31.8.12

Sophia de Mello Breyner Andresen (Biografia)





BIOGRAFIA




Tive amigos que morriam, amigos que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-me na luz, no mar, no vento.


Sophia de Melo Breyner Andresen


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30.8.12

Luis Alberto de Cuenca (Remedia amoris)





REMEDIA AMORIS




Foi uma péssima ideia a de voltarmos a ver-nos.
Não fizemos mais do que trocar insultos
e culpar-nos de velhas e sórdidas histórias.
Depois foste embora, atirando com a porta,
e eu fiquei sozinho, tão furioso e tão só
que não soube que fazer senão exasperar-me.
Pus-me então a beber. Bebi como os escritores
malditos de há cem anos, como os marinheiros,
e bêbedo andei pela casa deserta,
cansado de viver, buscando-te na sombra
para te culpar a ti por tu ires embora.
Primeiro uma garrafa, depois duas e de repente
fiquei tão mal que consegui esquecer-te.



Luis Alberto de Cuenca


(Trad. A.M.)

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29.8.12

Um verso (110)





Um verso de Inês Dias:




e só a sombra nunca esmorecesse




Inês Dias


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Lucas Rodríguez (Insuficiente)






INSUFICIENTE




A veces incluso
todo el aire de esta sucia atmósfera
de esta insolente y pútrida ciudad
no es suficiente
para conformar un buen
y reconfortante suspiro.


Lucas Rodríguez


[El koala puesto]





Às vezes mesmo
o ar todo deste ambiente sórdido
desta insolente e pútrida cidade
não é bastante
para conformar um bom
e reconfortante suspiro.


(Trad. A.M.)


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28.8.12

Manuel Bandeira (O rio)






O RIO




Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas no céu, refleti-las
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranqüilas.



Manuel Bandeira



[Poesia crónica]


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27.8.12

Leopoldo María Panero (Caminho inclinado)






Marcho inclinado, mirando al suelo
lleno de peces que sudan
como mi barriga
llena de cerveza que sube y que baja
sobre la acera, al compás de mis pasos: elefante
mirando al suelo, grasa de ballena, rostro
reflejado en las risas de los hombres.
Casanova era así, de viejo,
me digo
para no insultarme: apedreado
por niños al crepúsculo.
Marcho inclinado, mirando al suelo;
los muertos están boca abajo. Sin duda
moriré en la calle.
Entro en el bar y el cervecero
ya está, como siempre, la copa en la mano
anunciando mi muerte.



LEOPOLDO MARÍA PANERO
Últimos poemas
Poesía Completa – 1970-2000
Visor, 2001


[Neorrabioso]






Caminho inclinado, a olhar para o chão
cheio de peixes a suar
como a minha barriga a subir e a descer
no carreiro, ao ritmo de meus passos: elefante
a olhar para o chão, gordura de baleia, rosto
espelhado nos risos dos homens.
Casanova era assim, em velho,
digo para mim
para não me insultar, apedrejado
por crianças ao crepúsculo.
Caminho inclinado, os olhos postos no chão;
os mortos estão de boca para baixo. Sem dúvida
na rua morrerei.
Entro no bar e o empregado
lá está, como sempre, de copo na mão
anunciando a minha morte.


(Trad. A.M.)

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26.8.12

Ver (109)







[Hendrik Kerstens]




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León Felipe (Espanhol)





ESPAÑOL





Español del éxodo de ayer
y español del éxodo de hoy:
te salvarás como hombre,
pero no como español.
No tienes patria ni tribu. Si puedes,
hunde tus raíces y tus sueños
en la lluvia ecuménica del sol.
Y yérguete... ¡Yérguete!
Que tal vez el hombre de este tiempo...
es el hombre movible de la luz,
del éxodo y del viento.


León Felipe





Espanhol do êxodo de ontem
e espanhol do êxodo de hoje:
vais-te salvar como homem,
mas não como espanhol.
Não tens pátria nem tribo. Podendo,
afunda tuas raízes e teus sonhos
na chuva ecuménica do sol.
E ergue-te... Ergue-te!
Que o homem deste tempo
talvez seja o homem móvel
da luz, do êxodo, do vento.


(Trad. A.M.)

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25.8.12

Manuel António Pina (It's all right, ma)





IT’S ALL RIGHT, MA...




Está tudo bem, mãe,
estou só a esvair-me em sangue,
o sangue vai e vem,
tenho muito sangue.


Não tenho é paciência,
nem tempo que baste
(nem espaço), deixaste-me
pouco espaço para tanta existência.


Lembranças a menos
faziam-me bem,
e esquecimento também
e sangue e água a menos.


Teria cicatrizado
a ferida do lado,
e eu ressuscitado
pelo lado de dentro.


Que é o lado
por onde estou pregado,
sem mandamento
e sem sofrimento.


Nas tuas mãos
entrego o meu espírito,
seja feita a tua vontade,
e por aí adiante.


Que não se perturbe
nem intimide
o teu coração,
estou só a morrer em vão.


Manuel António Pina


[Sons da Escrita]

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24.8.12

Josep M. Rodríguez (As nuvens)






LAS NUBES



Miro las nubes,
nubes como de anuncio de dentífrico,
y el sol,
mostrando la arrogancia
de un gran diente de oro.

Es la boca del día,
que mastica mi tiempo de hacer nada
tumbado en esta hamaca
que es ahora la vida.

La sonrisa del cielo son las nubes.
Es verano y no dejo de mirarlas
consciente de que en más de una ocasión,
aunque no lo recuerde,
he dejado escapar tanta belleza.

La sonrisa del cielo son las nubes.
Existe um cementerio em su memoria.


Josep M. Rodríguez





Contemplo as nuvens,
nuvens como de um anúncio de dentífrico,
assim como o sol,
que exibe a arrogância
de um enorme dente de ouro.

Eis a boca do dia,
a mastigar meu tempo de não fazer nada
deitado nesta rede
que é agora a vida.

O sorriso do céu são as nuvens.
É Verão e não deixo de fitá-las
consciente de que em mais do que uma ocasião,
embora não o recorde,
deixei escapar-me tanta beleza.

O sorriso do céu são as nuvens.
E há um cemitério na sua memória.


(Trad. A.M.)

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23.8.12

Almeida Garrett (Bela e vasta planície)





Bela e vasta planície!

Desafogada dos raios do Sol, como ela se desenha aí no horizonte tão suavemente! que delicioso aroma selvagem que exalam estas plantas, acres e tenazes de vida, que a cobrem, e que resistem verdes e viçosas a um sol português de Julho!

A doçura que mete na alma a vista refrigerante de uma jovem seara do Ribatejo nos primeiros dias de Abril, ondulando lascivamente com a brisa temperada da Primavera, — a amenidade bucólica de um campo minhoto de milho, à hora da rega, por meados de Agosto, a ver-se-lhe pular os caules com a água que lhe anda por pé, e à roda as carvalheiras classicamente desposadas com a vide coberta de racimos pretos.


- ALMEIDA GARRETT, Viagens na minha terra, VIII.

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Juanjo Barral (Teoria da relatividade)





TEORÍA DE LA RELATIVIDAD





Me quejo yo que tengo a fin de cuentas dónde
arrimarme para calentar los tres bajo cero que hace fuera
y que se nos quieren meter en casa.


Me quejo yo que tengo este papel
donde hacerlo.


Me quejo yo que puedo
entrar en un poema muerto de frío
y abrazarme a este verso.


Juanjo Barral





Queixo-me eu que tenho no fim de contas onde
encostar-me para aquecer os três negativos que estão lá fora
e que nos querem entrar em casa.


Queixo-me eu que tenho este papel
onde fazê-lo.


Queixo-me eu que posso
entrar no poema morto de frio
e abraçar-me a este verso.



(Trad. A.M.)



>>  Las afinidades electivas (4p) / ISSUU (En tránsito) / Escritores de Asturias (El eco de nuestros pasos) / Hankover (3p)


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22.8.12

José Carlos Ary dos Santos (Estigma)





ESTIGMA




Filhos dum deus selvagem e secreto
E cobertos de lama, caminhamos
Por cidades,
Por nuvens
E desertos.
Ao vento semeamos o que os homens não querem.
Ao vento arremessamos as verdades que doem
E as palavras que ferem.
Da noite que nos gera, e nós amamos,
Só os astros trazemos.
A treva ficou onde
Todos guardamos a certeza oculta
Do que nós não dizemos,
Mas que somos.


José Carlos Ary dos Santos


[Canal de poesia]

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21.8.12

Karmelo C. Iribarren (Para isto serve a glória)





PARA ESTO SIRVE LA GLORIA

(frente al busto de Baroja)



Para que te caguen
las palomas
encima,
y te meen los perros
debajo,


y tú te tengas
que quedar
ahí,
sin despegar
los labios,
porque ya
has dicho todo
lo que tenías
que
decir.


Karmelo C. Iribarren


[Viktor Gómez]





Para as pombas
te cagarem
em cima
e os cães te mijarem
por baixo,


e tu teres
de ficar
aí,
sem descolar
os lábios,
porque já
disseste tudo
o que tinhas
para
dizer.


(Trad. A.M.)

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20.8.12

Ver (108)







Fajã de Santo Cristo (São Jorge>Açores)



(Jorge Góis)



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Juan Luis Panero (Autobiografia)





AUTOBIOGRAFÍA




Una casa vacía, otra derrumbada,
un niño muerto al que le cuentan cuentos,
despedidos fantasmas que se desvanecen,
ceniza y hueso, piedras derrotadas.
Cuartos alquilados, repetidos espacios fugaces,
las huellas de los cuerpos en las sábanas,
una pesada resaca sin destino,
voces que nadie escucha, imágenes de sueños.
Innecesarias páginas, gaviotas en la ventana,
mar o desierto, blancos despojos,
signos y rostros en la pared de la memoria.
Sucias pupilas de sol en México, tercos
los ojos redondos de la calavera
contemplan pasado, presente, futuro,
sombras tenaces, metáforas gastadas.
Miro sin ver lo que ya he visto,
humo disforme que se esfuma,
invisible mortaja bajo nubes fugaces.
Humo en la noche y la nada instantánea.



Juan Luis Panero




Uma casa vazia, outra derrubada,
um menino morto a quem contam histórias,
despedidos fantasmas desvanecendo-se,
cinza e osso, pedras derrotadas.
Quartos alugados, repetidos espaços fugazes,
as marcas dos corpos no lençol,
uma pesada ressaca sem destino,
vozes que ninguém escuta, imagens de sonhos.
Desnecessárias páginas, gaivotas na janela,
deserto ou mar, brancos despojos,
sinais e rostos no muro da memória.
Baças pupilas de sol no México, tenazes
os olhos redondos da caveira
contemplam passado, presente, futuro,
sombras tenazes, gastas metáforas.
Olho sem ver aquilo que vi,
fumo disforme a esfumar-se,
invisível mortalha sob nuvens fugazes.
Fumo na noite e o nada instantâneo.


(Trad. A.M.)

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19.8.12

Eugénio de Andrade (As mãos)





AS MÃOS





Que tristeza tão inútil essas mãos
que nem sempre são flores
que se dêem:
abertas são apenas abandono,
fechadas são pálpebras imensas
carregadas de sono.



Eugénio de Andrade

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18.8.12

Juan Carlos Mestre (Ta tung)





TA TUNG




Me enamoré de ti en el restaurante chino de la Plaza Mayor
Ese día bajo los dragones dorados
Tú eras todas las dinastías que ha tenido la Tierra
Tú eras el delta de los ríos y la cascada de los encantamientos
El curry que tiñe de sol el lazo de las servilletas
El día que me enamoré de ti comenzaba el año del gato
Y las nubes maullaban sobre los tejados
Celebrando la lluvia de estrellas y la cosecha de arroz
Demonios, al salir tiraste sin querer el buda de escayola
Y todos los buenos presagios se hicieron añicos
Nena, ya nada ha vuelto a ser como entonces
Cuando sabías a las bolitas de helado Familia Feliz
Y yo te acariciaba con palillos de bambú los brotes de primavera


Juan Carlos Mestre


[Noctambulario]





Enamorei-me de ti no restaurante chinês da Plaza Mayor
Nesse dia debaixo dos dragões dourados
Tu eras as dinastias todas que houve na Terra
Tu eras o delta dos rios e a cascata dos encantamentos
Caril que tinge de sol o laço do guardanapo
No dia em que me apaixonei começava o ano do gato
E as nuvens miavam sobre os telhados
Celebrando a chuva de estrelas e a colheita de arroz
Diabos, ao sair deixaste cair sem querer o Buda de gesso
E todos os bons presságios se estilhaçaram
Linda, nada voltou mais a ser como então
Quando me sabias a bolas de gelado Família Feliz
E eu te acariciava com pauzinhos de bambú os brotos de Primavera.


(Trad. A.M.)


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17.8.12

Um verso (109)





Um verso de Luís Filipe Parrado:




Nem mais uma palavra sobre a beleza




Luís Filipe Parrado

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Pere Quart (Espero, suspeito)





ESPERO SUSPEITO TEMO QUERIA




Espero que não olhe para mim
que não me veja.
Suspeito que está sempre,
nunca falha,
que me catalogou,
que não há escapatória.


Temo que me ameace,
que me ralhe,
me castigue,
ou que me espie
e me siga.


Enfadam-me os mistérios,
os oráculos,
os enigmas
os dons,
os privilégios,
os êxtases.


As cerimónias inquietam-me
- o culto,
a nuvem sagrada.


E queria senti-lo e vê-lo,
falar-lhe, entendê-lo
servi-lo como um homem
sempre.


Queria que me tomasse de vez
ou me transformasse em folha,
numa coisa pura, estúpida,
em pedra ou água,
ar, pinta, átomo,
de seu reino total.


Quero amor ou sossego.


Pere Quart

(Trad. A.M.)

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16.8.12

Rui Knopfli (Testamento)





TESTAMENTO



Se por acaso morrer durante o sono
não quero que te preocupes inutilmente.
Será apenas uma noite sucedendo-se
a outra noite interminavelmente.

Se a doença me tolher na cama
e a morte aí me for buscar,
beija Amor, com a força de quem ama,
estes olhos cansados, no último instante.

Se, pela triste monotonia do entardecer,
me encontrarem estendido e morto,
quero que me venhas ver
e tocar o frio e sangue do corpo.

Se, pelo contrário, morrer na guerra
e ficar perdido no gelo de qualquer Coreia,
quero que saibas, Amor, quero que saibas,
pelo cérebro rebentado, pela seca veia,

pela pólvora e pelas balas entranhadas
na dura carne gelada,
que morri sim, que me não repito,
mas que ecoo inteiro na força do meu grito.


Rui Knopfli


[José Maria Alves]


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15.8.12

Álvaro Valverde (Aqui)





AQUI




Estás sentado solo frente al valle
con un libro en las manos
que abandonas a ratos
para poder mirar,
con la calma debida,
cuanto la vista alcanza.
Suena el silencio. A veces,
el rumor de las ramas
o el canto intermitente de algún pájaro.
Respiras hondo. Ves.
Aprecias uno a uno los momentos
que te concede este vivir al margen.
No haces tuya la queja
de los que quieren irse
pero que aplazan siempre
la ocasión de su huida.
Permaneces aquí
por propia voluntad:
es éste tu lugar.
Tú eres de él.

Álvaro Valverde


[Perros en la playa]




Estás sozinho sentado em frente ao vale
com um livro nas mãos
que de vez em quando abandonas
para olhar, com a devida calma,
quanto a vista alcança.
Reina o silêncio. Por vezes, soa
o rumor dos ramos
ou o canto intermitente dum pássaro.
Respiras fundo. Vês.
Aprecias um por um os momentos
que te oferece o viver à margem.
Não perfilhas a queixa
daqueles que querem partir
mas adiam sempre
o momento da fuga.
Permaneces aqui
por vontade própria,
é este o teu lugar.
E tu és dele.

(Trad. A.M.)


>>  A media voz (15p) / Mayora (blogue) / Lecturalia (resenhas) / Catedra M.Delibes (ficha) / Wikipedia

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14.8.12

Ver (107)







Fajã de Santo Cristo



(Jorge Góis)


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Teresa Calderón (De certas imagens)






DE CIERTAS IMÁGENES Y SEMEJANZAS




Hay madres
parecidas al silencio
de la misma manera
que se parecen al silencio
las mujeres tristes;
ésas que se confunden
fácilmente desde lejos
con una antigua fotografía,
o más bien con un lienzo desvelado
que espanta la noche
de las habitaciones frías
y persigue fantasmas
por corredores desnudos
hasta el único jardín
-el de la infancia-
donde en nombre de los sueños
conjuran hijos que nunca
aprendieron las reglas
o dejaron de jugar antes que ellas.


Me imagino que su tristeza les viene
a madres como éstas,
de vivir constantemente hacia atrás,
de su claridad cuando observan
que todo lo que saben
no tiene ninguna importancia,
y ahí se quedan como pidiendo perdón
porque los años solamente traen años.



Teresa Calderón





Há mães
parecidas ao silêncio
da mesma maneira
que se parecem ao silêncio
as mulheres tristes;
aquelas que de longe
se confundem facilmente
com uma foto antiga
ou antes com uma tela desvelada
que espanta a noite
das salas frias
e persegue fantasmas
por corredores despidos
até ao único jardim
– o da infância –
onde em nome dos sonhos
conjuram filhos que nunca
aprenderam as regras
ou deixaram de brincar antes delas.


Imagino que a mães como estas
a tristeza lhes vem
de viverem sempre para trás,
da sua claridade ao reflectirem
que tudo o que sabem
não tem importância nenhuma,
e ali se postam como se pedissem perdão
porque os anos o que trazem são anos.



(Trad. A.M.)


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13.8.12

Manoel de Barros (Desejar ser-12)





DESEJAR SER – 12




Vi um prego do Século XIII, enterrado até o meio
numa parede de 3x4, branca, na XXIII Bienal de Artes
Plásticas de São Paulo, em 1994.
Meditei um pouco sobre o prego.
O que restou por decidir foi: se o objeto enferrujado
seria mesmo do Século XIII ou do XII?
Era um prego sozinho e indiscutível.
Podia ser um anúncio de solidão.
Prego é uma coisa indiscutível.



MANOEL DE BARROS
Compêndio para uso dos pássaros
(Poesia reunida 1937-2004)
Quasi Edições, 2007


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12.8.12

Juan Bonilla (Estar)





ESTAR





En cenas familiares y anchos domingos sórdidos,
en aulas medio llenas donde mi voz no es mía,
en la consulta del doctor sonriente
que firma unas recetas,
sobre el cuerpo desnudo en el que me demoro
para salir de mí transformado en temblor,
en los ojos de un niño en los que nado
hacia una costa ilusa donde el tiempo es mentira,
en las cafeterías donde los ceniceros atestados
midieron otra vez la victoria del tedio,
en álbumes de fotos que historian las huidas
que me condenan hacia el mismo punto
donde empezara a huir,
fulge constante una pregunta, cada letra
es un colmillo ensangrentado:
¿qué estoy haciendo aquí?


Y cuando en la mañana me repito en el espejo
con cara de superviviente único de un accidente aéreo,
y cuando me reflejo en los escaparates
camino de una noche poblada de relámpagos,
y cuando la memoria me nubla el paladar
con el sabor de una boca ya muerta,
brotando de mi piel como una picadura
otra vez la pregunta que no anhela respuesta:
¿qué estoy haciendo aquí?


Pero luego una voz dice mi nombre
y yo me reconozco, o sé vivir en los amplios salones
de una canción o sabe bien un cigarrillo
después de tanta nicotina para nada,
y la mano del mundo ordena sus tesoros
y todo está en su sitio formulando un temblor de sí rotundo
y la pregunta pierde sus garfios y las cosas
responden al unísono: Estar es suficiente.



El sol de mediodía santifica las cosas,
convierte lo que baña en un milagro,
pone coraza a la conciencia irresponsable
de ser eternos, hila un cuento antiguo
en el que se derriten las preguntas,
y en todos los espejos desafías
el frío de las noches venideras,
el frío de las cenas familiares,
futuros sórdidos domingos anchos,
tu voz no tuya proyectando ansiosa
a los espectros de la nada y los gigantes del pasado
¿qué estoy haciendo aquí?


No anheles la respuesta:
Estar es suficiente.




Juan Bonilla






Em ceias de família e largos domingos sórdidos,
em aulas meias cheias onde minha voz não é minha,
na consulta do médico sorrindo a assinar as receitas,
sobre o corpo desnudo em que me demoro
para sair de mim transformado em tremor,
nos olhos de uma criança em que nado
para uma costa ingénua onde o tempo é mentira,
em cafés onde os cinzeiros repletos
medem novamente a vitória do tédio,
em álbuns de fotos que historiam as fugas
que me amarram ao ponto mesmo
donde vinha a fugir,
uma pergunta reluz constantemente,
cada letra é um dente ensanguentado:
o que faço eu aqui?


E quando de manhã me repito no espelho
com cara de sobrevivente dum acidente aéreo,
e me vejo no reflexo das montras
a caminho duma noite povoada de relâmpagos,
e a memória me turva o paladar
com o sabor duma boca já morta
a brotar-me da pele como picada,
de novo a pergunta que não requer resposta:
o que faço eu aqui?


Mas então uma voz pronuncia-me o nome
e eu reconheço-me, ou sei que vivo nos largos salões
de uma canção ou sabe bem um cigarro
depois de tanta nicotina para nada,
e a mão do mundo ordena seus tesouros
e tudo está em seu sítio formulando um redondo temor de si
e a questão perde seus garfos e as coisas
respondem em uníssono: Estar é suficiente.


O sol do meio-dia santifica as coisas,
converte em milagre aquilo que banha,
veste couraça à consciência irresponsável
de sermos eternos, tece um conto antigo
em que se derretem as perguntas,
e desafias no espelho o frio das noites vindouras,
o frio das ceias familiares,
futuros sórdidos domingos largos,
tua voz não tua a projectar ansiosa
os espectros do nada e os gigantes do passado
- Que estou fazendo aqui?


Não anseies pela resposta:
Estar é suficiente.


(Trad. A.M.)

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11.8.12

Almeida Garrett (Um governo de patuscos)





Já saudámos Alhandra, a toireira; Vila Franca, a que foi de Xira, e depois da Restauração, e depois outra vez de Xira, quando a tal restauração caiu, como a todas as restaurações sempre sucede e há-de suceder, em ódio e execração tal que nem uma pobre vila a quis para sobrenome.

— «A questão não era de restaurar nem de não restaurar, mas de se livrar a gente de um governo de patuscos, que é o mais odioso e engulhoso dos governos possíveis.»



- ALMEIDA GARRETT, Viagens na minha terra, I.



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Juan Gelman (O jogo em que andamos)





EL JUEGO EN QUE ANDAMOS




Si me dieran a elegir, yo elegiría
esta salud de saber que estamos muy enfermos,
esta dicha de andar tan infelices.

Si me dieran a elegir, yo elegiría
esta inocencia de no ser un inocente,
esta pureza en que ando por impuro.

Si me dieran a elegir, yo elegiría
este amor con que odio,
esta esperanza que come panes desesperados.

Aquí pasa, señores,
que me juego la muerte.


Juan Gelman






Se me dessem a escolher, eu escolheria
esta saúde de saber que estamos muito enfermos,
esta ventura de andarmos tão infelizes.

Se me dessem a escolher, eu escolheria
esta inocência de não ser inocente,
esta pureza em que ando por impuro.

Se me dessem a escolher, eu escolheria
este amor com que odeio,
esta esperança que pão come desesperado.

É assim, meus senhores,
eu cá jogo a morte.


(Trad. A.M.)



>  Outras versões:  Do trapézio (L.P.) / Cesarcar (E.Nepomuceno)


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10.8.12

Mário Dionísio (Amigos desconhecidos)





AMIGOS DESCONHECIDOS





Quando ouvi onde ouvi este rosto vulgar e fatigado
estes olhos brilhantes lá no fundo
e este ar abandonado e inconformado
que aproxima?

Quando ouvi esta voz
que se eleva em surdina em meu ouvido e diz
frases tão conhecidas?

Quando foi que senti
estes dedos amigos nos meus dedos
este aperto de mão
tão comovidamente prolongado?

Não somos nós dois homens estranhos que se cruzam
com o mesmo passado
e com a mesma féria?

Ah dois amigos velhos que se encontram
pela primeira vez.


Mário Dionísio


[Luz & sombra]


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9.8.12

Josep Palau (Sombra de Ana)





SOMBRA DE ANA




Pasa tu mano por mis cabellos, Ana,
pasa tu mano.
Seré un muchacho a tus consejos, Ana,
un anciano.
Mira la nieve teñir mi frente, Ana
-los desengaños.
Vivir me pesa en este mundo, Ana,
tengo mil años.
La llama viva que me consume, Ana,
no me da tregua.
Y nada veo porque soy luz, Ana,
vivo sin cuerpo.
Pasa tu mano por mis cabellos, Ana,
pasa tu mano,
sin decir nada dame consejos, ya,
que estoy cansado.



Josep Palau




Passa-me a mão no cabelo, Ana,
passa-me a mão.
Serei criança para teus conselhos, Ana,
ou ancião.
Olha a neve que me cobre, Ana
- a desilusão.
Viver pesa-me neste mundo, Ana,
são já mil anos.
A chama viva que me queima, Ana,
não me dá trégua.
E nada vejo porque sou luz, Ana,
e vivo sem corpo.
Passa-me a mão no cabelo, Ana,
passa-me a mão,
não digas nada, vá, dá-me conselhos,
que eu estou cansado.



(Trad. A.M.)

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8.8.12

Ver (106)







- Fajã de Santo Cristo (S.Jorge>Açores)



[Jorge Góis]



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Josep M. Rodríguez (Incerteza)






INCERTIDUMBRE



¿Hasta dónde nos cambian las certezas?

Como el gato de Schrödinger,
no sé
si va a vivir,
hasta que abro la caja:

agradezco al amor su incertidumbre.


Josep M. Rodríguez





Até que ponto as certezas nos transformam?

Como o gato de Schrödinger,
não sei
se vai viver,
até que abro a caixa:

agradeço ao amor a sua incerteza.



(Trad. A.M.)



>>  JosepM.Rodríguez (blogue) / Catedra M.Delibes (vária) / Wikipedia


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7.8.12

Carlos de Oliveira (Soneto fiel)






SONETO FIEL





Vocábulos de sílica, aspereza,
Chuva nas dunas, tojos, animais
Caçados entre névoas matinais,
A beleza que têm se é beleza.


O trabalho da plaina portuguesa,
As ondas de madeira artesanais
Deixando o seu fulgor nos areais,
A solidão coalhada sobre a mesa.


As sílabas de cedro, de papel,
A espuma vegetal, o selo de água,
Caindo-me nas mãos desde o início.


O abat-jour, o seu luar fiel,
Insinuando sem amor nem mágoa
A noite que cercou o meu ofício.



Carlos de Oliveira


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6.8.12

Josefa Parra (Bom dia, tristeza)






BUENOS DÍAS, TRISTEZA




A veces llega la tristeza. Trae
las alas suaves de conformidades,
los ojos bajos y la piel desnuda,
y parece tan fácil entregarse,
despojarse, poner bajo sus plantas
el reino, los poderes y las armas,
el amor sobre todo, y esos últimos
retales que nos quedan de alegría.


A veces gana la tristeza; entonces,
qué lujo de matices su victoria,
qué fasto de sus grises y sus pardos
ocupándolo todo.


Buenos días,
- he de decir - tristeza, aquí me tienes.



Josefa Parra Ramos







Às vezes chega a tristeza. Com
as asas suaves do conformismo,
de olhos baixos e pele nua,
parece tão fácil render-se,
despojar-se, calcar aos pés
o reino, os poderes e as armas,
o amor sobretudo e os últimos
retalhos que nos restam de alegria.


Às vezes ganha a tristeza; e, então,
que luxo de matizes sua vitória,
que fasto seus cinzentos e pardos
enchendo tudo.


Bom dia,
- direi – tristeza, aqui me tens.



(Trad. A.M.)





> Bom dia, tristeza - diz também: Amalia Bautista



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5.8.12

Um verso (108)






Um verso de Rui Pires Cabral:





Sentimos que não podemos continuar - mas continuamos




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José María Parreño (Podendo escolher)





De poder elegir
sería una brizna
una gota
una gata

belleza
o no belleza
sin esfuerzo
armonía inédita
de la casualidad

de poder elegir
habría sido un paul klee:
un universo de colores libres
roturado sin vergüenza ni pena
un espacio tensado con humor

de poder elegir:
una patria digna
un rictus jovial
un pecho bastante para el corazón

de poder elegir


José María Parreño





Podendo escolher
era uma fibra
uma gota
uma gata

beleza
ou não beleza
sem esforço
inédita harmonia
do acaso

podendo escolher
seria um paul klee,
um universo de livres cores
retalhado sem pena nem vergonha
um espaço esticado com humor

podendo escolher,
uma pátria digna
um ricto jovial
um peito bastante para o coração

podendo escolher



(Trad. A.M.)

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4.8.12

Luís de Camões (Amor é fogo que arde sem se ver)





Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer.


É um não querer mais que bem querer
É solitário andar por entre a gente
É nunca contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder.


É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence, o vencedor
É ter com quem nos mata lealdade.


Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?



Luís de Camões

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3.8.12

José María Fonollosa (Doyers street)





DOYERS STREET





No vendrá. De verdad. No vendrá nunca.

Mi cuarto es muy modesto para el éxito.
Ni hallaría la casa tan siquiera.

Mi cuarto es muy austero para amigos.
Nadie viene a reunirse entre estos muros.

Mi cuarto es también frío y muy pequeño.
¿Cómo cobijar, pues, un gran amor?

No es lógico esperar. No vendrá nunca
un éxito, un amigo, un gran amor.

Debiera de una vez cerrar la puerta.



José María Fonollosa






Não virá. Verdade. Não virá nunca.

Meu quarto é muito modesto para o sucesso.
Nem sequer a casa acharia.

Meu quarto é muito austero para amigos.
Ninguém vem a encontrar-se dentro destas paredes.

Meu quarto é frio também e muito pequeno.
Como, pois, cobiçar um grande amor?

Não adianta esperar. Não virá jamais
um êxito, um amigo, um grande amor.

Devia era fechar duma vez a porta.


(Trad. A.M.)

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2.8.12

Ver (105)








[Henri Cartier Bresson]


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José Luis Zúñiga (Questão de genes)





CUESTIÓN DE GENES



A mi abuelo le murieron
de un tiro en la nuca.

Mi padre cayó fulminado
de algo en el cerebro,
no sé bien de qué.
Fulminante y cerca
de la nuca.
                  Yo
juego a la ruleta
rusa.
Vamos mejorando,
pero la genética
manda, ya lo creo.

Ya veo la bala en mi cabeza.


José Luis Zúñiga


[Escrito en el viento]




Meu avô morreram-no
com um tiro na nuca.

Meu pai caiu fulminado
de algo no cérebro,
nem sei bem de quê.
Fulminante e perto
da nuca.
                  Eu
jogo a roleta
russa.
Vamos melhorando,
mas a genética é que
manda, creio eu.

Já vejo a bala na minha cabeça.


(Trad. A.M.)

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