30.9.13

Herberto Helder (A escrever aprende-se o que somos)





Cada texto possui o seu natural movimento interior.

Há uma escrita que corresponde ao ritmo brusco, obsessivo, repetitivo, suspenso, recorrente, problemático, descontínuo da investigação que ela mesma, escrita, é – e da realidade que cria.

Certas obsessões (até vocabulares) iluminam-se durante a realização de um texto.

A escrever é que se aprende o que somos.

Referências a objectos, situações, movimentos, aparecem como imagens ou metáforas de experiências muito antigas, como elementos da composição interior, portanto: do mundo, da vida.



- HERBERTO HELDER, Photomaton & vox (Em volta de), 2006.


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Roberto Bolaño (Lê os velhos poetas)





Lee a los viejos poetas, hijo mío
y no te arrepentirás
Entre las telarañas y las maderas podridas
de barcos varados en el Purgatorio
allí están ellos
¡cantando!
¡ridículos y heroicos!
Los viejos poetas
Palpitantes en sus ofrendas
Nómades abiertos en canal y ofrecidos
a la Nada
(pero ellos no viven en la Nada
sino en los Sueños)
Lee a los viejos poetas
y cuida sus libros
Es uno de los pocos consejos
que te puede dar tu padre

Roberto Bolaño



Lê os velhos poetas, meu filho
e não te arrependerás
No meio de teias de aranha e madeiras apodrecidas
de barcos varados no Purgatório
aí estão eles cantando!
ridículos e heróicos!
Os velhos poetas
Palpitantes em suas oferendas
Nómadas oferecidos ao Nada
(mas eles não vivem no Nada
vivem nos Sonhos)
Lê os velhos poetas
e cuida seus livros
É um dos poucos conselhos
que teu pai te pode dar

(Trad. A.M.)

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29.9.13

Manuel Bandeira (Brisa)





BRISA



Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros,
minhas riquezas, minha vergonha.
Deixarás aqui tua filha, tua avó,
teu marido, teu amante.
Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.


Manuel Bandeira

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28.9.13

Ernesto Pérez Vallejo (Vou mentir)





Vou mentir, odiar, drogar-me,
buscar-me para encontrar-me
e tornar a perder-me,
rir, chorar, amaldiçoar-te,

mas sobretudo esquecer

esquecer
que não esqueço
que não consigo esquecer-te.


Ernesto Pérez Vallejo

(Trad. A.M.)



>>  De Laura y otras muertes / Los lunes que te debo (blogue) / Facebook


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27.9.13

Nuno Camarneiro (Somos todos uns sentimentais)





Somos todos uns sentimentais e por isso demoramos no que nos dói.

Temos o choro fácil que dá ou não dá em lágrimas, guardamos as dores cheias de pormenor enquanto as felicidades ficam por ali, confusas, com algumas caras, alguns sons, incertas e vagas.

Lembramos os sapatos que calçávamos quando alguém morreu, a hora da notícia, o programa que passava nesse instante e até as vergonhas que pensámos.

Folheemos as páginas do riso e pouco encontraremos, algumas frases, momentos caricatos, elementos de uma paisagem.

Pouco e mal contado, estávamos distraídos, demasiado ocupados na felicidade para lhe fazermos o retrato.

Somos tolos e sentimentais, temos arcas cheias de mágoas que não esquecemos e que abrimos a todo o momento a ver se ainda nos doem, e doem sempre.

Descuramos o arquivo do bem que apesar de tudo nos vai acontecendo, somos tolos de lágrimas.


- NUNO CAMARNEIRO, Debaixo de algum céu, 2013 (Narrador).

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Piedad Bonnett (Labirinto)




LABERINTO


Condenada a ser sombra de tu sombra,
a soñar con tu nombre en cada madrugada.
Por la ventana abierta un olor errabundo
de vida -¿y tú en que calle?-
un temblor en la luz,
el llanto de algún niño.

Y tus ojos cerrados,
o tus ojos abiertos como dos golondrinas,
y tu mano en el agua o tu mano en tu pelo
o tu mano en el aire con su triste blandura,
-¿y en qué calle tus pasos?-
y yo en sueños atada al hilo de tus sueños,
condenada a ser sombra de tu sombra,
a soñar con tu nombre en cada madrugada.

Piedad Bonnett



Condenada a ser sombra da tua sombra,
a sonhar com teu nome na madrugada.
Pela janela aberta um cheiro de vida
pairando - e tu em que rua –
um tremor na luz,
o pranto de alguma criança.

E teus olhos fechados,
ou teus olhos abertos como andorinhas,
e tua mão na água ou no cabelo
ou então no ar com sua triste brandura
– e em que rua teus passos –
e eu sonhando presa ao fio de teus sonhos,
condenada a ser sombra da tua sombra,
a sonhar com teu nome na madrugada.

(Trad. A.M.)

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26.9.13

Cecília Meireles (Morro do que há no mundo)





Morro do que há no mundo:
do que vi, do que ouvi.
Morro do que vivi.
Morro comigo, apenas:
com lembranças amadas,
porém desesperadas.
Morro cheia de assombro
por não sentir em mim
nem princípio nem fim.
Morro: e a circunferência
fica, em redor, fechada.
Dentro sou tudo e nada.


Cecília Meireles

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25.9.13

Pepe Ramos (Declaração do pagafantas)





DECLARACIÓN DEL PAGAFANTAS (*)



Voy a quererte
por amor al arte de quererte.

Voy a quererte a fondo perdido,
en vano, en balde, en saco roto,
incluso vestida.

Voy a quererte
apestando a Benedetti y a Platón,
al modo de los que son tan buenos
que parecen tontos.

Voy a quererte hasta sin querer
y voy a madrugar también
para hacerlo adrede.

Voy a quererte quieras o no quieras,
a quererte muy a pesar tuyo,
mucho más que tú a ti misma.

Voy a quererte tan bien, tan bien
que si un día, por lo que sea,
me correspondes,
me das un disgusto.

Pepe Ramos

[Pepe Ramos]



Vou amar-te
por amor à arte de amar-te.

Vou amar-te a fundo perdido,
em vão, debalde, a saco roto,
até vestida.

Vou amar-te
a tresandar a Platão e Benedetti
à maneira dos que são tão bons
que até parecem tolos.

Vou querer-te até sem querer
e vou mesmo madrugar
para o fazer adrede.

Vou querer-te queiras ou não,
querer-te apesar de ti,
muito mais que tu a ti mesma.

Vou amar-te tão bem, tão bem,
que, se por acaso um dia
me corresponderes,
vais dar-me um grande desgosto.

(Trad. A.M.)



(*) Wiktionary

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24.9.13

Corpo presente (40)





RECADO NO FEICEBUQUE



Oxalá tropeces na lembrança
E caias
E te firas
E te doa
Muito

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Jaime Sabines (Espero curar-me de ti-2)





Espero curar-me de ti em alguns dias,
tenho de deixar de fumar-te, de beber, de te pensar.
Pode ser,
seguindo as prescrições da moral vigente,
a receita é tempo, abstinência, solidão.

Achas bem que deixe de te querer em uma semana?
Muito não é, nem pouco, é o bastante,
numa semana podem juntar-se todas as palavras de amor
já pronunciadas na terra,
e pegar-lhes fogo.
Hei-de aquecer-te nessa fogueira de amor queimado.
E no silêncio também,
porque as melhores palavras de amor
são as de duas pessoas que não se dizem nada.

É preciso queimar também a outra linguagem
de quem ama, lateral e subversiva.
(Tu sabes como eu digo que te quero, quando digo:
"mas que calor", "dá-me água", "sabes conduzir?", "é noite já".
Ao pé de pessoas, dos teus e dos meus, eu disse-te
"já é tarde", e tu sabias que eu dizia "amo-te").

Uma semana mais para juntar o amor todo do tempo;
e dar-to,
para tu fazeres dele o que quiseres,
guardá-lo, acariciá-lo, jogá-lo no lixo.
Não presta, está certo.
Quero só uma semana para ver se entendo as coisas,
porque isto parece-se muito com estar a sair
do manicómio para entrar no panteão.


Jaime Sabines

(Trad. A.M.)

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23.9.13

Affonso Romano de Sant'Anna (Amar a morte)





AMAR A MORTE



Amar de peito aberto a morte.
Não de esguelha, de frente.
Amar a morte,
digamos,
despudoradamente.
Amá-la como se ama
uma bela mulher
e inteligente. Amá-la
diariamente
sabendo que por mais
que a amemos
ela se deitará
com uns e outros
indiferente.

Affonso Romano de Sant’Anna



>>  Affonso Romano (blogue) / Jornal de Poesia (33p) / As Tormentas  (12p) / Releituras (12p) / Poesias (14p) / Wikipedia

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22.9.13

Javier Salvago (Essa miúda)





ESA CHICA



Había renunciado, como un muerto,
a la vida, al placer. Me limitaba
a resistir —como un superviviente
el día después— cuando llegaste tú.
No hubo ningún milagro, aunque tampoco
lo esperaba. En el cielo, las estrellas
siguieron alumbrando indiferentes,
ajenas a nosotros.
Aquí abajo
nada cambió. El mundo siguió siendo
el infierno de siempre. Los diarios
siguieron vomitando corrupciones,
atentados, catástrofes... No puedo
ni siquiera decir que mejorase
mi opinión del amor. Por no cambiar,
no cambió ni mi suerte. —Soy el mismo
pertinaz perdedor.—
La diferencia
es sólo que estás tú y que contigo
todo es más soportable. Hasta la vida
vuelve a ser un placer
cuando estamos a gusto.

Javier Salvago



Como um morto, eu tinha renunciado
à vida, ao prazer. Limitava-me
a resistir – como um sobrevivente
no dia seguinte – quando chegaste tu.
Não houve milagre nenhum, nem eu
sequer o esperava. As estrelas, no céu,
continuaram a alumiar indiferentes,
alheias a todos nós.
Aqui em baixo
nada mudou. O mundo continuou a ser
o inferno de sempre. Os jornais
continuaram a vomitar corrupções,
atentados, catástrofes... Nem posso
sequer dizer que melhorasse
a minha opinião do amor. Por não mudar,
nem a minha sorte mudou. – Sou o mesmo
pertinaz perdedor. –
A diferença
está em que existes tu e contigo
é tudo mais suportável. Até a vida
volta a ser um prazer
quando nos sentimos a gosto.

(Trad. A.M.)

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21.9.13

Herberto Helder (A água cai em cordões)





A água cai em cordões verticais e vivos, cantando.

Cria-se uma nova, ou muito velha, espécie de solidão em que o súbito gosto da pureza se mistura ao temor.

A água é uma delicadíssima e exaltante matéria.

Talvez os homens desejassem estender-lhe as mãos voltando-as de todos os lados para ficarem bem molhadas.

Uma água vasta e nua, uma água maternal.



- HERBERTO HELDER, Photomaton & vox (Uma ilha em sketches), 2006.

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Francisco Urondo (Não me posso queixar)





NO PUEDO QUEJARME



Estoy con pocos amigos y los que hay
suelen estar lejos y me ha quedado
un regusto que tengo al alcance de la mano
como un arma de fuego. La usaré para nobles
empresas: derrotar al enemigo –salud
y suerte– hablar humildemente
de estas posibilidades amenazantes.
Espero que el rencor no intercepte
el perdón, el aire
lejano de los afectos que preciso: que el rigor
no se convierta en el vidrio de los muertos; tengo
curiosidad por saber qué cosas dirán de mí; después
de mi muerte; cuáles serán tus versiones del amor, de estas
afinidades tan desencontradas,
porque mis amigos suelen ser como las señales
de mi vida, una suerte trágica, dándome
todo lo que no está. Prematuramente, con un pie
en cada labio de esta grieta que se abre
a los pies de mi gloria: saludo a todos, me tapo
la nariz y me dejo tragar por el abismo.

Francisco Urondo



Tenho poucos amigos e os que tenho
estão longe, daí me ficar um gosto na boca
que tenho à mão de semear
como uma arma de fogo. Usá-la-ei
para nobres tarefas, como derrotar o inimigo
– saúde e sorte – ou falar humildemente
de possibilidades intimidantes.
Espero que o rancor não tolha
o perdão, nem o ar distante
dos afectos que preciso, nem o rigor
se converta no vidro dos mortos.
Bem queria eu saber o que dirão de mim,
depois de eu morrer, o que dirás tu do amor,
destas afinidades tão desencontradas.
Porque meus amigos são como meus
signos de vida, uma sorte trágica, dando-me
tudo aquilo que não há.
Prematuramente, com um pé
em cada lábio desta fenda a abrir-se
aos pés da minha glória: a todos saúdo,
tapo o nariz e deixo que o abismo me trague.

(Trad. A.M.)

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20.9.13

Jorge de Sena (Glosa à chegada do Outono)




GLOSA À CHEGADA DO OUTONO



O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
esse pousar em que não estamos nós,
mas uma sede, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.


Jorge de Sena


[Luz & sombra]

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19.9.13

Mário de Carvalho (Imperialmente pago)





Um dia, leitor, hei-de contar as ânsias e tormentos com que se vai martelando esta artesania da escrita, em que ainda sobrevive a mão do caldeireiro ou, talvez, do fazedor de autómatos, e explicar como é desolador chegar ao nascer da roxa aurora e ao rumor dos primeiros autocarros apenas com duas ou três páginas sofrivelmente apontadas.

Só este trabalho de minuciosa lavra, em traiçoeira brenha, não contando com o resto, havia de ser, não principescamente, não regiamente, mas imperialmente pago.



- MÁRIO DE CARVALHO, Fantasia para dois coronéis e uma piscina, Caminho (2003).

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Pedro Casariego (Nossas palavras)





Nuestras palabras
nos impiden hablar.
Parecía imposible.
Nuestras propias palabras.

"En cierto sentido todas las vidas son una misma cosa,
ya que cada vida es una cuerda.
Pero unas cuerdas sirven para saltar a la comba
y otras para ahorcarse con ellas".

Y aquí entre dos calmas
lejos del cementerio
abro un libro de silencios
por la página de tu espalda
y encuentro la palabra alegría
y la palabra alegría lleva acento
y yo se lo quito
y te lo pongo en la nuca.

Pedro Casariego



As palavras
impedem-nos a fala.
Parece impossível,
nossas próprias palavras.

“Em certo sentido todas as vidas são a mesma coisa,
pois cada vida é uma corda.
Mas algumas cordas servem para saltar
e outras para enforcar".

E aqui entre duas calmas
longe do cemitério
abro um livro de silêncios
na página das tuas costas
e topo a palavra alegria
e tal palavra tem acento
e eu tiro-lho
e ponho-to em cima da nuca.

(Trad. A.M.)

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18.9.13

Ana Luísa Amaral (Testamento)





TESTAMENTO



Vou partir de avião
E o medo das alturas misturado comigo
Faz-me tomar calmantes
E ter sonhos confusos

Se eu morrer
Quero que a minha filha não se esqueça de mim
Que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada
E que lhe ofereçam fantasia
Mais que um horário certo
Ou uma cama bem feita

Dêem-lhe amor e ver
Dentro das coisas
Sonhar com sóis azuis e céus brilhantes
Em vez de lhe ensinarem contas de somar
E a descascar batatas

Preparem minha filha para a vida
Se eu morrer de avião
E ficar despegada do meu corpo
E for átomo livre lá no céu

Que se lembre de mim
A minha filha
E mais tarde que diga à sua filha
Que eu voei lá no céu
E fui contentamento deslumbrado
Ao ver na sua casa as contas de somar erradas
E as batatas no saco esquecidas
E íntegras.


Ana Luísa Amaral



>>  nEscritas (10p/amor) / Um buraco na sombra (9p+linques) / Arlindo Correia (4p+linques) / Poesias e prosas (7p) / Poems from the portuguese (6p) / Wikipedia

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17.9.13

Paco Moral (Suave chega a noite)





SUAVE VIENE LA NOCHE



Suavemente la noche se te acerca,
como el pulso del mundo
se parece a tus labios.
Suave viene la noche,
como si una cascada de panteras
te subiera despacio
por la vida.
No hay dolor.
No queda ya dolor
ni sensaciones turbias
ni edificios en ruina.

La noche viene dulce
como una vieja amante que volviera,
y ya no sientes nada,
ni siquiera la angustia
de mirarte al espejo
y hacer muecas horribles para ponerte fea
como cuando eras niña
de los cuentos.
Viene la noche tibia
y en tu piel hay heridas de noviembre,
reflejos de jarrones de Pompeya,
vestales de otro tiempo,
anillos de amatista
o lapislázuli
y un ardor de Vesubio en tus pezones
devorados a fuerza de derrotas.
Suave viene la noche
para ti,
mujer de piedra,
reina de mi sueño,
ahora que empieza a despuntar el día.

Paco Moral



Suavemente aproxima-se a noite,
como o pulsar do mundo
se cola a teus lábios.
Suave chega a noite,
cascata de panteras
que devagar
te subisse pela vida.
Não há dor,
não resta já dor,
nem turvas sensações,
nem casas em ruína.

A noite chega doce
como velha amante que voltasse,
e tu já não sentes nada,
nem sequer a angústia
de te veres ao espelho
e fazeres caretas para parecer feia,
como em menina
no tempo das histórias.
Chega a noite tépida
e na tua pele há feridas de Novembro,
reflexos de jarrões de Pompeia,
vestais de outro tempo,
anéis de ametista
ou lápis lazúli
e um ardor de Vesúvio nos teus mamilos
devorados à força de derrotas.
Suave a noite chega
para ti,
mulher de pedra,
rainha do meu sono,
agora que começa a despontar o dia.

(Trad. A.M.)



>>  Libro de las cartas / Facebook / Tu conmigo (2p) / Singularia Tantum (nota e p)

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16.9.13

Coitado do Jorge (81)

 



MILLE E TRE



Calma...

Com jeito ainda chegas a mil e três.

(Quantas te faltam, mil?)

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Pedro Andreu (Perder-me-ei devagar)





Me perderé despacio
en tus rincones, en el preciso
hoyuelo de tu risa,
en las comisuras de tus ojos
—perdón, quise decir tu boca.
A veces me confundo:
es tan compleja y rica
toda tu anatomía.
Olvidarme del tedio,
del mundo ardido
que dicen que rompimos,
pero que destrozaron otros.
Dejar plantado mi trabajo,
escupir a mi jefe lo que pienso
de los Servicios Sociales,
desconducir mi coche
cincuenta y dos kilómetros
hasta la calle donde te tiene esclava
una oficina, gritarle basta
a los teléfonos, romper la cremallera
de los meses iguales,
setenta y tres centímetros
de espalda y de deseo: saberte viva
al fin, libre como internet,
como los yayoflautas
o las plantas que crecen
salvajes en las tejas.
Fundar mi patria, la tuya,
nuestra tierra
en dos metros de cama.
Acariciar palabras boca a boca.
Hasta que nada duela tanto.
Hasta que tanto duela nada.
Hasta que el mundo finja
que nos quiere y se digne
—por fin— a ser feliz.

Pedro Andreu

[Las afinidades electivas]



Perder-me-ei devagar
em teus recantos, nas
covinhas do sorriso,
nas comissuras dos olhos
– perdão, da tua boca.
Confundo-me às vezes,
tão rica e complexa
que é a tua anatomia.
Esquecer-me do tédio,
do mundo ardido
que dizem que rasgámos,
mas que outros destroçaram.
Abandonar o trabalho,
cuspir sobre o chefe o que penso
dos Serviços Sociais,
desconduzir o meu carro
cinquenta e dois quilómetros
até à rua onde um escritório
te escraviza, berrar basta
aos telefones, partir a cremalheira
dos meses iguais,
setenta e três centímetros
de costas e de desejo, saber-te
viva por fim, livre como a internet,
como os yayoflautas
ou as plantas que crescem
bravias no telhado.
Fundar minha pátria, a tua,
terra nossa
em dois metros de cama.
Afagar palavras boca a boca.
Até que nada doa tanto.
Até que tanto doa nada.
Até que o mundo finja
que nos ama e se digne
– por fim – a ser feliz.

(Trad. A.M.)

,

15.9.13

Raymond Carver (Naturalmente)





NATURALLY



A break in the clouds.
The solid profile of the Blue Mountains
that cut the horizon.
The muted yellow of the stubble.
The river very black.
What am I doing in this place,
alone and full of guilt?
I wonder.

I eat the berries from the source.
Without problems. If I was dead,
I told to myself, I could not taste them.
Nothing is so simple.
Yes, everything is that simple. Naturally.

Raymond Carver

[Musa 71]



Uma aberta nas nuvens,
o perfil maciço das Blue Mountains
recortando o horizonte,
o desmaiado amarelo do restolho,
o rio muito negro.
O que faço eu aqui,
sozinho e carregado de culpa?
Interrogo-me.

Como as bagas da fonte,
sem problema. Se estivesse morto,
digo para os meus botões, não poderia saboreá-las.
Nada é tão simples assim.
Aliás, é tudo muito simples. Naturalmente.

(Trad. A.M.)

.

14.9.13

Jenaro Talens (Testamento do Drácula)





EL TESTAMENTO DE DRÁCULA



Estas son mis palabras,
mis últimas palabras.
Crecen en torno a mí sin que yo las vigile,
luego retornan a mi boca
y en ella se aposentan para pasar la noche.
Las digo en voz tan baja que ni tú las escuchas
a ras de suelo, tan inaprensibles
que hasta las piedras las absorben.
Todo es posible aquí. Tan sólo yo
soy imposible, un rostro
sin color ni volumen
por estas galerías donde se repiten
espejos en espejos. Todos están deshabitados.
Nada devuelve su espesor, salvo una luz confusa,
dibujando mi ausencia entre los vidrios rotos.
Narciso fui cuando vivía.
Mientras no estuve en el arcén del tiempo,
lo miraba pasar. La muerte ahora
es la venganza de los otros, de
esos otros extraños a quienes amé
sin proyectarme en ellos. Ven a mí.
No te haré ningún daño. Sabe que
de soledad en soledad
huí de un cúmulo de eternidades
para cruzar la tierra. Fui viajero,
me deslicé hasta sombras que antes no conocí,
y en este exilio, cuando miro atrás,
pienso en el sueño de los justos:
un islote de espuma saturada de azul.
Tal vez los fríos del invierno sean piadosos conmigo.
Sé que sobre mi tumba nacerán flores amarillas.

Jenaro Talens



Estas são as minhas palavras,
minhas últimas palavras.
Crescem à minha volta sem eu as vigiar,
depois tornam-me à boca
e ali se instalam a passar a noite.
Pronuncio-as em voz baixa que nem tu as ouves
ao rés da terra, imperceptíveis
que até as absorvem as pedras.
Tudo é possível aqui. Só eu
sou impossível, um rosto
sem volume nem cor
por estas galerias em que se repetem
espelhos sobre espelhos. Todos desabitados.
Nada reflecte a espessura, salvo uma luz confusa,
desenhando-me a ausência por entre os vidros partidos.
Narciso fui enquanto vivia.
Enquanto não estava na berma do tempo,
via-o passar. Agora a morte
é a vingança dos outros,
desses estranhos a quem amei
sem neles me projectar. Anda cá, vem,
que eu não te faço mal. Fica a saber que
de solidão em solidão
escapei a mil eternidades
para atravessar a terra. Fui viajante,
deslizei até sombras que desconhecia
e neste exílio, quando olho para trás,
penso no sonho dos justos,
uma ilha de espuma saturada de azul.
Talvez sejam piedosos comigo, os frios do Inverno,
flores amarelas hão-de nascer no meu túmulo .

(Trad. A.M.)

.



13.9.13

Mário de Carvalho (A simpleza repugna aos portugueses)





Entre a poeirada de adversidades que ensombram e inquinam a já de si pequenina qualidade de vida dos portugueses existe uma prática ilegal e, portanto, livremente exercida, chamada ‘estacionamento em segunda fila’.

Consiste em alinhar automóveis ao lado daqueles que já estão arrumados, bloqueando-lhes a saída.

Em Portugal, em qualquer ocasião, sempre que ao olhar se oferece um bom lugar, é mister fazer-lhe a crítica e interrogá-lo extensamente.

Há campo para sair pelo lado do passeio?

Há espaço suficiente para?...

Convém antecipar todas as malfeitorias aptas a impedir-nos de usar de um direito ou de uma facilidade.

Porque é evidente que as circunstâncias da lusa vivência não consentem que um cidadão deixe o seu carro bem estacionado e vá, descansado, à sua vida.

Isso seria demasiado simples.

E a simpleza repugna aos portugueses.


- MÁRIO DE CARVALHO, Fantasia para dois coronéis e uma piscina, Caminho (2003), 53.

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Pedro A. González Moreno (Para uma poética)





PARA UNA POÉTICA



Aquella mariposa
con el abdomen atravesado por el frío
de un alfiler, no es ya
la mariposa. Ella
aún está en la flor,
sobrevolándola;
está enredada entre el color y el polen,
viva aún en el roce que dejó en sus estambres.

Tampoco es ya el poema
esa reseca cáscara que queda
sobre el papel, la frágil
arquitectura de sus nombres, ese
pentagrama de sílabas que quisieran ser pájaro.

Aquí, sobre el papel,
sólo está, bien curtida,
la piel que no revela nada más que el oficio
de un buen taxidermista.

Pero el poema
(su verdad no escrita,
sus vísceras calientes
no enfriadas aún por las palabras)
se quedó ahí, aún no pronunciado,
manando por la herida,
turbia voz del dolor,
sobrevolándonos.

Pedro A. González Moreno



Essa borboleta
com o abdómen atravessado pelo frio
do alfinete, não é já
borboleta. Ela
está ainda na flor,
a sobrevoá-la;
está enredada entre a cor e o pólen,
viva ainda no toque dos estames.

Assim também não é já poema
essa carapela resseca que fica
no papel, a frágil
arquitectura de seus nomes, esse
pentagrama de sílabas pretendendo
ser pássaro.

Aqui, no papel,
está só, bem curtida,
a pele que mais nada revela senão o ofício
da taxidermia.

Mas o poema
(sua verdade não escrita,
as suas vísceras
não esfriadas ainda pelas palavras)
ficou ali, entredito,
a escorrer pela ferida,
voz turva da dor,
a sobrevoar.

(Trad. A.M.)

.

12.9.13

Albano Martins (As palavras do pai)





AS PALAVRAS DO PAI



Olha, meu filho, esta
é a árvore
da vida. Crescerás
com ela. Às vezes
nos seus ombros colherás
lágrimas em lugar
de frutos, mas
é nos ramos mais altos
que o sonho
mora e a liberdade
floresce.


Albano Martins


[Luz & sombra]

.

11.9.13

Nicanor Parra (Três poesias)





TRES POESÍAS


1
Ya no me queda nada por decir
Todo lo que tenía que decir
Ha sido dicho no sé cuántas veces.

2
He preguntado no sé cuántas veces
Pero nadie contesta mis preguntas,
Es absolutamente necesario
Que el abismo responda de una vez
Porque ya va quedando poco tiempo.

3
Sólo una cosa es clara:
Que la carne se llena de gusanos.


Nicanor Parra


[Escomberoides]




1
Não me resta nada já para dizer
tudo o que tinha a dizer
foi dito não sei quantas vezes.

2
Perguntei não sei quantas vezes
mas ninguém responde às minhas perguntas,
é absolutamente necessário
que o abismo responda duma vez,
porque já vai sobrando pouco tempo.

3
Só uma coisa é clara,
que a carne se enche de bichos.


(Trad. A.M.)

.

10.9.13

Mário de Carvalho (Uma pulsão coloquial)





Assola o país uma pulsão coloquial que põe toda a gente em estado frenético de tagarelice, numa multiplicação ansiosa de duos, trios, ensembles, coros.

Desde os píncaros de Castro Laboreiro ao Ilhéu de Monchique fervem rumorejos, conversas, vozeios, brados que abafam e escamoteiam a paciência de alguns, os vagares de muitos e o bom senso de todos.

O falatório é causa de inúmeros despautérios, fouxas produtividades e más-criações.

Fala-se, fala-se, fala-se, em todos os sotaques, em todos os tons e decibéis, em todos os azimutes.

O país fala, fala, desunha-se a falar, e pouco do que diz tem o menor interesse.

O país não tem nada a dizer, a ensinar, a comunicar.

O país quer é aturdir-se.

E a tagarelice é o meio de aturdimento mais à mão.


- MÁRIO DE CARVALHO, Fantasia para dois coronéis e uma piscina, Caminho (2003), 11.

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Miriam Reyes (Quando tinha treze anos)





Cuando tenía trece años
y odiaba a mi padre
por engaño y abandono,
él golpeaba la mesa de mármol de la sala
y gritaba:
-Es tan fría como esta piedra
es como esta piedra.
Yo no lo sabía
no supe que era dura y fría
como el mármol blanco de la mesa
hasta aquella noche,
cuando le escuchaba acostada en mi habitación
y no lloraba.


Cada vez soy más dura
papá
ya no hay palabras tuyas
que puedan lastimarme.
Si encontraras una piedra
tan dura como yo
te sangrarían las manos de sólo mirarla.


Miriam Reyes


[Emma Gunst]



Quando tinha treze anos
e odiava meu pai
por abandono e engano,
ele batia na mesa de mármore da sala
e gritava:
- É tão fria como esta pedra
é mesmo como esta pedra.
Eu não sabia
nem soube que era dura e fria
como o mármore branco da mesa
até àquela noite,
ao ouvi-lo deitada no quarto
e sem chorar.


Cada vez sou mais dura
papá
não há já palavras tuas
que me possam lastimar.
Se achasses uma pedra
tão dura como eu
até as mãos te haviam de sangrar
só de olhá-la.

(Trad. A.M.)

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9.9.13

A.M.Pires Cabral (Foi para isso)





FOI PARA ISSO QUE OS POETAS FORAM FEITOS



semear tempestades
e assegurar que cresçam
foi para isso que os poetas foram feitos

esgrimir com a mais idónea
das espadas: a coragem
foi para isso que os poetas foram feitos

namorar a perfeição
e às vezes alcançá-la
foi para isso que os poetas foram feitos


A.M.Pires Cabral


[Hospedaria Camões]


> Para isso fomos feitos (Vinicius)

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8.9.13

Jorge Espina (Jogos de azar)

 



JOGOS DE AZAR


Para alguns poetas
o poema é como uma mão de póquer.
Sabem o que têm
e até onde podem ir com aquelas cartas.
Sabem que avançaram com blefe
e que agora
tudo depende da sorte.


JORGE ESPINA
Volver al pan, llegar a casa
Canalla Ediciones (2012)

(Trad. A.M.)

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7.9.13

Nuno Camarneiro (Uma história são pessoas)





Uma história são pessoas num lugar por algum tempo.

As margens da página, como o silêncio, estabelecem limites certos para que um conto não se confunda com o que não lhe pertence.

Pode contar-se uma história enchendo uma caixa vazia ou desenhando paredes à volta de gente.


- NUNO CAMARNEIRO, Debaixo de algum céu, 2013 (princípio).

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Jorge M. Molinero (Carta à minha viúva)





CARTA A MI VIUDA


si lees esto, estoy muerto
-siempre quise decirlo-

dona todos mis órganos
si alguno aún vale para algo

que me incineren

soy poca cosa
seguro que mis cenizas caben dentro
de ese tubo de plástico para guardar el dinero
que causó furor en las playas de los ochenta,
con una cuerda para colgarlo a modo de
nuevo crucifijo de la verdadera religión

tengo uno con la arena de mis primeras
vacaciones en la costa del Cantábrico
vacíalo

y con mis cenizas lubricadas dentro
mastúrbate

haz verdad eso de
polvo somos y en polvo
nos convertiremos

Jorge M.Molinero

[Erosionados]



se leres esta, é porque estou morto
– sempre quis dizer isto –

doa os meus órgãos todos
se algum ainda servir para algo

que me incinerem

sou coisa pouca
decerto que as cinzas cabem
nesse tubo de plástico de guardar dinheiro
que fez furor nas praias dos anos oitenta,
com um fio para o pendurar a modos
de novo crucifixo da religião verdadeira

tenho um com areia das minhas primeiras
férias na costa do Cantábrico
esvazia-o

e com as minhas cinzas lubrificadas dentro
masturba-te

faz verdade aquilo de que
pó somos e em pó
nos tornaremos

(Trad. A.M.)

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6.9.13

Alberto Pimenta (Dísticos)





DÍSTICOS


dizes:
eu é que sei quais são os interesses de todos.
e não sabes
que todos sabem também quais são os teus interesses?

dizes:
é necessário construir o futuro.
agora compreendo porque afundas o presente:
para lançares os alicerces.

dizes:
eu quero a paz.
sim, acredito.
já seria altura de gozares
o que ganhaste na guerra.


ALBERTO PIMENTA
Corpos estranhos
(1973)

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5.9.13

Francisco Urondo (É difícil amá-la)





AMARLA ES DIFÍCIL


Es buena, cuando duerme;
el calor de su cuerpo es un puñal de vidrio
que remonta los sueños.

Cuando calla, es buena
y su voz una premonición olvidada y peligrosa
que arruina el silencio.

Cuando grita o llora
o se lamenta o se divierte o se cansa,
nada puede contener
este dolor alegre que envenena
mis sueños y mi soledad.
Por eso es difícil pensar
en ella, en su cara bondadosa;
abandonarse; por eso
es una cobardía retenerla
y dejarla ir, una pavorosa crueldad.
A veces, cuando lo pienso,
no sé qué hacer con ella,
con este destino luminoso.

Francisco Urondo



É boa, quando dorme,
o calor do corpo é um punhal de vidro
que passa além dos sonhos.

Calada, é boa
e sua voz uma premunição esquecida e perigosa
que arruina o silêncio.

Quando grita ou chora
ou se lamenta ou diverte ou cansa,
nada pode conter
esta dor alegre que envenena
meus sonhos e solidão.
Por isso é difícil pensar nela,
no seu rosto bondoso;
abandonar-se; daí ser
uma cobardia retê-la
e deixá-la ir uma pavorosa crueldade.
Por vezes, penso,
não sei como fazer com ela,
com este destino luminoso.


(Trad. A.M.)



>>  Poemas del alma (17p) / El ortiba (14p) / Literatura (13p) / Arte poética (5p) / Wikipedia

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4.9.13

Herberto Helder (Uma ilha em forma de cão)





É uma ilha em forma de cão sentado com a cabeça inclinada para perscrutar o enigma da água.

O cão tem as orelhas fitas porque recebe notícias do vento ao mesmo tempo que cheira e olha o mar.

O cão está sentado no atlântico.


- HERBERTO HELDER, Photomaton & vox (Uma ilha em sketches), 2006.

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Miguel d'Ors (As time goes by)





AS TIME GOES BY



Decir pestes de él tiene, sin duda,
un sólido prestigio literario
-tacharlo de asesino, por ejemplo,
o compararlo con
uno de esos ciclones con nombre de corista
que pasan y que dejan en los telediarios
un paisaje de grandes palmeras derrocadas
y uralitas errantes,
o simplemente lamentarlo a base
de tardes y de otoños en pálidos jardines-,
pero ahora, con la mano en el poema,
os lo confieso: he sido siempre yo
el que salió ganando de todos nuestros tratos.
A cambio de esta luz sabia y serena
con la que la experiencia ilumina las cosas
a mí se me ha llevado
sólo la juventud, ese divino
tesoro que no sirve para nada
-ya lo dijo Mark Twain- puesto en las manos
insensatas de un joven.

Miguel d’Ors



Dizer mal dele, é claro,
tem um sólido prestígio literário,
- tachá-lo de assassino, por exemplo,
ou compará-lo a
um desses ciclones com nome de corista
que passam e deixam nos telejornais
uma paisagem de grandes palmeiras por terra
e errantes pedregulhos,
ou apenas lamentá-lo à base
de tardes e outonos em pálidos jardins -
mas agora confesso-vos,
com a mão no poema: fui eu sempre
quem saiu a ganhar dos nossos tratos.
Em troca desta luz sábia e serena
com que a experiência ilumina as coisas,
a mim levou-me
só a juventude, esse tesouro divino
que não serve para nada
- como disse Mark Twain - nas mãos
insensatas de um jovem.

(Trad. A.M.)


> Outra versão: O melhor amigo

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3.9.13

Rui Pires Cabral (Outro castelo)





OUTRO CASTELO



A melhor parte da minha juventude
entreguei-a à imatura ambição
da arqueologia, aos dias passados
na serra entre ruínas crestadas
pelo resplendor de Agosto.
Algumas fotografias sobrevivem
dessa época, mostram muros
derruídos e esconsos alicerces
ou túmulos cavados em penedos
com uma régua de desenho
para escala: não tinha então
do tempo ou da morte
uma ideia mais própria
e imediata.

              Ao revisitar convosco
um dos perdidos castelos
desses anos, quase me doeu
que aquela beleza inteira
pudesse ter persistido
na sua inalterada solidão,
enquanto o verde do planalto
estendia o mesmo sossego
em todas as direcções.
Ali em cima, afinal,
a única mudança
estava em mim –

                    e a vossa presença,
amigos feitos noutra terra
e noutra idade, tornava
mais exacto o sentimento
de ter regressado irreconhecível
a um lugar do meu passado,
apenas para adivinhar
uma distância que não se vence
e o espectro de outro castelo
ao qual não é possível regressar.


Rui Pires Cabral


[Hospedaria Camões]

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2.9.13

Mario Benedetti (O silêncio)





EL SILENCIO



Qué espléndida laguna es el silencio
allá en la orilla una campana espera
pero nadie se anima a hundir un remo
en el espejo de las aguas quietas

Mario Benedetti




Que esplêndida lagoa o silêncio
um sino espera além na margem
mas ninguém se anima a afundar um remo
no espelho das águas paradas

(Trad. A.M.)

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1.9.13

Coitado do Jorge (80)





DEBAIXO DA BUGANVÍLIA



M. fuma, muito.

Mesmo pela rua fora, a andar, o que eu acho o máximo (do mínimo).

Na última noite de lua cheia, debaixo da buganvília, trepava eu por ela acima – numa mão a flute, na outra a garrafa – a boca quase roçando o relicário dos beijos, escapou-me a declaração:

- “Bah, que se lixe o Macário Correia”!

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Javier Lasheras (Súplica)





PLEGARIA



No te vuelvas loca,
no regreses, ni se te ocurra
y por lo que más quieras
suplica el olvido,
reza o invoca al diablo
si te hace falta.
Haz cualquier cosa
pero no vuelvas
porque si no, algún día,
sin aviso, nos cubrirá
el odio más exacto y claro
que jamás hayas visto.
Así es mejor, perra mía,
así es mejor.


Javier Lasheras




Não sejas louca,
não voltes, nem penses
e por quem és
suplica o esquecimento,
pede ajuda ao diabo
se preciso for.
Faz tudo e mais alguma coisa
mas não voltes
porque senão, um dia,
sem aviso, vai-nos cobrir
o ódio mais exacto e claro
que alguma vez viste.
É melhor assim, cachorra,
é melhor assim.

(Trad. A.M.)

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