31.3.14

Ana Luísa Amaral (Olho-te pelo reflexo)





Olho-te pelo reflexo
do vidro
e o coração da noite

e o meu desejo de ti
são lágrimas por dentro,
tão doídas e fundas
que se não fosse:

o tempo de viver;
e a gente em social desencontrado;
e se tivesse a força;
e a janela ao meu lado
fosse alta e oportuna,

invadia de amor o teu reflexo
e em estilhaços de vidro
mergulhava em ti.


Ana Luísa Amaral

.

30.3.14

Laura Ponce (Não andamos)





NO ANDAMOS



Las mujeres no andamos por ahí midiendo
quién la tiene más profunda
porque el dolor es inconmensurable
y alcanza para todas.

Laura Ponce

[Emma Gunst]



Nós mulheres não andamos por aí a medir
quem tem a dor mais profunda
porque a dor não se mede
e chega para todas.

(Trad. A.M.)

.

29.3.14

Amadeu Baptista (Dois mil e três)





DOIS MIL E TRÊS



Aos cinquenta anos há já poucas decisões
para tomar.

Os filhos estão criados,
há muito que deixaram de tocar a relha
do arado
e de olhar as árvores
como poderosos
instrumentos da imperceptibilidade.

Sem alegria,
ouvimo-los sussurrar,
quase em segredo,

«agora não se agaste,
de há uns tempos a esta parte pertencemos
a um reino
de números primos
e não queremos voltar ao canavial».

Aos cinquenta anos,
nem já um cão queremos ter,
vamos de café em café a pôr questões inúteis,
a perguntar
se o desejo que temos pela mulher que passa
é realmente genuíno,
ou só a desejamos
pelas meias violeta que lhe iluminam
a perna,
fazendo entretecer a agitação do corpo
com uma certa graciosidade incontornável.

Aos cinquenta anos,
apenas indagamos as horas a que é o jogo,
sem qualquer intenção de o irmos ver
ou anotar na agenda
a hora pré-determinada
da consulta
em que a exclusão nos vai visitar,
aqui,
ali,
no centro médico,
ou na capela mortuária
onde dizemos um derradeiro adeus
ao mais pontual amigo.

Aos cinquenta anos,
constatamos que o radiador perde água,
que a lâmpada fundida está coberta
por uma fina película de poeira
que nunca viramos antes,
a mesma poeira que suja a nossa pele,
a nossa excessiva presença pela casa.

Aos cinquenta anos
a cabeça vai-nos caindo sobre o peito
e sufocamos com sono
e os joelhos dobram-se sobre nós,
no exacto momento em que recitamos a oração da infância,
com medo do escuro,
o mesmo medo do escuro
de quando éramos meninos
e o vigor dos nossos tornozelos suportava
a correria no vento,
entre os fetos.

Aos cinquenta anos
perdemos mais um dente,
espiamos a cabeleira ainda farta,
percebendo que não nos irá faltar cabelo
até ao fim,
se, eventualmente,
a radioterapia se desviar de nós
e o arsenal químico do costume
se não interpuser entre a nossa ténue esperança.

Aos cinquenta anos
ainda projectamos ir pela pedreira
à procura de mica e feldspato,
ainda interpelamos a morte
com as mãos vivas, ensombrecendo
o chão à nossa frente,
limpo,
sinuosamente limpo à nossa frente,
atirando uma pedra para o lago
na tentativa vã de descobrirmos
o que são esses círculos circuncêntricos
que, com mansa bonança, avançam
para a margem.

Aos cinquenta anos,
dizemos, entre-dentes,
“calma, não é, ainda, o fim do mundo”,
enquanto perscrutamos o sulco
que a retroescavadora abriu
no campo largo.


Amadeu Baptista


[Amadeu Baptista]

.

28.3.14

Francisco Brines (Qual é a glória da vida?)





¿ Cuál es la gloria de la vida, ahora
que no hay gloria ninguna,
sino la empobrecida realidad ?
¿ Acaso conocer que el desengaño
no te ha arrancado ese deseo hondo
de vivir más ?

La gloria de la vida fue creer
que existía lo eterno;
o, acaso, fue gloria de la vida
aquel poder sencillo
de crear, con el claro pensamiento,
la fiel eternidad.
La gloria de la vida, y su fracaso.

Francisco Brines



Qual é a glória da vida, agora
que não há glória nenhuma,
só a pobre realidade?
Saber talvez que o desengano
não te arrancou o desejo profundo
de viver mais?

A glória da vida foi crer
que o eterno existia;
ou, porventura, aquele simples poder
de criar, em pensamento,
a fiel eternidade.
A glória da vida - e o seu fracasso.

(Trad. A.M.)

.

27.3.14

Mark Strand (Espelho)





MIRROR



A white room and a party going on
and I was standing with some friends
under a large gilt-framed mirror
that tilted slightly forward
over the fireplace.
We were drinking whiskey
and some of us, feeling no pain,
were trying to decide
what precise shade of yellow
the setting sun turned our drinks.
I closed my eyes briefly,
then looked up into the mirror:
a woman in a green dress leaned
against the far wall.
She seemed distracted,
the fingers of one hand
fidgeted with her necklace,
and she was staring into the mirror,
not at me, but past me, into a space
that might be filled by someone
yet to arrive, who at that moment
could be starting the journey
which would lead eventually to her.
Then, suddenly, my friends
said it was time to move on.
This was years ago,
and though I have forgotten
where we went and who we all were,
I still recall that moment of looking up
and seeing the woman stare past me
into a place I could only imagine,
and each time it is with a pang,
as if just then I were stepping
from the depths of the mirror
into that white room, breathless and eager,
only to discover too late
that she is not there.

Mark Strand

[Marcelo Leites]



Uma sala branca, uma festa a correr,
e eu com alguns amigos
debaixo de um grande espelho dourado
ligeiramente inclinado
sobre a lareira.
A tomar uísque,
alguns de nós tentando decifrar
o preciso tom do amarelo
que o sol do ocaso punha nos copos.
Eu fecho os olhos por um instante,
depois olho para o espelho:
uma mulher de verde está encostada
à parede distante.
Parece distraída,
a brincar com o colar
nos dedos da mão,
a olhar muito fita para o espelho,
não para mim, para trás de mim, um canto
que poderia ocupar alguém
que estivesse para chegar,
estando então a iniciar a viagem
que levaria àquela mulher.
Aí, de repente, os meus amigos
dizem que está na hora de ir.
Isto foi há anos e,
se me passou onde é que fomos depois
e quem éramos nós todos,
lembro-me ainda quando ergui os olhos
e vi a mulher a fitar para trás de mim,
um recanto que eu não via e só podia imaginar.
Lembro, com um espinho a morder-me cá dentro,
como se eu então aparecesse na sala,
vindo lá do fundo do espelho,
sem fôlego e ansioso,
só para descobrir tarde de mais
que ela não está ali presente.

(Trad. A.M.)

.

26.3.14

Julio Cortázar (Distribuição do tempo)





DISTRIBUCIÓN DEL TIEMPO



Cada vez somos más los que creemos menos
en tantas cosas que llenaron nuestras vidas,
los más altos, indiscutibles valores vía Platón o Goethe,
el verbo, su paloma sobre el arca de la historia,
la pervivencia de la obra, la filiación y la heredad.

No por eso caemos con el celo del neófito
en esa ciencia que ya pone sus robots en la luna;
en verdad, en verdad, nos es bastante indiferente,
y si el doctor Barnard transplanta un corazón
preferiríamos mil veces que la felicidad de cada cual
fuese el exacto, necesario reflejo de la vida
hasta que el corazón insustituible dijera dulcemente basta.

Cada vez somos más los que creemos menos
en la utilización del humanismo
para el nirvana estereofónico
de mandarines y de estetas.

Sin que eso signifique
que cuando hay un momento de respiro
no leamos a Rilke, a Verlaine o a Platón,
o escuchemos los claros clarines,
o miremos los trémulos ángeles
del Angélico.


Julio Cortázar

[De sibilas y pitias]



Cada vez somos mais os que cremos menos
em tantas coisas que encheram nossas vidas
os mais altos e indiscutíveis valores via Platão ou Goethe,
o verbo, sua pomba sobre a arca da história,
a pervivência da obra, a filiação e a sucessão.

Nem por isso caímos com o zelo do neófito
nessa ciência que põe já os seus robôs na lua;
em verdade, em verdade, é-nos bastante indiferente,
e se o dr. Barnard transplantar um coração
preferiríamos mil vezes que a felicidade de cada qual
fosse o exacto, necessário reflexo da vida
até o coração insubstituível dizer docemente basta.

Cada vez somos mais os que cremos menos
na utilização do humanismo
para o nirvana estereofónico
de mandarins e de estetas.

Sem que isso signifique,
quando há um momento de pausa,
que não leiamos Rilke, Verlaine ou Platão,
ou escutemos os claros clarins,
ou contemplemos os anjos trémulos
de Angelico.

(Trad. A.M.)

.

25.3.14

Alda Merini (Temor dos teus olhos)





PAURA DEI TUOI OCCHI



Paura dei tuoi occhi,
di quel vertice puro
entro cui batte il pensiero,
paura del tuo sguardo
nascosto velluto d'algebra
col quale mi percorri,
paura delle tue mani
calamite leggere
che chiedono linfa,
paura dei tuoi ginocchi
che premono il mio grembo
e poi ancora paura,
finché il mare sommerge
questa mia debole carne
e io giaccio sfinita
su di te che diventi spiaggia
e io che divento onda
che tu percuoti e percuoti
con il tuo remo d'Amore.

Alda Merini



Temor dos teus olhos,
desse vértice puro
onde bate o pensamento,
temor do teu olhar
oculto veludo de álgebra
com que me percorres,
temor das tuas mãos
magnetos ligeiros
reclamando seiva,
temor dos teus joelhos
que me apertam o ventre
e depois temor ainda,
até o mar cobrir
este meu corpo débil
e eu por terra, desfeita
debaixo de ti feito praia
e eu então feita onda
que tu feres uma vez e outra
com o teu remo de Amor.


> Outra versão: Luz & sombra (J.E.Simões)

.

24.3.14

Violeta C. Rangel (Fazer as coisas mal)





Hacer las cosas mal, sin propósito de enmienda,
sin que te tiemble el pulso, vamos.
Todo mal.
Levantar una casa en un peñasco
para que no duermas tranquila en esa casa.
Que en cada tempestad algo se caiga,
no soporte, se destruya.
Hacer las cosas mal,
tener el valor de hacerlas mal.
Dejar clavos en el suelo y cristales en los ojos.

Pero que quepas, que quepas tú
aunque no duermas.
Que quepas, que no haya
día que no pienses
que estás a punto de palmarla,
de irte a la otra esquina,
que ya nadie te pueda librar de la desgracia.

Violeta C. Rangel

[Apología de la luz]



Fazer mal as coisas, sem propósito de emenda,
sem tremer o pulso, vá.
Tudo mal.
Fazer uma casa num penhasco
para não dormir nela tranquila.
Que algo caia na tempestade,
não aguente, se desfaça.
Fazer mal as coisas,
ter coragem de fazê-las mal.
Deixar picos no chão e vidros nos olhos.

Mas que tu caibas, que caibas
embora não durmas.
Que caibas, que dia não passe
que não penses
que estás quase a largá-la,
a mudar de esquina,
e que ninguém já te livra da desgraça.

(Trad. A.M.)

.

23.3.14

Almada Negreiros (Manifesto anti-Dantas)





MANIFESTO ANTI-DANTAS


Basta pum basta!!!
Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi. É um coio d'indigentes, d'indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!
Abaixo a geração!
Morra o Dantas, morra! Pim!
Uma geração com um Dantas a cavalo é um burro impotente!
Uma geração com um Dantas ao leme é uma canoa em seco!
O Dantas é um cigano!
O Dantas é meio cigano!
O Dantas saberá gramática, saberá sintaxe, saberá medicina, saberá fazer ceias pra cardeais, saberá tudo menos escrever que é a única coisa que ele faz!
O Dantas pesca tanto de poesia que até faz sonetos com ligas de duquesas!
O Dantas é um habilidoso!
O Dantas veste-se mal!
O Dantas usa ceroulas de malha!
O Dantas especula e inocula os concubinos!
O Dantas é Dantas!
O Dantas é Júlio!
Morra o Dantas, morra! Pim!
O Dantas fez uma soror Mariana que tanto o podia ser como a soror Inês ou a Inês de Castro, ou a Leonor Teles, ou o Mestre d'Avis, ou a Dona Constança, ou a Nau Catrineta, ou a Maria Rapaz!
E o Dantas teve claque! E o Dantas teve palmas! E o Dantas agradeceu!
O Dantas é um ciganão!
Não é preciso ir pró Rossio pra se ser pantomineiro, basta ser-se pantomineiro!
Não é preciso disfarçar-se pra se ser salteador, basta escrever como o Dantas! Basta não ter escrúpulos nem morais, nem artísticos, nem humanos! Basta andar com as modas, com as políticas e com as opiniões! Basta usar o tal sorrisinho, basta ser muito delicado, e usar coco e olhos meigos! Basta ser Judas! Basta ser Dantas!
Morra o Dantas, morra! Pim!
O Dantas nasceu para provar que nem todos os que escrevem sabem escrever!
O Dantas é um autómato que deita pra fora o que a gente já sabe o que vai sair... Mas é preciso deitar dinheiro!
O Dantas é um soneto dele-próprio!
O Dantas em génio nem chega a pólvora seca e em talento é pim-pam-pum.
O Dantas nu é horroroso!
O Dantas cheira mal da boca!
Morra o Dantas, morra! Pim!
O Dantas é o escárnio da consciência!
Se o Dantas é português eu quero ser espanhol!
O Dantas é a vergonha da intelectualidade portuguesa!
O Dantas é a meta da decadência mental!
E ainda há quem não core quando diz admirar o Dantas!
E ainda há quem lhe estenda a mão!
E quem lhe lave a roupa!
E quem tenha dó do Dantas!
(...)


Almada Negreiros


YouTube (Mário Viegas)

.

22.3.14

Um verso (135)





Um verso de Luís Amaro
(verdadeiro, por sinal):





A verdade das coisas está perto



Luís Amaro

.

Alexandre O'Neill (Seis poemas confiados/III)





(III)


Sê como és: o sol é bom,
o ar vivaz.
Do azul aos azuis, do verde aos verdes,
a terra é menina e o tempo rapaz.
Também tu és menina
(um bichinho rebelde, de tão natural!)
e correr descalça era mesmo o que querias,
mas seria indecente nesta capital…
E enquanto, doutro verde possuído,
em versos me explico, bem ou mal,
à primavera corres, já descalça,
por uma relva ideal!


Alexandre O'Neill

.

21.3.14

Oliverio Girondo (Visita)





VISITA



No estoy.
No la conozco.
No quiero conocerla.
Me repugna lo hueco,
La afición al misterio,
El culto a la ceniza,
A cuanto se disgrega.
Jamás he mantenido contacto con lo inerte.
Si de algo he renegado es de la indiferencia.
No aspiro a transmutarme,
Ni me tienta el reposo.
Todavía me intrigan el absurdo, la gracia.
No estoy para lo inmóvil,
Para lo inhabitado.

Cuando venga a buscarme,
Díganle:
"se ha mudado".


Oliverio Girondo

[Crepusculario siglo XXI]




Não estou,
não a conheço,
não quero conhecê-la.
Repugna-me o vazio,
a afeição ao mistério,
o culto da cinza,
de quanto se decompõe.
Jamais tive contacto com o inerte.
Se de algo reneguei, foi da indiferença.
Não aspiro a transformar-me,
nem o repouso me tenta,
e ainda me intrigam o absurdo, a graça.
Não estou para o imóvel,
para o inabitado.

Quando vier a buscar-me,
digam-lhe apenas:
-“Mudou-se”.

(Trad. A.M.)

.

20.3.14

19.3.14

Um verso (134)





Um verso de Ramos Rosa
(como sempre, baralhando as contas):




nenhum acaso / nenhuma porta / impossível sair



António Ramos Rosa


.

Blas de Otero (À imensa maioria)





A LA INMENSA MAYORIA   



Aquí tenéis, en canto y alma, al hombre
aquel que amó, vivió, murió por dentro
y un buen día bajó a la calle: entonces
comprendió; y rompió todos sus versos.

Así es, así fue. Salió una noche
echando espuma por los ojos, ébrio
de amor, huyendo sin saber adónde:
a donde el aire no apestase a muerto.

Tiendas de paz, brizados pabellones,
eran sus brazos, como llama al viento;
olas de sangre contra el pecho, enormes
olas de odio, ved, por todo el cuerpo.

¡Aquí! ¡Llegad! ¡Ay! Ángeles atroces
en vuelo horizontal cruzan el cielo;
horribles peces de metal recorren
las espaldas del mar, de puerto a puerto.

Yo doy todos mis versos por un hombre
en paz. Aquí tenéis, en carne y hueso,
mi última voluntad. Bilbao, a once
de abril, cincuenta y tantos. Blas de Otero.

Blas de Otero



Aqui tendes o homem, em canto e alma,
esse que amou, viveu, morreu por dentro
e um belo dia desceu à rua, então
compreendeu, e rasgou seus versos todos.

Assim é, assim foi. Uma noite saiu
a deitar espuma dos olhos, ébrio
de amor, a fugir sem saber pra onde:
onde o ar não cheirasse a morto.

Tendas de paz, airadas bandeiras
eram seus braços, como chama ao vento;
ondas de sangue contra o peito, enormes
ondas de ódio, vêde, por todo o corpo.

Aqui, vinde. Ai, anjos atrozes
cruzam o céu em voo plano;
peixes horríveis metálicos vão
às costas do mar, de porto em porto.

Por um homem em paz eu dou meus versos
todos. Aqui tendes, em carne e osso,
minha última vontade. Bilbao, em onze
de Abril, cinquenta e tal. Blas de Otero.

(Trad. A.M.)

.

17.3.14

Octavio Paz (Cada poema é único)





Cada poema es único.
En cada obra late,
con mayor o menor grado,
toda la poesía.
Cada lector busca algo en el poema.
Y no es insólito que lo encuentre:
Ya lo llevaba dentro.

Octavio Paz

[Sureando]



Cada poema é único.
Em cada obra lateja,
em maior ou menor grau,
a poesia toda.
Cada leitor busca algo no poema.
E não é insólito que o encontre:
já o tinha dentro de si.

(Trad. A.M.)

.

16.3.14

Coitado do Jorge (88)





(BOM DIA)



Bom dia, coração.

Só bom dia.

Da noite, falamos depois...

.

Marina Colasanti (Sexta-feira à noite)





SEXTA-FEIRA À NOITE



Sexta-feira à noite
os homens acariciam o clitóris das esposas
com dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
contam dinheiro papéis documentos
e folheiam nas revistas
a vida dos seus ídolos.

Sexta-feira à noite
os homens penetram suas esposas
com tédio e pênis.
O mesmo tédio com que todos os dias
enfiam o carro na garagem
o dedo no nariz
e metem a mão no bolso
para coçar o saco.

Sexta-feira à noite
os homens ressonam de borco
enquanto as mulheres no escuro
encaram seu destino
e sonham com o príncipe encantado.

Marina Colasanti



>>  Marina Colasanti (sítio) / As Tormentas (24p) / Utopia (6p)

.

15.3.14

Laura Ponce (O fogo)





EL FUEGO



Quizá este fuego arda
tan sólo porque es fuego
y no lo anime nada más
que su primaria condición.

Parecerá que abrasa,
que su lengua se inclina
con derrotero cierto.
Que se ha iniciado entonces.

Falso de toda falsedad.

El fuego
no reconoce pertenencia.
Su existencia está
irremediablemente atada
a la catástrofe:

es
lo que quema

Laura Ponce


[El whisky desnudo]



Talvez este fogo arda
tão só porque é fogo
e o não anime mais nada
que sua básica condição.

Parece que abrasa,
que sua língua se inclina
com derrotina certa.
Que se iniciou então.

Falso, redondamente falso.

O fogo
não reconhece pertença.
Sua existência está
irremediavelmente ligada
à catástrofe:

é
aquilo que queima.

(Trad. A.M.)

.




14.3.14

Albano Martins (Se o tempo)





Se o tempo
fosse
uma flor, o seu
perfume
seria
esta luz
escorrendo
pelas escarpas
do dia.


Albano Martins


[Luz & sombra]

.

13.3.14

Coitado do Jorge (87)





PLANO




Disse:

-“Eu tenho é de amarrar o meu futuro imediato a um plano determinado”.

Depois, saltei no abismo.

(Foi a segunda vez que me matei...)

.

Affonso Romano de Sant'Anna (Que país é este?)





QUE PAÍS É ESTE?



Uma coisa é um país,
outra um ajuntamento.

Uma coisa é um país,
outra um regimento.

Uma coisa é um país,
outra o confinamento.

Mas já soube datas, guerras, estátuas
usei caderno "Avante"
— e desfilei de tênis para o ditador.
Vinha de um "berço esplêndido" para um "futuro radioso"
e éramos maiores em tudo
— discursando rios e pretensão.

Uma coisa é um país,
outra um fingimento.

Uma coisa é um país,
outra um monumento.

Uma coisa é um país,
outra o aviltamento.

   (...)

Affonso Romano de Sant’Anna

.

12.3.14

Silvia Ugidos (Proposta desonesta)





PROPOSICIÓN DESHONESTA



Propongo
la audacia del tacto como recurso
a esos domingos tediosos en la tarde
cuando la carne proclama dulcemente
con esa desvergüenza de lo ingenuo:
muérdeme ahora
o quédate con hambre para siempre.

SILVIA UGIDOS
Las pruebas del delito
(1997)



Proponho
a audácia do tacto como recurso
para essas tardes chatas de domingo
quando a carne proclama baixinho
com a desfaçatez do ingénuo:
morde-me agora
ou fica-te para aí
com fome para sempre.

(Trad. A.M.)

.

11.3.14

Rui Knopfli (Aprendiz na oficina)





APRENDIZ NA OFICINA DA POESIA



Não rimes.
Ou rima, se quiseres,
mas não violentes
a palavra.
Não busques ansioso,
qual amante inexperiente,
a palavra.

Espera antes
a sua vinda.

Música e rima
são acessórios dispensáveis:
O poema é outra coisa.

Deixa, pois,
que as palavras acordem
na matriz
e caiam maduras.
Áridas ou frias,
secas e imperturbáveis,
orvalhadas, humildes,
estropiadas até,
que sejam precisas,
prenhes de significado.

Espera as palavras.
Elas viajam misteriosas,
desconhecidas ainda,
elas germinam
em ti.

Caem. Juntam-se.
Doloridas, feias
sob o visco placentário,
deselegantes por vezes,
elas procuram-se
e organizam-se.

Juntas transcendem-se,
há algo de íntimo,
coeso e secreto
nelas.

O poema está aí.


Rui Knopfli

[Luz & sombra]

.

10.3.14

Um verso (133)





Um verso de A.M.Pires Cabral
(que o vento é bom bailador):




Toda a noite fez vento sobre os campos



.

W. B. Yeats (Não ames tempo de mais)





O DO NOT LOVE TOO LONG



Sweetheart, do not love too long:
I loved long and long,
And grew to be out of fashion
Like an old song.
All through the years of our youth
Neither could have known
Their own thought from the other's,
We were so much at one.
But O, in a minute she changed-
O do not love too long,
Or you will grow out of fashion
Like an old song.

W. B. Yeats


[Poetry archive]



Amor meu, não ames tempo de mais,
que eu amei por muito tempo
e envelheci e passei de moda
tal como uma velha canção.
Nos tempos da mocidade
nenhum de nós distinguia
o seu pensamento do outro,
éramos ambos um só.
Depois, ela de repente fez-se outra
- oh, não ames tempo de mais,
senão envelheces e passas de moda
tal como uma velha canção.

(Trad. A.M.)

.

9.3.14

Fernando Ortiz (Sobre o ofício)





SOBRE EL OFICIO



Nos exige, en principio, libertad interior;
- y esto es sentirse ajeno y excluido,
primero ante uno mismo, también ante los otros.
En él no existe el triunfo, ni la gloria, ni tan siquiera la literatura,
y lo que los demás toman por éxito suele ser el fracaso.

El precio de este oficio es malvivir;
ya que, quien lo ejercita,
coloca su interés en valores de muy rara demanda.
Así, después de un largo aprendizaje
de dudas, soledad, despojamiento,
su dicha y su destino es trazar unos signos.
Y estos signos son vanos, y él lo sabe.

Fernando Ortiz


[El almirante ruina]




Em princípio, exige-nos liberdade interior
- e isto implica sentir-se alheio e excluído,
primeiro consigo mesmo, mas também com os outros.
Não há nele triunfo, nem glória, nem sequer literatura,
e o que os mais tomam por êxito costuma ser o fracasso.
O preço deste ofício é mal viver;
posto que quem o exerce
põe seu interesse em valores de procura muito escassa.
Assim, depois de uma longa aprendizagem
de dúvidas, solidão, despojamento,
sua sorte e seu destino é traçar alguns sinais.
Sinais que são vãos, e ele sabe-o.

(Trad. A.M.)

.

8.3.14

A.M.Pires Cabral (Amoras segundo S. Francisco)





AMORAS SEGUNDO S. FRANCISCO



Como as inquietas aves ribeirinhas,
também nós fazemos em Agosto
a nossa safra de amoras,
evitando com prudência os picos
que as dificultam e tornam cobiçadas.

Bendita sejas, irmã silva, que nos dás
as amoras e os picos.

Que de tudo se precisa nesta vida.
(Na outra, por enquanto não se sabe.)


A.M.Pires Cabral


[Hospedaria Camões]


.

7.3.14

Coitado do Jorge (86)





CUIDADO!




- Não saias hoje,
lua cheia,
cuidado com o lobisomem.


- Amanhã também não,
cuidado comigo.

.

Daniel Faria (Homens que são como lugares)





Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar


Daniel Faria



>>  Daniel Faria (sítio/anto) / Poesias e prosas (10p) / Citador (14p) / Jornal de Poesia (8p)

.

6.3.14

Nicanor Parra (Perguntas na hora do chá)





PREGUNTAS A LA HORA DEL TÉ



Este señor desvaído parece
una figura de un museo de cera;
mira a través de los visillos rotos:
Qué vale más, ¿el oro o la belleza?
¿Vale más el arroyo que se mueve
o la chépica fija a la ribera?
A lo lejos se oye una campana
que abre una herida más, o que la cierra:
¿Es más real el agua de la fuente
o la muchacha que se mira en ella?
No se sabe, la gente se lo pasa
construyendo castillos en la arena.
¿Es superior el vaso transparente
a la mano del hombre que lo crea?
Se respira una atmósfera cansada
de ceniza, de humo, de tristeza:
Lo que se vio una vez ya no se vuelve
a ver igual, dicen las hojas secas.
Hora del té, tostadas, margarina,
todo envuelto en una especie de niebla.

Nicanor Parra



Este senhor pálido parece
uma figura de um museu de cera,
olhando pelas cortinas rasgadas:
O que vale mais, o ouro ou a beleza?
Vale mais o ribeiro a correr
ou a erva imóvel na margem?
Ao longe ouve-se um sino
que abre uma ferida, ou a fecha:
É mais real a água da fonte
ou a rapariga que nela se mira?
Não sabemos, passamos o tempo
a fazer castelos na areia:
É superior o copo transparente
à mão do homem que o cria?
Há um ambiente cansado
de cinza, de fumo, de tristeza:
O que se viu uma vez não volta a ver-se
tal qual, dizem as folhas secas.
Hora do chá, torradas, margarina,
tudo envolto numa espécie de névoa.

(Trad. A.M.)


> Outra versão: Luz & sombra (José Bento)

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5.3.14

Valter Hugo Mãe (O super-homem)





O SUPER HOMEM



vesti o meu fato de
super homem por baixo da
roupa de todos os dias quando
fui ouvir o que o médico
tinha para dizer sobre a
operação da minha
mãe. eu morri mil vezes
quando a operaram, iam
partir-lhe o osso do peito e
isso é tão avesso ao que
espero dela. até digo às
crianças que não corram em seu
redor, tem quase setenta anos e
está cansada e não é bom que caia ou
sequer se aflija. partiram-lhe o
osso do peito. fizeram-no porque
é assim que se faz, dizem, e eu,
secretamente com o meu fato de
super homem, supostamente
preparado para tudo, morri mil vezes
e, mesmo depois das boas palavras do
médico, ando lento, tão atrasado
nas ressurreições

VALTER HUGO MÃE
Contabilidade
Poesia 1996-2010
Alfaguara (2010)

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4.3.14

Gina Saraceni (O cansaço, às vezes)





El cansancio, a veces,
nos toma de sorpresa.

Cierra los párpados
sin pedir permiso,
sin saber qué palabra
estábamos mirando
antes de que la noche estirara
la piel de las pupilas.

La cabeza del padre descansa
sobre un libro,
se expande sobre las páginas,
respira sobre el dictado ajeno.

Como una hoja que se mueve
por el tacto de la noche,
duerme su vejez sobre
el alfabeto de otra lengua.

Su frente se desploma y
sella un cielo donde las alondras
vuelan más lejos que el verano.

Más lejos las alondras se llevan
la frente cansada del padre,
más lejos de donde vienen y regresan,
más lejos del viaje que aguarda todavía.


Gina Saraceni



O cansaço, às vezes,
toma-nos de surpresa.

Cerra as pálpebras
sem pedir licença,
sem saber que palavra olhávamos
antes de a noite esticar
a pele das pupilas.

A cabeça do pai descansa
sobre um livro,
estende-se nas páginas,
respira sobre o ditado alheio.

Como uma folha que se move
pelo tacto da noite,
dorme sua velhice sobre
o alfabeto de outra língua.

Sua fronte despenha-se e
sela um céu onde as cotovias
voam mais longe que o Verão.

Mais longe levam as cotovias
a fronte cansada do pai,
mais longe do que o sítio donde vêm e voltam,
mais longe do que a viagem que aguarda ainda.


(Trad. A.M.)

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3.3.14

Um verso (132)





Um verso de Rui Pires Cabral
(a afazer-se à cama):




eu sempre estranhei um pouco a cama da vida



Rui Pires Cabral


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Russell Edson (Uma tarde solitária)




ONE LONELY AFTERNOON



Since the fern can’t go to the sink for a drink of water,
I graciously submit myself to the task,
bringing two glasses from the sink.
And so we sit, the fern and I, sipping water together.

Of course I’m more complex than a fern,
full of deep thoughts as I am. But I lay this aside
for the easy company of an afternoon friendship.

I don’t mind sipping water with a fern, even though,
had I my druthers, I’d be speeding through the sky for Stockholm,
sipping a bloody mary with a wedge of lime.

And so we sit one lonely afternoon sipping water together.
The fern looking out of its fronds, and I, looking out of mine…


Russell Edson



Já que o feto não é capaz de ir ao frigo buscar água,
faço eu o trabalho e trago dois copos.
E aqui estamos nós, sentados, a beberricar, eu e o feto.

Sem dúvida, eu sou mais complexo do que o feto,
cheio de pensamentos profundos. Mas ponho isso de lado,
a bem da companhia de uma tarde de amizade.

Não me importo de me pôr a bebericar com um feto,
embora cá por mim preferisse atravessar o céu até Estocolmo,
a tomar um ‘bloody mary’ com lima.

E assim cá estamos nós, na tarde solitária, os dois a beber água,
o feto a olhar de lá, das suas folhas, e eu a olhar de cá das minhas...


(Trad. A.M.)

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2.3.14

Miriam Reyes (Eu que sou terra)





Yo que soy tierra
como tierra tiemblo bajo tu pecho
te como te escupo me
trago tus huesos.
Tiene que ser así,
fuera de mí eres un extraño
duermas los años que duermas a mi lado.


Miriam Reyes

[Emma Gunst]



Eu que sou terra
como terra tremo sob teu peito
como-te e cuspo-te e
engulo-te os ossos.
Tem de ser assim,
fora de mim és um estranho
durmas a meu lado os anos que dormires.

(Trad. A.M.)

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1.3.14

Rosa Alice Branco (Contigo sinto 'nós')





Contigo sinto ‘nós’
e não sei o que possa querer dizer


‘Nós’ é aqui
disso tenho a certeza



Rosa Alice Branco

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