29.6.11

Angel González (São as gaivotas)





Son las gaviotas, amor.
Las lentas, altas gaviotas.


Mar de invierno. El agua gris
mancha de frío las rocas.
Tus piernas, tus dulces piernas,
enternecen a las olas.
Un cielo sucio se vuelca
sobre el mar. El viento borra
el perfil de las colinas
de arena. Las tediosas
charcas de sal y de frío
copian tu luz y tu sombra.
Algo gritan, en lo alto,
que tú no escuchas, absorta.


Son las gaviotas, amor.
Las lentas, altas gaviotas.



Ángel González



[Balconcillos]





São as gaivotas, amor.
As lentas, altas gaivotas.


Mar de inverno. A água cinzenta
mancha de frio as rochas.
Tuas pernas, tuas doces pernas,
enternecem as ondas.
Um céu turvo inclina-se
sobre o mar. O vento risca
o perfil das colinas
de areia. Charcos tediosos
de sal e de frio
copiam tua luz e tua sombra.
Gritam algo, lá no alto,
que tu, absorta, não escutas.


São as gaivotas, amor.
As lentas, altas gaivotas.


(Trad. A.M.)

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28.6.11

José Alberto Oliveira (Beatitude)





BEATITUDE



Assim, bento de ignorância
e desleixo, deslizo
pelo cano dos dias
— projectos? — todos grandes
e muitos,
certo de que o tempo
os vai gastando,
ao ritmo a que se amontoam
as beatas no cinzeiro
e com o mesmo cheiro


José Alberto Oliveira


[Vortex]

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Ana Pérez Cañamares (As pedras)





LAS PIEDRAS




Durante las vacaciones
recogemos las piedras
que el mar nos regala.
Son las piedras con las que luego,
en el invierno, reconstruimos
las ruinas de nuestras guerras.
No sólo les pedimos
que resistan.
También que nos recuerden
que el mar existe.


Ana Pérez Cañamares


[Viktor Gómez]



Durante as férias
apanhamos as pedras
que o mar nos oferece.
Pedras com que depois,
no Inverno, reconstruímos
as ruínas de nossas guerras.
Não lhes pedimos só
que resistam.
Também que nos lembrem
que o mar existe.


(Trad. A.M.)

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27.6.11

Olhar (98)








Serra do Alvão


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Pura López Cortés (Solilóquio)






SOLILOQUIO




La mano en la mejilla, la mirada profunda
tras las negras ojeras, el bigote
enmarcando tu sonrisa serena,
la paz de tus palabras, tu ternura,
¿y qué queda si no? ¿la losa gris y el retrato
apresándote en gris plata?
¿Y el tiempo alejándonos de ti?
Tus zapatos por siempre ya vacíos,
por siempre ya colgadas tus chaquetas,
guardadas ya por siempre tus corbatas.

Este vacío extraño, despoblado,
esta niebla que en el recuerdo insiste,
esta punzada sorda que persiste,
este sentirte tan próximo y lejano;
me hace convocarte, perseguirte
y casi no consigo, ni en sueños, reencontrarte...

Te has dejado la paleta manchada
de azules, bermellones y dorados,
sin terminar la Virgen de Domenico el Griego...
La Biblia con la cinta en la primera carta
de Pablo a los Corintios.
El Quijote, por el uso gastado,
en tu sillón, que siempre está vacío,
y un manantial de frío
brotándome incesante del costado.



Pura López Cortés


[Isla Bahia]



A mão na face, o olhar profundo
por trás das negras olheiras, o bigode
emoldurando o sorriso sereno,
a paz das palavras, a tua ternura,
e o que resta, senão a lousa cinzenta e o retrato
apresando-te em prata cinza?
E o tempo a afastar-nos de ti?
Teus sapatos vazios para sempre,
teus casacos para sempre pendurados,
guardadas para sempre as tuas gravatas.

Este vazio estranho, despovoado,
esta névoa que insiste na lembrança,
esta pontada surda que persiste,
este sentir-te tão perto e longe,
faz-me convocar-te, perseguir-te
e quase não consigo, nem em sonhos,
reencontrar-te...

Deixaste a paleta manchada
de azuis, vermelhões e dourados,
sem terminar a Virgem de Domenico o Grego...
A Bíblia com a marca na primeira epístola
de S. Paulo aos Coríntios.
O Quixote, gasto pelo uso,
no teu cadeirão, que está sempre vazio,
e uma nascente de frio
a brotar-me incessante das costas.


(Trad. A.M.)




>>  Pura López Cortés (blogue) / Poesia palmeriana (5p) / Andalucia (autobio)


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26.6.11

Mario Quintana (Das utopias)





DAS UTOPIAS



Se as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
a mágica presença das estrelas!




Mário Quintana

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Javier Almuzara (Aqui jaz um homem)






Yace aquí un hombre
que nunca se cansó
de no hacer nada.
No lloréis por su muerte,
no ha cambiado de vida. 


Javier Almuzara 








Aqui jaz um homem
que jamais se cansou
de não fazer nada.
Não lhe choreis a morte,
pois não mudou de vida.


(Trad. A.M.)


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25.6.11

Manuel de Freitas (Praça das Flores n.º 5)





PRAÇA DAS FLORES N.º 5




Tarde chuvosa de Verão a redimir
o luminoso e opressivo cansaço de Lisboa.
Abrigo-me numa taberna agora sombria
devido ao cinzento súbito do céu.

Aqui o tempo é uma ferida menor, vejo-o
pelas tardes sempre iguais destes homens
a jogar dominó, a zaragatear por vezes
acerca de importantes questões,
metafísicas inerentes a este jogo.

Que calma, esta do vencido
pagando cervejas aos vencedores,
o vinho tépido servido por alguém
que sem pressas nem angústias
envelhece por detrás do balcão.

É uma calma suave e perturbante, talvez
como a chuva lá fora, e encanta-me
esta singeleza profunda, a sedução de
exauridos olhares que a vinho sobrevivem.

Dir-se-ia ter nos meus ombros
toda a tristeza do mundo, ainda que
o mundo pouco valha ao pé desta taberna
na tarde molhada da cidade. E contudo
sinto-me estranho como em qualquer lugar,
espião não da casa do amor mas na da
morte quotidianamente vivida.

A melancolia pode às vezes ser isto,
um modo de sobreviver ao vazio, o comovido
jeito de pôr a mão sobre o mármore da mesa
e pedir outro martini, fresco
se faz favor.



Manuel de Freitas

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24.6.11

Irene Sánchez Carrón (No fim)





AL FINAL




Que pocas cosas duelen. Digamos, por ejemplo,
que se puede no amar de repente y no duele.

Duele el amor si pasa
hirviendo por las venas.
Duele la soledad,
latigazo de hielo.

El desamor no duele. Es visita esperada.
No duele el desencanto. Es tan sólo algo incómodo.

Somos así, mortales
irremediablemente,
sin duda acostumbrados
a que todo termine.



Irene Sánchez Carrón





Quão poucas coisas doem. Por exemplo,
pode não se amar de repente e não dói.

Dói o amor se passar
a ferver pelas veias.
Dói a solidão,
chicotada de gelo.

O desamor não dói, é visita esperada.
Não dói o desencanto, é tão só algo incómodo.

Somos assim, mortais
irremediavelmente,
acostumados sem dúvida
a que tudo acabe.


(Trad. A.M.)

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23.6.11

Maria do Rosário Pedreira (Se partires)





SE PARTIRES, NÃO ME ABRACES





Se partires, não me abraces - a falésia que se encosta
uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre
e sonha com viagens na pele salgada das ondas.

Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão
das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;
mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,
porque o ar que respiras junto de mim é como um vento
a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces –

o teu perfume preso á minha roupa é um lento veneno
nos dias sem ninguém - longe de ti, o corpo não faz
senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta
as embarcações perdidas nos gritos do mar); e o rosto
espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.
Se me abraçares, não partas.



Maria do Rosário Pedreira

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22.6.11

José Emilio Pacheco (Miss Universo vista pela mosca)





LA MOSCA JUZGA A MISS UNIVERSO




Qué repugnantes los humanos.
Qué maldición
tener que compartir el aire nuestro con ellos.

Y lo más repulsivo es su fealdad.
Miren a ésta.
La consideran hermosísima.
Para nosotras es horrible.
Sus piernas no se curvan ni se erizan de vello.
Su vientre no es inmenso ni está abombado.

Su boca es una raya: no posee
nuestras protuberancias extensibles.
Parecen despreciables esos ojillos
en vez de nuestros ojos que lo ven todo.

Asco y dolor nos dan los indefensos.
Si hubiera Dios no existirían los humanos.
Viven tan sólo para hostilizarnos
con su odio impotente.

Pero los compadezco: no tienen alas
y por eso se arrastran en el infierno.


José Emilio Pacheco


[Neorrabioso]






Que repugnantes os humanos.
Malo haja
termos de partilhar o ar com eles.

E o mais repulsivo é a sua fealdade.
Olhem para esta,
consideram-na belíssima.
Para nós é horrível.
As pernas não se dobram nem se eriçam com pelo.
O ventre não é imenso nem abaulado.

A boca é um traço, não tem
como nós protuberâncias extensíveis.
E aqueles olhitos parecem desprezíveis
em vez dos nossos que vêem tudo.

Só nos dão asco e dor, os indefesos.
Se houvesse Deus os humanos não existiriam.
Vivem somente para nos hostilizar
com o seu ódio impotente.

Mas tenho pena deles, não têm asas
e por isso se arrastam no inferno.


(Trad. A.M.)

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21.6.11

Bertolt Brecht (Aos que vão nascer)





AOS QUE VÃO NASCER




   I

É verdade, eu vivo em tempos negros.
Palavra inocente é tolice. Uma testa sem rugas
Indica insensibilidade. Aquele que ri
Apenas não recebeu ainda
A terrível notícia.

Que tempos são esses, em que
Falar de árvores é quase um crime
Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?
Aquele que atravessa a rua tranquilo
Não está mais ao alcance de seus amigos
Necessitados?

Sim, ainda ganho meu sustento
Mas acreditem: é puro acaso. Nada do que faço
Me dá direito a comer a fartar.
Por acaso fui poupado. (Se minha sorte acaba, estou perdido.)

As pessoas me dizem: Coma e beba! Alegre-se porque tem!
Mas como posso comer e beber, se
Tiro o que como ao que tem fome
E meu copo d’água falta ao que tem sede?
E no entanto eu como e bebo.

Eu bem gostaria de ser sábio.
Nos velhos livros se encontra o que é sabedoria:
Manter-se afastado da luta do mundo e a vida breve
Levar sem medo
E passar sem violência
Pagar o mal com o bem
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los
Isto é sábio.
Nada disso sei fazer:
É verdade, eu vivo em tempos negros.
   (...)


Bertolt Brecht
(Trad. P.C.Souza)


[Acontecimentos]

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Amalia Bautista (Dream a little dream of me)





DREAM A LITTLE DREAM OF ME




Invítame a tu sueño,
déjame compartir esa película
donde el tiempo es deforme y el deseo se cumple.
Sueña un poco conmigo y te prometo
ser la mujer perfecta
para ti, mientras vivas con los ojos cerrados.
Te besaré con labios de cereza,
mezclaré sabiamente la pasión con ternura
y cuando llegue el alba me iré sin hacer ruido.


Amalia Bautista





Convida-me para o teu sonho,
deixa-me partilhar esse filme
onde o tempo é disforme e o desejo se cumpre.
Sonha um pouco comigo e eu prometo
ser a mulher perfeita
para ti, enquanto viveres de olhos fechados.
Hei-de beijar-te com lábios de cereja,
misturar sabiamente paixão e ternura
e quando vier a aurora partirei sem fazer barulho.



(Trad. A.M.)

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20.6.11

Nuno Júdice (Projecto)





PROJECTO





Desta vez vou escrever-te um poema que vai ser
um poema de amor, mas que não é apenas um poema de amor. O
amor, com efeito, é algo que não cabe num poema; pelo contrário,
o poema é que pode caber no amor, sobretudo quando te abraço, e
sinto os teus cabelos na boca, agora que a tua voz me corre pelos
ouvidos como, num dia de verão, a água fresca corre pela
garganta. A isto, em retórica, chama-se uma comparação; e pergunto
o que é que o amor tem a ver com a retórica, ou por que é
que o teu corpo se teme de transformar numa metáfora - rosa,
lírio, taça, qualquer objecto que tenha, na sua essência, um
elemento que me possa levar até ele, como se fosse preciso, para te tocar,
substituir-te por uma outra imagem, ver em ti o que não és,
nem tens de ser, ou ainda transformar-te num lugar-comum, que
é aquilo em que, quase sempre, acabam os poemas de amor. Assim,
este poema de amor é, mais do que um poema de amor, um
exercício para escrever um poema de amor - mas um poema de amor
a sério, sem comparações nem metáforas, só contigo, com o
teu corpo, com a tua voz, com os teus cabelos, com aquilo que é
real, e não precisa de sair da realidade para se tornar objecto de
um poema de amor em que o amor, finalmente, deixa de ser
o objecto único do poema, que se preocupa acima de tudo com
a retórica, as imagens, o equilíbrio das formas. Mas, pergunto, não
é o teu corpo uma flor? Não é a tua boca uma rosa? Não são lírios os teus
seios? Tudo, então, se transforma: e o que tenho nas mãos é uma imagem,
a pura metáfora da vida, a abstracta metamorfose das emoções. O
resto, meu amor, é tu - e é por isso que o poema de amor que te
escrevo não é, finalmente, um poema de amor.




Nuno Júdice



[Poedia]

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Javier Almuzara (Auto-exploração)





AUTOEXPLORACIÓN




Me pregunto quién soy ante el espejo
tan familiar y extraño de mi nombre.
Recuerdo al niño y adivino al viejo
que un tiempo fue y será este mismo hombre.

¿De dónde vengo? ¿En qué remoto ser
inaugural estaba mi futuro?
El ingente pasado hace creer
que el raro azar es ese padre oscuro.

¿Adónde voy desde el vedado inicio?
No sabré la respuesta mientras viva.
Este vértigo intuye un precipicio;
La muerte, soledad definitiva,

una caída libre hasta el abismo
que hay al fondo del pozo de mí mismo.


Javier Almuzara





Pergunto-me quem sou frente ao espelho
do meu nome, tão estranho e familiar.
Recordo o menino e adivinho o velho
que em tempos foi e há-de ser este mesmo homem.

Donde venho? Em que remoto ser
inaugural estava meu futuro?
O ingente passado leva a crer que
o estranho acaso é esse pai obscuro.

Do vedado início aonde vou?
Não saberei a resposta enquanto viver.
Esta vertigem intui um precipício;
A morte, definitiva solidão,

uma queda livre no abismo,
no fundo do poço de mim mesmo.


(Trad. A.M.)



>>  Las afinidades electivas (3p) / Wikipedia / La aventura del orden (Miguel d’Ors)

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19.6.11

Manuel António Pina (Lugares da infância)





Lugares da infância onde
sem palavras e sem memória
alguém, talvez eu, brincou
já lá não estão nem lá estou.


Onde? Diante
de que mistério
em que, como num espelho hesitante,
o meu rosto, outro rosto, se reflecte?


Venderam a casa, as flores
do jardim, se lhes toco, põem-se hirtas
e geladas, e sob os meus passos
desfazem-se imateriais as rosas e as recordações.


O quarto eu não o via
porque era ele os meus olhos;
e eu não o sabia,
e essa era a sabedoria.


Agora sei estas coisas
de um modo que não me pertence,
como se as tivesse roubado.


A casa já não cresce
à volta da sala,
puseram a mesa para quatro
e o coração só para três.


Falta alguém, não sei quem,
foi cortar o cabelo e só voltou
oito dias depois, já o
jantar tinha arrefecido.


E fico de novo sozinho,
na cama vazia, no quarto vazio.
Lá fora é de noite, ladram os cães;
e cubro a cabeça com os lençóis.



Manuel António Pina

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Ida Vitale (Exílios)





EXILIOS



Están aquí y allá: de paso,
en ningún lado.
Cada horizonte: donde un ascua atrae.
Podrían ir hacia cualquier fisura.
No hay brújula ni voces.

Cruzan desiertos que el bravo sol
o que la helada queman
y campos infinitos sin el límite
que los vuelve reales,
que los haría de solidez y pasto.

La mirada se acuesta como un perro,
sin siquiera el recurso de mover una cola.
La mirada se acuesta o retrocede,
se pulveriza por el aire
si nadie la devuelve.
No regresa a la sangre ni alcanza
a quien debiera.

Se disuelve, tan solo.


Ida Vitale





Estão de passagem, aqui e ali,
em parte nenhuma.
Cada horizonte, o que o fogo atrai.
Podiam passar uma fenda qualquer.
Não há bússola, nem mesmo vozes.

Atravessam desertos queimados
do sol ou da geada,
campos infinitos sem um limite
que os torne reais,
de pasto e consistência.

O olhar deita-se como um cachorro,
sem o recurso sequer de abanar o rabo.
O olhar deita-se ou retrocede,
desfaz-se pelo ar
se ninguém o devolve.
Não torna para o sangue
nem alcança quem devia.

Dissolve-se, apenas.


(Trad. A.M.)

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18.6.11

Manoel de Barros (Mundo pequeno-VIII)





MUNDO PEQUENO




(VIII)

Toda vez que encontro uma parede ela me entrega às suas lesmas.
Não sei se isso é uma repetição de mim ou das lesmas.
Não sei se isso é uma repetição das paredes ou de mim.
Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?
Parece que lesma só é uma divulgação de mim.
Penso que dentro de minha casca não tem um bicho:
Tem um silêncio feroz.
Estico a timidez da minha lesma até gozar na pedra.


Manoel de Barros

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Evaristo Carriego (Essa vez em que surgiu a tua lembrança)





AQUELLA VEZ QUE VINO TU RECUERDO




La mesa estaba alegre como nunca.
Bebíamos el té: mamá reía
recordando, entre otros,
no sé qué antiguo chisme de familia;
una de nuestras primas comentaba
-recordando con gracia los modales,
de un testigo irritado- el incidente
que presenció en la calle;
los niños se empeñaban, chacoteando,
en continuar el juego interrumpido,
y los demás hablábamos de todas
las cosas de que se habla con cariño.

Estábamos así, contentos, cuando
alguno te nombró, y el doloroso
silencio que de pronto ahogó las risas,
con pesadez de plomo,
persistió largo rato. Lo recuerdo
como si fuera ahora: nos quedamos
mudos, fríos. Pasaban los minutos,
pasaban y seguíamos callados.

Nadie decía nada, pero todos
pensábamos lo mismo. Como siempre
que la conmueve una emoción penosa,
mamá disimulaba ingenuamente
queriendo aparecer tranquila. ¡Pobre!

¡Bien que la conocemos!... Las muchachas
fingían ocuparse del vestido
que una de ellas llevaba:
los niños, asombrados de un silencio
tan extraño, salían de la pieza.
Y los demás seguíamos callados
sin mirarnos siquiera.



Evaristo Carriego






A mesa estava alegre como nunca.
Tomávamos o chá, a mãe ria
lembrando, entre outras,
não sei que velha história de família;
uma das primas comentava
– lembrando com graça as maneiras,
de uma testemunha irritada – o incidente
que presenciara na rua;
as crianças empenhavam-se, chacoteando,
em continuar a brincadeira interrompida,
e nós falávamos de todas
as coisas de que se fala com carinho.

Estávamos assim, todos contentes, quando
alguém te nomeou, e o doloroso
silêncio que de súbito afogou os risos,
pesado como chumbo,
persistiu por um bocado. Recordo-o
como se fosse agora, ficámos
mudos e frios. Os minutos passavam,
passavam, e nós continuávamos calados.

Ninguém dizia nada, mas todos
pensávamos o mesmo. Como sempre
que uma emoção penosa a comove,
a mãe dissimulava ingenuamente
pretendendo parecer tranquila. Coitada!

Bem que a conhecemos!... As raparigas
fingiam ocupar-se do vestido que uma delas usava;
os rapazes, assombrados com tão estranho
silêncio, abandonavam a sala.
E nós continuávamos calados,
sem sequer nos olharmos.


(Trad. A.M.)

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17.6.11

Eugenio Montejo (As árvores)





LOS ÁRBOLES




Hablan poco los árboles, se sabe.
Pasan la vida entera meditando
y moviendo sus ramas.
Basta mirarlos en otoño
cuando se juntan en los parques:
sólo conversan los más viejos,
los que reparten las nubes y los pájaros,
pero su voz se pierde entre las hojas
y muy poco nos llega, casi nada.
Es difícil llenar un breve libro
con pensamientos de árboles.
Todo en ellos es vago, fragmentario.
Hoy, por ejemplo, al escuchar el grito
de un tordo negro, ya en camino a casa,
grito final de quien no aguarda otro verano,
comprendí que en su voz hablaba un árbol,
uno de tantos,
pero no sé qué hacer con ese grito,
no sé cómo anotarlo.



Eugenio Montejo


[Noctambulario]





Falam pouco as árvores, é sabido.
Passam a vida toda a meditar
e a mexer os ramos.
Basta olhar para elas no outono
quando se juntam nos parques,
só conversam as mais velhas,
as que partilham as nuvens e os pássaros,
mas a sua voz perde-se nas folhas
e chega-nos muito pouco, quase nada.
É difícil encher um livro, mesmo breve,
com pensamentos de árvores.
É tudo vago nelas, fragmentário.
Hoje, por exemplo, ouvindo o grito
de um tordo negro, no caminho para casa,
grito final de quem não espera outro verão,
eu percebi que pela sua voz falava uma árvore,
uma entre tantas,
mas não sei o que fazer com esse grito,
não sei como apontá-lo.


(Trad. A.M.)

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15.6.11

Irene Sánchez Carrón (Razões)





RAZONES





Y porque estamos solos empezamos un verso.

Porque sentimos frío acercamos las manos
al calor de unos seres imposibles y bellos
que nos prestan sus ojos para observar el mundo.

Porque tenemos miedo miramos otras muertes
y en nuestra oscuridad encendemos un sol
de mediodía, inmóvil, que no se irá al ocaso.

Huyendo del dolor fatigamos el cuerpo
por calles de ciudades que nunca son la nuestra
de la mano de gentes que habitan en nosotros.

Porque tenemos prisa inventamos finales.
Porque nos falta el tiempo inventamos más tiempo.

Porque somos tan pobres no nos pesa apostar
lo poco que nos queda a este número incierto.

Porque somos humanos miramos a los dioses.
Porque no somos dioses jugamos a crear.



Irene Sánchez Carrón





E porque estamos sós começamos um verso.

Porque sentimos frio chegamos as mãos
ao calor de alguns seres impossíveis e belos
que nos emprestam os olhos para observar o mundo.

Porque temos medo olhamos outras mortes
e na escuridão acendemos um sol
de meio-dia, imóvel, sem ocaso.

Fugindo da dor fatigamos o corpo
por ruas de cidades que nunca são a nossa
por mão de pessoas que habitam em nós.

Porque temos pressa inventamos finais.
Porque nos falta o tempo inventamos mais tempo.

Porque somos tão pobres não nos pesa apostar
neste número incerto o pouco que nos resta.

Porque somos humanos olhamos para os deuses.
Porque não somos deuses brincamos à criação.


(Trad. A.M.)



>>  A media voz (27p)  /  Poesi.as (40p)

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14.6.11

Luís de Camões (Aquela triste e leda madrugada)






Aquela triste e leda madrugada,
Cheia toda de mágoa e de piedade,
Enquanto houver no mundo saudade
Quero que seja sempre celebrada.


Ela só, quando amena e marchetada
Saía, dando ao mundo claridade,
Viu apartar-se de uma outra vontade,
Que nunca poderá ver-se apartada.


Ela só viu lágrimas em fio,
Que de uns e de outro olhos derivadas
Se acrescentaram em grande e largo rio.


Ela viu as palavras magoadas
Que puderam tornar o fogo frio,
E dar descanso às almas condenadas. 



Luís de Camões

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Eloy Sánchez Rosillo (Princípio e fim)






PRINCIPIO Y FIN





Puede ser que te digas: "El verano que viene
quiero volver a Italia", o: "El año que hoy empieza
tengo que aprovecharlo; con un poco de suerte
acabaré mi libro", y también: "Cuando crezca
mi hijo, ¿qué haré yo sin el don de su infancia?".
Pero el verano próximo, en verdad, ya ha pasado;
terminaste hace muchos años el libro aquel
en el que ahora trabajas; tu hijo se hizo un hombre
y siguió su camino, lejos de ti. Los días
que vendrán ya vinieron. Y luego cae la noche.
A la vez respiramos la luz y la ceniza.
Principio y fin habitan en el mismo relámpago.



Eloy Sánchez Rosillo





Talvez te digas: “No próximo verão
quero voltar a Itália”, ou: “Este ano que hoje começa
tenho que aproveitá-lo; com um pouco de sorte
acabo o meu livro”, e também: “Quando o meu filho
crescer, que hei-de fazer sem o dom da sua infância”?
Mas o próximo verão, na verdade, já passou;
o livro terminaste-o há muitos anos aquele
em que agora trabalhas; o teu filho fez-se um homem
e seguiu o seu caminho, longe de ti. Os dias
a vir já vieram. E depois cai a noite.
Respiramos a um tempo a luz e a cinza.
Princípio e fim habitam no mesmo relâmpago.


(Trad. A.M.)




Outra versão: O melhor amigo (José Bento)

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13.6.11

José Tolentino Mendonça (Para ler aos noviços)







PARA LER AOS NOVIÇOS





Deus não aparece no poema
apenas escutamos a sua voz de cinza
e assistimos sem compreender
a escuras perícias


A vida reclama inventários e detalhes
não a oiças
quando inutilmente perscruta as sequências
do seu trânsito


Só há um modo verdadeiro de rezar:
estende o teu corpo ao longo do barco
que desce silencioso o canal
e deixa que as folhas mortas do bosque
te cubram



José Tolentino Mendonça

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Eduardo Galeano (Pobrezas)





POBREZAS




Pobres,
lo que se dice pobres,
son los que no tienen tiempo para perder el tiempo.


Pobres,
lo que se dice pobres,
son los que no tienen silencio ni pueden comprarlo.


Pobres,
lo que se dice pobres,
son los que tienen piernas que se han olvidado de caminar,
como las alas de las gallinas se han olvidado de volar.


Pobres,
lo que se dice pobres,
son los que comen basura y pagan por ella como si fuese comida.


Pobres,
lo que se dice pobres,
son los que tienen el derecho de respirar mierda,
como si fuera aire, sin pagar nada por ella.


Pobres,
lo que se dice pobres
son los que no tienen más libertad de elegir entre uno y otro canal de televisión.


Pobres,
lo que se dice pobres,
son los que viven dramas pasionales con las máquinas.


Pobres,
lo que se dice pobres,
son los que son siempre muchos y están siempre solos.


Pobres,
lo que se dice pobres,
son los que no saben que son pobres.



Eduardo Galeano





Pobres,
o que se diz pobres,
são os que não têm tempo para perder tempo.


Pobres,
o que se diz pobres,
são os que não têm silêncio nem podem comprá-lo.


Pobres,
o que se diz pobres,
são os que têm pernas esquecidas de caminhar,
como as asas das galinhas esquecidas de voar.


Pobres,
o que se diz pobres,
são os que comem lixo e pagam-no como comida.


Pobres,
o que se diz pobres,
são os que têm direito a respirar merda,
como se fosse ar, sem pagar nada por ela.


Pobres,
o que se diz pobres,
são os que não têm mais liberdade de escolha entre um canal e outro da televisão.


Pobres,
o que se diz pobres,
são os que vivem com as máquinas dramas passionais.


Pobres,
o que se diz pobres,
são os que são sempre muitos e estão sempre sós.


Pobres,
o que se diz pobres,
são os que não sabem que são pobres.



(Trad. A.M.)

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12.6.11

José Miguel Silva (Anti-écloga)






ANTI-ÉCLOGA





A verdade é que também as urtigas
me aborrecem. Esta doçura dos pássaros,
a silvestre quietude da tarde atravessada
pelo balido das ovelhas, grandes imitadoras
de Edith Piaf, tudo isso não chega a ser
tão daninho como a luz de um semáforo
vermelho, mas um pouco de sangue
na biqueira do sapato faz-me falta.
Faz-me falta praguejar, ter um lago
de cimento onde cuspir, obstáculos
de fogo, fantasias, a metralha dos calinos.
Não me sinto nada bem com a doçura,
com a paz dos ermitérios, de onde Deus
se retirou há quinze anos. Esta resignação
das árvores, dos faunos, das silvanas,
da restante bicharada típica dos lugares
onde sofrer é natural como estar só,
a conclusão é que não sei caminhar sem sapatos
que me apertem. As sandálias do pescador,
as botas do alpinista, não me levam
a lado nenhum. Detesto confessá-lo,
mas eu sou da cidade até à raiz do terror.


Não consigo viver sem o saco de areia
onde exercito o excessivo golpe da exasperação.
Sem esse esbracejar a minha seiva coagula,
torna-se pastosa, sonolenta, felizita
como um rio de meandros preguiçosos,
lamacentos, imprestáveis - de que me serve
fingir o sossego a que não chego, brincar
às Arcádias em que não acredito?
Está decidido, prefiro sofrer.
Amanhã de manhã regresso ao abismo.



JOSÉ MIGUEL SILVA
Ulisses Já Não Mora Aqui
(2002)




[Luz & sombra]

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Roger Wolfe (A ironia)





LA IRONÍA




De todo este
monumental desaguisado
es que a la vuelta
de dos mil años
Jesucriste sigue siendo
el único
que tenía razón:
es evidente
que alguien debería
perdonarnos.
Pero aquí hace tiempo
que hasta Dios
perdió el empleo.


Roger Wolfe




De todo este
monumental desaguisado
há dois mil anos
Jesus Cristo é ainda
o único
a ter razão:
é evidente
que alguém devia
perdoar-nos.
Mas até Deus
ficou sem emprego
aqui há tempos.

(Trad. A.M.)

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11.6.11

José Gomes Ferreira (Disseram-lhes)







Disseram-lhes
que estavam vivos
por disciplina de cemitério.
E todos acreditaram
já com os pés em ângulos rectos. 


Mas vivos que são?
Mortos incompletos.



José Gomes Ferreira


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David González (White trash)





WHITE TRASH




No:

yo no escondo mis barreduras
en los suburbios de las alfombras
ni tampoco
como en la edad media
arrojo mis desperdicios a la calle
a través de una ventana abierta
ni tan siquiera echo mi basura
en una bolsa negra de plástico

y

la meto luego en el primer contenedor
que me encuentre por la calle.


No:

yo no hago nada de todo eso
yo la recojo con el HAZ de ramas
de la escoba de mi propia poesía

y

después
la escribo a mano
con mala letra
con muy mala letra

y

la reciclo con mi bolígrafo
sobre esta hoja de papel
inmaculada
mente
blanca.


David González





Não:

eu não escondo o que varro
por baixo dos tapetes
nem tão pouco
como na idade média
atiro meus desperdícios para a rua
através da janela aberta
nem sequer meto o lixo
num saco negro de plástico

e

o arrumo depois no primeiro contentor
que encontro pela rua.

Não:

eu não faço nada disso
eu apanho-o com a vassoura
da minha própria poesia

e

depois
escrevo-o à mão
com má letra
muito má letra

e

reciclo-o com esferográfica
nesta folha de papel
imaculada
mente
branca.


(Trad. A.M.)

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10.6.11

José Agostinho Baptista (Conheço todos os caminhos)






Conheço todos os caminhos que conduzem
à tua morada,
na grande noite que se fecha,
à volta dos ciprestes.


Quando te procuro,
a tua música cala-se e não me procura,
ao longe.
É apenas um lamento no ar,
uma voz de pedra,
um violino ardido.


Que vento frio traz a canção dos mártires para
tão perto do meu nome?



JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
Esta voz é quase o vento
Assírio & Alvim
(2004)

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Dante Medina (Carta a Deus por não poder pagar o recibo da luz)





CARTA A DIOS POR NO HABER PODIDO PAGAR EL RECIBO DE LA ELECTRICIDAD



Dios que todo lo das,
quítame algo.


Das la luz cada mañana, puntualmente, Dios.
Quítame, por favor, un poco de salud
que no me moriré por eso.
Quítame, si quieres,
algunos de los dientes
que creo que tengo muchos.


Dios que todo lo das,
a mí quítame algo.


Das la luz cada mañana, y lo haces muy bien, Dios.
Quítame, por favor, un poco de oído
que de todos modos seguiré oyendo.
Quítame, si quieres,
un poco de agilidad mental, tantito,
nada que vaya a dejarme tonto de más.


Das la luz cada mañana, y hay quienes ni cuenta se dan de eso,
Dios.
Quítame, por favor, algo de lo que tengo
porque soy de los que tienen más de lo que se comen.
Quítame, si quieres,
mi coche, haz que algunos de esos bancos que roban
se quede con un golpe de tecla de computadora con mis ahorros.


A cambio te ruego
- y para lo que te escribo es para eso -
que no me quites la luz.
Te ruego que no me quites la luz.
La luz del día.


Esto que te acabo de escribir
tómalo como un ruego
o
tómalo como una oración.
Tómalo como quieras
pero, por favor,
tú que todo lo puedes,
no me quites la luz del día Dios mío, no me quites la luz.


PD: Te voy a seguir escribiendo, pero ya no de noche, como antes.



Dante Medina


[Huelva-sur-libre]





Deus que tudo nos dás,
tira-me alguma coisa.


Dás-nos a luz cada manhã, pontualmente, Deus meu.
Tira-me, por favor, um pouco de saúde,
que nem por isso hei-de morrer.
Tira-me, se quiseres,
dois ou três dentes,
que eu acho que tenho muitos.


Deus que tudo nos dás,
tira-me algo a mim.


Dás-nos a luz de manhã, e fazes tu muito bem, meu Deus.
Tira-me, por favor, um pouco de ouvido,
que de todo o modo continuarei a ouvir.
Tira-me, se quiseres,
um pouco de agilidade mental, um bocadinho,
nada que me vá deixar tonto de mais.


Dás a luz em cada manhã e há quem nem se dê conta disso,
meu Deus.
Tira-me, por favor, algo do que tenho,
que eu sou dos que têm mais do que aquilo que comem.
Tira-me, se quiseres,
o automóvel, faz que um desses bancos que roubam
me fique com a poupança com um clique do computador.


Em troca suplico-te
- e para o que te escrevo é para isso –
que não me tires a luz.
Peço-te que me não tires a luz.
A luz do dia.


Isto que acabo de escrever-te
toma-o como um pedido
ou
então como oração.
Toma-o como queiras
mas, por favor,
tu que tudo podes,
não me tires, meu Deus, a luz do dia,
não me tires a luz.


P.S. Vou continuar a escrever-te, mas não já de noite, como antes.



(Trad. A.M.)


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9.6.11

Coitado do Jorge (72)






DIREITO CIVIL-3





Liquidação de pedido de pagamento
(aliás, de cumprimento de obrigação pecuniária): 





Danos morais                         1.500.000,00
Uma noite de sexo                  .........500,00
Uma tenaz                            . .............60,00
            Soma                  ...        1.500.560,00



Brinde: Um saca-rolhas, mod. R.S.



Fundamentos:
- Responsabilidade civil
- Prestação de serviços
- Compra e venda
- Donativo conforme aos usos sociais


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Ida Vitale (A palavra infinito)





LA PALABRA INFINITO




La palabra infinito es infinita,
la palabra misterio es misteriosa.
Ambas son infinitas, misteriosas.
Sílaba a sílaba intentas convocarlas
sin que una luz anuncie su dominio,
una sombra señale a qué distancia de ellas
está la opacidad en que te mueves.
Van a algún punto del resplandor y anidan,
cuando las dejas libres en el aire,
esperando que un ala inexplicable
te lleve hasta su vuelo.

¿Es más que su sabor el gusto de la vida ?



Ida Vitale





A palabra infinito é infinita,
a palabra mistério é misteriosa.
Ambas são infinitas, misteriosas.
Sílaba a sílaba tentas convocá-las
sem que uma luz anuncie seu domínio,
ou uma sombra assinale a que distância
está a opacidade em que te moves.
A algum lado vão de explendor e aninham,
quando as deixas livres no ar,
esperando que uma asa inexplicável
te leve até ao seu voo.

É mais que o seu sabor o gosto da vida?


(Trad. A.M.)


>> A media voz (21p) / Rev. Agulha (entrevista+sobre)
 
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8.6.11

Fernando Pessoa / A. Caeiro (Quando vier a Primavera)






Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.


Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.


Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.


Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

 

Alberto Caeiro




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Félix Grande (Não devias voltar nunca)





Donde fuiste feliz alguna vez
no debieras volver jamás: el tiempo
habrá hecho sus destrozos, levantando
su muro fronterizo
contra el que la ilusión chocará estupefacta.
El tiempo habrá labrado,
paciente, tu fracaso
mientras faltabas, mientras ibas
ingenuamente por el mundo
conservando como recuerdo
lo que era destrucción subterránea, ruina.


Si la felicidad te la dio una mujer
ahora habrá envejecido u olvidado
y sólo sentirás asombro
- el anticipo de las maldiciones.
Si una taberna fue, habrá cambiado
de dueño o de clientes
y tu rincón se habrá ocupado
con intrusos fantasmagóricos
que con su ajeneidad, te empujan a la calle, al vacío.
Si fue un barrio, hallarás
entre los cambios del urbano progreso
tu cadáver diseminado.


No debieras volver jamás a nada, a nadie,
pues toda historia interrumpida
tan sólo sobrevive
para vengarse en la ilusión, clavarle
su cuchillo desesperado,
morir asesinando.


Mas sabes que la dicha es como un criminal
que seduce a su victima
que la reclama con atroz dulzura
mientras esconde la mano homicida.
Sabes que volverás, que te hallas condenado
a regresar, humilde, donde fuiste feliz.
Sabes que volverás
porque la dicha consistió en marcarte
con la nostalgia, convertirte
la vida en cicatriz;
y si has de ser leal, girarás errabundo
alrededor del desastre entrañable
como girase un perro ante la tumba
de su dueño... su dueño... su dueño...


Félix Grande






Não devias voltar nunca aonde
um dia foste feliz, o tempo
terá feito seus destroços, erguendo
ese muro divisório em que
a ilusão há-de chocar estupefacta.
O tempo, paciente,
terá lavrado o fracasso
na tua ausência, enquanto
ias ingénuo por esse mundo
guardando como lembrança
o que era apenas ruína,
destruição subterránea.


Se foi uma mulher que te deu a felicidade
estará velha agora e esquecida
e assombro é quanto sentirás
– o avanço das maldições.
Se foi uma taberna, terá mudado
de dono ou de fregueses
e o teu canto estará ocupado
por intrusos fantasmas
a empurrarem-te para a rua, para o vazio,
com a sua estranheza.
Se foi um bairro, vais achar
o teu cadáver disseminado
por entre as mudanças do progresso urbano.


Não devias nunca voltar a nada, a ninguém,
pois qualquer história interrompida
sobrevive apenas
para se vingar na ilusão, espetar-lhe
o punhal desesperado,
morrer matando.


Mas já sabes que a sorte é como um criminoso
que seduz a sua vítima,
que a atrai com atroz doçura
enquanto esconde a mão assassina.
E sabes que voltarás, que estás condenado
a regresar, humilde, aonde foste feliz.
Sabes que voltarás, porque o destino te marcou
com a saudade e te fez
da vida cicatriz;
e, sendo leal, errante hás-de andar
em volta do desastre querido,
como um cachorro à volta da campa
do dono… do dono… do dono…


(Trad. A.M.)

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7.6.11

Charles Bukowski (O início)






O INÍCIO



quando as mulheres deixarem
de levar espelhos
para todos os lados
talvez nessa altura
elas possam falar comigo
sobre
libertação. 
 

Charles Bukowski

(Trad. m.a.domingos)




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Cristina Peri Rossi (Ia eu um dia pela rua)






Un día yo iba por una calle,
estaba sin empleo y muy nervioso,
iba por una calle en busca de una de esas casas
donde los muertos de hambre dormimos sin pagar
cansado y muy nervioso
y de pronto vi a una pareja
un matrimonio maduro
elegante bien vestido
ropa cara ropa fina
eran turistas comprando cosas y mirando todo
miraban las tiendas de moda y las peluquerías
y los restaurantes
eran turistas
hablaban uruguayo, igual que yo,
yo estaba muy nervioso ese día,
ellos se veía que habían comprado muchas cosas,
me reconocieron por la cara
-la cara de la desgracia, según Onetti-
“Usted es uruguayo, ¿verdad?” me dijeron
yo negué con la cabeza, firmemente:
“Soy francés, señora, les dije,
muy francés, tan francés como la torre Eiffel”
y me fui porque si los mataba
me llevaban preso.


Cristina Peri Rossi


[Neorrabioso]





Ia eu um dia pela rua,
estava desempregado e muito nervoso,
ia pela rua em busca duma casa dessas
onde os famintos dormem de graça
cansado e muito nervoso
e de repente vejo um par
um casal maduro
elegante e bem vestido
roupa cara roupa fina
turistas a fazer compras e a olhar para tudo
observando as lojas da moda e cabeleireiros
e restaurantes
eram turistas
falavam uruguaio, tal como eu,
eu estava muito nervoso nesse dia,
eles via-se que tinham comprado muita coisa,
reconheceram-me pela cara
– a cara da desgraça, segundo Onetti –
“Você é uruguaio, não é?” dizem-me eles
e eu neguei com a cabeça, firmemente:
“Sou francês, senhora, respondi-lhes,
muito francês, tão francês como a torre Eiffel”
e fui-me embora, porque se os matasse
ia parar à prisão.


(Trad. A.M.)

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6.6.11

José Carlos Barros (Hoje sei)






hoje sei
que estivemos tão perto
de ter quase tudo


que era possível ainda regressar ao largo
deixar a mão poisada na superfície plana
da água do tanque


e esperar
os milagres.


José Carlos Barros


[Casa de Cacela]

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Claribel Alegria (Ausência)






AUSÊNCIA




Hola
dije mirando tu retrato
y se pasmó el saludo
entre mis labios.
Otra vez la punzada,
el saber que es inútil;
el calcinado clima
de tu ausencia.


Claribel Alegria






Olá
disse eu olhando o teu retrato
e gelou-se-me nos lábios
a saudação.
Outra vez a pontada,
o saber que é inútil;
o calcinado clima
da tua ausência.


(Trad. A.M.)

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5.6.11

Cecília Meireles (Metamorfose)





METAMORFOSE



Súbito pássaro
dentro dos muros
caído,

pálido barco
na onda serena
chegado.

Noite sem braços!
Cálido sangue
corrido.

E imensamente
o navegante
mudado.

Seus olhos densos
apenas sabem
ter sido.

Seu lábio leva
um outro nome
mandado.

Súbito pássaro
por altas nuvens
bebido.

Pálido barco
nas flores quietas
quebrado.

Nunca, jamais
e para sempre
perdido

o eco do corpo
no próprio vento
pregado.


Cecília Meireles


[Poesia de Cecília]


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Federico García Lorca (O silêncio)






EL SILENCIO




Oye, hijo mío, el silencio.
Es un silencio ondulado,
un silencio,
donde resbalan valles y ecos
y que inclina las frentes
hacia el suelo.


Federico García Lorca





Ouve, meu filho, o silêncio.
Um silêncio ondulado,
um silêncio
onde resvalam ecos e vales,
inclinando as fontes
para o chão.


(Trad. A.M.)


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