30.11.13

Uberto Stabile (Diz Gillespie)





DICE GILLESPIE



Dice Gillespie que la muerte no es lo peor
que no es el dolor la mejor escuela
ni el hambre nos convierte en campeones.
Dice Gillespie
que no son más fuertes quienes más pueden
que los son quienes más resisten
quienes de la derrota levantan caricias.
Dice Gillespie
que lo más peligroso nunca es el peligro
que lo más peligroso es la seguridad
con la que eludimos siempre el mismo peligro.
Dice Gillespie
que no es un hombre acabado
que es sólo un hombre que está acabando
que nunca el final sustituye al fin,
porque en realidad
dice Gillespie
que le dijo Parker
que le contó Cortázar
que en lugar de hacer el amor
ya va siendo hora
que el amor nos haga.

UBERTO STABILE
Los días contados
(2000)



Diz Gillespie que a morte não é o pior
que não é a dor a melhor escola
nem a fome nos converte em campeões.
Diz Gillespie
que os mais fortes não são os que mais podem
mas sim os que mais resistem
os que da derrota tiram carícias.
Diz Gillespie
que o mais perigoso nunca é o perigo
que o mais perigoso é a segurança
com que iludimos sempre o mesmo perigo.
Diz Gillespie
que homem acabado não é
que é só um homem que está acabando
que nunca o final substitui o fim,
porque na verdade
diz Gillespie
que lhe disse Parker
que lhe contou Cortázar
que em vez de fazer amor
vai sendo já tempo
que o amor nos faça.

(Trad. A.M.)

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29.11.13

Nuno Camarneiro (O sentido da vida)





O problema é desenhar a vida em forma de montanha, dar um cume à vida e querer atingi-lo como se o seu sentido dependesse desse acto.

O sentido da vida, a existir, há-de ser como o sentido de uma montanha, e não muda por lhe chegarmos ao topo ou nos perdermos pelas encostas.

Penso assim porque fiquei a meio, pior ainda, porque fiquei a escassos metros do topo.

Mas o problema de atingir um objectivo é decidir o que fazer depois de o atingir, e em nada é diferente a minha situação por o não ter atingido.

Com que devo preocupar-me agora, que não tenho nada com que me preocupar?


- NUNO CAMARNEIRO, Debaixo de algum céu, 2013 (Bernardino).

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Raúl Sánchez (Exílio involuntário)





EXILIO INVOLUNTARIO



Lo mismo que un alcohólico no deja
jamás de ser alcohólico aunque lleve
semanas, meses, años, lustros, décadas
sin que sus labios prueben la bebida;

y sabe que su vicio es un desierto
que necesita de una sola gota
para regenerarse - abarrotado
de plantas venenosas y parásitos;

me basta a mí - y sin duda te aprovechas
de mi debilidad - una mirada
tuya un poco más larga de la cuenta,

esa forma de andar, dos, tres palabras
para olvidar mis firmes juramentos;
por eso me resigno a tu memoria

desde este infausto exilio involuntario.


Raúl Sánchez



Tal como um alcoólico jamais
deixa de ser alcoólico, mesmo que
por semanas, meses ou anos
seus lábios não toquem na bebida;

e sabe que o vício é um deserto
que precisa apenas de uma gota
para se regenerar - abarrotado
de parasitas e plantas venenosas;

a mim – e tu exploras-me a fraqueza –
basta-me um olhar dos teus
um pouco mais longo do que a conta,

essa forma de andar, duas ou três palavras,
para esquecer meus firmes juramentos;
por isso me resigno a recordar-te

aqui, no meu infausto exílio involuntário.


(Trad. A.M.)


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28.11.13

Affonso Romano de Sant'Anna (Silêncio amoroso-2)





SILÊNCIO AMOROSO – 2



Preciso do teu silêncio
cúmplice
sobre minhas falhas.
Não fale.
Um sopro, a menor vogal
pode me desamparar.
E se eu abrir a boca
minha alma vai rachar.
O silêncio, aprendo,
pode construir. É um modo
denso/tenso
- de coexistir.
Calar, às vezes,
é fina forma de amar.


Affonso Romano de Sant’Anna

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27.11.13

Rosalía de Castro (Hora após hora)





Hora tras hora, día tras día,
Entre el cielo y la tierra que quedan
Eternos vigías,
Como torrente que se despeña
Pasa la vida.

Devolvedle a la flor su perfume
Después de marchita;
De las ondas que besan la playa
Y que una tras otra besándola expiran
Recoged los rumores, las quejas,
Y en planchas de bronce grabad su armonía.

Tiempos que fueron, llantos y risas,
Negros tormentos, dulces mentiras,
¡Ay!, ¿en dónde su rastro dejaron,
En dónde, alma mía?


Rosalía de Castro

[Mi manera de estar solo]



Hora após hora, dia após dia,
entre céu e terra, eternos vigias,
é a vida que passa,
como torrente imparável.

Devolva-se à flor seu perfume
depois de murcha;
às ondas que beijam a praia
e que se enrolam uma após outra
tomem-se queixas e rumores,
gravando-as em tábuas de bronze.

O tempo passado, os prantos e risos,
negros tormentos, doces mentiras,
ai, onde é que deixaram o rasto,
onde é que foi, alma minha?

(Trad. A.M.)

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26.11.13

Rui Zink (Preconceitos)





Sim, eu tinha preconceitos.

Ainda os tenho.

E depois?

Sempre me pareceu exagerado esse medo dos preconceitos, dos estereótipos, das ideias feitas.

Um preconceito é um conceito pré-fabricado, já pronto-a-vestir, mastigado, uma espécie de hambúrguer mental.

Pode não fazer lá muito bem mas, por vezes, é a única tábua a que nós podemos agarrar.

E já dei por mim a pensar, com alguma melancolia, que a primeira vítima do preconceito é, pobrezinho, o próprio preconceito.

Enfim, conversa para outra altura.


- RUI ZINK, A espera, 2007.

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Baldomero Fernández Moreno (Ante la poesía)





Ante la poesía
tanto da temblar
como comprender.



Baldomero Fernández Moreno


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25.11.13

Carlos de Oliveira (Viandante)





O VIANDANTE


Trago notícias da fome
que corre nos campos tristes:
soltou-se a fúria do vento
e tu, miséria, persistes.
Tristes notícias vos dou:
caíram espigas da haste,
foi-se o galope do vento
e tu, miséria, ficaste.
Foi-se a noite, foi-se o dia
fugiu a cor às estrelas:
e, estrela nos campos tristes,
só tu, miséria, nos velas.


Carlos de Oliveira

[Antonio Cicero]

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24.11.13

Raúl Gómez Jattín (Deslumbramento do desejo)





DESLUMBRAMIENTO POR EL DESEO



Instantáneo relámpago
tu aparición.
Te asomas súbitamente
en un vértigo de fuego y música
por donde desapareces.

Deslumbras mis ojos
y quedas en el aire.

Raúl Gómez Jattín



Instantâneo relâmpago
tua aparição.
Apareces subitamente
numa vertigem de música e fogo
por onde desapareces.

Deslumbras meus olhos
e permaneces no ar.

(Trad. A.M.)



>>  A media voz (14p) / Grandes poetas (12p) / Arquitrave (7p) / Casa de poesia Silva (5p) /  Wikipedia

.

23.11.13

Zoé Valdés (Loucura e escolha)





LOCURA E ELECCIÓN



De todas las muertes uno elige la suya
la de la mano incógnita
que ya jugó a alcanzar en la carrera infantil
de policías y ladrones
uno se apodera de la que te lanzará sobre un charco
debajo de las ruedas
robas la bala de oro la manzana envenenada
el gen cáncer el gen bacilo de Koch
el gen interminable que te persigue desde los ancestros
el encomendado para asesinar
La vida te la endosan
la muerte
uno tiene la sensación de elegirla
con fineza reflexiva
titubeando si no habrá otra mejor
más colorida más a la moda
el traje ilícito del sida
y registras en la prensa con confiada ufanía
ninguna se parece a tu carácter
todas son terquedad por nada
ni la muerte chic de los grandes atentados
ni los terremotos después del almuerzo
mucho menos el suicidio o el infarto indecoroso
tampoco aquellas donde se pretende dejar herencias
de todas las muertes uno selecciona con pulcritud
y a veces hasta con al irreverente certeza de aquel refrán
El hueso que está p'a uno no hay perro que se lo lleve


Zoé Valdés

[Estación Quilmes]



De todas as mortes cada um escolhe a sua
a da mão incógnita
que já brincou a agarrar nas corridas infantis
de polícias e ladrões
cada um se apodera da que o lançará para um charco
por baixo das rodas
furtas a bala de ouro a maçã envenenada
o gene câncer o gene bacilo de Koch
o gene interminável que te persegue desde os avós
o encomendado para matar
A vida é-nos passada
a morte
temos a sensação de escolhê-la
com aguda reflexão
titubeando se não haverá outra melhor
mais colorida mais na moda
o traje ilícito da sida
e vemos na imprensa ufanos e confiantes
nenhuma nos vai a carácter
todas são teimosia por nada
nem a morte chique dos grandes atentados
nem os terramotos depois de almoço
muito menos o suicídio o enfarte indecoroso
tão pouco as outras em que se quer deixar herança
de todas as mortes cada um escolhe com muito cuidado
e às vezes com a certeza do conhecido refrão
O osso marcado para nós não há cachorro que o leve

(Trad. A.M.)

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22.11.13

Rui Zink (Querer pelos dois)





Ela não queria ofender-me, simplesmente não estava disponível.

Ah, sim, claro, se eu insistisse muito ela faria amor comigo, percebi naquele sorriso, e até se entregaria q.b. sem problema.

Mas era preciso eu querer pelos dois.

Então, sim, talvez ela se convencesse.

E talvez se entregasse - até muito mais do que eu desejaria.

Porque era também isso que eu lia no seu sorriso.


- RUI ZINK, A espera, 2007.

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Albano Martins (Talvez)





TALVEZ


Sim, dizias tu, mas em seguida
corrigiste: talvez. Esta
é a única palavra
que não tem casa. Que mora
no intervalo
entre o som e o silêncio.

Albano Martins


[E um lugar ao sul]

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21.11.13

Pedro Sevilla (Éramos violentos)




ÉRAMOS VIOLENTOS



Éramos violentos y algo tristes.
El paraíso entonces
era besar tus labios,
ir contigo a los muros donde en tiempos de paz
se abrazan las parejas
como si cachearan al amor.

Era el setenta y siete.
Tenías veinte años y un temblor en el pecho
de palomas miedosas que acostumbraron pronto
a probar la ternura de mis manos.

Éramos violentos: agentes de uniforme
saqueaban las aulas en busca de octavillas,
de libros prohibidos;
no comprendieron nunca que en los parques de octubre,
besándonos los labios,
fuimos más inquietantes, mucho más peligrosos
que gritando en las calles mientras nos perseguían.

Tenías veinte años:
Recuerdo que en un muro,
bajo la sangre quieta de unas siglas,
hicimos el amor en pie de guerra.

Pedro Sevilla



Éramos violentos e algo tristes.
O paraíso por então
era beijar teus lábios,
ir contigo aos sítios onde em tempo de paz
se abraçavam os pares
como se revistassem o amor.

Estávamos em setenta e sete.
Tu tinhas vinte anos e uma tremura no peito
de pombas medrosas que cedo se acostumaram
à ternura das minhas mãos.

Éramos violentos, agentes fardados
invadiam as aulas em busca de panfletos
ou de livros proibidos;
não perceberam nunca que nesses parques de Outubro,
a beijar-nos nos lábios,
éramos mais inquietantes, muito mais perigosos
do que aos gritos na rua enquanto nos perseguiam.

Tinhas vinte anos,
lembro-me de ao pé dum muro,
sob o sangue sereno de algumas siglas,
fazermos amor em pé de guerra.

(Trad. A.M.)

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20.11.13

Nuno Camarneiro (O dia encheu)





O ar encheu-se de neblina e o que ainda se vê fora é desfocado e incerto, um barco lá longe, um casal que regressa do paredão, um cão perdido na praia.

O dia vai cegando devagar para que os olhos se habituem ao negro, as janelas acendem-se a confirmar gente e sente-se o silêncio por dentro, como coisa antiga da infância, como noite de meninos, o medo do escuro e os cheiros da casa.

O cheiro a lenha que arde, o cheiro a sopa, o cheiro da família.


- NUNO CAMARNEIRO, Debaixo de algum céu, 2013 (Narrador).

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Carlos Salem (Cavalgamos)





CABALGAMOS



Sabes
que los perros de la memoria
muerden
pero ya
casi
no ladran.

El porvenir nunca viene
-que ya lo advirtió don ángel-
pero vienes tú
derritiendo aceras
licuando soledades.

Los perros huelen mi sangre
como yo huelo tu carne
con hocico de mastín
con el rabo desafiante.

Y no hay futuro/
ni presente/
ni pasado/
pero hay aquí/ ahora/
tú/
yo/
y un domingo que se abre.

El mañana es el placebo
que se inyectan los cobardes
y en este cuarto anochece
siempre a las seis de la tarde.

Los perros
hoy
aúllan para nadie.

El sol, cabreado,
busca a la luna
en vano.
Está desnuda en mi cama.


Carlos Salem



Os cães da memória
sabes
mordem
mas já
quase
não ladram.

O porvir não vem nunca
– advertiu-o don ángel –
mas vens tu
derreter calçadas
arrasar solidões.

Os cães cheiram-me o sangue
como eu faço com tua carne
com focinho de mastim
com o rabo em desafio.

E não há futuro/
nem presente/
nem passado/
mas há aqui/ agora/
tu/
eu/
e um domingo a abrir.

O amanhã é o placebo
que metem na veia os cobardes
e neste quarto anoitece
sempre às seis e meia da tarde.

Hoje
os cães
uivam a ninguém.

O sol, irritado,
busca a lua
em vão.
Está nua na minha cama.

(Trad. A.M.)

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19.11.13

Alberto de Lacerda (Princípio de Novembro)





PRINCÍPIO DE NOVEMBRO



Luz estranha

Durante um momento interminável
nenhuma folha cai

O olhar treme

A cor é uma vertigem


ALBERTO DE LACERDA
Átrio
IN-CM (1997)

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18.11.13

Cysko Muñoz (Las manos de mi padre)





LAS MANOS DE MI PADRE


Las manos de mi padre
están hechas
de tierra seca
y agua de acequia.

De puño de azada
y manojo de esparto
de un millón de surcos
de barro
secándose al sol.

Las manos de mi padre
nacieron viejas
cultivadas entre
fanegas de injusticia
y de miseria,
pero siempre supieron
plantarle cara a las lágrimas
con un golpe en la mesa.

Las manos de mi padre
no tienen destino en las líneas,
nunca existió el futuro
para quien lo ha de pelear
cada día...

Y aún así
las manos de mi padre
siempre huelen a
tomillo en el monte
y a frío en el alba
y siempre tienen
trigo en las palmas
y siempre bailan
con un fandango
de voz antigua y quebrada.

Por eso no entiendo que hoy,
en la comodidad distraída
de esta gran ciudad,
cuando la tierra hace
tiempo que yace olvidada
- pero sus dedos aun son
ramas de olivo -
que hoy, haya reconocido

de repente sus manos
en el contorno de mis nudillos.

Las manos de mi padre están en mi.

Cysko Muñoz

[La putta poesía]


As mãos de meu pai
são feitas
de terra seca
e água de levada.

Com punhos de enxada
e de molhos de esparto
com mil sulcos de lama
a secar ao sol.

As mãos de meu pai
nasceram velhas
por entre fanegas
de injustiça e miséria,
mas souberam sempre
fazer frente às lágrimas
com um murro na mesa.

As mãos de meu pai
não têm o destino nas linhas,
nem o futuro existe
para quem tem de o conquistar
todos os dias...

E mesmo assim
as mãos de meu pai
cheiram a tomilho do monte
e ao frio da aurora
e têm sempre
trigo nas palmas
e bailam o fandango
de voz antiga e quebrada.

Por isso não entendo que hoje,
na comodidade distraída
desta grande cidade
quando a terra há muito
que jaz esquecida
- mas os dedos são ainda
ramos de oliveira -
que hoje reconhecesse

as suas mãos, de repente,
no contorno dos meus dedos.

As mãos de meu pai são as minhas.

(Trad. A.M.)



>> La putta poesía (blogue p) / Facebook


.




17.11.13

Rui Zink (Silêncio)





Naquela época eu tinha medo do silêncio e não percebia que não havia mal nenhum em ficar em silêncio a meio de uma conversa, ou mesmo não haver conversa entre duas pessoas que vão lado a lado.

O silêncio é como o mar.

Envolve-nos e pode submergir-nos, se não soubermos lidar com ele, mas pode também embalar-nos, se perdermos o medo e nos deixarmos ir.

Em ambos, mar e silêncio, nada pior do que esbracejar de pânico.


- RUI ZINK, A espera, 2007.

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Chantal Maillard (Fez-se noite ao meio-dia)




Se hizo de noche al mediodía.
No pude respirar.
Tanto metal entre la carne,
aquel sabor a cieno
y sobre todo
el corazón oblicuo, sí, eso es,
el corazón oblicuo.
Como las tejas de un tejado,
resbalando.
El viento arriba
(había viento, sí, un viento suave).

Pero ya terminó. Una sombra
no hace la noche entera.
Volvamos cada uno a lo que nos distingue:
esa historia concreta, personal
que nos mantiene a salvo -mientras tanto.

Una sombra no hace la noche entera
-¿o sí la hace?

Chantal Maillard



Fez-se noite ao meio-dia
e eu não respirava.
Tanto metal na carne,
aquele sabor a lodo
e sobretudo
o coração oblíquo, é isso, sim,
o coração oblíquo.
Como as telhas de um telhado,
a resvalar.
O vento em cima
(havia vento, sim, um vento suave).

Mas já acabou. Uma sombra
não faz a noite toda.
Voltemos cada um ao que nos distingue,
uma história concreta, pessoal,
que nos mantém a salvo - por enquanto.

Uma sombra não faz a noite toda
- ou faz?
 
(Trad. A.M.)

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16.11.13

José Aberto Oliveira (Don't be happy)





DON'T BE HAPPY



Não sofrer menos do que nos destinam,
também não pretender mais por orgulho
ou virtude - habitar um subúrbio,
não escrever versos, ter um crédito
de dias malparado, adormecer culpado.

Não viver com mais ironia do que a vida
nos alcança, mas não desejar menos, por fadiga.
Qualquer sarcasmo seria o pretexto
da partida, mas se os cegos voltam ao conforto
da concertina, ao livro nocturno, por que decidir?

Nem eriçado de vícios, nem abundante em virtudes,
o acordo do senso comum com a sua paixão
e aguardar que aconteça o previsível por inesperado;
um passado perseguido por precauções e dúvidas,
um futuro vulnerável a todos os equívocos.


José Alberto Oliveira


[Luz & sombra]

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15.11.13

Raúl Gustavo Aguirre (O milagre)





EL MILAGRO



Porque si llega, cuando llegue,
llegará como es:
fácil, claro, sencillo,
sin grandes resplandores,
sin que la tierra tiemble,
sin que el cielo se nuble.
Será suave y fraterno
con su mano en tu hombro.

No habrá cambiado casi nada:
sólo tu corazón.

Raul Gustavo Aguirre



Porque se vier, quando vier,
há-de vir tal como é,
fácil, claro, simples,
sem grande esplendor,
sem fazer tremer a terra,
sem turvar sequer o céu.
Suave e fraterno será,
a pôr a mão no teu ombro.

Não mudará quase nada,
só o teu coração.

(Trad. AM.)



>>  Ambrosía (6p) / Aromito (5p) / Poemas de (5p)

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14.11.13

Nuno Camarneiro (A vida tranquila)





Às vezes penso que a vida tranquila é inimiga de uma vida tranquila.

Tenho o que quis ter, sou feliz porque nada me falta para ser feliz.

Vivo num equilíbrio certo e tão imune a tudo que me vejo obrigada a ele, incapaz de tristezas profundas ou infelicidades justificadas.

Há outras maneiras de ser feliz que não conheço mas intuo, serão fugazes e ardentes, arrebatadoras, isso, arrebatadoras.


- NUNO CAMARNEIRO, Debaixo de algum céu, 2013 (Manuela).

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Raúl Sánchez (Amor cego)




AMOR CIEGO



Igual que dice Borges que jugaba
- en una conferencia sobre el libro -
a no estar ciego y ver, y a que leía
los tomos de una nueva enciclopedia;

a veces juego yo a que no te has ido
y cruzo habitaciones y pasillos
pobladas por el síndrome de Diógenes
que me han creado todos tus recuerdos.

Y siento que te tumbas en mi cama
- vacía como un libro para un ciego -
o sales de la ducha tan desnuda

que pides que te tape con mi cuerpo:
pareces tan real que ya no quiero
abrir los ojos y dejar de verte.

Raúl Sánchez

[Plegarias del desprecio]



Tal como diz Borges que brincava
– numa conferência sobre o livro –
a não ser cego, e que lia
os tomos de uma nova enciclopédia;

assim brinco eu às vezes a que não te foste
e atravesso salas e corredores
povoados pelo síndroma de Diógenes
que a tua lembrança me criou.

E sinto que tombas na minha cama
– vazia como um livro para cego –
ou sais do duche tão desnuda

que pedes para te tapar com o corpo:
tão real pareces que eu já não quero
abrir os olhos e deixar de te ver.

(Trad. A.M.)



>>  Asideros del abismo (blogue) / Plegarias del desprecio  (blogue/a. 11.2010) / Poesia al grano   (blogue/a. 8.2008) / Las afinidades electivas (4p) / Poetas siglo XXI (8p)

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13.11.13

Hilda Hilst (Que este amor não me cegue)





Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.


Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.


Que este amor só me veja de partida.


Hilda Hilst


[Arte livre]

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12.11.13

José Agustín Goytisolo (Piazza Sant'Alessandro, 6)





PIAZZA SANT 'ALESSANDRO, 6



Querida Carmen hoy
no me importa que digan los periódicos
que prosigue la huelga de estudiantes
o que ataca el Viet-Cong
pues ahora
hace muy poco tiempo - tan sólo
unos minutos -
ha empezado a llover - es importante
el agua sucia empieza a resbalar
por las paredes forma
charcos brillantes cae saliva
de los coches parados en la calle
y los toldos se comban por el peso
del agua y es posible
que dure algunas horas el chubasco -
y yo estoy en un bar lleno de gente
con humo y mal olor de bocadillos
y bebo mi segundo
gin-tonic de la tarde y me he tragado
dos librium ya lo ves llevo la cuenta
y como te decía
ya no me importan nada las noticias
ni la gente que corre ni la vida
es decir que me importa sólo el agua
que está cayendo siempre con más fuerza
salpicando el cristal junto a mi cara
y pienso en cosas dulces y difíciles
-ser más guapo tener
a una chica bonita y cabreada
caminando a mi lado por un feroz pasillo
lleno de puertas altas y de cuadros
de antepasados medio sifilíticos
que sonrían y en voces
hondas voces severas no como estas
que hablan de futbol y de tonterías
con tono pegajoso y aburrido-
y esto me reconforta. Soy capaz
de amar a un elefante de tener
concomitancias con un gran marica
de prestar mi corbata
de jugar a fantasmas con mi prima
y me levanto llamo al camarero
-sigue lloviendo oh agua sucia cae
cae por favor
sobre la horrible piel de Barcelona
no te detengas hasta que me duerma -
y pago los gin-tonic y el tabaco
recojo mis papeles y estoy viendo
que hago nuevos proyectos imposibles
y cuando estoy a punto
de salir de una vez de este tristísimo
café de la puñeta ya me olvido
del hombre que yo fui hace diez minutos
de su ternura inútil de su frío
de las pastillas que necesitó
para decirle adiós al limpiabotas
y salir por la puerta en donde ahora
pienso en ti en tus pestañas y en tu abrigo
y te escribo enseguida
para que leas esto y me recuerdes
bebas un trago y otra vez me olvides.

José Agustín Goytisolo



Querida Carmen hoje
não me importa o que digam os periódicos
que continua a greve estudantil
ou que o Vietcong ataca
porque agora
há bocadinho – minutos apenas –
começou a chover – é importante
a água suja começa a escorregar
pelas paredes forma
charcos brilhantes cai uma baba
dos carros parados na rua
e os toldos dobram-se com o peso
da água e é possível
que o aguaceiro dure algumas horas –
e eu estou num bar cheio de gente
com fumo e mau cheiro de comidas
e bebo o segundo
gin-tonic da tarde e engoli
dois librium estás a ver tenho a minha conta
e como te dizia
as notícias já não me importam para nada
nem as pessoas a correr nem a vida
quer dizer importa-me apenas a água
que cai cada vez com mais força
salpicando o vidro à minha frente
e penso em coisas boas e difíceis
– ser mais bonito ter
uma miúda jeitosa e travessa
caminhando a meu lado por um corredor
cheio de portas altas e de quadros
de antepassados meios sifilíticos
que sorriam com vozes
profundas vozes severas não assim como estas
que falam de futebol e de maluqueiras
num tom chato e pegajoso –
e isso reconforta-me. Eu sou capaz
de amar um elefante de me dar até
com o maior dos maricas
de emprestar a gravata
de brincar aos fantasmas com a minha prima
e às tantas levanto-me chamo o empregado
– continua a chover oh cai aguinha suja
cai por favor
na pele horrível de Barcelona
não pares até eu dormir –
pago a bebida e o tabaco
pego nos papéis e dou conta
que faço novos projectos impossíveis
e quando estou quase a sair
duma vez deste tristíssimo
café da chatice esqueço-me
do homem que fui até há dez minutos
da sua ternura inútil do seu frio
das pastilhas que precisou
para dizer adeus ao engraxate
e sair porta fora onde agora
penso em ti nas tuas pestanas e no teu abrigo
e escrevo-te depois
para tu leres isto e te lembrares de mim
beberes um copo e me esqueceres de novo.


(Trad. A.M.)

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11.11.13

Um verso (125)





Um verso de Mario Quintana
(de Alegre se fez Porto):




Quem ama inventa as coisas a que ama...(*)



Mario Quintana



(*) Todo amor é fantasia / inventa o ano, o dia / a hora e a melodia...
(Antonio Machado)

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Aldo Luis Novelli (Falo de luxúria)





HABLO DE LUJURIA, DE POESÍA HABLAMOS OTRO DÍA



La poesía es una hembra sensual, voluptuosa y esquiva...
los poetas, somos unos viejos putañeros borrachos,
intentando atraparla para encamarnos con ella.
Ahora bien, los poetas, nunca la podemos
ni siquiera tocar a esa bella hembra.
Ellas, las poetas, que digan lo suyo
o callen para siempre.

Aldo Luis Novelli



A poesia é uma fêmea sensual, voluptuosa e esquiva...
nós, poetas, somos velhos putanheiros borrachos,
tentando agarrá-la para acamar com ela.
Agora, nós, poetas, nunca podemos
sequer tocar nessa bela fêmea.
As poetas, por elas, digam o que lhes cabe
ou que se calem para sempre.

(Trad. A.M.)

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10.11.13

Adolfo Casais Monteiro (Deram-me o silêncio)





Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
a vida que não se troca por palavras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
as vozes que só em mim são verdadeiras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
a impossível palavra da verdade.

Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
para eu guardar dentro de mim,
para eu ignorar dentro de mim
a única palavra sem disfarce -
a palavra que nunca se profere.


Adolfo Casais Monteiro

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9.11.13

Alfonso Costafreda (O silêncio)





EL SILENCIO


No puedo hablar; aunque quisiera
no puedo hablar con alegría.
¿Qué he de decir? Ni tan siquiera
presentar puedo una página limpia.
No puedo hablar, sólo tinieblas crecieran
sobre la hierba maldita.
He de callar, pero yo diera
mi vida.

Alfonso Costafreda



Não posso falar; mesmo que quisesse
não posso falar com alegria.
O que é que diria? Nem sequer
posso mostrar uma página limpa.
Não posso falar, só trevas cresceram
sobre a erva maldita.
Calar-me-ei, mas daria
a minha vida, eu.

(Trad. A.M.)


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8.11.13

Rui Zink (Nessa noite fizemos amor)





Nessa noite fizemos amor.

E foi muito estranho, nunca me tinha acontecido.

Todas as minhas amigas se queixavam dos homens, era já um mito, que obtínhamos o que queríamos e depois nos virávamos pra o outro lado e ressonávamos, frios, saciados, hirsutos e egoístas.

E querem saber uma coisa?

Pois foi o que a Ana fez comigo nessa noite!


- RUI ZINK, A espera, 2007.

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Ramiro Fonte (Luzes do meio-dia)

 



LUZES DO MEIO-DIA



As melhores palavras da noite
escreve-as o meio-dia;
A flor se amiga, no jardim,
com a estrela incontornável.
No vaso em que, juntos,
afogámos as águas de outras luas,
estava já essa luz
serena para sempre, pressentida.
Esses olhos meus,
jamais cansados
de te olhar.


Ramiro Fonte

(Trad. A.M.)

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7.11.13

Armando Silva Carvalho (Hospital Curry Cabral)





HOSPITAL CURRY CABRAL



Parecem as termas de Fellini, disse ela, a catalã
que não sabia nada dos hospitais
de Lisboa.

De facto, o chão fumava,
um vapor espesso subia-lhe pelas pernas
e acalorava os gatos.
E até um garnisé que por ali passeava em busca
das migalhas das visitas
cantou
desirmanado.

Mas era quase erótico o som da sua voz
como a da vedeta italiana
desse filme barroco
caindo inocente na doença ambulante
levada por maqueiros gordos
e libidinosos.

As palmeiras derramavam um choro
no vento melancólico.
E ela a catalã, jovial e magra,
ia batendo palmas às aves embaraçadas,
e avançava a sorrir
pelas zonas infecto-contagiosas.
Mas não lhe era preciso aplaudir um tal cenário
de figurantes mudos e fantasmagóricos
com os seus roupões azuis
de sida
com os seus pijamas de cinza
e tuberculose.
Bastava-lhe olhar a direito ou fechar os olhos
e perguntar pelo Hotel Barcelona.

Mas ela preferiu tropeçar nos varões com sono
arrastados pelo verde do jardim
e passar rente a precipícios que deslizam deitados
à sombra da morte.

E é preciso amar e partir depressa.
Ou atordoar-se com os perigosos jogos do contágio.
Eu respiro a calma que a desgraça me oferece
entre galinhas-da-índia
a encurtar caminho
nesse antigo lugar de mulheres da vida
arrependidas.

Normalmente vou só e não me engano.
A amiga catalã é um devaneio
numa rambla de encontros tenebrosos
com outra espécie de morte.

Tantas vezes pensei
e o poema não veio ao meu encontro.
Tantas vezes devorei este fumo quente e sensual
que começa por lamber-me as calças
e faz de mim um animal em erecção precoce.
Belas termas, estas, amiga tão distante,
nas tuas quimeras musicais
no teu regaço de coloridas risas de passagem.

Passa comigo e pede um copo de água
ou de cólera, como diz o brasileiro,
àquele rapaz com a morte a prazo.
A menina do filme, essa perversa inocente
Cardinale, fica-te tão bem,
diria ele,
esse jovem director de espectros
que te tira o chapéu
e deixa ver um quisto inquietante
na cabeça pelada de trapezista mortal.
Traz contigo mais música.
E passeia comigo entre pavões rubro-azuis
e corpos que rolam
sentados ou jacentes e avançam
para a saída
da vida.

Armando Silva Carvalho


[Canal de poesia]


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6.11.13

Carlos Salem (Nós não)





NOSOTROS, NO



Nos enseñaron a sentir en dirección obligatoria
y nos llenaron la vida de semáforos.

Nos dijeron lo que se debe y lo que no
y que siempre quedaríamos debiendo.

Nos firmaron cheques en blanco
con tinta blanca
y esperaron a que les diéramos las gracias.

Nos rogaron que gritáramos sin ruido
amáramos sin furia
muriéramos sin asco
viviéramos sin ganas.

Nos olvidaron.

Nos prometieron el cielo en la tierra
y un paraíso con vídeo-vigilancia.

Nos invirtieron la esperanza a plazo fijo
y cambiamos los deseos por bonos del estado.

Nos vendieron motos
democracias
y consolas
y canciones del verano en pleno otoño.

Nos tiraron del pelo.
Nos cortaron el pelo.
Nos tomaron el pelo.
Y nos salvamos
a veces
por los pelos.

Nos olvidaron.

Nos juzgaron por pensar sin lubricante
Nos condenaron a sentir en látex
Nos metieron en jaulas decoradas
con los rostros de nuestros ídolos muertos.

Y cuando se quedaron sin presupuesto
para pagar las facturas de la cárcel
nos soltaron.

Y nos olvidaron.

Pero nosotros
a ellos
no.

Me temo
que no tendrán tiempo
de arrepentirse.

Carlos Salem



Ensinaram-nos a sentir em direcção obrigatória
e encheram-nos a vida de semáforos.

Disseram-nos o que se deve e o que não
e o que sempre ficaríamos a dever.

Assinaram-nos cheques em branco com tinta branca
à espera que agradecêssemos.

Pediram-nos que gritássemos sem barulho
amássemos sem fúria
morrêssemos sem asco
vivêssemos sem vontade.

Esqueceram-nos.

Prometeram-nos o céu na terra
e um paraíso com video-vigilância.

Investiram-nos a esperança a prazo fixo
trocando-nos desejos por títulos do Estado.

Venderam-nos motos
democracias
e consolas
e canções de Verão em pleno Outono.

Puxaram-nos pelo cabelo.
Cortaram-nos o cabelo.
Tomaram-nos o cabelo.
E salvámo-nos
às vezes
por um cabelo.

Esqueceram-nos.

Julgaram-nos por pensar sem lubrificação
Condenara-nos a sentir em látex
Meteram-nos em jaulas decoradas
com as caras de nossos mortos ídolos.~

E quando ficaram sem orçamento
para pagar as facturas da prisão
soltaram-nos.

E esqueceram-nos.

Mas nós
a eles
não.

Receio
que não terão tempo
de arrepender-se.

(Trad. A.M.)



>>  El huevo isquierdo del talento (blogue/muitos p) / Carlos Salem (outro) / Matar y guardar la ropa (outro antes) / Wikipedia

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5.11.13

Ruben A. (A paternidade do Menino Sancho)

 




Bem doloroso pensar na hipótese provável do Menino Sancho ser filho do Abade!

Há quem decida pelo pecado mortal do Abade – homem bondoso e que não quisera deixar por mãos alheias a satisfação de uma curiosidade.

Teria Dona Urraca perdido a donzelia num momento em que, fora de si mesma, aceitasse um rompante de procriar incógnito?

Teria sido coisa premeditada?

Qual o fim da acção biscosa do Abade, prendendo a manilha e pondo o jogo na mesa ao atravessar a primeira encruzilhada?

Ah!, que a donzelia de Dona Urraca havia sido perdida numa encruzilhada não restava dúvida...


- RUBEN A., A Torre da Barbela, 1964, VI.

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Eduardo Milán (Porque amo tua loucura)





¿Por qué amo tu locura,
tu desparpajo, tu falta
de reloj y tus atajos
cuando estoy prácticamente a punto
de caer de cabeza en el abismo?

O sea en ti. Pero no sólo
eso: hay mucho más de ti que quiero
y no revelo. Esa lámpara
que enciendes en el fondo.

Eduardo Milán



Porque será que amo tua loucura,
teu desembaraço, tua falta
de relógio, teus atalhos,
quando estou quase a mergulhar
de cabeça no abismo ?

Ou seja, em ti. Mas não é só
isso, há muito mais de ti que eu quero,
mas não revelo. Essa lâmpada
que trazes acesa, dentro de ti.

(Trad. A.M.)

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4.11.13

Al Berto (Os dias sem ninguém)





os dias sem ninguém
pequeníssimos recados escritos à pressa
amachucados nos dedos

        foi bela a madressilva
        subindo pela noite da morada esquecida

pedras exactas poeiras perfumadas
bichos de lume dormitando na flexibilidade da argila
areias cobertas de insectos ossos dentes
e o rio por onde partem as noites de cansaço

luminosa floração luas ácidas despenhando-se
fendas de terra cidades costeiras pássaros
frágeis caminhos em pleno voo
durante a lucidez tremenda do sonho

restam-me os corredores de vidro
onde posso afagar os restos carbonizados do corpo
abro a porta que dava acesso ao rosto
desço os degraus musgosos do pátio
atravesso o jardim de alvenaria onde vivi
todo este tempo antes de me precipitar


AL BERTO
O Medo
Lisboa (1998)


[As folhas ardem]


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3.11.13

Paz Hernández (Triangular)





TRIANGULAR



Triangular,
detestablemente puntiagudo,
con esa mirada confusa
encorsetado de refresco y colonia anodina

Las mangas escrupulosamente planchadas
la piel de gélido comportamiento social

Me miras ladinamente
Sin escrúpulos
estarías dispuesto a devorar

cualquier vulgaridad vestida de jueves


Paz Hernández



Triangular,
detestavelmente pontiagudo,
com esse olhar confuso
espartilhado de refresco e colónia anódina

As mangas escrupulosamente direitas
a pele de gélido comportamento social

Olhas-me com ar ladino
Sem escrúpulos
pronto a devorar

qualquer vulgaridade vestida
de sexta-feira


(Trad. A.M.)

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2.11.13

Nuno Camarneiro (É engraçado o sol)




É engraçado o Sol, indo e vindo como um tio que faz negócios.

Às vezes uma visita, outros dias ocupado noutros lugares com outra gente.

Aprende-se a recebê-lo com alegria porque veste o tempo e traz cores à casa, É o tio, lembras-te do tio?

O sol é doido e é assim, como um tio de quem se gosta.


- NUNO CAMARNEIRO, Debaixo de algum céu, 2013 (Narrador).

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Delmira Agustini (O inefável)





LO INEFABLE



Yo muero extrañamente...No me mata la Vida,
no me mata la Muerte, no me mata el Amor;
muero de un pensamiento mudo como una herida...
¿No habéis sentido nunca el extraño dolor

de un pensamiento inmenso que se arraiga en la vida,
devorando alma y carne, y no alcanza a dar flor?
¿Nunca llevasteis dentro una estrella dormida
que os abrasaba enteros y no daba un fulgor?...

Cumbre de los Martirios!... Llevar eternamente,
desgarradora y árida, la trágica simiente
clavada en las entrañas como un diente feroz!...

Pero arrancarla un día en una flor que abriera
milagrosa, inviolable!... Ah, más grande no fuera
tener entre las manos la cabeza de Dios!

Delmira Agustini


[O único verdadeiro deus vivo]



Eu morro de modo estranho... Não é a Vida
que me mata, nem a Morte, nem o Amor,
mas um pensamento, calado como ferida...
Não sentistes nunca a estranha dor

de um pensamento imenso agarrado à vida,
que devora alma e carne e não chega a dar flor?
Não tivestes nunca dentro uma estrela adormecida
que vos queimava e não tinha fulgor?

Ó cabo dos Martírios!... Carregar eternamente,
árida e estéril, a trágica semente
cravada nas entranhas como um dente feroz!...

E um dia arrancá-la numa flor abrindo,
milagrosa, inviolável!... Como quem, sorrindo,
segurasse nas mãos a cabeça de Deus!

(Trad. A.M.)


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1.11.13

Fiama Hasse Pais Brandão (Da voz das coisas)





DA VOZ DAS COISAS



Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.

Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.


Fiama Hasse Pais Brandão

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