30.9.14

Batania (Caer)





CAER



Caer
era entonces un verbo
casi divertido: me caí
de la cama, me caí
de la bicicleta, me
caí del patinete…

Ahora no.

A esta edad,
caer
es otra cosa.

Peor.

Batania


[Neorrabioso]

.

29.9.14

Leonardo Padura (Retirada da guerra civil)





(RETIRADA DA GUERRA CIVIL)

Uma maré humana, coberta de farrapos, viajando em alguns poucos veículos automóveis ou então empilhados em carretas desconjuntadas puxadas por cavalos famélicos, ou simplesmente a pé, arrastando malas e embrulhos com seus pertences, aceitavam em silêncio ordens que não compreendiam, gritadas em francês, acentuadas com gestos cominatórios e ameaçadores varapaus.

Pessoas atiradas para um êxodo de proporções bíblicas, empurradas pelo instinto de sobrevivência, seres carregados de uma lista imensa de perdas e frustrações patentes no olhar de que se esfumara toda a dignidade.

Muitos daqueles homens e mulheres eram os mesmos que tinham cantado e bailado nas vitórias republicanas, os que se tinham posto pelas mais diversas razões atrás das barricadas em Barcelona, os mesmos que tinham sonhado com a vitória, a revolução, a democracia, a justiça, e tinham praticado muitas vezes impiedosamente a violência revolucionária.
(Cap. 17)


LEONARDO PADURA
El hombre que amaba a los perros

.

Antonio Pérez Morte (Este poema)





ESTE POEMA



Este poema está vivo.
Tiene ojos.
Invisibles ojos,
que sin verlos, te miran.
Lees y acaricias
versos que se erizan.

Este poema está vivo,
quiere escucharte
recitar en voz alta;
meterse en tu casa
o quizá en tu cama;
curiosear tus estantes
de discos y libros,
de fotos y cartas;
provocarte emociones
y hurgar en tu vida:
¡Date prisa, pasa de página!

Antonio Pérez Morte

[Sureando]



Este poema está vivo,
tem olhos,
invisíveis olhos,
que te olham, sem os veres.
Lês e afagas
versos que se eriçam.

Este poema está vivo,
deseja ouvir-te
recitar em voz alta;
meter-se em tua casa
ou talvez na tua cama,
bisbilhotar-te nas estantes
de discos e livros,
de fotos e cartas;
despertar-te emoções,
esgaravatar-te a vida:
Rápido, vira a página!

(Trad. A.M.)

.

28.9.14

Charles Bukowski (Oh, yes)





OH, YES



there are worse things than
being alone
but it often takes decades
to realize this
and most often
when you do
it's too late
and there's nothing worse
than
too late.

Charles Bukowski



Há coisas piores
do que estar sozinho,
mas às vezes levamos décadas
para o perceber.
E muitas vezes
ao percebê-lo
é já tarde de mais.
E não há nada pior
do que
tarde de mais.

(Trad. A.M.)

.

27.9.14

Rosabetty Muñoz (Perspectiva)





PERSPECTIVA



Donde se fija la mirada
aparece una herida.
La grieta palpitante,
un ojo abierto hacia los otros.
La culpa es un cuervo sobrevolando
la ceguedad.
A veces, apenas, un estremecimiento
del eterno orificio cósmico
situado en el ardor
remitido a sí mismo
estallando continuamente.

Rosabetty Muñoz



Onde se põe o olhar
aparece uma ferida.
A fenda palpitando,
um olho aberto para os outros.
A culpa é um corvo
sobrevoando a cegueira.
Às vezes, apenas um estremecimento
do eterno orifício cósmico
ardendo
entregue a si mesmo
explodindo continuamente.

(Trad. A.M.)



>>  Letras.s5 (antologia) / U-Chile (perfil) / Circulo de poesia (17p) / Antonio Miranda (6p) / Wikipedia

.

26.9.14

Leonardo Padura (Um hotel, dois projectos)





(UM HOTEL, DOIS PROJECTOS)

Como era possível? perguntavam-se.

Queria dois hotéis, ou queria os dois projectos, ou tinha assinado os dois por lapso?

A única solução era perguntar ao camarada Estaline se se tinha equivocado, mas... quem é que se atrevia a incomodá-lo nas férias em Sochi?

Além disso, o Secretário-Geral nunca se engana.

Então, Schúsev iluminou-se, como génio que é: realizariam os dois projectos num edifício só, metade segundo o projecto de Saveliev e a outra seguindo o de Stapran...

Assim nasceu este aborto e todos ficaram bem, Schúsev, Saveliev e Stapran.

O edifício é absurdo, certamente, um horror estético, mas existe e cumpre com as ideias e com a decisão do camarada Estaline.
(Cap. 14)


LEONARDO PADURA
El hombre que amaba a los perros

.

Antonio Orihuela (Leio-lhe o último poema)





Le enseño mi último poema.
Me dice que me espere,
que se le va el fuego.

Le espeto su falta de delicadeza,
su sospechoso amor a la literatura.

Me dice que no lo volverá a hacer.

Pasan los días
harto de comer comidas quemadas.

Antonio Orihuela

[Apología de la luz]



Mostro-lhe o último poema que fiz ,
diz-me que espere,
que tem a comida ao lume.

Censuro-lhe a indelicadeza,
o incerto amor pelas letras.

Diz-me que não voltará a acontecer.

Os dias passam
farto de comer tudo queimado.

(Trad. A.M.)

.

25.9.14

Cassiano Ricardo (Balada para minha mãe)





BALADA PARA MINHA MÃE



À hora difusa, decomposta,
em que as perguntas terrenas
ficam no ar, sem resposta;
em que as coisas maiores do mundo
nos parecem pequenas;
em que se arrancam as palavras
ao nosso corpo moribundo
como se arrancam pobres penas
à asa de um pássaro ferido;
à hora crucial dos vãos confrontos
e das inúteis cantilenas,
não se dirá de mim, ao certo,
que houve a mais triste das cenas;
nem se dirá que minhas mãos
semeando o mal, como semearam,
terão a cor das açucenas
se para o bem foram pequenas. . .
À hora sem brilho, sem resposta,
minhas mágoas serão serenas;
pois há um nome que foi feito
pra ser pronunciado por último
por ser uma sílaba apenas. . .

Cassiano Ricardo

.

24.9.14

José Alcaraz (Poética)





(Poética)

Zidane lanzaba las faltas apuntando a la cabeza de los jugadores de la barrera. Según él, casi siempre fallaba y, de esa forma, salía un lanzamiento más alto que terminaba en gol. Me gusta esa idea a la hora de salvar obstáculos: aprovechar el margen de error en beneficio propio. Apuntar siempre un poco más abajo para no acabar en las nubes, demasiado lejos de uno mismo o del discernimiento. Tener en cuenta que el vaso de agua en el que nos ahogamos es el mismo que nos quita la sed. Por otra parte, considero la poesía misma un margen de error, la silueta dibujada por la luz que se filtra entre los huecos libres del abrazo que se dan poeta y mundo.

José Alcaraz



Zidane marcava as faltas apontando à cabeça dos jogadores da barreira. Segundo ele, falhava quase sempre e dessa forma saía um lançamento mais alto que terminava em golo. Agrada-me essa ideia na hora de saltar obstáculos: a margem de erro, aproveitá-la em benefício próprio. Apontar sempre um pouco mais baixo para não acabar nas nuvens, demasiado longe de nós mesmos ou do discernimento. Ter em conta que o copo de água em que nos afogamos é o mesmo que nos tira a sede. Por outro lado, considero a poesia mesma uma margem de erro, a silhueta desenhada pela luz que se filtra pelos espaços livres do abraço entre o poeta e o mundo.

(Trad. A.M.)

.

23.9.14

Coitado do Jorge (92)





MADALENAS QUADRADAS



- Madalenas quadradas, pisca-me o letreiro, no supermercado, na secção das bolachas.

E eu, reflectindo:

- Ah, mas são todas, são todas...

.

Antonio Machado (Retrato)





RETRATO



Mi infancia son recuerdos de un patio de Sevilla,
y un huerto claro donde madura el limonero;
mi juventud, veinte años en tierras de Castilla;
mi historia, algunos casos que recordar no quiero.
Ni un seductor Mañara, ni un Bradomín he sido
—ya conocéis mi torpe aliño indumentario—
mas recibí la flecha que me asignó Cupido,
y amé cuanto ellas puedan tener de hospitalario.
Hay en mis venas gotas de sangre jacobina,
pero mi verso brota de manantial sereno;
y, más que un hombre al uso que sabe su doctrina,
soy, en el buen sentido de la palabra, bueno.
Adoro la hermosura, y en la moderna estética
corté las viejas rosas del huerto de Ronsard;
mas no amo los afeites de la actual cosmética,
ni soy un ave de esas del nuevo gay-trinar.
Desdeño las romanzas de los tenores huecos
y el coro de los grillos que cantan a la luna.
A distinguir me paro las voces de los ecos,
y escucho solamente, entre las voces, una.
¿Soy clásico o romántico? No sé. Dejar quisiera
mi verso, como deja el capitán su espada:
famosa por la mano viril que la blandiera,
no por el docto oficio del forjador preciada.
Converso con el hombre que siempre va conmigo
—quien habla solo espera hablar a Dios un día;
mi soliloquio es plática con este buen amigo
que me enseñó el secreto de la filantropía.
Y al cabo, nada os debo; debéisme cuanto he escrito.
A mi trabajo acudo, con mi dinero pago
el traje que me cubre y la mansión que habito,
el pan que me alimenta y el lecho en donde yago.
Y cuando llegue el día del último vïaje,
y esté al partir la nave que nunca ha de tornar,
me encontraréis a bordo ligero de equipaje,
casi desnudo, como los hijos de la mar.

ANTONIO MACHADO
Campos de Castilla
(1912)



Minha infância são lembranças de um pátio de Sevilha,
mais um horto claro onde cresce o limoeiro;
a mocidade, vinte anos por terras de Castela;
minha história, alguns casos que não quero lembrar.
Não fui nem um Bradomín, nem um Mañara sedutor
- é bem conhecido meu atavio desalinhado -
mas recebi a seta que Cupido me destinou
e amei quanto elas podem ter de hospitaleiro.
Tenho nas veias gotas de sangue jacobino,
mas brota-me o verso de sereno manancial;
e, mais que homem comum sabendo a sua doutrina,
sou, como se diz, no bom sentido, um homem bom.
Adoro a beleza e, na moderna estética,
cortei as velhas rosas do jardim de Ronsard;
mas não aprecio os enfeites da nova cosmética,
nem sou dessas aves do novo gay-trinar.
Desdenho as romanças dos ocos tenores,
assim como o coro dos grilos que cantam à lua.
Detenho-me a distinguir a voz do seu eco,
mas dentre as vozes escuto só uma.
Sou clássico ou romântico? Não sei. Queria
deixar meu verso, como o capitão deixa a espada,
famosa por mor da mão que a brandiu,
não pela arte da oficina que a forjou.
Falo com o homem que anda sempre comigo
- quem fala sozinho há-de falar a Deus um dia;
minha conversa é com este bom amigo
Que me ensinou o segredo da filantropia.
Nada vos devo, no fim, vós deveis-me o que eu escrevi.
Trabalho e com meu dinheiro pago
o fato que me veste e a casa que habito,
o pão que me alimenta e a cama onde me deito.
E quando o dia vier da última viagem,
estando pronta a partir a nave que não volta,
a bordo me achareis ligeiro de equipagem,
nu ou pouco menos, como os filhos do mar.


(Trad. A.M.)

.

22.9.14

Carlos Drummond de Andrade (Consolo na praia)





CONSOLO NA PRAIA



Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te - de vez - nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.


Carlos Drummond de Andrade

[Sublime porta]

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21.9.14

Antonio Gamoneda (Eu calo-me)





Yo me callo, yo espero
hasta que mi pasión
y mi poesía y mi esperanza
sean como la que anda por la calle;
hasta que pueda ver con los ojos cerrados
el dolor que ya veo con los ojos abiertos.

Antonio Gamoneda

[Tinta en las manos]



Eu calo-me e espero
até que minha paixão,
minha poesia e esperança
sejam como a que anda pelas ruas;
até poder ver de olhos fechados
a dor que vejo de olhos abertos.

(Trad. A.M.)

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20.9.14

Raul Brandão (Luz e cor)





O mar às vezes parece um véu diáfano, outras pó verde.

Às vezes é dum azul transparente, outras cobalto.

Ou não tem consistência e é céu, ou é confusão e cólera.

De manhã desvanece-se, de tarde sonha.

E há dias de nevoeiro em que ele é extraordinário, quando a névoa espessa pouco e pouco se adelgaça, e surge atrás da última cortina vaporosa, todo verde, dum verde que apetece respirar.

Diferentes verdes bóiam na água, esbranquiçados, transparentes, escuros, quase negros, misturados com restos de onda que se desfaz e redemoinha até ao longe.

E ainda outros azulados, com a cor das podridões.

Tudo isto graduado e dependendo do céu, da hora e das marés.

Há momentos em que me julgo metido dentro duma esmeralda, e, depois, numa jóia esplêndida, dum azul único que se incendeia.

Mas a luz morre, e a luz agonizando exala-se como um perfume.

É uma grande flor que desfalece.

O doirado não é simplesmente doirado, nem o verde simplesmente verde: possuem uma alma delicada e extática.

- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.

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José Antonio Fernández Sánchez (Eu escrevo para mim)





Eu escrevo para mim mesmo,
mas se alguém me ler deve saber
que não há beleza no que fica escrito.
Bonito bonito é ver saltar a chispa
e esperar que o fogo alastre, belo belo
é soprar as cinzas.


José Antonio Fernández Sánchez

(Trad. A.M.)



>>  Poetas siglo XXI (25p) / Siglo XXI (5p) / Jose Antonio FS (blogue)

.

19.9.14

António José Forte (Declaração)





DECLARAÇÃO



Eu de barba branca a tiracolo
rodeado de fumo por todos os lados vadios
menos pelo lado do mar
com um incêndio à ilharga
e dois artelhos clandestinos
eu salvo miraculosamente para te amar e curar
e esperar o teu regresso glacial e escarlate
que escrevo poemas desde que um rato
me entrou prós pulmões e só por causa disso
eu que disse: há um cancro no mapa universal
e engenheiros, geógrafos, doutores se apressaram a negá-Ia
eu da cintura pra cima de alcatrão e terror
e do umbigo pra baixo de quiosque chinês
eu não espero piedade obrigado

António José Forte

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18.9.14

Ángel Petisme (Urânio nas mãos)





URANIO EN LAS MANOS



El universo se detiene cuando te veo
los crímenes, los taxis, los incendios, la lluvia.
Todo se congela con sólo un parpadeo,
todo en espera en los pasos de cebra.
Te amo igual en la distancia claro,
un bombero que ríe y un fuego que sueña.
Miro tus ojos al abrirte la puerta
y mis aguas revueltas se calman,
el lago más cristalino y azul del Google Earth
no puede compararse a esta hermosa
y profunda sensación de existir.
Si esto era el amor, uranio en las manos,
no lo cambio por bonos en playas paradisíacas,
si esto era la vida, temblor e intensidad,
no te cambio por nada. Ya me puedo morir.
He vivido con creces y lo repetiría.

Angel Petisme



O mundo pára quando eu te vejo,
os crimes, os táxis, os fogos, a chuva.
Tudo congela só com piscar,
tudo em espera nas passadeiras.
Amo-te à mesma, claro, à distância,
um bombeiro sorrindo e a fogueira a sonhar.
Olho-te os olhos ao abrir-te a porta
e logo serenam minhas águas revoltas,
nem o lago mais cristalino do Google Earth
se compara com esta bela
e profunda sensação de existir.
Se amor era isto, como urânio nas mãos,
não o troco sequer por viagem ao paraíso,
se vida era isto, ardor estremecido,
não te troco por nada. Já posso morrer.
Vivi à larga e podia mesmo repetir.

(Trad. A.M.)

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17.9.14

Leonardo Padura (Gonorreia)





(GONORREIA)

Descobri com certo assombro que naquele ambiente a minha habitual timidez sexual desaparecia com as portas derrubadas pelo álcool, a sensação de fuga ao confinamento desse sítio afastado, e a urgência (minha e das minhas amantes eventuais) de libertarmos algo de próprio.

Nunca comi, nem bebi, nem muito menos transei tanto, nem com tantas mulheres, nem em lugares tão incríveis como nesses dois anos, no fim dos quais acabei a reagir como um cínico capaz de mentir sem problemas, e com uma gonorreia que espalhei generosamente e convertido, como tantos entre os habitantes da região, num alcoólico desses que dejejuam com um trago de aguardente e uma cerveja gelada para compensar os efeitos da ressaca da noite anterior.
(Cap.5)

LEONARDO PADURA
El hombre que amaba a los perros

.

Ángel Guinda (O olhar)





LA MIRADA



Lo mismo que una llave abría el aire
a los misterios de la transparencia.

Me convocaba igual que una ventana
o una cita del cielo con el mar.

Podía haber vivido en su fulgor
o esperar a morir como un naufragio.

Porque aquella mirada no era de unos ojos
y aquellos ojos no eran de ningún mundo.

Ángel Guinda



Tal como uma chave, abria o vento
aos mistérios da transparência.

Chamava-me, tal como uma janela
ou um encontro do céu com o mar.

Podia viver no seu fulgor
ou esperar a morte como um naufrágio.

Porque esse olhar não era duns olhos
e esses olhos não eram de mundo nenhum.

(Trad. A.M.)

.

16.9.14

Anne Sexton (Quando o homem)





WHEN MAN ENTERS WOMAN



When man
enters woman,
like the surf biting the shore,
again and again,
and the woman opens her mouth in pleasure
and her teeth gleam
like the alphabet,
Logos appears milking a star,
and the man
inside of woman
ties a knot
so that they will
never again be separate
and the woman
climbs into a flower
and swallows its stem
and Logos appears
and unleashed their rivers.

This man,
this woman
with their double hunger,
have tried to reach through
the curtain of God
and briefly they have,
though God
in His perversity
unties the knot.

Anne Sexton

[Cómo cantaba mayo]



Quando o homem
entra na mulher,
como a onda mordendo a praia,
uma e outra vez,
e a mulher abre a boca de prazer
e os dentes lhe cintilam
como o alfabeto,
aparece Logos
ordenhando uma estrela,
e o homem dá um nó
dentro da mulher
para que nunca mais
se separem
e a mulher sobe para uma flor
e come-lhe o pé
e então aparece Logos
e desprende-lhes os rios.

Esse homem,
essa mulher,
com a sua fome dobrada,
tentaram atravessar
a cortina de Deus,
e conseguiram-no por um instante,
apesar de Deus, perverso,
lhes desfazer o nó.

(Trad. A.M.)

.

15.9.14

Ángel González (Enquanto existires)





MIENTRAS TÚ EXISTAS



Mientras tú existas,
mientras mi mirada
te busque más allá de las colinas,
mientras nada
me llene el corazón,
si no es tu imagen, y haya
una remota posibilidad de que estés viva
en algún sitio, iluminada
por una luz cualquiera...
                                Mientras
yo presienta que eres y te llamas
así, con ese nombre tuyo
tan pequeño,
seguiré como ahora, amada
mía,
transido de distancia,
bajo ese amor que crece y no se muere,
bajo ese amor que sigue y nunca acaba.

Ángel González



Enquanto existires tu
e o meu olhar te buscar
além atrás dos montes,
enquanto nada
me encher o coração,
senão a tua imagem, e houver
uma remota possibilidade de estares viva
em algum sítio, iluminada
por uma luz qualquer…
                             Enquanto
eu pressentir que tu existes e te chamas
assim, com esse teu nome
tão pequeno,
continuarei como agora, amada
minha,
transido de distância,
preso deste amor que cresce e não morre,
deste amor que persiste e nunca acaba.


(Trad. A.M.)

.

14.9.14

Raul Brandão (Névoas-2)





As névoas anunciam o Inverno.

Começam a vir os nevoeiros compactos, que se metem pelas narinas e cheiram a mar e a fumo.

Há-os que têm léguas de espessura e levam dias a passar, coortes desordenadas de fantasmas enchendo todo o horizonte.

O sino tange.

Não se vê palmo diante do nariz.

Lá fora os barcos, como cegos, só se guiam pelo som.

0 mar é um misterioso fantasma que os envolve.

Cerração cada vez mais mole e espessa...

Só a voz se ouve, e o lamento parece vir de mais longe e de mais fundo.

Às vezes adelgaça-se um pouco na costa, e grandes rolos de fumaceira crescem do mar sobre a terra.

É o Inverno que vem aí.

A voz imensa tem já plangências de dor – desabar infinito de lágrimas.

De sul para o norte as nuvens correm sempre, coortes sobre coortes que saem das profundas e avançam, deslizam sobre as águas sem ruído, enchendo o céu de farrapos enormes, de fantasmas criados naquele mar salgado e que se seguem em tropel num galope monstruoso para uma grande batalha desconhecida.

E de quando em quando o sino chama, chama sempre pelos homens perdidos na névoa espessa que leva dias a passar.


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.

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Ángel Crespo (Como a calhandra)





COMO LA ALONDRA


Como, en la tarde, al aire cae
desde la tierra el pájaro,
bate las alas para no
seguir cayendo, y sube
finalmente a los suelos
- así me hundo en el mar
de las palabras, bajo,
braceo para no
seguir cayendo, y subo
finalmente al silencio.

Ángel Crespo


Como o pássaro, de tarde,
cai da terra ao céu
e bate as asas para não
continuar a cair, e sobe
finalmente ao chão
- assim eu me afundo no mar
das palavras, desço,
esbracejo para
não cair mais, e subo
finalmente ao silêncio.

(Trad. A.M.)


> Outra versão: Luz & sombra (J.E.Simões)

.

13.9.14

Ana Paula Inácio (Senhora Vermeer)





SENHORA VERMEER



À senhora Vermeer coube-lhe a sorte
de não caber nos quadros
de Vermeer, seu marido.
Não possuía o traço do anil
ou do ouro
que lhe caíam o regaço
como única declaração de posse
das jóias e do marido
que não era jóia nenhuma
como dizia a criada
que sabia como se cozinhavam as coisas
à rapariga do brinco
que ele pintou para sua desgraça.
A senhora Vermeer não ficou na História de Arte
só na das histéricas lágrimas
e inúteis posses,
desvairada e borratada
na sua pintura.


Ana Paula Inácio



.

12.9.14

Jorge Ampuero (Epistolário)





EPISTOLARIO



Nunca dirás
que son apócrifas
mis cartas
la oscura tinta
derramada
y todas
las lágrimas
que te he escrito
y firmado
desgarrando
los papeles
con la sangre
en la mano.




Nunca dirás
que são apócrifas
as minhas cartas
a escura tinta
derramada
e todas
as lágrimas
que te escrevi
e assinei
rasgando
os papéis
com sangue
nas mãos.

(Trad. A.M.)


.

11.9.14

Raul Brandão (Névoas-1)





Sol e azul e depois névoa.

Às vezes começa em Agosto, outras em Setembro.

Uma barra ao longe anuncia-a, uma barra que cresce em fumarada sobre a terra, ou que se dispersa correndo para o sul, em labaredas sobre o mar esverdeado.

Há outras névoas no Verão que se descerram lentamente como cortinas, ficando o panorama límpido como uma aguarela acabada de pintar.

Outras têm léguas de extensão e levam dias a passar.

E o mar exala um cheiro mais vivo quando o nevoeiro parece dissolver-se, para logo voltar mais denso e compacto.

Às vezes vê-se entre a neblina um ponto da costa cheio de luz, um rasgão no mar, uma única pedra iluminada entre o céu infinito e o mar infinito.

Tenho visto também umas névoas esbranquiçadas que ficam lá para muito fundo embebendo-se de luz.
Névoa, um pouco de sol e brancura, tudo emborralhado.

A onda vem de longe, irrompe da névoa, e só se vêem os grandes rolos brancos revolvidos de espuma muito ao perto quando se despedaçam.

Em Sagres assisti a um nevoeiro extraordinário.

Aparecem primeiro uns flocos no céu, e a luz tornou-se logo mais azul, pegando azul à pele, molhando de azul as mãos estendidas.

Depois a névoa, que no Verão dura segundos, doirou e subiu ao ar, tornando o horizonte mais ilimitado e fantasmagórico...


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.

.



José Alcaraz (Ordem do dia)





ORDEN DEL DÍA


No desatiendas nunca ni la tierra ni el cielo.
Cuida de tus principios, educa tus finales.
En un cuaderno limpio mantén al día siempre
tus sentimientos. Llora, para limpiar la atmósfera
de malas emociones. Y si algún día tiemblas
sin remedio, convéncete de que tú sólo vibras.

José Alcaraz



Nunca desatendas nem o céu nem a terra.
Cuida de teus princípios, educa teus finais.
Mantém sempre em dia num caderno limpo
teus sentimentos. Chora, para limpar o ar
de más emoções. E se um dia tremeres
sem remédio, convence-te de que só tu é que vibras.

(Trad. A.M.)




>>  Las afinidades electivas (4p) / Petisme (3p) / Inaesperados (3p) / Insolitos (3p) / El coloquio de los perros (análise- Héctor Tarancón) /Koult (entrevista)

.

10.9.14

Ana Luísa Amaral (Sarça ardente)





SARÇA ARDENTE



Um toque leve,
e eu perder-me-ei
- pelas planícies todas do azul,
pelos campos mais longos
que quiseres,
em direcção a leste, a norte,
a sul

Um toque tão macio de rouxinol
que a tortura se apague,
um nome se incendeie
junto ao chão
e expluda com a tarde

Desliza-me na pele
o fio incandescente dos teus dedos,
que eu entrarei de frente
pelo sol,
e arderei no sol,
sem medo


Ana Luísa Amaral



.


7.9.14

Gonzalo Fragui (Carta de Antonio Mora)





CARTA DE ANTONIO MORA



Por aquí,
salvo el amor,
la salud
y el dinero,
todo bien.


Gonzalo Fragui

.

5.9.14

Jorge Ampuero (Saudade)





SAUDADE


Este corazón
tan propio
como ajeno
que solía
palpitar
mordiendo
hasta el polvo
de mis huesos
trasnochados
es ahora el hocico
desnudo
y hambriento
de un perro
que aulla
solitario
pero que ya
no ladra
a nadie.
  



Este coração
tão próprio
como alheio
que costumava
palpitar
mordendo
até o pó
de meus ossos
tresnoitados
é agora o focinho
desnudo
e faminto
de um cão
que uiva
solitário
mas já
não ladra
a ninguém.

(Trad. A.M.)


>>  Jorge Ampuero (blogue/muitos p)

.


4.9.14

Leonardo Padura (Literatura)





(LITERATURA)

Aquele êxito varreu-me do espírito quaisquer dúvidas e, pela primeira e última vez na vida, talvez por estar completamente enganado, senti-me seguro de mim mesmo, das minhas ideias e possibilidades.

Tinha demonstrado ser um escritor do meu tempo e agora só tinha de trabalhar para cimentar a ascensão à glória artística e utilidade social, como então pensávamos da literatura (que nos parecia mais a porra duma escada e não o que é na verdade, ofício de masoquistas desventurados).
(Cap.5)

LEONARDO PADURA
El hombre que amaba a los perros

.

Andrés Neuman (A grande arte)





(EL GRAN ARTE)


¿Y si mentir no fuera vil
ni tan siquiera grave, no tuviese
fatales consecuencias,
no fuese irremediable
ni sonase a pólvora;
y si mentir
no dejara marchitos los jardines
ni congelase el manantial sagrado
que riega nuestros sueños;
y si después de todo
mentir no fuera malo
sino sólo difícil?

Andrés Neuman



E se mentir não fosse vil
nem grave sequer, nem tivesse
consequências fatais,
não fosse irremediável
 nem cheirasse a pólvora;
e se mentir
não murchasse os jardins
nem congelasse a corrente sagrada
que nos rega os sonhos;
e se mentir não fosse mau, afinal,
mas apenas difícil?


(Trad. A.M.)

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3.9.14

Amadeu Baptista (Dois mil e quatro)




DOIS MIL E QUATRO


Ainda bem que sou um homem do norte.

Ainda bem que tenho um horror suculento
a parasitas pardos e viúvas negras.

Ainda bem que resisto como um pré-esforçado
e registo em cadernos as incandescências do mar.

Ainda bem que evoluo na travessia das nuvens,
e acredito
e aceito, ainda.

Ainda bem que num momento particular
estou em presença de um torso
e um cavalo a arder,
em sinal de vida, sobre o campo visual.

Ainda bem que não mastigo bem,
não digiro bem,
não dirijo bem,
e choro, como uma criança.

Ainda bem que as formas circuncêntricas
se explanam como processos escultóricos
e a manhã deste outono anunciado
é primaveril.

Ainda bem que nas paisagens reais
não há seres indefesos
– não há seres indefensáveis
nesta rede de hipóteses cruéis e sanguinárias.

Ainda bem que a irregularidade é a única lei
dos fora-da-lei
e no outro lado da duna,
no outro lado da rua,
há uma curva,
depois um bosque,
depois uma depressão no terreno
que denominamos com contracções musculares,
sobreposições de imagens,
Deus, na aula de trabalho manuais.

Ainda bem que, após a fuga,
há uma casa na árvore para retemperar as forças.

Ainda bem que sou um homem de sorte.


Amadeu Baptista

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2.9.14

Ana Pérez Cañamares (Salvar a Primavera)





SALVAR LA PRIMAVERA



Está la ciudad que estalla de brotes
y tulipanes. Pero los ojos de los adultos
se cierran con el mismo sueño.

Despiértame de esta madrugada
que no se acaba nunca.

Tenemos que correr delante
arrancar para ellos las cortinas:

los niños no se bastarán solos
para salvar la primavera.

Ana Pérez Cañamares




A cidade está a explodir de rebentos
e túlipas. Mas os olhos dos adultos
cerram-se à mesma com sono.

Desperta-me desta madrugada
que nunca mais acaba.

Temos de correr antes
e arrancar as cortinas por elas:

as crianças sozinhas não chegam
para salvar a Primavera.

(Trad. A.M.)

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1.9.14

Leonardo Padura (Carta)





(CARTA)

M. e Mme. Paz:
Recebi hoje uma notícia que põe em relevo a mesquinhez de pessoas como vós, que pouco mais são do que bolchevistas de salão, para quem a revolução não passa de um passatempo.

Vós, que não sofrestes na carne a repressão, a tortura, o inverno dos campos de trabalho, tendes a possibilidade de renunciar à luta quando esta não satisfaz as vossas expectativas de êxito e protagonismo.

Mas o verdadeiro revolucionário começa a sê-lo quando subordina a sua ambição pessoal a uma ideia.

Os revolucionários podem ser cultos ou ignorantes, inteligentes ou canhestros, mas não podem existir sem vontade, sem devoção, sem espírito de sacrifício.

E como para vós tais qualidades não existem, muito agradeço que com tanta diligência vos aparteis do caminho.

a/ L.D.Trotski
(Cap.4)

LEONARDO PADURA
El hombre que amaba a los perros

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Ana Montojo Micó (O presente)





EL PRESENTE



Hoy todo lo que escriba será un plagio
del anónimo verso endecasílabo
que tu aliento derrama por mi espalda
para borrarme el nombre y la conciencia,
las edades, las culpas y los miedos,
el pasado evidente y el futuro
que no quiero soñar por si se rompe.

Sólo soy este instante adormecido
en el cálido abrazo del presente.

Ana Montojo

[El humo ciega mis ojos]



Hoje tudo o que escreva será um plágio
do anónimo verso endecassílabo
que teu hálito espalha nas minhas costas
para apagar-me o nome e a consciência,
as idades, as culpas e os medos,
o passado evidente e o futuro
que não quero sonhar para não se partir.
Sou só este instante adormecido
no cálido abraço do presente.

(Trad. A.M.)

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