31.10.12

Fernando Namora (Aula de anatomia)





Por detrás dos que desnudavam o relevo sanguíneo dos músculos, abrindo rasgões na pele esverdeada, outros bisturis e outras pinças esperavam a sua vez de ir mais longe, a desvendar planos inacessíveis, bainhas, cordões, tecidos duros ou adiposos, todos eles de uma viscosidade abjecta.

Deixava-se um corpo humano esclarecido até à sátira.

Um braço, um crânio, um ventre estropiado – destroços que a carroça do lixo iria despejar mais tarde.

As batas manchavam-se do sebo das mesas, impregnavam-se do cheiro da carne decomposta, o enjoo empalidecia as faces dos mais sensíveis.

O assistente ia e vinha entre as mesas anatómicas, de cabelos eriçados como se cada passada o aproximasse de uma briga, e os resmungos que lhe escorriam do infatigável cigarro pareciam triturados pelas maxilas.



- FERNANDO NAMORA, Fogo na Noite Escura, 1.ª-I.


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Miguel d'Ors (E como condenados)





Y como sentenciados,
a espaldas de las horas despiadadas,
al viento confiamos
clandestinos mensajes, testimonios
de que pasamos, de que comprendimos
y tuvimos un breve señorío

para que nadie pueda
confundirnos mañana con la nada.


Miguel d’Ors



E como condenados,
por trás de horas desapiedadas,
ao vento confiamos
clandestinas mensagens, testemunhos
de que passamos, de que compreendemos
e tivemos um breve senhorio

para que ninguém
nos confunda
amanhã com o nada.


(Trad. A.M.)

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29.10.12

Jordi Doce (Díptico)





DÍPTICO



No hay luz sino estupor de luz
en este jardín abrasado
de frío y lenta escarcha donde
alguien cuya sombra te evoca
remueve sin prisa la tierra
y deja en los surcos un hilo
de luz fría donde mis ojos
desde esta página te anuncian
y dicen verte, aunque no estés.

Hago inventario de tu ausencia:
ojos no usados, aire intacto,
las horas como lumbre escasa
que el aire no aventa ni excita.
En todo espío transparencias,
temblor que es tu cuerpo inasible.
Hago inventario de tu ausencia
para que sepas de tu vida
a mi lado, cuando no estás.


Jordi Doce



Não há luz mas sim assombro de luz
neste jardim abrasado
de frio e lento orvalho onde
alguém que evoca a tua sombra
remove a terra sem pressa
e deixa nos sulcos um fio
de luz fria onde meus olhos
te anunciam desta página
e dizem ver-te, mesmo ausente.

Faço inventário da tua ausência:
olhos sem uso, ar intacto,
as horas lume escasso
que o ar não sopra nem excita.
Em tudo vejo transparências,
tremor de teu corpo intocável.
Faço inventário da tua ausência
para saberes da tua vida
a meu lado, quando não estás.


(Trad. A.M.)



>>  A media voz (13p) / Portal de poesia (antologia / 1990-2002) / Jordi Doce (blogue) / Wikipedia

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28.10.12

Ver (118)






José Saramago
José Carlos Mestre
Roberto Bolaño





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Mario Benedetti (Estou convencido que não existes)





Tengo la convicción de que no existes
y sin embargo te oigo cada noche

te invento a veces con mi vanidad
o mi desolación o mi modorra

del infinito mar viene tu asombro
lo escucho como un salmo y pese a todo

tan convencido estoy de que no existes
que te aguardo en mi sueño para luego


Mario Benedetti


[Escomberoides]




Estou convencido que não existes
todavia ouço-te em cada noite

invento-te às vezes com minha vaidade
minha desolação ou modorra

do mar infinito vem teu assombro
que escuto como um salmo e apesar de tudo

tão convencido estou de que não existes
que te aguardo em meu sonho mais logo


(Trad. A.M.)


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27.10.12

Ruy Cinatti (Quando o amor morrer)




Quando o amor morrer dentro de ti,
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobra as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do templo onde a vida ora de bruços
A Deus e aos sonho que gelaram.


Ruy Cinatti


[nEscritas]

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26.10.12

Marino Muñoz Lagos (Bar cosmopolita)





BAR COSMOPOLITA



Arribamos al mesón como un barco
se acomoda a los muelles.

El bar respira el humo azul
de numerosos tabacos distintos
y apenas alcanzamos a distinguir
los gestos de la cantinera.

Se habla de largos viajes
y los parroquianos más ebrios
se miran en los fantasmas que surgen
de los espejos trizados.

De improviso se abre una puerta
al golpe del viento
y todos nos vemos navegando
en un mar de tinieblas
rumbo a la embriaguez más espantosa.


Marino Muñoz Lagos


[Inmaculada Decepción]




Arribamos à taberna como um barco
atraca ao molhe.

O bar respira o fumo azul
de muitos tabacos diferentes
e mal se conseguem distinguir
os gestos da empregada.

Fala-se de longas viagens
e os fregueses mais ébrios
olham-se nos fantasmas que surgem
dos espelhos rachados.

De repente abre-se uma porta
com o vento
e vemo-nos todos a navegar
num mar de trevas
rumo à mais espantosa embriaguez.


(Trad. A.M.)




25.10.12

Fernando Namora (A cidade alta)





As casas altas e velhas quase se tocavam com os dedos.

O sol, mesmo no pino do Verão, jamais conseguia trepar a barreira dos telhados a sorvera humidade viscosa que permanecia nas ruas de uns Invernos para os outros.

E ali viviam formigueiros de gente pobre.

As portas espreitavam a claridade pelos postigos abertos, desvendando sem escrúpulos a intimidade dos lares à bisbilhotice, já farta, dos transeuntes.

As crianças, aos domingos, eram expulsas de casa para que os mais velhos tivessem espaço e sossego para conversar, discutir e preencher as horas vazias com pequenas tarefas domésticas.

Enquanto as mulheres preparavam as roupas domingueiras, os homens, impacientes por sair, andavam de um lado para o outro à procura de um tema de discussão.

As palavras duras eram um hábito.

Mas por detrás delas estava a ternura e as mulheres sabiam descobri-la.

Operários conversando de uma janela para outra.

Pregões.



- FERNANDO NAMORA, Fogo na Noite Escura, 2.ª-IV.

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Isabel Pérez Montalbán (Herança)





LA HERENCIA



El frío inconsolable de los pobres.
No basta la abundancia para arropar el frío
que se hereda en los genes y nace del escombro.
No hay leña que derrita tanta nieve embrionaria.
Se encienden chimeneas. Con la lana se teje un sol,
un armario de soles, un paño de artificio.
Se adquieren edredones como un nido de pájaros.
Y el frío, por debajo, permanece.
De la médula vuelve la trastienda del hielo
a cubrirme los ojos como sangre reseca.


Ya todo es negritud, glaciar y sangre.
Por mis venas se espesa la eutanasia de un río,
el brutal abandono de la mano paterna,
los hermanos perdidos en la prisa de un puente.
La enfermedad congénita me vigila larvada,
se burla de mi huida cuando cambio de nombre
y usurpo los derechos de otra vida.
Ya todo es cicatriz, hospital y alacranes.


Se conquistan los barrios, la blancura
de las liendres y el suero. Se aprende la costumbre.
Se accede a la oficina, al ropaje, a la fiebre,
al calor esponjoso de los cuerpos.
Y el frío, sin embargo, permanece.


Isabel Pérez Montalbán





O frio inconsolável dos pobres.
Não basta a abundância para abrigar do frio
que se herda nos genes e nasce do entulho.
Não há lenha que derreta tanta neve primitiva.
Acendem-se fogueiras. Tece-se um sol com a lã,
uma quantidade de sóis, uma manta de fábrica.
Compram-se edredões tipo ninho de pássaros.
E o frio, por baixo, permanece.
Volta da medula a traseira do gelo
cobrindo-me os olhos como sangue seco.


Tudo é negridão, glaciar e sangue.
Engrossa-me nas veias a eutanásia de um rio,
o abandono brutal da mão paterna,
os irmãos perdidos na pressa de uma ponte.
A doença congénita vigia-me larvar,
evitando a minha fuga quando troco de nome
e usurpo os direitos de outra vida.
Tudo é cicatriz, hospital e escorpiões.


Conquistam-se os bairros, a brancura
das lêndeas e o soro. Aprende-se o costume.
Acede-se ao serviço, ao vestuário, à febre,
ao calor esponjoso dos corpos.
E o frio, no entanto, permanece.


(Trad. A.M.)




>>  Cartas de amor de un comunista (Poemas) / Los genes australes (Poemas) / Jesus Felipe (7p) / Las afinidades electivas (3p) / Hwebra (3p) / Wikipedia

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24.10.12

Miguel Torga (Comunicado)





COMUNICADO



Na frente ocidental nada de novo.
O povo
Continua a resistir.
Sem ninguém que lhe valha,
Geme e trabalha
Até cair.


Miguel Torga



[O meu instante]


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23.10.12

Roque Dalton (Porque escrevemos)





POR QUÉ ESCRIBIMOS



Uno hace versos y ama
la extraña risa de los niños,
el subsuelo del hombre
que en las ciudades ácidas disfraza su leyenda,
la instauración de la alegría
que profetiza el humo de las fábricas.
Uno tiene en las manos un pequeño país,
horribles fechas,
muertos como cuchillos exigentes,
obispos venenosos,
inmensos jóvenes de pie
sin más edad que la esperanza,
rebeldes panaderas con más poder que un lirio,
sastres como la vida,
páginas, novias,
esporádico pan, hijos enfermos,
abogados traidores
nietos de la sentencia y lo que fueron
bodas desperdiciadas de impotente varón,
madre, pupilas, puentes,
rotas fotografías y programas.
Uno se va a morir,
mañana,
un año,
un mes sin pétalos dormidos:
disperso va a quedar bajo la tierra
y vendrán nuevos hombres
pidiendo panoramas.
Preguntarán qué fuimos,
quienes con llamas puras les antecedieron,
a quienes maldecir con el recuerdo.
Bien.
Eso hacemos:
Custodiamos para ellos el tiempo que nos toca.


Roque Dalton




Fazemos versos e amamos
o estranho riso das crianças,
o subsolo do homem
que em cidades amargas disfarça sua lenda,
a instauração da alegria
anunciada no fumo das fábricas.
Temos nas mãos um pequeno país,
datas horríveis,
mortos como facas exigentes,
bispos venenosos,
imensos jovens de pé,
sem mais idade que a esperança,
padeiras rebeldes com mais poder que um lírio,
alfaiates como a vida,
páginas, noivas,
pão esporádico, filhos doentes,
advogados traidores,
netos da sentença e o que foram
bodas desperdiçadas de um varão impotente,
mãe, pontes, pupilas,
fotos rasgadas, folhetos.
Vamos morrer,
amanhã,
um ano,
um mês sem pétalas dormidas:
vamos ficar espalhados sob a terra
e outros homens hão-de vir
demandando panoramas.
Perguntarão pelo que fomos,
pelos que os precederam com chamas puras,
a maldizer com a lembrança.
Ora bem.
Eis o que fazemos:
Custodiamos para eles o tempo que nos toca.


(Trad. A.M.)



> Outra versão: Mudanças & C.ª (Soledade Santos)

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22.10.12

Ver (117)






Gonzalo Rojas
Ignazio Martínez Pisón
Jorge Semprún




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Claudio Rodríguez (Como o som das folhas do álamo)





COMO EL SON DE LAS HOJAS DEL ÁLAMO




El dolor verdadero no hace ruido.
Deja un susurro como el de las hojas
del álamo mecidas por el viento,
un rumor entrañable, de tan honda
vibración, tan sensible al menor roce,
que puede hacerse soledad, discordia,
injusticia o despecho. Estoy oyendo
su murmurado son, que no alborota
sino que da armonía, tan buido
y sutil, tan timbrado de espaciosa
serenidad, en medio de esta tarde,
que casi es ya cordura dolorosa,
pura resignación. Traición que vino
de un ruin consejo de la seca boca
de la envidia. Es lo mismo. Estoy oyendo
lo que me obliga y me enriquece a costa
de heridas que aún supuran. Dolor que oigo
muy recogidamente, como a fronda
mecida, sin buscar señas, palabras
o significación. Música sola,
sin enigmas, son solo que traspasa
mi corazón, dolor que es mi victoria.


Claudio Rodríguez


[Cómo cantaba mayo]





A dor verdadeira não faz barulho,
apenas um sussurro como o das folhas
do álamo abanadas pelo vento,
um rumor íntimo, de tão funda
vibração, tão sensível ao menor toque,
que pode tornar-se solidão, discórdia,
injustiça ou despeito. Estou a ouvir
esse som murmurado, que não alvoroça
antes dá harmonia, tão afiado
e subtil, tão timbrado de espaçosa
serenidade, a meio desta tarde,
quase-quase cordura dolorosa,
pura resignação. Traição derivada
de ruim conselho da seca boca
da inveja. É o mesmo. Estou a ouvir
o que me obriga e enriquece à custa
de feridas que ainda supuram. Dor que oiço
recolhidamente, como a fronde abanada,
sem buscar sinais, palavras
ou significação. Música apenas,
sem enigmas, apenas som que me trespassa
o coração, dor que representa a minha vitória.


(Trad. A.M.)

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21.10.12

Raymond Carver (A minha morte)





MY DEATH




If I'm lucky, I'll be wired every whichway
in a hospital bed. Tubes running into
my nose. But try not to be scared of me, friends!
I'm telling you right now that this is okay.
It's little enough to ask for at the end.
Someone, I hope, will have phoned everyone
to say, "Come quick, he's failing!"
And they will come. And there will be time for me
to bid goodbye to each of my loved ones.
If I'm lucky, they'll step forward
and I'll be able to see them one last time
and take that memory with me.
Sure, they might lay eyes on me and want to run away
and howl. But instead, since they love me,
they'll lift my hand and say "Courage"
or "It's going to be all right."
And they're right. It is all right.
It's just fine. If you only knew how happy you've made me!
I just hope my luck holds, and I can make
some sign of recognition.
Open and close my eyes as if to say,
"Yes, I hear you. I understand you."
I may even manage something like this:
"I love you too. Be happy."
I hope so! But I don't want to ask for too much.
If I'm unlucky, as I deserve, well, I'll just
drop over, like that, without any chance
for farewell, or to press anyone's hand.
Or say how much I cared for you and enjoyed
your company all these years. In any case,
try not to mourn for me too much. I want you to know
I was happy when I was here.
And remember I told you this a while ago - April 1984.
But be glad for me if I can die in the presence
of friends and family. If this happens, believe me,
I came out ahead. I didn't lose this one.


Raymond Carver





Com sorte, estarei ligado
numa cama de hospital, com tubos
no nariz. Mas calma, meus amigos,
tudo bem, desde já vos digo.
No fim não se pode pedir muito.
Alguém, espero, ligará para os outros
a dizer: “Vem depressa, que ele está a morrer”!
E eles hão-de vir, e eu terei tempo
de dizer adeus a cada um dos meus entes queridos.
Com sorte, chegar-se-ão à frente
para eu poder vê-los uma última vez
e levar essa imagem comigo.
Claro, podem pôr os olhos em mim e querer fugir
e uivar. Mas, porque me amam,
hão-de pegar-me antes na mão, dizendo: “Coragem”
ou “Vai correr tudo bem”.
E está bem assim, está bem,
está muito bem. Se vós soubésseis quão feliz me fizestes!
Oxalá continue a minha sorte e eu possa
mostrar o meu reconhecimento,
abrir os olhos e fechar, como se dissesse:
“Sim, estou a ouvir, compreendo-vos”,
podendo mesmo acrescentar algo assim como:
“Também vos amo, sede felizes”.
Oxalá, mas não quero estar a pedir de mais,
se não tiver sorte, como mereço, bem, vou-me
assim mesmo, sem mais, sem dizer adeus
nem apertar a mão de ninguém,
sem dizer quanto vos quis e quanto gozei
da vossa companhia nestes anos todos.
De todo o modo, não me choreis demasiado,
ficai sabendo que eu fui muito feliz aqui.
E lembrai-vos que eu disse-vos isso há tempos - Abril 1984.
Mas regozijai-vos comigo, caso eu possa morrer
junto dos amigos e família. Se assim acontecer, podeis crer,
eu saio pela porta grande. Desta vez não perdi.


(Trad. A.M.)

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20.10.12

Félix Grande (Premonição)





PREMONICION



Al fondo del espejo
verás, cuando seas viejo,
no tu cara de anciano, no tus ojos
donde se te acumulan tus despojos,
no la ruina en que te hayas convertido,
no la misericordia del olvido,


sino la entera historia
que habita en tu memoria,
un borbotón de años
bajando los peldaños
de una horrenda escalera de alegría
que ya no es tuya, pero que fue mía.


Verás no la vejez, no la hora mustia
sino toda la angustia
del esplendor, la juventud, la vida
disfrutada y perdida.


Pero nunca olvidada.


Verás únicamente a tu mirada.
La verás con espanto.
Y todo por haber amado tanto.


Félix Grande


[El almirante ruina]




No espelho hás-de ver,
quando fores velho,
não a cara de ancião, não teus olhos
onde se acumulam despojos,
não a ruína em que te converteste,
não a piedade do esquecimento,


mas a história toda
que te habita a memória,
um borbotão de anos
descendo os degraus
duma escada horrenda de alegria
que não é já tua, mas que foi minha.


Verás não a velhice ou a hora triste,
mas a angústia do esplendor,
a juventude, a vida
desfrutada e já perdida.


Mas nunca olvidada.


Verás apenas o teu olhar.
Com espanto.
E tudo por teres amado tanto.


(Trad. A.M.)

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19.10.12

Almeida Garrett (Frades)






Frades... frades... Eu não gosto de frades.

Como nós os vimos ainda os deste século, como nós os entendemos hoje, não gosto deles, não os quero para nada, moral e socialmente falando.

No ponto de vista artístico, porém, o frade faz muita falta.

Nas cidades, aquelas figuras graves e sérias com os seus hábitos talares, quase todos pitorescos e alguns elegantes, atravessando as multidões de macacos e bonecas de casaquinha esguia e chapelinho de alcatruz que distinguem a peralvilha raça europeia — cortavam a monotonia do ridículo e davam fisionomia à população.

Nos campos o efeito era ainda muito maior: eles caracterizavam a paisagem, poetizavam a situação mais prosaica de monte ou de vale; e tão necessárias, tão obrigadas figuras eram em muitos desses quadros, que sem elas o painel não é já o mesmo.


- ALMEIDA GARRETT, Viagens na minha terra, XIII.

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Juan Bonilla (A perseguição)





LA PERSECUCION



Está la muerte tan segura
de que va a alcanzarte
que te ha dado una vida de ventaja.


De ella procedes, de su vientre oscuro,
y a ella te diriges, a su insondable sótano,
así que corre, corre, piérdete en los bosques
sagrados de la vida sin futuro,
graba en los troncos tu nombre secreto,
ese que no conoce nadie más que tú,
y mezcla tu ignorancia acerca de quién eres
con la ignorancia de los otros.
A fuerza de ignorancia serás sabio.


Por tus bolsillos rotos se desliza sin descanso el tiempo hacia la tierra
donde quedan tus huellas un instante.
No te vuelvas a mirarlas, son abismos
donde va derritiéndose tu identidad.


Los mastines de la muerte están buscándote
haz que se llenen el hocico
con las cuchillas con que formulaste en tantos sítios
tu nombre, no el que te impusieron los mayores
sino el que has inventado a cada paso
para amarte en todas las cosas de este mundo.


Te darán caza los mastines de la muerte:
saberlo te hará más fuerte y más veloz.
No aceptes pues las prórrogas cobardes
que inventa la debilidad y el frío del futuro:
otras vidas en dimensiones hipotéticas,
ni edenes en los que ángeles siniestros
sellan el pasaporte de un difunto valorando
acciones sustentadas por un vómito de dogmas.


La muerte está segura de su triunfo:
corre, pues, corre, es solamente un juego sin por qué.
Las reglas poco importan si resistes
y el resultado está amañado y aunque pierdas
has de vender muy cara tu derrota.



Juan Bonilla




Está a morte tão segura
de que te vai apanhar
que te deu uma vida de avanço.


Dela procedes, do seu ventre escuro,
e a ele te diriges, ao seu insondável sotão,
de modo que corre, corre, perde-te nos bosques
sagrados da vida sem futuro,
grava nos troncos o teu nome secreto,
aquele que ninguém conhece além de ti,
e mistura a tua ignorância acerca de quem és
com a ignorância dos outros.
À força de ignorância serás sábio.


Pelos teus bolsos rasgados desliza sem descanso o tempo até à terra
onde subsistem as tuas pegadas por um instante.
Não te voltes para olhá-las, são abismos
onde se vai derretendo a tua identidade.


Os mastins da morte estão te procurando
faz com que satisfaçam o focinho
com as facas com que exprimiste em tantos sítios
o teu nome, não o que te impuseram os mais velhos
mas aquele que inventaste a cada passo
para te amar em todas as coisas deste mundo.


Dar-te-ão caça os mastins da morte:
sabê-lo far-te-á mais forte e mais veloz.
Não aceites portanto os prolongamentos cobardes
que inventa a debilidade e o frio do futuro:
outras vidas em dimensões hipotéticas,
ou paraísos nos quais anjos sinistros
selam o passaporte de um defunto valorando
acções sustentadas por um vómito de dogmas.


A morte está segura do seu triunfo:
corre, pois, corre, é apenas um jogo sem motivo.
As regras pouco interessam se resistes
e o resultado está aldrabado e ainda que percas
hás-de vender muito cara a tua derrota.


(Trad. J.E.Simões)



[Luz & sombra]


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18.10.12

Miguel Martins (A vida tarda)





A vida tarda
enquanto esta demonstração democrática do Demo
se demora entre ademanes e esgares,
como se tudo não passasse de uma farsa
velha e medíocre,
levada à cena, em sessões contínuas,
desde que uma salamandra se fez gente,
gente escondida
com o rabo de fora.
Resta-nos correr no sentido inverso
aos ponteiros do relógio e procurar,
inglórios, o pântano primordial
e, nele, nossos recantos de calor estagnado,
passar a borracha da noite sobre o carvão do vento,
correndo o risco de tudo esborratar,
e ter esperança ou, pelo menos, fé
nas propriedades curativas das folhas brancas.
Imaginem comigo:
o branco mais profundo
sugando-nos para dentro de si
como o olho de um furacão,
olho terrível e encantador
de répteis.
Antes de mergulhar, permitam-me apenas
um cálice de licor de ervas amargas
e o clangor lânguido de um oboé tibetano.
E depois - só depois - o abismo imenso,
antediluviano,
da nossa morte inteira e sem mentiras,
sem conta-gotas a dosearem tudo,
até a beira-mar
e até o medo.


Miguel Martins


[O único verdadeiro deus vivo]



>>  Modo de usar (nota+13p) / O único verdadeiro deus vivo (blogue)

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17.10.12

Eduardo Galeano (Dia do descobrimento)





DÍA DEL DESCUBRIMIENTO
(Octubre, 12)



En 1492, los nativos descubrieron que eran indios,
descubrieron que vivían en América,
descubrieron que estaban desnudos,
descubrieron que existía el pecado,
descubrieron que debían obediencia a un rey
y a una reina de otro mundo
y a un dios de otro cielo,
y que ese dios había inventado la culpa y el vestido
y había mandado que fuera quemado vivo
quien adorara al sol y a la luna
y a la tierra y a la lluvia que la moja.


Eduardo Galeano


[Escomberoides]





Em 1492, os nativos descobriram que eram índios,
descobriram que viviam na América,
descobriram que estavam desnudos,
descobriram que existia o pecado,
descobriram que deviam obediência a um rei
e a uma rainha de outro mundo
e a um deus de outro céu,
e que esse deus inventara a culpa e a véstia
e ordenara que fosse queimado vivo
quem adorasse o sol e a lua
e a terra e a chuva que a molha.


(Trad. A.M.)

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16.10.12

Olhar (117)






Flores


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Jaime Sabines (Meio-dia na rua)





El mediodía en la calle, atropellando ángeles,
violento, desgarbado;
gentes envenenadas lentamente
por el trabajo, el aire, los motores;
árboles empeñados en recoger su sombra,
ríos domesticados, panteones y jardín
transmitiendo programas musicales.
¿Cuál hormiga soy yo de estas que piso?
¿qué palabras en vuelo me levantan?
"Lo mejor de la escuela es el recreo",
dice Judit y pienso:
¿cuándo la vida me dará un recreo?
¡Carajo! Estoy cansado. Necesito
morirme siquiera una semana.


Jaime Sabines

[El poeta ocasional]




Meio-dia na rua, atropelando anjos,
violento, sem jeito;
pessoas envenenadas lentamente
com o trabalho, os carros, o ar;
árvores empenhadas em recolher a sombra,
rios domesticados, jardim e panteões
a transmitirem programas musicais.
Que formiga sou eu destas que piso no chão?
Que palavras me erguem voando?
“O melhor da escola é o recreio”,
diz Judit e eu penso:
Quando me dará a vida um recreio?
Catano! Estou cansado, preciso
de morrer pelo menos uma semana.


(Trad. A.M.)

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15.10.12

Bertolt Brecht (Mensagem do poeta)





MENSAGEM DO POETA MORIBUNDO À JUVENTUDE



Vós, gente moça de futuros tempos e de
Novas auroras sobre cidades que
Ainda não foram construídas, também
Vós, não-nascidos, ouvi
A minha voz agora, de mim que morri
E não em glória.
Mas sim
Como um camponês que não amanhou a leira e
Como um carpinteiro que preguiçoso fugiu
Do madeiramento aberto do telhado.


Assim desperdicei
Eu o meu tempo, esbanjei os meus dias e agora
Tenho que pedir-vos
Que digais tudo o que não foi dito
Que façais tudo o que não foi feito
E que me esqueçais depressa, peço-vos, para que
O meu mau exemplo não venha ainda também a perverter-vos.


Ai, para que me sentei eu
À mesa dos estéreis, a comer do banquete
Que eles não tinham cozinhado?
Ai, porque misturei eu
As minhas melhores palavras
Ao seu pairar ocioso? Enquanto lá fora
Andavam os ignorantes
Sequiosos de aprender.


Ai, porque é que
Não se erguem as minhas canções dos lugares onde
As cidades se nutrem, onde se fazem os navios, porque é que
Não sobem elas como fumo
Das locomotivas dos comboios rápidos, fumo
Que fica para trás no céu?


Porque a minha fala
Aos úteis e criadores
Lhes fica na boca como cinza e gaguejar de bêbedo.
Nem uma palavra só
Eu sei para vós, gerações dos tempos futuros
Nem um gesto a apontar com dedo incerto
Vos poderia dar, pois como
Poderia apontar o caminho quem
O não andou!


Assim só me resta, a mim que assim esbanjei
A minha vida, apelar para vós
Pra que não espreiteis nenhum mandamento saído
Da nossa boca ociosa e que não aceiteis
Nenhum conselho daqueles que
Assim falharam, mas que só
Decidais por vós próprios sobre o que
Seja bom para vós e vos
Ajude a amanhar a terra que nós deixámos decair
E a fazer habitáveis as cidades
Que nós empestámos.



Bertolt Brecht

(Trad. Paulo Quintela)


[Ruialme]

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14.10.12

Valeria Pariso (O jasmim do cabo)





Al jazmín del cabo
le lleva más de un mes
alumbrar una flor.

Todo
para un solo día de blancura.
Después
la flor será un té cerrándose.

Muere y perfuma más que antes.
Se vuelve aire.
Se respira blanco.
Cada minuto de jazmin
guarda a todos los jazmines.

Yo quisiera tener
ese talento para los finales.


Valeria Pariso


[El poeta ocasional]




O jasmim do cabo
leva mais dum mês
para luzir uma flor.

Tudo
para um só dia de brancura.
Depois
a fechar-se a flor será chá.

Morre e perfuma mais do que dantes.
Torna-se ar.
Respira branco.
Cada minuto de jasmim
guarda todos os jasmins.

Eu gostava de ter
esse talento para os finais.


(Trad. A.M.)

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13.10.12

Helder Macedo (Uns imaginam o mundo)





Uns imaginam o mundo, outros constroem-no.

São modos complementares de ser e ambos me merecem simpatia.

Também há quem construa um mundo imaginário e, nesse caso, depende.



- HELDER MACEDO, Partes de África (4.), Edit. Presença, 1991.

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Marcos Tramón (Condenação)





CONDENAÇÃO


De mim?
De mim nada mais sei dizer do que
vi como o amor passava a meu lado,
e nada fiz nem disse.

O preço a pagar?
Uma condenação a solidão perpétua:
estás só
               e estarás só, só. 



MARCOS TRAMÓN
Desgana
Gijón (2010)

(Trad. A.M.)
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12.10.12

Antonio Cicero (Desejo)





DESEJO




Só o desejo não passa
e só deseja o que passa
e passo meu tempo inteiro
a enfrentar um só problema:
ao menos no meu poema
agarrar o passageiro.


Antonio Cicero



[Acontecimentos]


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11.10.12

Rubén Bonifaz Nuño (Não é desgraça abrir os olhos)






No es una desgracia abrir los ojos
 ni tener despiertos los deseos
 y estar triste y solo y pensando.
 

Y no ser de aquellos que consiguieron
 su placer a ciegas para cegarse;
 su televisión después del cine,
 sus bailes, su ruido, sus limonadas;
 pero que a la medianoche se sientan,
 pesados de sueño, densos, bestiales,
 y gritan y luchan sobresaltados
 para desterrar su pesadilla.
 

Bienaventurados los que padecen
 la nostalgia, el miedo de estar a solas,
 la necesidad del amor; los hombres,
 las mujeres tiernas de ojos amargos;
 los que en su comida han recibido
 lo gordo del caldo del sufrimiento.
 

Porque de ellos es la desesperanza
el insomnio, el llanto seco, las rejas
 de todas las cárceles, el hambre,
 y la fuerza lírica y el impulso
 para desquiciar la desventura.

  

Rubén Bonifaz Nuño

 

 

 Não é desgraça abrir os olhos
nem ter o desejo desperto
e estar triste e só e pensativo.
 

E não ser desses que conseguem
o prazer às cegas para cegar;
a televisão depois do cinema,
os seus bailes, seu ruído, suas limonadas;
mas que se sentam à meia-noite,
pesados de sono, densos, bestiais,
e gritam e lutam com sobressalto
para afastar os pesadelos.
 

Bem-aventurados os que padecem
da saudade, do medo de estar sós,
da necessidade de amor; os homens,
as mulheres ternas de olhos amargos;
os que receberam à mesa
a olha do caldo do sofrimento.
 

Porque deles é o desespero,
a insónia, o pranto sem lágrimas,
as grades do cárcere, a fome,
e a força lírica e o impulso
para enterrar a desventura. 

 

(Trad. A.M.)

 
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10.10.12

Ver (116)






Ernesto Sábato
Gabriel García Márquez
Gonçalo M. Tavares



 
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Pedro A. González Moreno (Como sobre a pedra)



 
 
Como sobre la piedra,
sin piedad y sin ruido,
actúa la erosión sobre la carne,
con ese suave roce
que al mismo tiempo saja y acaricia
como una áspera seda que tuviese
algo de beso y algo de navaja.


Todas las formas de erosión pasaron
voraz y minuciosa-
mente sobre esta piel vacía.
Vino
primero la ceniza, con sus flores de escarcha,
con su tacto de invierno, su color de luciérnagas
sin brillo, con sus calles
sin cal y sin regreso
y sus ciegas señales de una lumbre ya extinta.
 
 
Pedro A. González Moreno
 

 

Como sobre a pedra,
sem piedade e sem ruído,
a erosão actua sobre a carne,
com um suave roçar
que ao mesmo tempo corta e acaricia
como seda áspera que tivesse
algo de beijo e algo de navalha.

 
Todas as formas de erosão passaram
voraz e minuciosa-
mente sobre esta pele vazia.
Primeiro
chegou a cinza, com seus rebentos de orvalho,
com seu tacto de inverno, sua cor de pirilampos
sem brilho, com suas ruas
sem cal e sem regresso,
seus cegos sinais de um fogo extinto. 
 
(Trad. A.M.)

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9.10.12

W. B. Yeats (Recordação)





MEMORY




One had a lovely face,
and two or three had charm,
but charm and face were in vain
because the mountain grass
cannot but keep the form
where the mountain hare has lain.


W.B.Yeats




Um tinha uma cara linda
e dois ou três muito encanto,
mas tudo em vão,
porque a erva do monte
mantém sempre a forma
da cama da lebre.


(Trad. A.M.)


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8.10.12

Eduardo Mitre (Presença)





PRESENCIA




Ofrecía su silencio
como un vaso de agua.
Y al beberlo
se refrescaban las palabras.


Eduardo Mitre




Oferecia o silêncio
como um copo de água.
E ao bebê-lo
refrescavam-se as palavras.


(Trad. A.M.)

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7.10.12

Almeida Garrett (Chamava-se Georgina)





E Carlos estava seguro que nenhuma mulher o havia de amar como ela; que os longos e ondados anéis de loiro cendrado, que os lânguidos olhos de gazela, que o ar majestoso e altivo, que a tez de uma alvura celeste, que o espírito, o talento, a delicadeza de Georgina...

Chamava-se Georgina; e é tudo quanto por agora pode dizer-vos, ó curiosas leitoras, o discreto historiador deste mui verídico sucesso: não lhe pergunteis mais, por quem sois.


- ALMEIDA GARRETT, Viagens na minha terra, XXII.

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Eduardo Lizalde (O amor é outra coisa)





EL AMOR ES OTRA COSA, SEÑORES



Uno se hace a la idea,
desde la infancia,
de que el amor es cosa favorable
puesta en endecasílabos, señores.

Pero el amor es todo lo contrario del amor,
tiene senos de rana,
alas de puerco.

Mídese amor por odio.
Es legible entre líneas.
Mídese por obviedades,
mídese amor por metros de locura corriente.
Todo el amor es sueño
—el mejor áureo sueño de la plata.
Sueño de alguien que muere,
el amor es un árbol que da frutos
dorados sólo cuando duerme.


Eduardo Lizalde


[Noctambulario]




Habituamo-nos à ideia,
desde a infância,
de que o amor é uma coisa boa
posta em decassílabos, senhores.

Mas o amor é tudo o contrário do amor,
tem seios de rã,
asas de porco.

Mede-se amor por ódio.
É legível nas entrelinhas.
Mede-se por obviedades,
mede-se amor por metros de loucura corrente.
Todo amor é sonho
– o melhor sonho doirado da prata.
Sonho de alguém que morre,
o amor é uma árvore que dá frutos
de oiro só quando dorme.


(Trad. A.M.)

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6.10.12

Ruy Cinatti (Anunciação)





ANUNCIAÇÃO



Não tenho palavras, nem entendo
formas visíveis.
Elas vêm concretas como aragem
a que dou nome.

Tenho-me, eis tudo. Acontece.
Há uma folha que desce,
que sobrenada, que desce,
que submerge no ar e depois desce
longe de mim no ar fundo.

Nós não somos deste mundo.

Fresca e limpa como a chuva,
ouço a tua voz cantada
descer do céu ao silêncio
que vem da terra molhada.

Nós não somos deste mundo.

Ouso dizer-te o meu nome
como quem se atreve a dar-te
a minha imagem.

Nós não somos deste mundo.

O que não vejo, entendo.
Pelos rios do meu sangue,
atrevo-me.

Anoitecendo, a vida recomeça.

Dou-me em palavras
que ressuscitam.
Algures no céu amanhece.

Só, intranquilo, pela vereda, desce
o nómada meu amigo.


Ruy Cinatti


[Arquivo de cabeceira]


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5.10.12

Gabriel Zaíd (Ondas)





OLEAJES

 
El sol estalla:                                
                      se derrumba
a refrescarse en tu alegría.
Revientan olas de tu pecho.
Yo me baño en tu risa.

Olas altas y soles
de playas apartadas.
Tu risa es la Creación
feliz de ser amada.

Gabriel Zaíd

 

O sol explode:
                               desaba
para refrescar-se na tua alegria.
Ondas rebentam de teu peito.
Eu banho-me no teu riso.

Ondas altas e sóis
de praias distantes.
Teu riso é a Criação
feliz de ser amada. 

(Trad. A.M.)
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4.10.12

Ver (115)






Agustina Bessa Luís
Álvaro Mutis
Eduardo Galeano


(Daniel Mordzinski)


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María Sanz (Na morada da luz)





Na morada da luz escrevo,
com uma transparência contida
que me esvazia e me livra
de tanta noite cruel e ameaça.
Vou a caminho, vou sempre, a sós
por lugares onde ia antes
de saber que não há regresso.
Na morada da luz, do cálido
perfume que conforta meus poemas
escrevo para diante, como vivo.
 

María Sanz
 

 

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3.10.12

Cesare Pavese (Paisagem VIII)





PAESAGGIO VIII


I ricordi cominciano nella sera
sotto il fiato del vento a levare il volto
e ascoltare la voce del fiume. L'acqua
è la stessa, nel buio, degli anni morti.

Nel silenzio del buio sale uno sciacquo
dove passano voci e risa remote;
s'accompagna al brusío un colore vano
che è di sole, di rive e di sguardi chiari.
Un'estate di voci. Ogni viso contiene
come un frutto maturo un sapore andato.

Ogni occhiata che torna, conserva un gusto
di erba e cose impregnate di sole a sera
sulla spiaggia. Conserva un fiato di mare.
Come un mare notturno è quest'ombra vaga
di ansie e brividi antichi, che il cielo sfiora
e ogni sera ritorna.
Le voci morte
assomigliano al frangersi di quel mare.


Cesare Pavese

 

As recordações começam de noite,
com o sopro do vento, a levantar a cara
e a escutar a voz do rio. A água é a mesma,
no escuro, dos anos passados.

No silêncio do escuro sobe um murmúrio,
ouvem-se vozes e risos ao longe;
ao rumor junta-se uma cor inútil,
de sol, de margens, de claros olhares.
Um verão de vozes. Em cada rosto,
como um fruto maduro, um sabor antigo.

O olhar que volve guarda um gosto
de erva, de coisas impregnadas de sol
na praia, ao entardecer. Um sopro de mar.
Como um mar nocturno, esta sombra vaga
de ânsias e arrepios antigos, roçada pelo sol
e que volta todas as noites. As vozes mortas
lembram o quebrar dessas ondas.

(Trad. A.M.)
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2.10.12

Valeria Pariso (Se fosse apenas)





Si solamente fuese
la sed lo que nos dieron
la extraordinaria sed

pero no
qué hacemos en la vida
quién nos dice qué hacemos con la vida
sabiéndonos en la otra orilla


Valeria Pariso


[Tanto te quería]




se fosse apenas
a sede que nos deram
a sede extraordinária

mas não
o que fazemos nós na vida
quem é que nos diz
o que havemos de fazer com a vida
sabendo-nos na outra margem


(Trad. A.M.)




>>  Tanto te quería (blogue / 1001p) / ISSUU-Teskatlipoka (12p / 23-31) / Letralia (3p)

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1.10.12

Helder Macedo (Sempre dá jeito ter pai)






Eu defendia a teoria alternativa da Ausência: o suicídio era dar importância demais àquilo que se julgava ser, havia sempre safa naquele artigo do Código Civil, meu único ganho do curso de Direito, que permitia que se fosse “ausente em parte incerta ou desconhecida sem se saber se é vivo ou morto”.

Decidimos, em todo o caso, que se algum de nósalguma vez precisasse, o outro ia de táxi.

Felizmente que no dia seguinte, sem ter participado na nossa conversa, o Sebag se suicidou, sentado no chão, de baraço ao pescoço e a outra ponta amarrada à perna de uma mesa, a puxar com o rabo e arrastando a mesa atrás: aliviou a atmosfera e deu para rirmos todos muito.

Só o João Vieira não achou graça, era no atelier que ainda partilhava com os outros futuros KWY em cima do Gelo e a mesa tinha as bisnagas das tintas que começaram a cair.

Sacudiu severamente o Sebag, tirou-lhe o baraço do pescoço, e o Sebag abraçou-o, muito grato, chamando-lhe pai.
 
Sempre dá jeito ter pai.

  
- HELDER MACEDO, Partes de África (12.), Edit. Presença, 1991.

 
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