31.7.12

Julio Cortázar (Depois da festa)






DESPUÉS DE LAS FIESTAS



Y cuando todo el mundo se iba
y nos quedábamos los dos
entre vasos vacíos y ceniceros sucios,


qué hermoso era saber que estabas
ahí como un remanso,
sola conmigo al borde de la noche,
y que durabas,
que eras más que el tiempo,


eras la que no se iba
porque una misma almohada
y una misma tibieza
iba a llamarnos otra vez
a despertar al nuevo día
juntos, riendo, despeinados.



Julio Cortázar





E quando todos iam embora
e ficávamos nós dois
entre copos vazios e cinzeiros sujos,


que belo era saber que tu
ali estavas como um remanso,
comigo só à beira da noite,
e que duravas,
eras mais que o tempo


aquela que não se ia
porque a mesma travesseira
e o mesmo quente
ia chamar-nos outra vez
a despertar no novo dia
juntos, a rir, despenteados.


(Trad. A.M.)

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30.7.12

Almeida Garrett (O vale de Santarém)






Benévolo e paciente leitor, o que eu tenho decerto ainda é consciência, um resto de consciência: acabemos com estas digressões e perenais divagações minhas.

Bem vejo que te deixei parado à minha espera no meio da ponte da Asseca.

Perdoa-me por quem és, demos de espora às mulinhas, e vamos que são horas.

Cá estamos num dos mais lindos e deliciosos sítios da terra: o vale de Santarém, pátria dos rouxinóis e das madressilvas, cinta de faias belas e de loureiros viçosos.

Disto é que não tem Paris, nem França nem terra alguma do Ocidente senão a nossa terra, e vale bem por tantas, tantas coisas que nos faltam.


- ALMEIDA GARRETT, Viagens na minha terra, IX.

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Félix Grande (O fugitivo)






LO FUGITIVO





Mi recién conocida Loba
no nos pidamos groseras garantías

Que dure un día un año un mes
es lateral en el amor
Que se acabe es su precio
Que duela luego es su victoria

Seamos los servidores del amor
y jamás sus contables

Cierto que viene para irse

Como nosotros...
Como nosotros...


Félix Grande





Minha recém conhecida Loba
não podemos pedir-nos grandes garantias


Que dure um dia um mês um ano
é secundário no amor
Que se acabe é seu preço
Que doa depois sua vitória


Sejamos os servidores do amor,
nunca os contabilistas


Certo que vem para ir-se


Como nós...
Como nós...



(Trad. A.M.)

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29.7.12

Luís Filipe Parrado (Natureza morta com maçãs)






NATUREZA MORTA COM MAÇÃS




É triste
o espectáculo do amor
apodrecendo aos poucos
na fruteira
as maçãs que te trouxe
têm agora a pele seca e enrugada.


Luís Filipe Parrado




>>  Poems from the portuguese (5p) / Hospedaria Camões (4p) / Do trapézio (blogue/tradução)

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28.7.12

Víctor Botas (Um dia estarei morto)





Un día estaré muerto. De la mano
que en soledad escribe estas palabras
una tarde de otoño, sólo un vano
resumen quedará, una macabra
figura de marfil. En el secreto
cuarto pernoctaré, pálido y solo,
la cara ya indistinta y un discreto
pañuelo en la mandíbula. Tan sólo
una flor propondrá inútilmente
una nota feliz. Veo el paciente
ataúd que me aguarda. ¿Qué misterio
habráseme ese día desvelado,
terrible o musical? Algo muy grave
mi tácito cadáver sueña, sabe.



Víctor Botas





Um dia estarei morto. Da mão
que escreve em solidão estas palavras
uma tarde de Outono, ficará só
um vão resumo, uma figura
macabra de marfim. No secreto
quarto pernoitarei, pálido e só,
de cara indistinta já e um discreto
lenço na queixada. Uma flor
apenas dará inutilmente
uma nota feliz. Vejo o paciente
ataúde que me aguarda. Que mistério
se me terá desvelado nesse dia,
terrível ou musical? Algo muito grave
sonha, sabe, meu tácito cadáver.


(Trad. A.M.)

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27.7.12

Ver (104)








[Rui Pires]



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José Luis Piquero (Entrevista com o Golem)






ENTREVISTA CON EL GOLEM




¿Razón de ser? No lo he pensado mucho.
Ha de haber algo más que estas tareas
mecánicas: la casa
la hago en un plis-plás.
Los poemas, tal vez. Se me desprenden
como costras de barro.
Por algo tengo siempre la palabra en la boca,
pero no estoy seguro de ser culpable de ellos.
Hay una voz. El alma es un asunto
sobre el que no nos hemos puesto de acuerdo aún.

Mi infancia… Siempre digo que la tuve,
contra toda evidencia.
Me acuerdo de un cachorro junto a un estanque.
Lo tenía en las manos, hacía sol y las hojas
olían como libros. No sé qué pasó luego.
El agua estaba pálida.

No, no estoy triste, siga.

Ah, eso… Me resulta muy penoso.
Uno desea dar amor y no mide sus fuerzas.
De pronto te despiertas y oyes llorar y te miras las manos
y después huyes, huyes.
Todos nos refugiamos en los otros, como alegres tumores,
estirando los brazos, rompiendo cosas,
esperando el castigo.

¡Qué pregunta! Nunca he matado a nadie.
Pero calle. Esas voces, los poemas… No quiero escuchar más.
Tal vez un día
alguien se atreverá a quitarme la máscara, a taparme la boca,
y habré de rendir cuentas pero
ya nunca volveré a estar tan cansado.

¿Que si doy miedo? Bueno.
Esa es mi obligación.


José Luis Piquero






Razão de ser? Não pensei muito nisso.
Há-de haver algo mais do que estas tarefas
mecânicas: a casa
faço-a zás-trás.
Os poemas, talvez. Despegam-se-me
como crostas de lama.
Por alguma coisa tenho sempre a palavra na boca,
mas não estou certo de ter culpa deles.
Há uma voz. A alma é um assunto
sobre que ainda não chegámos a acordo.

A minha infância... Digo sempre que a tive,
contra toda a evidência.
Lembro-me de um cachorro ao pé dum tanque.
Tinha-o nas mãos, fazia sol e as folhas
cheiravam como os livros. Não sei o que aconteceu a seguir.
A água estava pálida.

Não, não estou triste, siga.

Ah, isso... É-me muito penoso.
Nós desejamos dar amor e não medimos as forças.
Acordamos de repente, ouvimos chorar e olhamos as mãos,
depois fugimos, fugimos.
Todos nós nos refugiamos nos outros, como alegres tumores,
esticando os braços, partindo coisas, esperando o castigo.

Olha que pergunta! Nunca matei ninguém.
Cale-se lá. Essas vozes, os poemas...Não quero ouvir mais.
Talvez um dia
alguém se atreva a tirar-me a máscara, a tapar-me a boca;
posso ter de prestar contas,
mas não voltarei a estar assim cansado.

Se meto medo? Bem,
essa é a minha obrigação.


(Trad. A.M.)


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26.7.12

José Gomes Ferreira (Um dia saberás)





Um dia saberás que nasceste como eu
com a solidão nos olhos
atados na lua
a gritar no pesadelo de uma ilha.


E a ver a morte crescer lentamente
no teu corpo
- viva.



José Gomes Ferreira


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25.7.12

José Luis Hidalgo (Nasci e morri tantas vezes)





¡He nacido y he muerto tantas veces!
El hombre que ahora soy no lo comprendo,
acaso no soy yo, es aquel otro
hundido y olvidado por las calles
que en una tarde amarga dejé solo.


Y quiero recordarlo y se me borra
perdido en la salida de los cines,
acaso en un retrato que mi madre
guardaba de la luz con mano triste.


Pero voy comprendiendo. Me supongo
acaso como soy, y escribo versos
y sueño para todos... Sí, comprendo,
para nacer hay que morir primero.


José Luis Hidalgo





Nasci e morri tantas vezes!
O homem que sou agora não o entendo,
não sou eu talvez, mas esse outro
perdido e esquecido nas ruas,
o que eu deixei só em tarde amarga.


Quero lembrá-lo e apaga-se
perdido à saída do cinema,
talvez numa foto que minha mãe
guardava da luz com mão triste.


Mas vou entendendo. Suponho-me
talvez como sou e faço versos
e sonho para todos... Sim, compreendo,
para nascer é preciso morrer primeiro.


(Trad. A.M.)

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24.7.12

Um verso (107)





Um verso de Rosa
(em tempos, o cravo da freguesia):



Mas quando chegas o corpo não tem peso





Rosa Alice Branco


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Francisco Brines (Copo partido)





VASO QUEBRADO




Hay veces en que el alma
se quiebra como un vaso,
y antes que se rompa
y muera (porque las cosas
se mueren también),
llénalo de agua
y bebe,
quiero decir que dejes
las palabras gastadas, bien lavadas,
en el fondo quebrado
de tu alma
y, que si pueden, canten.


Francisco Brines






Às vezes a alma
parte-se como um copo,
e antes de partir-se
e morrer (porque as coisas
também morrem),
enche-o de água
e bebe,
quero dizer, deixa
as palavras gastas, bem lavadas,
no fundo partido
da tua alma
e, se puderem, que cantem.

(Trad. A.M.)

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23.7.12

João de Deus (Adoração)





ADORAÇÃO




Vi o teu rosto lindo,
Esse rosto sem par;
Contemplei-o de longe mudo e quedo,
Como quem volta de áspero degredo
E vê ao ar subindo
O fumo do seu lar!

Vi esse olhar tocante,
De um fluido sem igual;
Suave como lâmpada sagrada,
Bem-vindo como a luz da madrugada
Que rompe ao navegante
Depois do temporal!

Vi esse corpo de ave,
Que parece que vai
Levado como o Sol ou como a Lua
Sem encontrar beleza igual à sua;
Majestoso e suave,
Que surpreende e atrai!

Atrai e não me atrevo
A contemplá-lo bem;
Porque espalha o teu rosto uma luz santa,
Uma luz que me prende e que me encanta
Naquele santo enlevo
De um filho em sua mãe!

Tremo apenas pressinto
A tua aparição,
E se me aproximasse mais, bastava
Pôr os olhos nos teus, ajoelhava!
Não é amor que eu sinto,
É uma adoração!

Que as asas providentes
De anjo tutelar
Te abriguem sempre à sua sombra pura!
A mim basta-me só esta ventura
De ver que me consentes
Olhar de longe... olhar!


João de Deus

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22.7.12

José Luis García Martín (Ruas)





CALLES




Calles de una ciudad que desconozco
con poca gente y viento y lluvia gris.
Espero a quien no llega mientras altas
se encienden luces en ventanas solas
y una mujer pasea en una esquina.
Hay ojos que me miran un instante
y no saben leer palabras que no digo:
"Dame otro nombre, cambia mi destino".



JOSÉ LUIS GARCÍA MARTIN
Autorretrato de desconocido
(1979)






Ruas de uma cidade que desconheço
com pouca gente, e vento, e chuva cinzenta.
Espero alguém que não vem enquanto altas
se acendem luzes em janelas solitárias
e uma mulher passeia numa esquina.
Há olhos que me olham um instante
e não sabem ler palavras que não digo:
“Dá-me outro nome, muda o meu destino”.



(Trad. A.M.)

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21.7.12

Ver (103)







[Duarte Belo]




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José Emilio Pacheco (Resumindo)







EN RESUMIDAS CUENTAS





¿En dónde está lo que pasó
y qué se hizo de tanta gente?

A medida que avanza el tiempo
vamos haciendo más desconocidos.

De los amores no quedó
ni una señal en la arboleda.

Y los amigos siempre se van.
Son viajeros en los andenes.

Aunque uno existe para los demás
(sin ellos es inexistente),

tan sólo cuenta la soledad
para contarle todo y sacar cuentas.



José Emilio Pacheco






O que passou onde está
e o que é feito de tanta gente?

À medida que o tempo avança
vamos fazendo mais desconhecidos.

Dos amores não restou
nem uma marca na árvore.

E os amigos estão sempre a partir,
são viajantes no cais.

Apesar de existirmos para os outros
(sem eles não existimos),

o que conta é a solidão
para lhe contarmos tudo
e lhe puxarmos contas.


(Trad. A.M.)


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20.7.12

Jaime Salazar Sampaio (Há sempre um erro novo)





Há sempre um erro novo à nossa espera.

Seja ele um cubo ou uma esfera,
há que recebê-lo com alegria.

É um erro novo.

Está à nossa espera.



Jaime Salazar Sampaio





>>  Jaime S.Sampaio (sítio of.) / Wikipedia


.

19.7.12

Alberto Vega (Geografia do sono)






GEOGRAFIA DO SONO




Tormenta de lua quieta,
na travesseira
um arcanjo de neve acorda-nos
com cem olhos abertos para o sono.


E a sombra
exultante da lembrança
multiplica-se em espaventos.
Ao abrigo do Ser e do milagre
nossa brisa interior alerta a noite.


Despertar não é morrer
mas abraçar
as coisas que nos agridem mais de perto.


(Trad. A.M.)


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18.7.12

Almeida Garrett (Tenho mais que fazer)






Isto pensava, isto escrevo; isto tinha na alma, isto vai no papel: que doutro modo não sei escrever.

Muito me pesa, leitor amigo, se outra coisa esperavas das minhas VIAGENS, se te falto, sem o querer, a promessas que julgaste ver nesse título, mas que eu não fiz decerto.

Querias talvez que te contasse, marco a marco, as léguas da estrada? palmo a palmo, as alturas e as larguras dos edifícios? algarismo por algarismo, as datas de sua fundação? que te resumisse a história de cada pedra, de cada ruína?

Vai-te ao padre Vasconcelos; e quanto há de Santarém, peta e verdade, aí o acharás em amplo fólio e gorda letra: eu não sei compor desses livros, e quando soubesse, tenho mais que fazer.



- ALMEIDA GARRETT, Viagens na minha terra, XXIX.

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José Corredor-Matheos (Um cão ladra)





Está ladrando un perro,
porque pasa otro perro,
y me pregunto
si he de ladrar también.
Hay pájaros que vuelan
y otros que picotean
en el suelo.
El perro ni los mira.
¿Qué es lo que sabe el perro,
que adivino, de pronto,
y me llena de paz?
Me he levantado ahora,
y bajo, muy bajito,
que nadie pueda oírme,
he empezado a ladrar,
ladrar, agradecido.


José Corredor-Matheos





Um cão ladra,
porque outro cão passa,
e eu pergunto-me
se hei-de ladrar também.
Há pássaros que voam
e outros que picam
no chão.
Nem os olha o cão.
O que é que o cão sabe,
que eu adivinho, de repente,
e me enche de paz?
Levanto-me agora,
e baixo, muito baixinho,
sem ninguém me poder ouvir,
começo a ladrar,
a ladrar, agradecido.


(Trad. A.M.)

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17.7.12

Inês Dias (Pequenos crimes entre amigos)





PEQUENOS CRIMES ENTRE AMIGOS





Se um dia me pedires,
juro que te empresto
o meu coração, tal como
guardei na boca o pequeno deus
que te trazia tão curioso.
A sério. Deixo-te tocar nele,
sentir-lhe o peso, atirá-lo
contra a parede para depois
o apanhares e retirares a pele
de pêssego demasiado maduro.


Podes até queimá-lo
– com cuidado, por favor –
quando estiver mais frio;
ou enterrares os restos debaixo
das estrelícias, de propósito
por saberes que não as suporto.
Em troca, promete-me apenas
que depois me deixas fugir
para saber como é isso de
passar o resto da vida desembaraçada
finalmente desse peso morto.


Inês Dias



[Hospedaria Camões]


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16.7.12

Teresa Calderón (Mandala)






MANDALA




Cumplí 40.
Vi el universo desplomarse anoche a mis espaldas
y abrirse absoluto hacia adelante un agujero negro.
Después tuve que cumplir 41.
La mitad de mi vida que ya no existe le hizo señas
a la otra mitad que todavía tampoco existe
y juntas mis mitades se burlaron de mí.
De manera que no tuve más remedio que cumplir 42.
Puesta entonces en medio del camino me derrumbo
pedazo de tierra voy tierra en la tierra girando.
Nadie sabe qué espera en qué futuro si hay futuro
cenizas sombra y sólo sombra sobre figuras de barro
grano de arena polvo en el polvo derramándose
desde hace cuatro mil millones de años.


Teresa Calderón







Cumpri os 40.
Vi esta noite o universo despenhar-se nas minhas costas
e abrir-se um buraco negro absoluto para diante.
Depois tive que fazer 41.
A metade que já se foi da minha vida faz sinais
à outra metade que está para vir
e ambas duas se esquivam de mim.
De modo que não tive outro remédio senão fazer 42.
Posta então a meio do caminho desmorono-me
pedaço de terra vou terra na terra girando.
Ninguém sabe o que espera em que futuro se houver futuro
cinzas sombra e sombra apenas sobre figuras de lama
grão de areia pó no pó a derramar-se
há quatro mil milhões de anos.


(Trad. A.M.)




>>  Arte poetica (antologia+perfil) / U.Chile (poemas) / Letras.s5 (arquivo)

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15.7.12

Ver (102)








[Henri Cartier Bresson]


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José Ángel Valente (Homenagem Isidoro Ducasse)





SEGUNDO HOMENAJE A ISIDORO DUCASSE





Un poeta debe ser más útil
que ningún ciudadano de su tribu.

Un poeta debe conocer
diversas leyes implacables.

La ley de la confrontación con lo visible,
el trazado de líneas divisorias,

la de colocación de un rompeaguas
y la sumaria ley del círculo.

Ignora en cambio el regicidio
como figura de delito
y otras palabras falsas de la historia.

La poesía ha de tener por fin la verdad práctica.

Su misión es difícil.



José Ángel Valente



[Neorrabioso]






Um poeta deve ser mais útil
do que qualquer cidadão da tribo.


Um poeta deve conhecer
diversas leis implacáveis.


A lei da confrontação com o visível,
o traçado de linhas divisórias,


a de colocação de um quebra-mar
e a sumária lei do círculo.


Ignora em troca o regicídio
como tipo legal de crime
e outras falsidades da história.


A poesia tem de ter por fim a verdade prática.


Sua missão é difícil.


(Trad. A.M.)

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14.7.12

Geraldino Brasil (O equilíbrio do mundo)





O EQUILÍBRIO DO MUNDO




Há os que ficam, há os que vão.
Nem todos voam, nem todos se plantam.

Todos ficassem, quem abriria os caminhos?
Todos seguissem, quem poria a mesa?

O filho da mulher do armazém
partiu. E ela espera.

Cada um mantém a seu modo
o equilíbrio do mundo.



Geraldino Brasil




>>  Scribd (antologia>164pp) / Antonio Miranda (7p)

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13.7.12

Eduardo Llanos (Chiloé)






CHILOÉ




Serenidad del cielo
al atardecer:
como si Dios meditara
bajando los párpados.


Eduardo Llanos




O céu sereno
do entardecer:
como se Deus meditasse
baixando as pálpebras.


(Trad. A.M.)

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12.7.12

Almeida Garrett (A nação mais feliz)





E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?

Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já deve de andar orçado o número de almas que é preciso vender ao Diabo, o número de corpos que se têm de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro — seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.

Logo a nação mais feliz não é a mais rica.




- ALMEIDA GARRETT, Viagens na minha terra, III.

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Pere Quart (Férias pagas)






VACACIONES PAGADAS




He decidido marcharme para siempre.
Amén.


Volveré mañana
porque soy viejo
y tengo los pies muy resentidos
e hinchados por la gota.


Pero volveré a marcharme pasado mañana,
rejuvenecido por el asco.
Para siempre jamás. Amén.


Pasado mañana no, el otro, volveré,
paloma de raza mensajera,
como ella estúpido,
aunque no tan recto,
ni blanco tampoco.


Emponzoñado de mitos,
con las alforjas colmadas de blasfemias
huesudo y chupado y legañoso
príncipe desposeído hasta de sus sueños,
Job de pocilga;
con la lengua cortada, castrado,
pasto de la piojería.


Tomaré el tren de vacaciones pagadas.
Agarrado al tope.
La tierra que fue nuestra herencia,
huye de mí.
Es un chorro entre las piernas
que me rechaza.
Herbaza, pedregal:
signos de amor disueltos en vergüenza.
¡Oh, tierra sin ciclo!


Pero miradme:
otra vez he vuelto.
Solo, casi ciego de tanta lepra.
Mañana me voy
- no os engaño esta vez.


Sí, sí: me voy a gatas
como el tatarabuelo,
por el atajo de los contrabandistas
hasta la línea negra de la muerte.



Salto entonces en las tinieblas ardientes,
donde todo es extranjero.
Donde vive desterrado
el Dios antiguo de los padres.


PERE QUART
Vacaciones pagadas
(1959)

(Versão José Batlló)





Decidi partir para sempre.
Amen.


Amanhã voltarei
pois estou velho
e tenho os pés muito pisados
e inchados com a gota.


Mas voltarei a partir depois de amanhã,
rejuvenescido pelo asco.
Duma vez para sempre. Amen.


Depois de amanhã não, a seguir, voltarei,
pomba tipo correio,
como ela estúpido,
mas não tão recto,
nem branco tão pouco.


Intoxicado de mitos,
com o alforge atulhado de blasfémias,
ossudo e chupado e remeloso
príncipe despossuído até de seus sonhos,
Job de pocilga;
com a língua cortada, castrado,
pasto dos piolhos.


Tomarei o comboio de férias pagas,
agarrado ao máximo.
A terra da nossa herança
foge de mim,
um jacto entre pernas
que me rejeita.
Erva, pedregal,
sinais de amor desfeitos em vergonha.
Oh terra sem ciclo!


Mas vede,
voltei outra vez,
só, quase cego de tanta lepra.
Amanhã parto
- desta vez não vos engano.


Sim, sim, vou-me de gatas
como o tataravô,
pelo atalho do contrabando
até à linha negra da morte.


Salto então para as trevas ardentes,
onde tudo é estrangeiro,
onde vive desterrado
o Deus antigo dos pais.


(Trad. A.M.)

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11.7.12

Fernando Pessoa / A. Campos (Tabacaria)





TABACARIA




Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.



Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.



Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.



Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.



Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.



Em que hei-de pensar?

(...)



Álvaro de Campos

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10.7.12

Jorge Teillier (Debaixo dum velho tecto)





BAJO UN VIEJO TECHO




Esta noche duermo bajo un viejo techo,
los ratones corren sobre él, como hace mucho tiempo,
y el niño que hay en mí renace en mi sueño,
aspira de nuevo el olor de los muebles de roble,
y mira lleno de miedo hacia la ventana,
pues sabe que ninguna estrella resucita.


Esa noche oí caer las nueces desde el nogal,
escuché los consejos del reloj de péndulo,
supe que el viento vuelca una copa del cielo,
que las sombras se extienden
y la tierra las bebe sin amarlas,
pero el árbol de mi sueño sólo daba hojas verdes
que maduraban en la mañana con el canto del gallo.


Esta noche duermo bajo un viejo techo,
los ratones corren sobre él, como hace mucho tiempo,
pero sé que no hay mañanas y no hay cantos de gallos,
abro los ojos, para no ver reseco el árbol de mis sueños,
y bajo él, la muerte que me tiende la mano.



Jorge Teillier





Durmo esta noite debaixo dum velho tecto,
os ratos correm por cima, como há muito tempo,
e o menino que há em mim renasce do meu sonho,
aspira de novo o cheiro dos móveis de carvalho,
olhando para a janela cheio de medo,
por saber que as estrelas não ressuscitam.


Na outra noite ouvi cair as nozes das nogueiras,
escutei os conselhos do relógio de pêndulo,
soube que o vento tomba um copo do céu,
que as sombras se estendem
e a terra as bebe sem amá-las,
mas a árvore do meu sonho dava só folhas verdes
que amadureciam de manhã com o cantar do galo.


Durmo esta noite debaixo dum velho tecto,
os ratos correm por cima, como há muito tempo,
mas sei que não há manhãs nem cantos de galos,
abro os olhos, para não ver seca a árvore dos meus sonhos
e, por baixo, a morte que me estende a mão.


(Trad. A.M.)

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9.7.12

Ver (101)







D'oiro



[Rui Pires]


.

Jorge Riechmann (Segurança viária)





SEGURIDAD VIAL



La democracia camina
El capitalismo cabalga


La democracia camina
El capitalismo viaja en palanquín


La democracia camina
El capitalismo acelera un automóvil


La democracia camina
El capitalismo se acomoda en un Tren de Alta Velocidad


La democracia camina
El capitalismo vuela en Concorde
y da vueltas en una lanzadera espacial


Uno de los dos resulta atropellado
¿Adivinas quién?


Jorge Riechmann


[Apología de la luz]





A democracia caminha
O capitalismo cavalga


A democracia caminha
O capitalismo vai de palanque


A democracia caminha
O capitalismo acelera de automóvel


A democracia caminha
O capitalismo senta-se num comboio de Alta Velocidade


A democracia caminha
O capitalismo voa em Concorde
e revira numa lançadora espacial


Um dos dois resulta atropelado
Será qual?



(Trad. A.M.)

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8.7.12

António Reis (E as palavras)





E as palavras


o que são


de
quem
são


de livros
quotidianas
mudas


As palavras que
se erguemos os olhos
matizadas
ou livres


já no ar
pousam


e levantam



António Reis

.

7.7.12

Julián Bejarano (O homem e os astros)





EL HOMBRE Y LOS ASTROS




Acabo de mudarme a este monoambiente.
De espaldas a la cama tengo un ventanal
para espiar las mutaciones del cielo
y los movimientos pausados de las nubes
además de ver cubiertas de automóviles
que la gente abandona sobre los techos de sus viviendas.
Arriba del escritorio tengo desplegado el mapa estelar
correspondiente al mes de agosto
veo que Andrómeda está en dirección a Pegaso
hacia el extremo este
y que Piscis persigue a Acuario con velocidad
escapando de la traición y de la muerte.
Nos peleamos y después nos amamos
debajo de estas cobijas que ahora están desordenadas
hacia la punta de la cama.
Seguramente algo de todos estos fenómenos
que ocurren en el espacio
explican nuestras idas y venidas,
nuestros aciertos y fallidos,
las ganas de estar acompañados o totalmente solos.


Julián Bejarano



[Otra iglesia]





Acabo de mudar-me para este estúdio.
De costas para a cama tenho uma janela larga
para observar as mutações do céu
e os movimentos pausados das nuvens,
além de ver capotas de automóveis
que as pessoas abandonam no telhado das casas.
Tenho aberto em cima da mesa o mapa do céu
do mês de Agosto
e vejo que Andrómeda está a caminho de Pégaso
no extremo leste
e Peixes persegue Aquário velozmente
escapando da traição e da morte.
Brigamos e a seguir amamo-nos
por baixo destas mantas agora desarrumadas
ao fundo da cama.
De certeza que algo destes fenómenos todos
que acontecem no espaço
é o que explica nossas idas e vindas,
nossos êxitos e fracassos
o desejo de ter companhia
ou estar totalmente só.



(Trad. A.M.)


>>  El poeta ocasional (3p)

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6.7.12

Almeida Garrett (Uma obra-prima)





Estas minhas interessantes viagens hão-de ser uma obra-prima, erudita, brilhante de pensamentos novos, uma coisa digna do século.

Preciso de o dizer ao leitor, para que ele esteja prevenido; não cuide que são quaisquer dessas rabiscaduras da moda que, com o título de Impressões de Viagem, ou outro que tal, fatigam as imprensas da Europa sem nenhum proveito da ciência e do adiantamento da espécie.



- ALMEIDA GARRETT, Viagens na minha terra, II.

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Jorge Luis Borges (O suicida)





EL SUICIDA




No quedará en la noche una estrella.
No quedará la noche
Moriré y conmigo la suma
Del intolerable universo.
Borraré las pirámides, las medallas,
Los continentes y las caras.
Borraré la acumulación del pasado.
Haré polvo la historia, polvo el polvo.
Estoy mirando el último poniente.
Oigo el último pájaro.
Lego la nada a nadie.


JORGE LUIS BORGES
La rosa profunda
(1975)




Não restará na noite uma estrela.
Não restará a noite.
Eu morrerei e comigo a suma
do intolerável universo.
Apagarei as pirâmides, as medalhas,
os continentes e as caras.
Apagarei a acumulação do passado.
Farei a história em pó, o pó em pó.
Estou a olhar para o último poente.
Ouço o último pássaro.
Lego o nada a ninguém.


(Trad. A.M.)



>  Outra versão: Antonio Cicero

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5.7.12

Eugénio de Andrade (Sem ti)





SEM TI





E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
Sem álamos,
Sem luas.

Só nas minhas mãos
ouço a música das tuas.



Eugénio de Andrade



[Canal de poesia]

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4.7.12

Jorge Espina (Infância)





INFÂNCIA




Tudo era branco,
frio e branco.
Fumegavam latidos dos cães,
o vento uivava nos vidros embaciados,
o chão rangia ao caminhar.
Eu gostava de quebrar o gelo dos charcos,
dissecar as folhas de azevinho congeladas.

E tudo era branco,
frio e branco,
mas um mundo verde
tiritava já
sob a neve.



JORGE ESPINA
Volver al pan, llegar a casa
Canalla Ediciones (2012)

(Trad. A.M.)

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3.7.12

Ver (100)







[BRETONS SANS FRONTIÈRES]



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Víctor Botas (Impossível)





IMPOSIBLE




Sería
muchísimo mejor que no fumara
tanto,
me dicen
ceñudos los doctores.
Imposible
seguir tan buen consejo:
este humo
que vuela entre mis dedos (no comprenden
nada) es la
contestación de un conformista,
la sola valentía que aún me queda.


Víctor Botas




Era
muito melhor que não fumasse
tanto,
diz-me
carrancudo o médico.
Impossível
seguir tão bom conselho:
este fumo
a voar-me por entre os dedos (não percebem
nada) é a
resposta de um conformista,
a única valentia que me resta.


(Trad. A.M.)



>>  Cervantes (anto+perfil+biblio) / Wikipedia

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2.7.12

Charles Bukowski (Escrever)





WRITING



often it is the only
thing
between you and
impossibility.
no drink,
no woman's love,
no wealth
can
match it.

Charles Bukowski





muitas vezes é a única
coisa
que te separa
do impossível.
não há bebida,
nem amor,
nem dinheiro
que valham
o mesmo.

(Trad. A.M.)

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