31.10.14

Ana Hatherly (No fundo)




NO FUNDO



No fundo azul
no espelho de uma delicada tristeza
que os meus olhos reflectem:
vês-me?
vês-me como eu sou?
vês-me como algo que se descobre
na acrobacia da imagem?

Na sensual tranquilidade da palavra
o poeta tenta uma arriscada ordem
e entre a fábula e a reportagem

simula mentir
para atingir
a superior verdade


Ana Hatherly

[Emma Gunst]

.

30.10.14

Cysko Muñoz (Mulher de azul)





MUJER DE AZUL



Busco una mujer
entre todas ellas
capaz de ver belleza
en el grito de un naufragio,
la belleza
de las innumerables tragedias cotidianas
o del maullido moribundo
del gato del tejado.

Quiero que sea capaz de romper
el destino de un mordisco
de convertir el miedo en migajas
dibujar un mantel
y pegarse un festín.
Una mujer a la que le hagan cosquillas las religiones
que sepa desde siempre
que vamos a encontrarnos
pero que en lo único en lo que crea
sea en el azar.

Quiero que sea a la vez
un sueño y un recuerdo
que llegue con la sonrisa en punto
del mediodía
y con la alegría
imprecisa de un jilguero
-que sepa, como se sabe en los libros-
que el amor romántico es una mentira
sobre un castillo de naipes
-pero que intuya, como se intuye en los sueños-
que juntos podemos ser sencillamente felices.

Una mujer de viento y espada
de beso y hoguera
que cuanto mas la aten
mas se aleje
una mujer de hacha de guerra
de yesca y alumbre
que cure las heridas con sal.

Una mujer con la que todo se peleé
pero nada se rompa
que tras cada tropiezo
se gire en el aire y se ponga a bailar
que invente palancas
con las que mover los otoños
que su lengua sea un río de lava
y su saliva espuma de mar.

Una mujer cuyas piernas inspiren los dogmas
y sus pisadas los aplasten uno tras otro.

Una mujer cuyos labios fabriquen las nubes
y sus besos no paren de llover.

Una mujer cuyas manos sean de arcilla
y sus caricias de agua

o simplemente una mujer sencilla
tal vez, una mujer de azul.

Busco una mujer, para empezar,
–y esto es lo único innegociable-
que sea capaz de mirar de frente
estos versos
y no les tenga miedo.

Una mujer así o nada.

No pienso conformarme con menos.

Cysko Muñoz



Busco mulher
que seja entre todas
capaz de ver beleza
no grito de um naufrágio,
a beleza
das inúmeras tragédias quotidianas
ou do miar moribundo
do gato no telhado.

Que seja capaz de rasgar
o destino à dentada
de reduzir o medo a migalhas
desenhar uma toalha
e fazer um festim.
Uma mulher com cócegas da religião
que saiba desde sempre
do nosso encontro fatal
mas que creia
só no acaso.

Que seja à uma
sonho e lembrança
que chegue com o sorriso em ponto
do meio-dia
e com a alegria
imprecisa de um rouxinol
- que saiba, como se sabe nos livros -
que o amor romântico é uma mentira
sobre um castelo de cartas
- mas que intua, como se intui nos sonhos -
que juntos podemos ser simplesmente felizes.

Uma mulher de vento e espada
de beijo e chama
que quanto mais a prendam
mais se desate
uma mulher de machado de guerra
de acendalha e de lume
que cure as feridas com sal.

Uma mulher com quem tudo se discuta
mas nada se parta
que ao tropeçar dê uma volta
no ar e se ponha a dançar
que invente alavancas
com que mover os outonos
que a língua seja um rio de lava
e a saliva espuma do mar.

Uma mulher que as pernas inspirem os dogmas
e seus passos esmaguem um após outro.

Uma mulher que os lábios fabriquem as nuvens
e os beijos não parem de chover.

Uma mulher que as mãos sejam de argila
e suas carícias de água

ou simplesmente uma mulher singela
talvez uma mulher de azul

Busco mulher, para começar
- e nisto só não transijo -
que seja capaz de olhar de frente
estes versos
e não lhes ter medo.

Uma mulher assim, ou nada.

Não penso contentar-me com menos.

(Trad. A.M.)

.

29.10.14

Ver (148)





Fogo/Cabo Verde


[Onésimo Teotónio de Almeida]

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Alfredo Buxán (Uma pequena morte)





UNA PEQUEÑA MUERTE



Una pequeña muerte sucede cada día
muy lejos de nosotros, o nos pasa rozando,
en una aldea persa o a la orilla de un río.

Abajo, en la cantina donde compras tabaco,
o en el andén del metro que tomas cada día
para ir al trabajo rodeado de gente
que también va cansada.

Una pequeña muerte que tiene su reflejo,
aunque tú no lo entiendas, en la cama deshecha,
en una bombilla que de súbito se apaga
a media tarde y lo envuelve todo en el silencio,
en tus ojos cerrados y en el día que acaba,
en el triste lamento que los muebles exhalan
cuando llega la noche. Una pequeña muerte
que te llena de asombro
cuando aceptas con pena que también es la tuya.

Alfredo Buxán




Uma pequena morte dá-se em cada dia
muito longe de nós, ou passa a roçar-nos,
numa aldeia persa ou na margem de um rio.

Adiante, na venda onde compras tabaco,
ou no cais do metro que tomas em cada dia
para ir para o trabalho rodeado de gente
que também vai cansada.

Uma pequena morte que se reflecte,
mesmo que o não percebas, na cama desfeita,
numa lâmpada que de súbito se apaga
a meio da tarde e abraça tudo em silêncio,
nos teus olhos fechados e no dia que acaba,
no triste lamento que os móveis exalam
ao cair da noite. Uma pequena morte
que te enche de assombro
quando aceitas com pena que é também a tua.

(Trad. A.M.)


Claribel Alegria (Pequena morte)

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28.10.14

Helder Moura Pereira (Andaria pelas dunas)





Andaria pelas dunas em devaneio, no corpo
saliente desafio. Mostrei a maior calma.
Era preciso caminhar a passo largo. Logo
uma voz me chamou. Como não olhei para trás
gritou-me. O serra da estrela não lhe faz mal.
E como é que eu sabia, eu não podia saber.
Resolvemos isso com um copo. E não foi só um.
Depois eu tive dentes de cortiça, mostrei
uma fé saloia. Palavras e fumos e o cão
ali quieto ao nosso lado. Confessei-me:
tudo e todos me atiram para o centro e por isso
é que digo barbaridades. Pronto, posso fazer
alguma coisa por ti, lavar-te as costas, cortar-te
as unhas dos pés, sentar-me com as mãos
nos cotovelos. Tenho uma dor por todo
o lado. Tenho um amor que não sabe
o que vale. E o serra da estrela já é teu amigo.


Helder Moura Pereira


>>  Poesias e prosas (27p) / Relampago (recensão) / nEscritas (4p)


.

27.10.14

Cristina Peri Rossi (Escoriação)





ESCORIACIÓN



Herida que queda, luego del amor, al costado del cuerpo.
Tajo profundo, lleno de peces y bocas rojas,
donde la sal duele y arde el yodo,
que corre todo a lo largo del buque,
que deja pasar la espuma,
que tiene un ojo triste en el centro.
En la actividad de navegar,
como en el ejercicio del amor,
ningún marino, ningún capitán,
ningún armador, ningún amante,
han podido evitar esta suerte de heridas,
escoraciones profundas, que tienen el largo del cuerpo
y la profundidad del mar,
cuya cicatriz no desaparece nunca,
y llevamos como estigmas de pasadas navegaciones,
de otras travesías. Por el número de escoriaciones
del buque, conocemos la cantidad de sus viajes;
por las escoraciones de nuestra piel,
cuántas veces hemos amado.

Cristina Peri Rossi

[Emma Gunst]



Ferida que fica, após o amor, nas costas do corpo.
Talho profundo, cheio de peixes e bocas vermelhas,
onde o sal dói e arde o iodo,
que tudo corre ao longo do navio,
que deixa passar a espuma
e tem um olho triste no meio.
Na arte de navegar,
como na arte do amor,
nenhum marinheiro, nenhum capitão,
nenhum amante, nenhum armador,
ninguém pode evitar esta espécie de feridas,
escoriações profundas, com o comprimento
do corpo e a fundura do mar,
cuja cicatriz não desaparece
e que usamos como estigmas de passadas navegações,
de outras travessias. Pelo número de escoriações
do navio, sabemos o número das suas viagens;
pelas escoriações da nossa pele,
quantas vezes é que amámos.

(Trad. A.M.)

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26.10.14

Cristóvão de Aguiar (Vento-3)






Por via do vento acode-me à ponta da memória uma das jaculatórias que se rezavam depois da salve-rainha do terço, já com o santo sono desse tempo, quem mo dera agora, chumbando de peso as capelas dos olhos.

Ouço-me do meu lado de fora encarreirando a cantilena até ao amém final, e nem sequer abro a boca, louvado seja.

Por fim e sem que possa pôr um pau na roda desarvorada da balbúrdia atmosférica, põe-se-me o tunante a sarnicar-me e a varrer-me de lés-a-lés, assobia-me nos cavilosos corredores e noutros compartimentos subitamente desertos.


CRISTÓVÃO DE AGUIAR
Nova Relação de Bordo
(2004)

.

Cristian Aliaga (Tratado da luz)





TRATADO DE LA LUZ



Hay días en que tus ojos están perdidos para la vida,
para cualquier visión que encierre una esperanza.
Sales a la ventana y miras sin ver el infinito
ocaso que preanuncia una mañana.
Es de mañana y ya ves el ocaso, tus ojos están perdidos,
es mejor que los cierres.
Que los cierres o encuentres una razón poderosa
para recoger la luz que traspasa los párpados.
Tenés escondidas pasiones en las pupilas
que antes se abrían descuidando el ocaso.
Todas son noches: las mañanas son noches y las tardes.
Pero la luz no ha encenderse jamás, sólo hay controles
para la oscuridad.
Pero la luz no ha de apagarse jamás, porque la llevás
sin tregua en el fondo de los ojos.

Cristian Aliaga



Há dias em que teus olhos estão perdidos para a vida,
para qualquer visão que contenha uma esperança.
Vais à janela e olhas sem ver o infinito
ocaso que prenuncia a manhã.
É de manhã, mas tu já vês o ocaso,
estão perdidos teus olhos, é melhor que os cerres.
Que os cerres ou então encontres uma razão poderosa
para colher a luz que te atravessa as pálpebras.
Escondidas nas pupilas tens paixões
que dantes se abriam ignorando o ocaso.
Todas são noites, as manhãs são noites e as tardes também.
A luz não mais se acenderá, há só controlos para o escuro.
A luz não mais se apagará, porque tu a tens
a brilhar no fundo dos teus olhos.

(Trad. A.M.)

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25.10.14

Francisco Rodrigues Lobo (Fermoso Tejo meu)





Fermoso Tejo meu, quão diferente
te vejo e vi, me vês agora e viste:
Turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
claro te vi eu já, tu a mim contente.

A ti foi-te trocando a grossa enchente
a quem teu largo campo não resiste;
A mim trocou-me a vista em que consiste
o meu viver contente ou descontente!

Já que somos no mal participantes,
sejamo-lo no bem. Oh, quem me dera
que fôramos em tudo semelhantes!

Mas lá virá a fresca Primavera:
Tu tornarás a ser quem eras dantes,
eu não sei se serei quem dantes era.


Francisco Rodrigues Lobo

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24.10.14

Claribel Alegría (Savoir faire)





SAVOIR FAIRE



Mi gato negro ignora
que va a morir un día
no se aferra a la vida
como yo
salta desde el tejado
ligero como el aire
se sube al tamarindo
arañándolo apenas
no lo amedrenta el paso de los puentes
ni el callejón oscuro
ni el pérfido alacrán
mi gato negro ama
a cuanta gata encuentra
no se deja atrapar
por un único amor
como lo hice yo.

Claribel Alegría



Meu gato preto ignora
que vai morrer um dia
não se agarra à vida
como eu
salta do telhado
leve como o vento
sobe ao tamarindo
e mal o arranha
não o amedronta a passagem das pontes
nem o beco escuro
nem o pérfido lacrau
meu gato preto ama
quantas gatas encontra
não se deixa apanhar
por um único amor
como eu como eu.

(Trad. A.M.)

.

23.10.14

Raul Brandão (Sagres)





O promontório é um punho nodoso, com dois dedos estendidos para o mar – a ponta de S. Vicente e a ponta de Sagres.

Nos dias sem sol, como o de hoje, os dedos parecem de ferro: apontam e subjugam-no.

Em frente o mar ilimitado; em baixo o abismo, a cem metros de altura.

Ventanias ásperas descarnam o morro cortado a pique, e no Inverno as vagas varrem-no de lado a lado.

Sagres é o cabo do mundo.

Levo os pés magoados de caminhar sobre pedregulhos azulados, num carreirinho, por entre lava atormentada.

Do passado restam cacos, o pre- sente é uma coisa fora da realidade, grande extensão deserta, pardacenta e encapelada, com pedraria a aflorar entre tufos lutuosos; vasto ossário abandonado onde as pedras são caveiras, as ervas cardos negros e os tojos só espinhos e algumas folhas de zinco.

O mar – é verdade, esquecia-o – mas o mar como imensidade e tragédia, e ao lado a gigantesca ponta de S. Vicente, só negrume e sombra.

Mar e céu, céu e mar, terra reduzida a torresmos, e o sentimento do ilimitado.


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.

.

Susana March (Obscuro amor)





OSCURO AMOR



Oscuro amor... Tu muerte es ya mi muerte.
Más allá de este mar, ¿qué extraña orilla
cobijará mi náufraga tristeza?
Me evadiré del viento
que transita en mi sangre,
sacudiré mis lágrimas
como las largas crines de un caballo salvaje.
Quiero partir contigo,
sin mí, por los senderos
extraños y remotos
por donde vas a ciegas, tropezando.
Te seguiré sin lástima y sin gloria,
mendiga de unos ojos,
de una voz, de una mano cercenada
en el umbral del sueño...

Te seguiré hasta allí donde tú acabas
para acabar contigo.

Susana March

[Vol de milana]



Obscuro amor... Tua morte é minha morte já.
Para além deste mar, que beira estranha
cobiçará minha náufraga tristeza?
Fugirei do vento
que percorre meu sangue,
sacudirei as lágrimas
como as longas crinas de um potro selvagem.
Quero partir contigo,
sem mim, pelos carreiros
estranhos e remotos
que fazes às cegas, aos tropeções.
Hei-de seguir-te sem pena e sem glória,
mendiga de uns olhos,
de uma voz, de uma mão cerceada
no portal do sonho...

Hei-de seguir-te até ali, onde tu acabas,
para contigo acabar.

(Trad. A.M.)


>>  Vol de milana (10p) / A media voz (30p)


.

22.10.14

Francisco Alvim (Quem fala)





QUEM FALA



Está de malas prontas?
Aproveite bastante
Leia jornais; não ouça rádio de jeito nenhum
Tudo de bom
Não volte nunca


Francisco Alvim

.

21.10.14

Chantal Maillard (Andava pelas costas da tua mão)





Anduve por el dorso de tu mano, confiada,
como quien anda en las colinas
seguro de que el viento existe,
de que la tierra es firme,
de la repetición eterna de las cosas.
Mas de repente tembló el universo:
llevaste la mano a tus labios
y bostezando abriste la noche
como una gruta cálida.

Llevabas diez mil siglos despertando
y el fuego ardía impaciente en tu boca.

Chantal Maillard



Andava pelas costas da tua mão, confiada,
como quem anda nos montes
seguro de que o vento existe,
de que a terra está firme,
da repetição eterna das coisas.
Mas de repente o universo tremeu:
levaste a mão aos lábios
e bocejando abriste a noite
como uma gruta cálida.

Levavas dez mil séculos despertando
e o fogo ardia impaciente na tua boca.


(Trad. A.M.)

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20.10.14

Raul Brandão (A caminho de Sagres)





Pela portinhola do comboio vou seguindo a paisagem de figueiras e de vinhas que desfila.

De um lado o céu doirado e violeta, do outro todo roxo.

Os nomes das estações têm um sabor a fruto maduro e exótico – Almancil, Nexe, Diogal, Marchil...

De quando em quando fixo um pormenor: uma mulher passa na estrada branca, entre oliveiras pulverulentas e fantasmas esbranquiçados de árvores, sentada no burrico, de guarda-sol aberto, e dando de mamar ao filho.

Terras de barro vermelho.

Grupos de figueiras anainhas estendem os braços pelo chão até ao mar, deixando cair na água os ramos vergados de fruto, que só amadurece com as branduras.

Uma ou outra casinha reluzindo de caiada: ao lado, e sempre, a nora de alcatruzes e um burrinho a movê-la entre as leves amendoeiras em fila, as oliveiras dum verde mais escuro e a alfarrobeira carregada de vagens negras pendentes.

A mesa de Deus está posta.

Estradas orladas de cactos imóveis como bronze, e a deslumbrante Fuzeta, com o seu zimbório entre árvores esguias.

Ao longe, e sempre, acompanha-me o mar, que mistura o seu hálito a esta luz vivíssima.


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.

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César Simón (Despedida)





DESPEDIDA



He venido, ya lo comprendes bien, sólo por una tarde;
he venido a decirte que todo da lo mismo.
Vivir es finalmente un duro encuentro
en un lugar vacío.
Te contemplo. Estás muda, ahí arriba;
arriba, bajo el techo,
junto a la viga.
En esta habitación de los días remotos
te apareces,
en esa mancha en la pared,
alegre o triste, ya no importa mucho,
puesto que nada habremos de decirnos.
¿Te quise? Qué pregunta.
Y es que lo vano del presente,
su ingravidez,
la dispersión de tantos días
todo lo pone en duda: tú, yo mismo.
¿Y te guardo rencor?
Obvio es que no, con tales presupuestos.
La verdad es la suma
de un tiempo ya vencido.
A esa mancha, debajo de la viga,
no le guardo rencor, tampoco.
Ya digo, es más complejo
-y es peor, todavía.
Así pues, te contemplo, simplemente.
Estás ahí, sentada,
en ningún tiempo ya,
duende de mi extravío.
Y, si quisiera hablarte,
peor sería.
La palabra levanta mucho polvo.
En esta transparencia
donde el mundo se aclara,
no es que me encuentre bien,
pero respondo a propia lejanía.
He seguido viviendo.
Ya sabes: duro lecho.
Aquí todo empezó y concluye todo.
Adiós. Al menos, es verdad
que estás ahí, callada,
como todas las cosas,
como si nunca hubieran existido.

César Simón



Eu vim, estás a ver, só por uma tarde,
vim dizer-te que dá tudo no mesmo.
Viver é afinal um duro encontro
num lugar vazio.
Contemplo-te. Estás muda, aí em cima;
em cima, por baixo do telhado,
ao pé da viga.
Apareces neste quarto de dias remotos,
nessa mancha da parede,
alegre ou triste, importa pouco,
já que nada temos para dizer.
Amei-te? Olha que pergunta,
aliás o presente vão,
a sua falta de peso,
a dispersão dos dias,
tudo o põe em dúvida, tu, mesmo eu.
Se te tenho raiva?
Está visto, é claro que não.
A verdade é a suma
de um tempo corrido.
Essa mancha, por baixo da viga,
também não lhe tenho rancor.
Digo mesmo, é mais complicado
- e até pior, por sinal.
Por isso te contemplo, simplesmente.
Aí estás, sentada,
fora do tempo,
duende de perdição.
E pior seria,
se eu te quisesse falar,
pois levanta muito pó a palavra.
Nesta transparência
em que o mundo se aclara
não posso dizer que estou bem,
mas reajo perante a distância.
Continuei a viver.
Leito duro, sabes bem.
Adeus. Ao menos, estás aí,
em verdade, calada,
como todas as coisas,
como se nunca tivessem existido.

(Trad. A.M.)

.

19.10.14

Graça Pires (Na periferia da manhã)





Na periferia da manhã, levemente adiada,
improviso uma ilha.
Tão nua como páginas em branco.
E concedo-me o direito de esperar Ulisses.
A minha fronte marcada com palavras sem destino.


Graça Pires

.

18.10.14

César Fernández Moreno (As palavras)





LAS PALABRAS



tienen cuerpo las palabras tocan y son tocadas
son caramelos se las puede lamer chupar mamar
hierven como peces en un estanque tropical
tienen tantas formas como las valvas según las rocas a que se adhieran
pero importa mucho más lo que contiene su nacarado seno
la vida deliciosa frágil del ser que las habita
son transparentes para que resplandezca su contenido
son crisálidas clavos ardiendo
granadas que revientan en la mano si no se arrojan a tiempo
sólo viven para morir
son pilotos suicidas
perecen al tocar su objetivo
la poesía es uno de esos objetivos
uno de los nombres del hombre
su respuesta al canto del gallo
toda expresión equívoca que aclara las cosas
la parte en blanco de los formularios
el himno de libertad de un libre o de un esclavo
un balbuceo muy bien impostado
un abuso del lenguaje
cualquier cosa natural para decir después de hacer el amor
un lenguaje siempre tan intenso como una despedida
   (...)

César Fernández Moreno

[Artes poeticas]



têm corpo as palavras tocam e são tocadas
são caramelos podem lamber-se chupar e mamar
fervem como peixes num tanque tropical
têm tantas formas como as lapas segundo a rocha a que se agarram
mas importa bem mais o que está dentro
a vida deliciosa e frágil do ser que as habita
são transparentes para o interior brilhar
são crisálidas ou cravos a arder
granadas que explodem na mão se não se atiram a tempo
vivem só para morrer
são pilotos suicidas
perecem ao atingir o alvo
a poesia é um desses alvos
um dos nomes do homem
a sua resposta ao cantar do galo
expressão equívoca que esclarece as coisas
o espaço em branco dos formulários
o hino de liberdade do homem livre ou do escravo
um balbuceio bem colocado
um vício da linguagem
uma coisa natural para dizer depois do amor
uma linguagem tão intensa como uma despedida
   (...)

(Trad. A.M.)

.

17.10.14

Cristóvão de Aguiar (Vento-2)





Sempre que o vento se põe sem tino e sem freio pelas veredas assombradas da noite fico sucinto e alcançado.

Viro-me e reviro-me na cama, o sono a milhas, espantadiço, só eu e a ventania, ambos a respirarmos à sobreposse, na meia escuridão reflectida pelas luzinhas da cidade, num molhinho cintilante, livre das rabanadas dos altos.

Sinto falta da ronquidão do mar do norte da Ilha, ao fundo da descida da tronqueira, quase paredes-meias com o meu quarto de dormir.


CRISTÓVÃO DE AGUIAR
Nova Relação de Bordo
(2004)

.

Celso Emilio Ferreiro (Epitáfio sem sarcófago)





EPITAFIO SIN SARCÓFAGO



Existen monumentos al soldado desconocido
pero nadie se acuerda del labrador que labra la tierra
en el campo donde nació el soldado desconocido,
ni del obrero que construyó la casa
donde vivió el soldado desconocido,
ni de la madre que parió un niñito rubio
que después llegó a soldado desconocido,
ni del poeta que canta, muriéndose de asco,
para que en el mundo no haya soldados desconocidos.


Celso Emilio Ferreiro

[Escomberoides]



Há monumentos ao soldado desconhecido
mas ninguém se lembra do agricultor que lavra a terra
no campo onde nasceu o soldado desconhecido,
nem do operário que fez a casa
onde viveu o soldado desconhecido,
nem da mãe que pariu um rapazinho ruço
que depois veio a ser soldado desconhecido,
nem do poeta que canta, morrendo de asco,
para não haver no mundo soldados desconhecidos.


(Trad. A.M.)

.

16.10.14

Herberto Helder (Se houvesse degraus na terra)





(Se houvesse degraus na terra)

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Herberto Helder

[IST]

.

15.10.14

Carlos Salem (Criminoso)





CRIMINAL



Quisiera aplastar, sin piedad, tus penas
como gotas de una lluvia de otoño en la ventana.
Y algunas tardes, rajaría tu ausencia a navajazos,
para llenarle el vientre de promesas
que acorten tu regreso.

Incluso no descarto atentar
contra todos los huecos
de tu cuerpo, y sin aviso previo.
He preparado una bomba casera de cariño
para dinamitar tus dudas,
si es preciso.
Y acribillo de besos tus recuerdos,
para que siempre tengas
perdigones de mi que llevarte a la boca.

Lo admito: soy un criminal,
y estoy dispuesto, por tenerte,
a cometer casi cualquier delito.

Pero no temas, amor:
puedo matar por ti
puedo morir por ti,
pero nunca podría
asesinar tu misterio.

Carlos Salem

[El huevo izquierdo]



Queria esmagar, sem piedade, tuas penas
como gotas de chuva outonal no vidro da janela.
E certas tardes, rasgaria tua ausência à navalha,
para lhe encher o ventre de promessas
que encurtem o teu regresso.

Não descarto mesmo atentar
contra os buracos do teu corpo,
e sem aviso prévio.
Fiz uma bomba caseira de carinho
para dinamitar tuas dúvidas,
se for preciso.
E crivo de beijos tua lembrança
para não te faltarem
perdigotos meus para levares à boca.

Confesso, sou um criminoso,
disposto, para ter-te,
a cometer qualquer crime.

Mas não temas, amor,
posso matar por ti,
posso morrer por ti,
mas não poderia nunca
assassinar teu mistério.

(Trad. A.M.)
.

14.10.14

Cristóvão de Aguiar (Vento-1)





Rufia, rugindo de nordeste,vadia o vento nos canais desabrigados e desavindos do céu.

Sobe da mata um cavo clamor da louca sarabanda das árvores, algumas destrançadas e de franças esguedelhadas...

De manhã, ao sair, deparo com ramos descabelados, pinhas ainda talentes esventradas e galhos esgaçados, esparramados ao longo do asfalto da quelha que liga a casa ao largo da capelinha de Santo António.


CRISTÓVÃO DE AGUIAR
Nova Relação de Bordo
(2004)

.

Alfredo Buxán (Nunca aprendemos)





NUNCA APRENDEMOS



Porque el instante es todo, el beso
que se da es un lento disturbio,
un fantasma de ceniza:
si supiera durar sería fuego.

Anega en un frescor inesperado
la pasión de los amantes,
su ciega soledad.
Se disuelve sin más
y se nos muere
contra la fría losa de los labios.

Alfredo Buxán*



Porque o instante é tudo, o beijo
que se dá é um lento distúrbio,
um fantasma de cinza
- se durasse, seria fogo.

A paixão dos amantes
inunda sua cega solidão
de frescura inesperada.
Dissolve-se sem mais
e morre-nos
contra a lousa fria dos lábios.

(Trad. A.M.)



>>  La mirada del lobo (blogue/ descont.) / Poemas de (26p) / Portal de poesia (4p) / Palabras mal dichas (4p)

(*) Pseudónimo (não fotos)

.

13.10.14

Mario Quintana (S.O.S.)





S.O.S.



O poema é uma garrafa de náufrago jogada ao mar.
Quem a encontra
Salva-se a si mesmo...


Mario Quintana


[Acontecimentos]

.

12.10.14

César Vallejo (Os passos distantes)





LOS PASOS LEJANOS



Mi padre duerme. Su semblante augusto
figura un apacible corazón;
está ahora tan dulce...
si hay algo en él de amargo, seré yo.

Hay soledad en el hogar; se reza;
y no hay noticias de los hijos hoy.
Mi padre se despierta, ausculta
la huida a Egipto, el restañante adiós.
Está ahora tan cerca;
si hay algo en él de lejos, seré yo.

Y mi madre pasea allá en los huertos,
saboreando un sabor ya sin sabor.
Está ahora tan suave,
tan ala, tan salida, tan amor.

Hay soledad en el hogar sin bulla,
sin noticias, sin verde, sin niñez.
Y si hay algo quebrado en esta tarde,
y que baja y que cruje,
son dos viejos caminos blancos, curvos.
Por ellos va mi corazón a pie.


César Vallejo

[Otra iglesia]



Meu pai dorme. Seu rosto augusto
sugere um coração afável;
tão doce...
se nele há algo de amargo, sou eu.

Em casa há solidão, reza-se,
e não há notícias dos filhos hoje.
Meu pai desperta, ausculta
a fuga para o Egipto, o adeus cortante.
Tão perto...
se nele há algo de longe, sou eu.

E minha mãe passeia além pelos quintais,
a saborear um sabor já sem sabor.
Tão suave,
tão asa, tão saída, tão amor.

Há solidão na casa sem bulha,
sem notícias, sem verde, sem crianças.
E se algo há quebrado nesta tarde,
que desce e que range,
são dois velhos caminhos brancos, curvos.
Por eles segue meu coração, caminhando.

(Trad. A.M.)

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11.10.14

Leonardo Padura (Uma história)





(UMA HISTÓRIA)


Com esse estado de espírito inescapável eu perguntava-me, enquanto observava a infinitude do universo: a quem caralho importará o que eu possa dizer em um livro?

Como é possível ter-me deixado convencer por Ana, mas sobretudo por mim mesmo, e ter tentado escrever esse livro?

Onde fui buscar a ideia de que eu, Ivan Cárdenas Maturell, queria mesmo escrevê-lo e talvez até publicá-lo?

E onde, que algum dia, em outra vida distante, tinha pretendido e julgado vir a ser escritor?

E a única resposta ao meu alcance era que aquela história me perseguia porque ela precisava de alguém que a escrevesse.

E essa grande filha da puta tinha-me escolhido a mim.
(Cap. 28)


LEONARDO PADURA
El hombre que amaba a los perros

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Paula Ensenyat (Ante o desejo da rocha)





Ante el deseo de la roca
el mar
no conoce pecado


Paula Ensenyat




Ante o desejo da rocha
o mar
não conhece pecado

(Trad. A.M.)



10.10.14

Raul de Carvalho (O feito e por fazer)





O FEITO E POR FAZER



Se Deus quiser hei-de morrer
Com tudo feito e por fazer.


Raul de Carvalho


[Lusografias]

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9.10.14

Rosabetty Muñoz (Desejo)





DESEO



El deseo es un barco poderoso
arriando anclas y cadenas
en medio de la noche.

Estallando con el estrépito
de las posibilidades.
Bajo el silencio crispado
el ansia apenas perceptible.

Es también, el despliegue de luces
en las islas de canales tan angostos
donde un barco, más que navegar,
acaricia.

Rosabetty Muñoz



O desejo é um barco poderoso
arriando a meio da noite
correntes e âncoras.

Explodindo com o estrépito
das possibilidades.
Sob o silêncio crispado
mal se percebe a ânsia.

E também, acender de luzes
nas ilhas de canais tão estreitos
que o barco, mais que navegar,
acaricia.

(Trad. A.M.)


>  Luis Cernuda (O desejo é uma pergunta)

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8.10.14

Leonardo Padura (Luta pela sobrevivência)





(LUTA PELA SOBREVIVÊNCIA)

Uma vez por semana, para fazer render mais os meus escassos dinheiros, montava-me na bicicleta e ia até Melena del Sur, a trinta quilómetros da cidade, a comprar produtos directamente aos agricultores e a trocar a minha habilidade de capador e desparasitador de porcos por um pouco de carne e alguns ovos para Ana.

Se antes uns meses eu parecia canceroso, o novo esforço converteu-me num fantasma pedalante e elementar, e ainda hoje não sei como saí vivo e lúcido daquela luta pela sobrevivência, que meteu desde operar as cordas vocais de centenas de suínos urbanos por causa do chiadouro até entrar em luta soco a soco (onde chegaram a faiscar punhais) com um veterinário que me queria roubar os fregueses; no fundo do abismo, acossado de todos os lados, os instintos podem ser mais fortes do que as convicções.
(Cap. 24)


LEONARDO PADURA
El hombre que amaba a los perros

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Rubén Bonifaz Nuño (Amiga bem-amada)





Amiga a la que amo: no envejezcas.
Que se detenga el tiempo sin tocarte:
que no te quite el manto
de la perfecta juventud. Inmóvil
junto a tu cuerpo de muchacha dulce
quede, al hallarte, el tiempo.

Si tu hermosura ha sido
la llave del amor, si su hermosura
con el amor me ha dado
la certidumbre de la dicha,
la compañía sin dolor, el vuelo,
guárdate hermosa, joven siempre.
No quiero ni pensar lo que tendría
de soledad mi corazón necesitado,
si la vejez dañina, prejuiciosa,
cargara en ti la mano,
y mordiera tu piel, desvencijara
tus dientes, y la música
que mueves, al moverte, deshiciera.

Guárdame siempre en la delicia
de tus dientes parejos, de tus ojos,
de tus olores buenos,
de tus brazos que me enseñas
cuando a solas conmigo te has quedado
desnuda toda, en sombras,
sin más luz que la tuya,
porque tu cuerpo alumbra cuando amas,
más tierna tú que las pequeñas flores
con que te adorno a veces.

Guárdame en la alegría de mirarte
ir y venir en ritmo, caminando
y, al caminar, meciéndote
como si regresaras de la llave del agua
llevando un cántaro en el hombro.

Y cuando me haga viejo,
y engorde y me quede calvo, no te apiades
de mis ojos hinchados, de mis dientes
postizos, de las canas que me salgan
por la nariz. Aléjame,
no te apiades, destiérrame, te pido:
hermosa entonces, joven como ahora,
no me ames: recuérdame
tal como fui al cantarte, cuando era
yo tu voz y tu escudo,
y estabas sola, y te sirvió mi mano.

Rúben Bonifaz Nuño

[La mirada del lobo]




Amiga bem-amada, não envelheças.
Que o tempo se detenha sem te tocar,
que não te tire o manto
da perfeita juventude. Imóvel
se quede, ao achar-te, o tempo
junto ao teu corpo de menina dócil.

Se a tua beleza
foi a chave do amor, se essa beleza
e o amor me deram
a certeza da ventura,
da companhia sem dor, do voo,
guarda-te bela, sempre jovem.
Não quero sequer pensar
na solidão de meu pobre coração
se a velhice daninha, nociva,
pusesse a mão sobre ti,
e te mordesse a pele,
e te soltasse os dentes, e desfizesse
a música que soltas ao andar.

Guarda-me sempre na delícia
de teus dentes e teus olhos,
de teus cheiros perfumados,
dos braços que me mostras
quando a sós te deitas comigo,
toda nua, na penumbra,
sem mais luz que a tua própria,
porque o teu corpo ilumina quando amas,
mais tenra tu que essas floritas
com que às vezes te enfeito.

Guarda-me na alegria de te olhar
a ir e vir, caminhando
e, ao caminhar, abanando-te toda
como se voltasses da fonte
de cântaro à cabeça.

E quando eu for velho,
gordo e careca, não tenhas pena
dos meus olhos inchados, dos meus dentes
postiços, dos pelos brancos a sair-me
do nariz. Afasta-me,
não tenhas pena, desterra-me, como peço:
bela então, jovem como agora,
não me ames, recorda-me
tal como eu fui ao cantar-te, quando era eu
tua voz e teu escudo,
e estavas só e minha mão te serviu.

(Trad. A.M.)

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7.10.14

Fernando Pessoa (A morte chega cedo)





A morte chega cedo,
Pois breve é toda vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida.

O amor foi começado,
O ideal não acabou,
E quem tenha alcançado
Não sabe o que alcançou.

E a tudo isto a morte
Risca por não estar certo
No caderno da sorte
Que Deus deixou aberto.


Fernando Pessoa

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6.10.14

Carlos Edmundo de Ory (Poema)





POEMA



Amo aquilo que arde
o que voa e se abre
o que enlouquece e cresce
o que salta e se move
aquilo que bebe os ventos
e é música e contacto
o que é vasto e é casto
o que é milagre e perigo
e se espreguiça e respira
e viaja por capricho.
Amo viajar descalço.


Carlos Edmundo de Ory

(Trad. Herberto Helder)

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5.10.14

Raul Brandão (Tavira>Olhão)





Tavira é uma terra fechada, concentrada, de gente rica que arrecada o dinheiro do figo, da amêndoa e da alfarroba.

Cada fruto destas árvores é um pingo de oiro.

Que saudades eu tenho nesta terra neurasténica, da fedorenta Olhão!

De Olhão, até o mau cheiro me cheira agora bem...

E como compreendo a mudança de fisionomia dos homens e das coisas...

Tavira é uma terra de montanheiros, Olhão é uma terra de pescadores.

O pescador é comunista e alegre, o montanheiro desconfiado e triste.

No mar não há marcos...


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.


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José Antonio Fernández Sánchez (Palavras)





Palabras.

Tan negada la traición
por un río de aguas desbordado.
Se han abierto las iglesias
y las campanas tiemblan
clamando liturgia.

Palabras.
Silencios retenidos en la alfombra de alquitrán,
sorprendido sol en la llanura de cal.
Antepuesta negación.
Palabras.

Máscara.


José Antonio Fernández Sánchez

[Margen cero]



Palavras.

Tão negada a traição
por um rio de águas transbordado.
Abriram as igrejas
e os sinos abanam
clamando liturgia.

Palavras.
Silêncios retidos no chão de alcatrão,
surpreso sol no plaino de cal.
Anteposta negação.
Palavras.

Máscara.

(Trad. A.M.)

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4.10.14

Eugénio de Andrade (Espera)





ESPERA



Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.


Eugénio de Andrade


[Luz & sombra]

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3.10.14

Berna Wang (Vão acontecer tantas coisas)





VAN A PASAR TANTAS COSAS



De aquí a un año
pueden pasar tantas cosas:
Que encontremos el amor de nuestra vida,
que lo perdamos (acaso una vez más),
que descubramos que, con todo, no nos hacía tanta falta.

De aquí a un año
pasarán tantas cosas:
Que las pesadillas dejarán de serlo de pronto,
que nos asustarán pesadillas nuevas,
que descubriremos que, con todo, es nuestro miedo (y no las pesadillas).

De aquí a un año es tanto tiempo.

Berna Wang

[Otras hierbas]



Daqui a um ano
podem acontecer muitas coisas:
encontrarmos o amor da nossa vida,
perdê-lo (uma vez mais talvez),
ou descobrir que, apesar de tudo,
não nos fazia assim tanta falta.

Daqui a um ano
hão-de acontecer muitas coisas:
os pesadelos deixarão de o ser de repente,
arranjaremos pesadelos novos,
ou descobriremos que, apesar de tudo,
é o medo nosso (e não os pesadelos).

Daqui a um ano é tanto tempo.

(Trad. A.M.)

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2.10.14

Raul Brandão (Ponha lá)






Era um colosso.

Dois olhinhos sumidos na cabeçorra, mãos enormes, braços como trancas e um corpo maciço e quadrado, a que ele, desajeitado, não sabia o que fazer.

Na taberna enfumada da Cantareira era eu quem lhe escrevia as cartas para a namorada.

– Ponha lá, senhor Arriulo...

Ponha lá o quê?...

Não dizia mais palavra.

Só olhava para mim suando de aflição.

Mas era tanta a ternura nos seus olhos, que se estabelecia entre nós dois uma espécie de comunicação magnética...

Tenho perdido tudo.

Deixei passar por mim as melhores coisas da vida quase sem dar por elas.

Também perdi, com indiferença, a cópia dessas extraordinárias cartas de amor de um poveiro a uma poveira.

Ele trazia na cesta, com o pão e o conduto, o papel bordado para a carta e sentava-se na minha frente, com a cabeça vermelha de ruivo apertada entre as mãos como cepos.

E olhava-me numa imensa aflição:

– Ponha lá, senhor Arriulo – à espera que eu encontrasse as palavras mágicas com que havia de enternecer o coração da Josefa Perneta.


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.

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Begoña Abad (Poeta)





POETA



Si el poema le gusta
envidiará no haberlo escrito él.
Si no le gusta querrá cambiarlo
como si lo hubiera escrito él.

El poeta vive entre la envidia
y la búsqueda del poema
que siempre se le escapa
en el colador de cazar agua.

Begoña Abad

[Apología de la luz]



Se gostar do poema
invejará não o ter escrito.
Se não gostar quererá mudá-lo
como se o tivesse escrito ele.

O poeta vive entre a inveja
e a busca do poema,
que sempre lhe escapa
no coador de apanhar água.

(Trad. A.M.)

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1.10.14

Daniel Faria (Conserto a palavra)





Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
Restauro-a
Dou-lhe um som para que ela fale por dentro
Ilumino-a

Ela é um candeeiro sobre a minha mesa
Reunida numa forma comparada à lâmpada
A um zumbido calado momentaneamente em enxame

Ela não se come como as palavras inteiras
Mas devora-se a si mesma e restauro-a
A partir do vómito
Volto devagar a colocá-la na fome

Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza
Como um homem nadando para trás
E sou uma energia para ela

E ilumino-a


Daniel Faria


[Canal de poesia]

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