reyes




Imóvel
subjugado a teu peso de homem imóvel
olhas para mim com antiquíssimo ressentimento.

Ouve-me bem
eu estou inocente do teu passado
não sou a tua puta mãe
nem a tua enferma mãe
nem a tua louca mãe
embora seja puta louca.
Não mereço sofrer alheias agressões
caducas e atrasadas.
Não lances sobre mim os fantasmas de menino
tenho forma, cor e medidas próprias.

Não venhas também para mim
a chorar como criança
pois não o és
e este colo que te acolhe também te deseja.

Não exageres
a mim puseram-me também fora do paraíso
antes do tempo
e sem pré-aviso,
a quem é que não puseram?

Anda homem
ergue-te de ti.


(Trad. A.M.)

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