31.10.15

António Reis (É domingo hoje)





É domingo hoje
mas nós não saímos

é o único dia
que não repetimos

e que dura menos

Mas põe o teu rouge
que eu mudo a camisa

não como quem
de ilusão
precisa

Tomaremos chá
leremos um pouco

e iremos à varanda
absortos


António Reis

[António Reis]

.

30.10.15

Gisela Galimi (Princípio do princípio)





PRINCIPIO DEL PRINCIPIO



Puedo soltarme el pelo
abandonarme en vos
estarme quieta.
Desordenar el sol en nuestra casa
volver sobre mi
y encontrarte.
Dejar el equipaje,
disfrutarlo:
mi tierra prometida son tus manos.

Gisela Galimi




Podia soltar o cabelo
abandonar-me em ti
deixar-me quieta.
Desarrumar o sol em casa
voltar sobre mim
e encontrar-te.
Deixar a bagagem,
gozar:
minha terra prometida
tuas mãos.

(Trad. A.M.)

.

29.10.15

Louise Glück (Outubro)





OCTOBER

(4)

The light has changed;
middle C is tuned darker now.
And the songs of morning sound over-rehearsed.

This is the light of autumn, not the light of spring.
The light of autumn: you will not be spared.
The songs have changed; the unspeakable
has entered them.

This is the light of autumn, not the light that says
I am reborn.
Not the spring dawn: I strained, I suffered, I was delivered.
This is the present, an allegory of waste.
So much has changed. And still, you are fortunate:
the ideal burns in you like a fever.
Or not like a fever, like a second heart.

The songs have changed, but really they are still quite beautiful.
They have been concentrated in a smaller space, the space of the mind.
They are dark, now, with desolation and anguish.

And yet the notes recur. They hover oddly
in anticipation of silence.
The ear gets used to them.
The eye gets used to disappearances.

You will not be spared, nor will what you love be spared.
A wind has come and gone, taking apart the mind;
it has left in its wake a strange lucidity.

How privileged you are, to be passionately
clinging to what you love;
the forfeit of hope has not destroyed you.

Maestro, doloroso:
This is the light of autumn; it has turned on us.
Surely it is a privilege to approach the end
still believing in something.


Louise Glück

[The floating library]



A luz mudou,
o dó está mais cavo agora.
E a canção da manhã retumba no espaço.

Eis a luz outonal, não a luz da primavera.
A luz de outono: Tu não serás poupado.
A canção mudou, penetrada
pelo indizível.

Eis a luz de outono, não a que diz:
Nasci de novo.
Não a aurora da primavera: Fiz força, sofri, fui parida.
Eis o presente, alegoria de desperdício.
Muito mudou, mas tu tens sorte:
o ideal arde em ti como febre.
Ou não como febre, mas como um segundo coração.

A canção mudou, mas é ainda uma beleza.
Confinada agora a um espaço mais pequeno,
o espaço da mente.
Um pouco triste, algo desolada, angustiosa.

Mas comparecem, as notas, rondam estranhamente,
antecipando o silêncio.
E o ouvido habitua-se a elas,
como os olhos se habituam à ausência.

Tu não serás poupado, nem será poupado o teu amor.
Um vento veio e se foi, desarticulando a mente
e deixando no seu rasto uma estranha lucidez.

Ó privilégio, este de viver com paixão
agarrado àquilo que se ama,
não ser destruído pela perda da esperança.

Maestro, doloroso:
Eis a luz de outono, derramada sobre nós.
Ó privilégio, acercar-se do fim
e crer ainda em alguma coisa.


(Trad. A.M.)

.

28.10.15

Miguel d'Ors (Aniversário)





ANIVERSARIO



Eran casi las nueve cuando reapareciste.
Yo te esperaba tejiendo y destejiendo
-Lee Konitz al fondo-
suplementos semanales ya algo rancios.
Veintitrés años juntos. Suficiente
para que imaginase lo que iba a llegar contigo:
un beso (con tu clásico acento de disculpa)
y un “quita ya esa música horrible”.
100% de acierto.
Estaban en casa sólo los dos pequeños;
los demás, arrebatados por la fiebre
del sábado noche.
Tampoco el frigorífico andaba muy brillante:
una bolsa de patatas congeladas
y dos tetrabriks de zumo de tomate.
Mientras tú trajinas con la freidora
pongo el mantel frente al telediario.
“Feliz aniversario”. Una gran fuente de patatas fritas
y zumo de tomate. Y en el segundo sorbo ya
viene a mí el furor poético:
“La Felicidad consiste
en no ser feliz
y que no te importe”.


Miguel d’Ors

[Balconcillos]





Eram quase nove quando voltaste.
Eu estava à espera a tecer e destecer
– em fundo, Lee Konitz –
suplementos semanais já meio passados.
Vinte e três anos juntos. O bastante
para conseguir imaginar o que ia chegar contigo:
um beijo (no teu clássico tom de desculpa)
e um ‘tira lá essa música horrível’.
Acerto a100%.
Em casa só os dois pequenos, os outros,
levados pela febre de sábado à noite.
O frigo um bocado em baixo,
um saco de batatas congeladas,
e dois ‘tetrabriks’ de sumo de tomate.
Enquanto tu traquinas com a frigideira
ponho a manta diante do telejornal.
‘Feliz aniversário’. Uma grande porção de batatas
e sumo de tomate. E ao segundo gole
chega-me a fúria poética:
‘A Felicidade consiste
em não ser feliz
e não te importares’.


(Trad. A.M.)

.

26.10.15

Raúl Sánchez (Soleá frustrá)





SOLEÁ FRUSTRÁ



Te has despertado quejándote
de que el sol te da en la cara
-¿Quieres que vaya y lo apague?
presto a ponerme en campaña,
te he preguntado, y me has dicho
-Mejor baja la persiana.
-Pues para eso me quedo
un rato más en la cama.

Raúl Sánchez

[Arrestos del naufragio]




Acordaste a queixar-te
com o sol a bater-te na cara
- Queres que vá lá apagá-lo?
perguntei, pronto a pôr-me em campo,
e tu respondeste:
-Baixa antes a persiana.
- Bem, assim então fico
mais um bocado na cama.

(Trad. A.M.)

.

25.10.15

Mário Cesariny (Faz-se luz)





Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas do próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem


Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca


Mário Cesariny


.

24.10.15

Joan Margarit (Ela)





ELLA



Es tiempo ya de no esperar a nadie.
Pasa el amor, fugaz y silencioso
como en la lejanía un tren nocturno.
No queda nadie, es hora de volver
al desolado reino del absurdo,
a sentirse culpable, al vulgar miedo
de perder lo que estaba ya perdido.
A la inútil y sórdida moral.
Es hora ya de darse por vencido
en el trabajo, a solas, otro invierno.
¿Cuántos quedan aún, y qué sentido
tiene esta vida donde te he buscado,
si ya llegó la hora tan temida
de comprobar que nunca has existido?


Joan Margarit

[Apología de la luz]




É tempo já de não esperar ninguém.
Passa o amor, fugaz e silencioso
como à distância um comboio nocturno.
Não resta ninguém, é hora de tornar
ao desolado reino do absurdo,
a sentir-se culpado, ao medo vulgar
de perder o que estava já perdido.
À inútil e sórdida moral.
É hora já de dar-se por vencido
no trabalho, a sós, por outro Inverno.
Quantos restam ainda e que sentido
tem a vida em que te busquei,
se chegada é a hora tão temida
de saber que jamais exististe?

(Trad. A.M.)

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23.10.15

Jorge de Sousa Braga (Segredos)





SEGREDOS



Vinha meio nu
Trazia uma cesta de vime cheia de amoras
que colhera nas margens do rio
Passara a tarde toda de silvado em silvado
Na sua mão direita um pequeno arranhão
- Tão quente tão quente
esse verão


Jorge Sousa Braga

[Pátria pequena]

.

22.10.15

Jesús Lizano (Mamíferos)





MAMÍFEROS


Yo veo mamíferos.
Mamíferos con nombres extrañísimos.
Han olvidado que son mamíferos
y se creen obispos, fontaneros,
lecheros, diputados. ¿Diputados?
Yo veo mamíferos.

Policías, médicos, conserjes,
profesores, sastres, cantoautores.
¿Cantoautores?
Yo veo mamíferos…

Alcaldes, camareros, oficinistas, aparejadores
¡Aparejadores!
¡Cómo puede creerse aparejador un mamífero!
Miembros, sí, miembros, se creen miembros
del comité central, del colegio oficial de médicos…
Académicos, reyes, coroneles.
Yo veo mamíferos.

Actrices, putas, asistentas, secretarias,
directoras, lesbianas, puericultoras…
La verdad, yo veo mamíferos.
Nadie ve mamíferos,
nadie, al parecer, recuerda que es mamífero.
¿Seré yo el último mamífero?
Demócratas, comunistas, ajedrecistas,
periodistas, soldados, campesinos.
Yo veo mamíferos.

Marqueses, ejecutivos, socios,
italianos, ingleses, catalanes.
¿Catalanes?
Yo veo mamíferos.

Cristianos, musulmanes, coptos,
inspectores, técnicos, benedictinos,
empresarios, cajeros, cosmonautas…
Yo veo mamíferos.

Jesús Lizano



Eu vejo mamíferos.
Com nomes estranhíssimos.
Esqueceram que são mamíferos
e julgam-se bispos, picheleiros,
leiteiros, deputados. Deputados?
Eu vejo mamíferos.

Polícias, médicos, porteiros,
alfaiates, professores, cantautores.
Cantautores?
Eu vejo mamíferos...

Alcaides, escriturários, criados, feitores.
Como é que pode um mamífero julgar-se feitor?
Membros, sim, membros, julgam-se membros
do comité central, da ordem dos médicos...
Académicos, reis, coronéis.
Eu vejo mamíferos.

Actrizes, putas, secretárias,
directoras, lésbicas, educadoras...
Na verdade, eu vejo mamíferos.
Ninguém vê mamíferos,
ninguém, pelos vistos, se lembra que é mamífero.
Serei eu o último mamífero?
Democratas, comunistas, xadrezistas,
camponeses, soldados, jornalistas.
Eu vejo mamíferos.

Executivos, marqueses, sócios,
italianos, ingleses, catalães. Catalães?
Eu vejo mamíferos.

Cristãos, coptas, muçulmanos,
técnicos, inspectores, beneditinos,
empresários, caixas, cosmonautas...
Eu vejo mamíferos.

(Trad. A.M.)

.

21.10.15

Aquilino Ribeiro (Cinco Réis de Gente-Voc.)





CINCO RÉIS DE GENTE

- Vocabulário


afundir
agro
aixe
ajoujar
alma (de cântaro)
almorreimas
andaina
argalho
arganel
ariosca
arrebanhar
atafal
avezar
banaboíssimo
bargantão
beiço
birbantão
bruega
búcio
cabo (dos trabalhos)
cabouco
cacheira
cainho
cairel
calabre
calcadoiro
calço
caniço
cardenha
carrapato
carrapito (cume)
centeal
charachina
choutar
chouto
chumeco
cobro
cocar
cochino
cógueda
cordoveia
corrimaça
desbanda
desenssurrar
despedir
embodegar
enaipar
encalir
engalriçar
enviscar
esborralhar
escaleira
escamugir
escancha-perna
escanifrado
esgorjado
esperrinchar
espertenida
estanco
estrela-e-beta
estrepe
esturgir (ruído)
fecheleira
feirar
ferrã
forjicar
fraldiqueira
gabinardo
gambiar
gamelo
gatázio
giga
gineta
gorra (de...)
grocho
lascarinho
lavacro
liço
macanjo (adj.)
malhoada
malina
mamaçuda
manga-las-mangas
maninho
melgueira
marchantear
marrã
matroca (à...)
mentrasto
míngua (nem lá vou nem faço...)
molhanga
molinha
mostajo
nonada
ornear
pachouchada
paivante
parrana
passante (adv.)
patarrega
patrona
pincha-no-crivo
pincharolar
piranga
pós-catrapós
púrrio
quodore
rabitesa
recebedor
recebedoria
recova
relho
reseda
riço (adj.)
roldão
rolho
ruço (de má pelo)
rufo
sainete
sementio
senha (sinal)
sertã
soalheiro
sorvar
sovela
tabaqueira
tabua
taleiga
tango (tanganho)
taravela
tendeiro
tentear
testeira
tomba
torno
toutiço
trastejar
vaganau
zambro

.

Javier Salvago (Último retrato da juventude)





ÚLTIMO RETRATO DE JUVENTUD



Hace casi tres años que no escribo
poemas, me abandono, apenas leo;
no me cultivo ni me informo. Siento
dentro de mí una especie de vacío

que avanza —y no me asusta— como un río
de lava; o mejor, como un desierto
que va ganando más y más terreno
al calcinado bosque, ayer tan vivo.

Sueño poco. Deseo lo necesario.
No tengo nada, y nada extraordinario
espero en adelante. No disfruto

del placer de vivir. Miro la vida
con reserva y distancia. Cada día
me consienten los años menos humos.


Javier Salvago



Há quase três anos não escrevo
poemas, abandono-me, mal leio;
não me cultivo nem me informo. Sinto
cá dentro uma espécie de vazio

que avança - e não me assusta - como um rio
de lava; ou melhor, como um deserto
que vai ganhando mais e mais terreno
ao calcinado bosque, tão vivo ontem.

Sonho pouco. Desejo o necessário.
Não tenho nada, e nada de especial
espero do futuro. Não desfruto

do prazer de viver. Observo a vida
com reserva e distância. Cada dia
os anos me consentem menos ilusões.


(Trad. A.M.)


> Outra versão: Do trapézio (L.P.)

.

20.10.15

João José Cochofel (Não desafies a alegria)





(XVII)


Não desafies
a alegria.

Quando ela chegue
um instante só
não lhe perguntes
porquê?

Estende as mãos ávidas
para o calor
da cinza fria.


João José Cochofel


>>  DGLB (bio-biblio-linques) / Wikipedia

.

19.10.15

Meira Delmar (Instante)





INSTANTE



Ven mirar conmigo
el final de la lluvia.
Caen las últimas gotas como
diamantes desprendidos
de la corona del invierno,
y nuevamente queda
desnudo el aire.

Pronto un rayo de sol
encenderá los verdes
del patio,
y saltarán al césped
una vez más los pájaros.

Ven conmigo y fijemos el instante
-mariposa de vidrio-
en esta página.

Meira Delmar



Vem contemplar comigo
o fim da chuva.
Caem as últimas gotas,
diamantes desprendidos
da coroa do Inverno,
e o ar limpa novamente.

Em breve, um raio de sol
acenderá os verdes
do pátio,
e saltarão na relva
outra vez os pássaros.

Vem comigo, reter o instante
– borboleta de vidro –
nesta página.


(Trad. A.M.)

.

18.10.15

Aquilino Ribeiro (O arrieiro)





À frente o arrieiro batia um calcanhar rápido.

Alto, magro, ágil, em tudo a estampa do andarilho, calça à boca-de-sino, bota de salto de prateleira, jaleca à dependura do ombro esquerdo, na mão uma vara argolada de metal amarelo, detrás da orelha o cigarro, era o criado dos tempos heróicos, leal ao amo e soberbo do seu papel.

Tinha um ar de lascarinho que enviscava as moças.



AQUILINO RIBEIRO
Cinco Réis de Gente-XIII
(1948)

.

Mario Benedetti (Fogueira muda)





FUEGO MUDO



A veces el silencio
convoca algarabías
parodias de coraje
espejismos de duende
tangos a contrapelo
desconsoladas rabias
pregones de la muerte
sed y hambre de vos

pero otras veces es
solamente silencio
soledad como un roble
desierto sin oasis
nave desarbolada
tristeza que gotea
alrededor de escombros
fuego mudo

Mario Benedetti



Às vezes o silêncio
convoca algarávias
paródias de coragem
miragens de fauno
tangos a contrapelo
desconsoladas raivas
pregões de morte
sede e fome de ti

mas doutras vezes é
somente silêncio
solidão de carvalho
deserto sem oásis
nave desarvorada
tristeza gotejando
arredor de escombros
muda fogueira.

(Trad. A.M.)

.

17.10.15

João Guimarães Rosa (Sono das águas)





SONO DAS ÁGUAS



Há uma hora certa,
no meio de noite, uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos.

E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…

Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas de folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…

Mas nem todos dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…


João Guimarães Rosa

[Sopoesia]

.

16.10.15

Gisela Galimi (Poesia)





POESÍA



Si la poesía es agua clara,
dulce caricia a los sentidos
quimera y ronda
sueño azul de rima y ritmo,
entonces
ya no soy
poesía.
Pero si es lengua
y sangre,
y grito,
y pozo,
y llamarada.
Si es aquelarre de palabras
que liberan del hechizo,
entonces más que nunca
soy poeta.
Aunque mis versos
no me reconozcan.

Gisela Galimi



Bem, se a poesia é água clara,
doce carícia dos sentidos
quimera e ronda,
sonho azul de rima e ritmo,
então
eu não sou
poesia.
Mas se é língua
e sangue,
e grito,
e poço,
e chamarada.
Se é concílio de palavras
que livram do feitiço,
então mais que nunca
sou poeta.
Embora meus versos
me não reconheçam.

(Trad. A.M.)



>>  Claroscuro y Colorado/ 2005 / Duelista de palabras y silencios (blogue/ descont.) / Los poetas (10p) / Sus poemas (17p) / Al pial de la palabra (3p)


.

15.10.15

Um verso (139)





Um verso de Camões
(como é sabido, que foi um grande português):




Daqui dou o viver por já vivido



Luís de Camões

.

Marino Muñoz Lagos (Retrato vivo de meu pai morto)





RETRATO VIVO DE MI PADRE MUERTO



Murió en abril: tiempo de lluvia. Otoñecida
estrella le cubría la frente como un agua.
Era un hombre pequeño, realzado de pronto
por una lenta mano, florecida manzana.
Una sombra rebelde le dormía los ojos,
como un álamo triste, como una llamarada.
Era en el tiempo niño: el tiempo inconmovible
de los bosques mojados en sus nobles estancias.
Allí nacía él, allí crecían lentamente
sus cábalas maestras, su suerte enmarañada;
allí, en las pobres vasijas, en el solar
terrestre donde la espiga levantaba
su fantasma perfecto, su pan crepusculario.
Le conocí de cerca una lenta mañana
de invierno. Como sabias monedas invariables
las lluvias pasajeras sobre el techo cantaban.
Su mano sarmentosa se halló como la fina
prolongación del tallo de las dalias.
¿Era él?, ciertamente lo digo. Ciertamente,
como que ahora escribo tendido sobre el alba.
Su rostro era tan triste. Sus ojos pensativos
recorrían celestes los cuadros de la casa.
A mí me parecía, por sus limpios modales,
que sólo de un campesino pobre se trataba.
Era hijo del trigo. Venido de un barbecho
donde la luna muestra sus haciendas intactas.
Y en efecto lo era: nacido como tantos
entre un bosque brumoso y una verde montaña,
el campo se extendía por su cuerpo estrellado
y por sus venas rojas la tierra dura andaba.
Murió en abril, tiempo de lluvia, de lluvia
colonial, antigua lluvia, dolorosa campana.
Le llevaron dormido, entre
todos los hombres que vivieron el agua
gozando las estrellas, las nubes y los recios
contornos labradores de las grises comarcas.
Le conocí de cerca, lo traté tantas veces.
Conversamos del tiempo, del trigo y la esperanza.
Murió en abril. Yo estaba lejos. Su esqueleto
vegetal bajo un huerto florido descansa.


Marino Muñoz Lagos

[Inmaculada Decepción]




Morreu em Abril, tempo de chuva. Estrela
outonal cobria-lhe a fronte, como água.
Homem pequeno, súbito levantado
por uma lenta mão, florida maçã.
Uma sombra rebelde adormecia-lhe os olhos,
como um álamo triste, uma labareda.
Era no tempo menino, o tempo incomovível
dos bosques molhados de suas nobres estâncias.
Ali nascia, ali cresciam lentamente
suas conjecturas, sua sorte emaranhada;
ali, em pobres vasilhas, no campo
onde a espiga levantava
seu fantasma perfeito, seu pão do crepúsculo.
Conheci-o de perto uma lenta manhã
de Inverno. Como sábias moedas invariáveis
chuvas passageiras cantavam no telhado.
Sua mão retorcida se fez o fino
acrescento do talo das dálias.
Era ele?, bem certo o digo, tão certo
como escrever agora estendido na madrugada.
Tão triste, seu rosto. Seus olhos pensativos
percorriam devagar os retratos da casa.
A mim parecia-me, por seus modos límpidos,
apenas um pobre camponês.
Era filho do trigo. Vindo de um alqueive
onde a lua mostra suas fazendas intactas.
E era de verdade, nascido como tantos
entre um bosque brumoso e uma verde montanha,
o campo estendia-se por seu corpo estrelado
e a dura terra andava por suas veias vermelhas.
Morreu em Abril, tempo de chuva, chuva
colonial, antiga chuva, doloroso sino.
Levaram-no a dormir, no meio
dos homens que viveram a água
gozando as estrelas, as nuvens e os ásperos
terrenos agrícolas de comarcas desoladas.
Conheci-o de perto, convivemos tanto.
Falámos do tempo, do trigo, da esperança.
Morreu em Abril. Estava eu longe. Seu esqueleto
vegetal repousa sob um canteiro florido.

(Trad. A.M.)

.

14.10.15

José Gomes Ferreira (Devia morrer-se de outra maneira)





Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: «Fulano de tal
comunica a V. Ex.ª que vai transformar-se em nuvem
hoje às 9 horas. Traje de passeio».
E então, solenemente, com passos de reter tempo,
fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos
todos assistir à despedida.
Apertos de mão quentes. Ternura de calafrio.
«Adeus! Adeus!»
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes... (primeiro, os olhos...
em seguida, os lábios... depois, os cabelos...) a carne,
em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) - nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...


José Gomes Ferreira

.

13.10.15

Biel Vila (Pouco importa)





Poco importa
que seas un caníbal
comedor de plomo.
O que hayas visto
a la luna en ropa interior.
Hoy toca cenar estrellas.


Biel Vila

[Vol de milana]




Pouco importa
seres canibal
e comeres chumbo.
Ou teres visto a lua
em trajes menores.
A ceia hoje é de estrelas.

(Trad. A.M.)

.

12.10.15

Aquilino Ribeiro (A Inácia)





Era um bicho inteligente esta égua que meu pai chamava Inácia, do nome do homem que lha vendeu, um Inácio Ramos, de Adebarros.

Ano por ano, dava cria para a feira de Trancoso, pelo que os seus flancos eram amplos e dilatados.

Sem embargo das suas virtudes de parideira, poucos cavalos lhe ganhavam em alcance, tanto a chouto como a dobrar.

Alta de garupa, nédia e vasta, pescoço fino, jarrete bem lançado, se não fora a barriga, estava ali uma besta de truz.

Eu gostava muito dela e, habituado a vê-la desde sempre, considerava-a como pessoa de família.



AQUILINO RIBEIRO
Cinco Réis de Gente-VII
(1948)

.

Ape Rotoma (Linhas curtitas)





RENGLONES CORTITOS



Mira, Luna,
un buen poema
debe decir
muchas cosas
en reglones muy cortitos
y además debe
dejar espacio en la página
suficiente
y aun de sobra
para todas esas cosas
que no dice.

Ape Rotoma




Olha, Luna,
um bom poema
tem de dizer
muitas coisas
em linhas muito curtitas
e tem além disso
de deixar espaço na página
bastante e até de sobra
para aquelas coisas todas
que não diz.

(Trad. A.M.)

.

11.10.15

Inês Dias (Ágata)





ÁGATA



Foi amor à primeira vista.
Ela tinha nome de pedra preciosa
e, na literalidade dos meus cinco anos,
cabelo em forma de pássaro – negro
asa de corvo.

Era o tempo em que ainda
aprendia com o corpo todo:
uma fractura exposta para entender
o significado de maioria, uma pneumonia
para descobrir a solidão.
Quando ela me cravou um lápis
sob o olho esquerdo, pressenti que a escrita,
grafite fria à flor do sangue,
deixaria marcas para sempre.

Nunca mais nos separámos.
Eu e as palavras,
a Ágata mudou de escola.


Inês Dias

[Hospedaria Camões]

.

10.10.15

Jotaele Andrade (O universo e todos)





EL UNIVERSO Y TODOS



al fin y al cabo
podría decirse que una vida es
con mucho
un grave accidente

o un accidente y uno asume gravedad en esa cuestión

o lo toma a la ligera
y se permite cierta liviandad con los hechos
de todos modos
una bomba cayendo allí
o acá
la pandemia del hambre
y los círculos selectos
no durarán por siempre

y con mucho
digamos
con muchísimo optimismo
este planeta continuará algunos miles de años
y luego
ya se sabe
será residuos y polvo

por lo que
convengamos
el universo no se habrá alterado un ápice


Jotaele Andrade

[Marcelo Leites]




ao fim e ao cabo
poderíamos dizer que uma vida é
quando muito
um grave acidente

ou um acidente
e nós é que pomos a gravidade na questão

ou encaramo-lo ligeiramente
com certa leviandade para os factos
de todo o modo
uma bomba caindo aqui
ou ali
a pandemia da fome
e os círculos selectos
não durarão para sempre

e com muito
digamos
com muitíssimo optimismo
o planeta continuará por uns milhares de anos
e depois
é sabido
será só pó e resíduos

pelo que
convenhamos
o universo não se alterará um ápice


(Trad. A.M.)


.

9.10.15

Coitado do Jorge (94)





PARADIGMA




- Vai com calma, morcão. É tudo uma questão de paradigma...


- Para pára-quedista, pareces um paralítico.
Mas para paralítico, pareces um pára-quedista...

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Mariano Crespo (Charlas)





CHARLAS



Con mi padre que era muy parco en palabras
hablo más tras su muerte
de lo que conversamos durante la convivencia.
Mi padre era como los mantas
acostumbrado a dar calor sin decir palabra.
Sin embargo con mi madre hablo menos
porque ahora que está callada
la entiendo mejor que cuando su presencia
era una emboscada entre la niebla.

Conmigo todavía me enfado
y me suelto alguna reprimenda
porque no me tengo cogido el punto
y porque todavía tengo arrebatos
que no hay dios que entienda.

Por lo demás, hay gente con la que no hablo
y no quiero hacerme a la idea
de que reanudaremos la charla
cuando uno de los dos se muera.

Mariano Crespo

[Faro sin mar]




Com meu pai que era muito parco em palavras
eu falo mais depois de ele morrer
do que aquilo que conversámos em vida.
Meu pai era como as mantas
habituado a dar calor sem dizer palavra.
Com minha mãe falo menos
porque agora que está calada
entendo-a melhor do que quando a sua presença
era uma emboscada no meio da névoa.

Comigo ainda me enfado
e prego-me uns raspanetes
posto que não acerto com o ponto
e tenho às vezes repentes
que não há um deus que os entenda.

Quanto ao resto, há pessoas a quem não falo
e não quero afazer-me à ideia
de que reataremos a charla
quando um de nós morrer.


(Trad. A.M.)

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8.10.15

Hilda Hilst (Dez chamamentos ao amigo-II)





DEZ CHAMAMENTOS AO AMIGO



(II)

Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.
E eu te direi que o nosso tempo é agora.
Esplêndida altivez, vasta ventura
Porque é mais vasto o sonho que elabora
Há tanto tempo sua própria tessitura.

Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.


Hilda Hilst

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7.10.15

Eloy Sánchez Rosillo (Ouvir a luz)





OÍR LA LUZ



Debo decir que cuando yo era niño
y en el campo veía la densa muchedumbre
de estrellas en los cielos del verano,
además de mirar tanto fulgor,
podía oír la luz: se escuchaba allí arriba
como un rumor de enjambre laborioso.


ELOY SÁNCHEZ ROSILLO
Oír la luz
Tusquets Editores
(2008)

[Sureando]




Devo dizer, quando era pequeno
e via no campo a miríade de estrelas
nos céus do Verão,
além de contemplar o fulgor,
podia mesmo ouvir a luz, escutar
lá em cima como que o barulho
de um enxame laborioso.

(Trad. A.M.)

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6.10.15

Aquilino Ribeiro (O Codessal)





Estou a ver o 'Codessal', melhor do que se o tivesse em diorama diante dos olhos. a cancela pintada a zarcão, o muro, torcicular da banda do corgo e de caboucos na água, onduloso da banda dos soutos, com os dois socalcos enramados por fruteiras e vides, em cima a cabana ao pé do carvalho, que estava a fazer-se um gigante.

Mas se lhe descortino nitidamente todos os traços da fisionomia, não consigo abarcar as dimensões.
Estes arrestos, estas paredes, estes tabuleiros, que largura tinham, pois nunca me preocupou a sua produção?

Eram hectares de terra, ou apenas hortejos?



AQUILINO RIBEIRO
Cinco Réis de Gente-VI
(1948)
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David González (Os demónios saem)





LOS DEMONIOS SALEN



no:
no fui un buen ejemplo
ni un modelo de conducta
para mi hermana pequeña:

como hijo no hice más
que darles disgustos
a mis pobres padres.

como hombre y como poeta
no consigo limpiarme por dentro:
me ensucio
a demasiada velocidad:

el vivo retrato de dorian gray:

que concluye ya este poema:
son cerca de las ocho de la tarde
y todavía tiene que afeitarse:
darse una ducha:
cepillarse los dientes:
echarse desodorante:
elegir la ropa: ropa limpia:
y salir a la calle
a dejar que sus demonios interiores
dialoguen con los de otros semejantes a él:

es decir:
salir a la calle a ensuciarme otro poco más:

porque sí: cierto: ¿a qué negarlo:

vendí mi alma
al mejor (im) postor o postora:

¡mi alma:

pero no mi corazón:

el corazón, no.


David González

[Escrito en el viento]



não,
não fui um bom exemplo
nem um modelo de conduta
para a minha irmã miúda:

como filho não fiz
mais do que dar desgostos
a meus pobres pais.

como homem e como poeta,
não consigo limpar-me por dentro:
sujo-me
muito rapidamente:

o retrato vivo de dorian gray:

que remata já este poema:
são oito da tarde
e há que fazer a barba ainda:
tomar um duche:
escovar os dentes:
pôr desodorizante:
escolher a roupa: roupa limpa:
e sair à rua
deixar que os demónios interiores
dialoguem com os dos semelhantes:

isto é:
sair à rua a sujar-me um pouco mais:

porque sim: certo: para quê negar?

vendi a alma
ao melhor (im)postor ou postora:

minha alma:

mas não meu coração:

o coração, não.


(Trad. A.M.)

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5.10.15

Helder Moura Pereira (Quando estamos assim)





Quando estamos assim
deitados e nus, sem
a minha cara saber
se é a tua cara à frente
dela, parece-me bem
que o mundo é uma coisa
às escuras, sem importância
nenhuma. Dou a volta,
rodopio como um artista
de circo, estou dentro
de uma rotina, quando
lavo os dentes e visto
o pijama de flanela às riscas
sinto-me um miúdo pequeno
que desconhece o que é
morrer. Chamaste-me
sentimental, sentimental
é a tua tia.


Helder Moura Pereira

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4.10.15

María Sanz (Ninguém te deu nada)





Nadie te ha dado nada, tú lo sabes.
Y lo entiendes mejor cada mañana
cuando abres tu vacío a los primeros
rayos del sol. Entonces agradeces
tener por toda herencia tus sentidos
para ese instante alado de gorriones
que te hace despertar, para ese aroma
florido de la brisa más temprana.
Y lo entiendes mejor. Sabes que el tiempo
acabará con toda pertenencia,
con todo lo que aún no se posee,
y hasta con esas luces que te inundan
de su clara verdad. Nadie te ha dado
más que órdenes, leyes y consejos
a seguir, por las buenas o las malas;
tristezas en la noche, frases hechas,
remedios inservibles contra el frío
y un poco de otras muchas vanidades.
Pero tú lo agradeces. Así nunca
tendrás que devolver ciento por uno
de tales donaciones. Y lo entiendes
mejor cuando te acuerdas de ese día
en que habrás de partir, dejando sólo
unos versos escritos como ejemplo
de tu digna pobreza. Nadie cumple
más deseos por ir con su abundancia
sobre los hombros, por tener sus bienes
a salvo de un fracaso inoportuno.
Por eso, vive en paz con tu vacío,
con la luz matinal, con este aroma
de soledad en flor, con el silencio
que igual que tú, sin nadie, fructifica.


María Sanz

[Emma Gunst]




Ninguém te deu nada, sabes disso.
E entende-lo melhor cada manhã
quando abres teu vazio aos primeiros
raios de sol. Então agradeces
ter só por herança os sentidos
para esse instante alado de pardais
ao despertar, esse aroma florido
da brisa mais matutina.
E entende-lo melhor. Sabes que o tempo
acabará com toda a pertença,
com tudo o que não se tem ainda,
até com essa luz que te inunda
de sua clara verdade. Ninguém te dá
senão ordens, leis e conselhos
a seguir, a bem ou a mal;
tristezas nocturnas, frases feitas,
remédios inúteis contra o frio,
entre outras muitas vaidades.
Mas tu agradeces. Assim nunca
terás de tornar o recebido
a cem por um. E entende-lo melhor
quando te lembras do dia em
que terás de te ir, deixando só
alguns versos como exemplo
de tua digna pobreza. Ninguém cumpre
mais desejos lá por ir de riqueza aos ombros,
lá por ter seus bens a salvo
de um fracasso inoportuno.
Vive por isso em paz com teu vazio,
com a luz da manhã, com este aroma
de solidão em flor, com o silêncio que,
tal como tu, sem ninguém, dá fruto.

(Trad. A.M.)

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3.10.15

Aquilino Ribeiro (Derrancas-me o sangue)





Além de dado à estroina, à jogatilha, e arrastar a asa às cachopas como um galaroz, era rebentio de génio.

Um dia que, cheio de fastio e de sono, dava silabadas sobre silabadas a declinar o Hora/Horae,
o padre-mestre perdeu a paciência, e empilhando-lhe os livros nas mãos, Arte, Genuense, Madureira, empurrou-o para fora da aula:

- Outra vida, amigo, outra vida! Nesta derrancas-me o sangue, gastas o baguinho a teu pai e ficas burro como dantes.



AQUILINO RIBEIRO
Cinco Réis de Gente-II
(1948)

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María Belén Aguirre (Interregno)





INTERREGNO



No abdico/ sin embargo/
del amor/ que ha erigido/
en mí/altos e intrincados
castillos de arena.

María Belén Aguirre



Não abdico/ contudo/
do amor/ que em mim/
erigiu/ altos e intrincados
castelos de areia.

(Trad. A.M.)

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2.10.15

Cesare Pavese (Tu és como uma terra)





Tu sei come una terra
che nessuno ha mai detto.
Tu non attendi nulla
se non la parola
che sgorgherà dal fondo
come un frutto tra i rami.
C'è un vento che ti giunge.
Cose secche e rimorte
t'ingombrano e vanno nel vento.
Membra e parole antiche.
Tu tremi nell'estate.


Cesare Pavese

[Cómo cantaba mayo]




Tu és como uma terra
que ninguém disse jamais.
Tu nada esperas
senão a palavra
que há-de brotar do fundo
como no ramo um fruto.
Um vento te alcança,
coisas secas e mortas
metem-se-te aos pés
e vão com o vento.
Membros, palavras antigas.
E tu estremeces no meio do Verão.


(Trad. A.M.)

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1.10.15

Begoña Abad (A vida é um espaço)





La vida es un espacio
en el que perdonar
y en el que conseguir
ser perdonados.
Todo lo que ocurre en medio
carece de importancia
pero nos hace muy infelices.

Begoña Abad

[Apología de la luz]




A vida é um espaço
para perdoar
e ser perdoado.
Tudo o que ocorre no meio
não tem importância
mas faz-nos muito infelizes.

(Trad. A.M.)

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