31.5.10

Claudio Rodríguez (Contemplação viva-I)






LA CONTEMPLACIÓN VIVA



I

Estos ojos seguros,
ojos nunca traidores,
esta mirada provechosa que hace
pura la vida, aquí en febrero
con misteriosa cercanía. Pasa
esta mujer, y se me encara, y yo tengo el secreto,
no el placer, de su vida,
a través de la más
arriesgada y entera
aventura: la contemplación viva.
Y veo su mirada
que transfigura; y no sé, no sabe ella,
y la ignorancia es nuestro apetito.
Bien veo que es morena,
baja, floja de carnes,
pero ahora no da tiempo
a fijar el color, la dimensión,
ni siquiera la edad de la mirada,
mas sí la intensidad de este momento.
Y la fertilidad de lo que huye
y lo que me destruye:
este pasar, este mirar
en esta calle de Ávila con luz de mediodía
entre gris y cobriza,
hace crecer mi libertad, mi rebeldía,
mi gratitud.



CLAUDIO RODRÍGUEZ
El vuelo de la celebración
(1976)


[Cómo cantaba mayo]






Estes olhos seguros,
jamais traidores,
este olhar proveitoso que torna
a vida pura, aqui em Fevereiro
com misteriosa proximidade.
Passa esta mulher e encara comigo
e eu tenho o segredo,
não o prazer, de sua vida,
pela mais arriscada e inteira
aventura: a contemplação viva.
E vejo o seu olhar
que transfigura; e não sei, nem sabe ela,
e a ignorância é nosso desejo.
Bem vejo que é morena,
baixa, mole de carnes,
mas não dá tempo agora
para fixar a cor, a dimensão,
sequer a idade desse olhar,
só a intensidade do momento.
E a fertilidade do que foge
e do que me destrói:
este passar, este olhar,
numa rua de Ávila, à luz do meio-dia
entre cinzenta e cobre,
faz crescer a minha liberdade,
minha rebeldia, minha gratidão.


(Trad. A.M.)



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Olhar (77)








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30.5.10

Cesare Pavese (Mito)






MITO





Virá o dia em que o jovem deus será um homem,
sem sofrimento, com o morto sorriso do homem
que compreendeu. Também o sol se move longínquo
avermelhando as praias. Virá o dia em que o deus
já não saberá onde eram as praias de outrora.


Acorda-se uma manhã em que o Verão morreu,
e nos olhos tumultuam ainda esplendores
como ontem e no ouvido os fragores do sol
feito sangue. A cor do mundo mudou.
A montanha já não toca o céu; as nuvens
já não se amontoam como frutos; na água
já não transparece um seixo. O corpo dum homem
curva-se pensativo onde um deus respirava.


O grande sol acabou, e o cheiro da terra
e a rua livre, colorida de gente
que ignorava a morte. Não se morre de Verão.
Se alguém desaparecia, havia o jovem deus
que vivia por todos e ignorava a morte.
Nele a tristeza era uma sombra de nuvens.
O seu passo pasmava a terra.


Agora pesa
o cansaço sobre todos os membros do homem,
sem sofrimento: o calmo cansaço da madrugada
que abre um dia de chuva. As praias sombreadas
não conhecem o jovem a quem outrora bastava
que as olhasse. Nem o mar do ar revive
na respiração. Cerram-se os lábios do homem
resignados, para sorrir frente à terra.


Cesare Pavese



[Casa dos Poetas]

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Mario Benedetti (Defesa da alegria)






DEFENSA DE LA ALEGRIA




Defender la alegría como una trinchera
defenderla del escándalo y la rutina
de la miseria y los miserables
de las ausencias transitorias
y las definitivas


defender la alegría como un principio
defenderla del pasmo y las pesadillas
de los neutrales y de los neutrones
de las dulces infamias
y los graves diagnósticos


defender la alegría como una bandera
defenderla del rayo y la melancolía
de los ingenuos y de los canallas
de la retórica y los paros cardiacos
de las endemias y las academias


defender la alegría como un destino
defenderla del fuego y de los bomberos
de los suicidas y los homicidas
de las vacaciones y del agobio
de la obligación de estar alegres


defender la alegría como una certeza
defenderla del óxido y la roña
de la famosa pátina del tiempo
del relente y del oportunismo
de los proxenetas de la risa


defender la alegría como un derecho
defenderla de dios y del invierno
de las mayúsculas y de la muerte
de los apellidos y las lástimas
del azar
y también de la alegría




MARIO BENEDETTI
Antología Poética
Alianza Editorial
(1999)


[Lugares Mal Situados]







Defender a alegria como uma trincheira
defendê-la do escândalo e da rotina
da miséria e dos miseráveis
das ausências transitórias
e das definitivas


defender a alegria por princípio
defendê-la do pasmo e dos pesadelos
assim dos neutrais e dos neutrões
das infâmias doces
e dos graves diagnósticos


defender a alegria como bandeira
defendê-la do raio e da melancolia
dos ingénuos e também dos canalhas
da retórica e das paragens cardíacas
das endemias e das academias


defender a alegria como um destino
defendê-la do fogo e dos bombeiros
dos suicidas e homicidas
do descanso e do cansaço
e da obrigação de estar alegre


defender a alegria como uma certeza
defendê-la do óxido e da ronha
da famigerada patina do tempo
do relento e do oportunismo
ou dos proxenetas do riso


defender a alegria como um direito
defendê-la de deus e do Inverno
das maiúsculas e da morte
dos apelidos e dos lamentos
do azar
e também da alegria


(Trad. A.M.)

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29.5.10

Carlos Drummond de Andrade (A hora do cansaço)






A HORA DO CANSAÇO




As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.


Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.


Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nós cansamos, por um outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.


Do sonho de eterno fica esse gosto ocre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.



CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Corpo
(1984)

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António de Almeida Mattos (Cada vez)






Cada vez nos temos
mais


apenas um ao outro



António de Almeida Mattos


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28.5.10

Claribel Alegria (Baralhando recordações)







BARAJANDO RECUERDOS




Barajando recuerdos
me encontré con el tuyo.
No dolía.
Lo saqué de su estuche,
sacudí sus raíces
en el viento,
lo puse a contraluz:
Era un cristal pulido
reflejando peces de colores,
una flor sin espinas
que no ardía.
Lo arrojé contra el muro
y sonó la sirena de mi alarma.
¿Quién apagó su lumbre?
¿Quién le quitó su filo
a mi recuerdo-lanza
que yo amaba?


Claribel Alegria







Baralhando recordações
deparei-me com a tua.
Não doía.
Tirei-a do estojo,
sacudi-lhe as raízes
ao vento,
pu-la a contraluz.
Era um vidro polido
reflectindo peixes de cores,
uma flor sem espinhos
que não ardia.
Atirei-a contra o muro
e soou a minha sirene de alarme.
Quem lhe apagou o lume?
Quem derrancou o fio
à minha lança-recordação
que eu tanto amava?


(Trad. A.M.)

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Alberto Nessi (Neve)







NEVE



1

Coprici, neve, con il tuo silenzio
rendici muti
metti le stelle sopra il calco osceno
dei copertoni, fa’ velo agli ingranaggi
pòsati adagio sui detriti, non smettere
di coprire le piaghe
spegni la bestemmia il cachinno
il vomito del mondo
bianca luce che splendi sulla siepe
e ci fai chiari contro il vetro
a guardare l’uccello,
il nostro puro fratello.


2

Avrà avuto un’infanzia questa donna
piena di vino
che cerca l’accendino sotto il tavolo?
E l’uomo di schiena che straparla
seduto al banco con la birra scura
gesticolando tra fantasmi
abitati dal vento?
Copri, neve, coi tuoi fiori pietosi
le ferite degli uomini delusi
copri la segatura dei loro sogni
in questo bar dove si finge di vivere.



Alberto Nessi






1

Cobre-nos, neve, com teu silêncio
faz-nos mudos
põe as estrelas no traço obsceno
dos pneus, vela as engrenagens
pousa devagar sobre os detritos, não deixes
de cobrir as chagas
abafa a blasfémia o riso
o vómito do mundo
branca luz brilhando sobre a sebe
que nos faz claros contra o vidro
olhando nosso puro irmão,
o pássaro.


2

Terá ela conhecido infância, esta mulher
cheia de vinho
que procura o isqueiro debaixo da mesa?
E o homem de costas que divaga
sentado no banco com uma cerveja preta
gesticulando entre fantasmas
habitados pelo vento?
Cobre, neve, com tuas flores piedosas
as feridas dos homens desiludidos
cobre a ceifa dos seus sonhos
neste bar onde se finge viver.


(Trad. A.M.)


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27.5.10

Vinicius de Moraes (Soneto de fidelidade)






SONETO DE FIDELIDADE




De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento


Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento


E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama


Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure


Estoril - Portugal, 10.1939


Vinicius de Moraes

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Francisco Hernández (Feito de memória)






HECHO DE MEMORIA




El poeta no duerme:
viaja por la cuerda del tiempo.


El poeta está hecho de memoria:
por eso lo deshace el olvido.


El poeta no descansa:
el tiempo lo desgasta
para probar que existe.



FRANCISCO HERNÁNDEZ
En las pupilas del que regresa
(1991)






O poeta não dorme:
viaja pela corda do tempo.


O poeta é feito de memória:
por isso o desfaz o esquecimento.


O poeta não descansa:
o tempo o desgasta
para comprovar que existe.


(Trad. A.M.)

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26.5.10

Ruy Belo (Orla marítima)






ORLA MARÍTIMA




O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo das avenidas
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como um homem se deita como um homem se levanta
Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao frio em redor
pássaros compêndios de vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
Gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida



Ruy Belo

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Ver (45)







Naxos



>>  Primeiro poema de Naxos

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25.5.10

Celso Emilio Ferreiro (Longa noite de pedra)






LONGA NOITE DE PEDRA





O teito é de pedra.
De pedra son os muros
i as tebras.
De pedra o chan
i as reixas.
As portas,
as cadeas,
o aire,
as fenestras,
as olladas,
son de pedra.
Os corazós dos homes
que ao lonxe espreitan,
feitos están
tamén
de pedra.
I eu, morrendo
nesta longa noite
de pedra.



Celso Emílio Ferreiro

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Rui Pires Cabral (Trânsito de sentido único)







TRÂNSITO DE SENTIDO ÚNICO




Ao nascer do Sol descemos à praça
por desfastio ou engano: a noite,
que parecia eterna, termina agora
com um intragável gosto a cinza,
a quase nada.


A experiência, o nosso obstáculo.


Nas janelas de um autocarro
os madrugadores de cara lavada
guardam o segredo de uma sorte
que nunca pudemos seguir.
Mesmo assim, enternecem-nos:
ao fim de décadas de solidão
e desastres, ainda acreditam
no mundo. E, vendo bem,
por que não?


A alternativa não é grande coisa.



RUI PIRES CABRAL
Capitais da Solidão
Teatro de Vila Real
(2006)




[Lugares Mal Situados]

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24.5.10

Ana Hatherly (Um rio de luzes)






UM RIO DE LUZES




Um rio de escondidas luzes
atravessa a invenção da voz:
avança lentamente
mas de repente
irrompe fulminante
saindo-nos da boca


No espantoso momento
do agora da fala
é uma torrente enorme
um mar que se abre
na nossa garganta


Nesse rio
as palavras sobrevoam
as abruptas margens do sentido



ANA HATHERLY
O Pavão Negro
Assírio & Alvim
(2003)




>>  Um buraco na sombra (16p+bio)  /  Poesias e prosas (12p)  /  Mulheres sec.XX (bio+biblio)

 
.
 

23.5.10

Antonio Machado (Arde em teus olhos um mistério)






ARDE EN TUS OJOS UN MISTERIO...




Arde en tus ojos un misterio, virgen
esquiva y compañera.

No sé si es odio o es amor la lumbre
inagotable de tu aljaba negra.

Conmigo irás mientras proyecte sombra
mi cuerpo y quede a mi sandalia arena.

¿Eres la sed o el agua en mi camino?
Dime, virgen esquiva y compañera.


Antonio Machado






Arde em teus olhos um mistério, virgem
esquiva e companheira.

Não sei se é ódio ou amor o lume
inesgotável da tua aljava negra.

Comigo irás enquanto fizer sombra
meu corpo e me restar areia à sandália.

És sede ou água em meu caminho?
Diz-me, virgem esquiva e companheira.


(Trad. A.M.)

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Camilo Castelo Branco (Para leitores entendidos)






Para leitores entendidos na maldade humana, a carta de Lopo de Gamboa é uma refinada e suja bargantaria, estudada e escrita com um despejo não vulgar em bacharéis daqueles sítios.

Aquele homem, se tivesse nascido em terras onde há a centralização dos biltres, morria com um nome para lembrança duradoura.

Assim, nascido naquelas serras, onde não apegou ainda romancista de medrança, se o eu não transplantar para a corja dos birbantes das minhas novelas, o homem escorrega lá da serra no inferno, sem que a pública execração o cubra de maldições.



- CAMILO CASTELO BRANCO, A queda dum anjo (XXXIV – Perdida).

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22.5.10

Sophia de Mello Breyner Andresen (Exílio)






EXÍLIO



Quando a pátria que temos não a temos
perdida por silêncio e por renúncia
até a voz do mar se torna exílio
e a luz que nos rodeia é como grades



Sophia de Mello Breyner Andresen

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Antonio Gamoneda (Ainda)





AÚN




Recuerdo el frío del amanecer, los círculos de los insectos sobre las
tazas inmóviles, la posibilidad de un abismo lleno de luz bajo las
ventanas abiertas para la ventilación de la enfermedad, el olor triste
de la sosa cáustica.
Pájaros. Atraviesan lluvias y países en el error de los imanes y los
vientos, pájaros que volaban entre la ira y la luz.
Vuelven incomprensibles bajo leyes de vértigo y olvido.
No tengo miedo ni esperanza. Desde un hotel exterior al destino, veo
una playa negra y, lejanos, los grandes párpados de una ciudad cuyo
dolor no me concierne.
Vengo del metileno y el amor; tuve frío bajo los tubos de la muerte.
Ahora contemplo el mar. No tengo miedo ni esperanza.
Eres sabio y cobarde, estás herido en las mujeres húmedas, tu
pensamiento es sólo recuerdo de la ira.
Ves las rosas temibles.
Ah caminante, ah confusión de párpados.
Hay una hierba cuyo nombre no se sabe; así ha sido mi vida.
Vuelvo a casa atravesando el invierno: olvido y luz sobre las ropas
húmedas. Los espejos están vacíos y en los platos ciega la soledad.
Ah la pureza de los cuchillos abandonados.
Amé todas las pérdidas.
Aún retumba el ruiseñor en el jardín invisible.




ANTÓNIO GAMONEDA
Libro del frío



[EPDLP]









Recordo o frio do amanhecer, os círculos dos insectos sobre as
taças imóveis, a possibilidade de um abismo pleno de luz sob as
janelas abertas para ventilação da doença, o cheiro triste
da soda cáustica.
Pássaros. Atravessam chuvas e países no erro dos ímanes e dos
ventos, pássaros a voar entre a ira e a luz..
Voltam incompreensíveis sob leis de vertigem e esquecimento.
Nem medo nem esperança tenho. De um hotel exterior ao destino, vejo
uma praia negra e, ao longe, as pálpebras enormes de uma cidade cuja
dor não me importa.
Venho do metileno e do amor; tive frio debaixo dos tubos da morte.
Agora contemplo o mar. Não tenho medo nem esperança.
És sábio e cobarde, estás ferido nas mulheres húmidas, teu
pensamento é apenas lembrança da ira.
Vês as rosas temíveis.
Ah caminhante, ah confusão de pálpebras.
Há uma erva cujo nome não se sabe; assim foi minha vida.
Volto a casa atravessando o Inverno: olvido e luz nas roupas
molhadas. Os espelhos vazios e nos pratos cega a solidão.
Ah a pureza dos cutelos abandonados.
Amei as perdas todas.
Retumba ainda no jardim invisível o rouxinol.


(Trad. A.M.)



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21.5.10

Um verso (79)











Um verso de Drummond:




Só quem ama
escutou o apelo da eternidade




Carlos Drummond de Andrade



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Rui Knopfli (Ilha dourada)






ILHA DOURADA




A fortaleza mergulha no mar
os cansados flancos
e sonha com impossíveis
naves moiras.
Tudo mais são ruas prisioneiras
e casas velhas a mirar o tédio.
As gentes calam na voz
uma vontade antiga de lágrimas
e um riquexó de sono
desce a Travessa da Amizade.
Em pleno dia claro
vejo-te adormecer na distância,
Ilha de Moçambique,
e faço-te estes versos
de sal e esquecimento.



Rui Knopfli

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20.5.10

Angel González (Diatribe contra os mortos)






DIATRIBA CONTRA LOS MUERTOS




Los muertos son egoístas:
hacen llorar y no les importa,
se quedan quietos en los lugares más iconvenientes,
se resisten a andar, hay que llevarlos
a cuestas a la tumba
como si fuesen niños, qué pesados.
Inusitadamente rígidos, sus rostros
nos acusan de algo, o nos advierten;
son la mala conciencia, el mal ejemplo,
lo peor de nuestra vida son ellos siempre, siempre.
Lo malo que tienen los muertos
es que no hay forma de matarlos.
Su constante tarea destructiva
es por esa razón incalculable.
Insensibles, distantes, tercos, fríos,
con su insolencia y su silencio
no se dan cuenta de lo que deshacen.


Angel González





Os mortos são egoístas:
fazem-nos chorar e não lhes importa,
ficam-se quietos nos lugares mais inconvenientes,
resistem a andar, temos que levá-los
às costas para a cova
como se fossem crianças, mas que pesados.
Inusitadamente rígidos, seus rostos
acusam-nos de algo, ou advertem-nos;
são a má consciência, o mau exemplo,
o pior da vida são eles,
sempre, sempre.
O mal dos mortos
é que não há forma de matá-los.
Sua constante tarefa destrutiva
é por isso mesmo incalculável.
Insensíveis, distantes, teimosos, frios,
com sua insolência e seu silêncio
não se dão conta daquilo que desfazem.


(Trad. A.M.)

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Raul de Carvalho (A vila de Alvito)






A VILA DE ALVITO





A vila de Alvito
tem ruas e praças,
homens e mulheres
e muitas desgraças.


A vila de Alvito
tem dois lavradores.
Tem muita riqueza
e raros amores.


A vila de Alvito
tem uma cruz ao lado
- Quem manda na vila
não lhe dá cuidado.


Malteses, ganhões,
sangue misturado.
Na vila de Alvito
é que eu fui criado.



Raul de Carvalho



>>  As Tormentas (8p)

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19.5.10

Rabindranath Tagore (Verdades)






VERDADES




Roubo do hoje a força
Fazendo nascer o amanhã.
Da janela acompanho com o olhar
As nuvens do céu.
De novo a sombra sinistra
Tolda tristemente meus sonhos.


Tua imagem me acompanha
Por todos os lugares onde ando.
E em todos os momentos
É a tua presença que espanta
As brumas do desconhecido.


Não faço perguntas.
Tenho medo das respostas que já sei.
Liberta do invólucro físico
Devolverei a matéria ao pó de que fora feito.


Vivi meus três caminhos na terra.
Purgatório. Inferno. Céu.
Tudo de acordo com meus projetos,
Minhas atitudes,
Procurando não cair nos mesmos erros.


Agora - vago e espero
Entre tropeços e flagelos
O ressurgir da verdade.



R.Tagore

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Ana Pérez Cañamares (Dia de limpeza)






DIA DE LIMPEZA




De qué sirve que limpie el polvo
de las estanterías.
De qué sirve recoger las pelusas
de los rincones.
Para qué sacudir las sábanas
barrer bajo la cama
pasar la aspiradora.


Hay un polvo que viene de afuera
que la ciudad expulsa con sus toses.
Y hay otro desprendiéndose de mí
que cae como terrones de barro
cada vez que abro el puño
y suelto una certeza.


Ana Pérez Cañamares



[Cosas que nunca te diré]






De que serve limpar o pó
das prateleiras.
De que vale apanhar dos cantos
o cotão.
Para quê sacudir os lençóis
varrer debaixo da cama
passar o aspirador.


Há um pó que vem de fora
com as tosses da cidade.
E outro que sai de mim
caindo como terrões de lama
cada vez que abro a mão
e solto uma certeza.


(Trad. A.M.)

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Ver (44)







[Marciano]


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18.5.10

Pedro Mexia (Elas passam)






ELAS PASSAM




Elas passam, magras estudantes,
julgando-se felizes talvez,
passam e passam, as pernas e os dentes
mostram saúde e altivez.


Os jeans ao atravessarem a nave
maior do centro comercial
estreitam a cintura suave
numa falsa aparência virginal.


Vê-las alegra e entristece,
o seu corpo é uma matéria mais pura,
e cada uma, como se soubesse,
mostra-se obstinada e segura.


Passam e passam, são toda uma tarde,
sentinela que em mim sente
esta palha seca que arde,
que às vezes engana, mas não mente.


Poder tê-las sem qualquer dano
e à sua alegre inconsciência,
misturando nos dedos a pele, o pano,
os ossos, a transparência.


A tarde fez-se a hora de regresso,
o coração sussura e quase cai
aos pés das raparigas a quem peço
«de novo, levantando-me, passai».



PEDRO MEXIA
Eliot e Outras Observações
(2003)




[Discurso dos Dias]


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15.5.10

Ana Merino (Déjà vu)






DEJA VU




Vuelve a soñar
que en tus pies
te caben mis zapatos.


No le temas al tiempo
que has pasado
sin rozarte con mi sombra.


Tu cárcel de palabras
no me importa,
mis zapatos
están llenos de ti,
me perteneces cada vez que camino
por tu memoria suicida
de amante condenado
al desamor perpetuo.


Vuelve a soñar
que soy yo la que te mira
en el espejo del baño,
y tu abrazo me hace ser
idéntica a ti.


No le temas al tiempo
que dejaste pasar
cada vez que mis labios
evocaban tu rastro
de pequeño secreto
guardado en un reloj
con forma de juguete.


Vuelve a soñar
que nos cruzamos
en un desierto lleno
de lagartijas y aguacates,
y las mañanitas se transforman
en nuestro último baile.


Vuelve a soñarme ahora
que ya eres viejo
y me atrevo a buscarte
sin pedirte permiso
porque fuiste mi cuerpo
y a mi también me duelen tus cadenas.



ANA MERINO
Compañera de Celda
(2006)






Volta a sonhar
que em teus pés
servem meus sapatos.


Não temas o tempo
que passaste
sem roçar pela minha sombra.


Teu cárcere de palavras
não me importa,
meus sapatos
estão cheios de ti,
pertences-me quando caminho
pela tua memória suicida
de amante condenado
a perpétuo desamor.


Volta a sonhar
que sou eu quem te olha
no espelho do banho
e teu abraço faz-me ser
idêntica a ti.


Não temas o tempo
que deixaste passar
cada vez que meus lábios
evocavam teu rasto
de pequeno segredo
guardado num relógio
com forma de brinquedo.


Volta a sonhar
que nos cruzamos
num deserto cheio
de lagartixas e abacates,
transformando-se as manhãzinhas
no nosso último baile.


Volta a sonhar-me agora
que estás velho
e eu me atrevo a buscar-te
sem pedir licença
porque foste o meu corpo
e tuas cadeias também me doem a mim.


(Trad. A.M.)

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Nuno Júdice (Receita para fazer o azul)






RECEITA PARA FAZER O AZUL




Se quiseres fazer azul,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compare-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz - eu, Abraão bem Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé - e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu.




NUNO JÚDICE
Meditação sobre Ruínas
(1994)

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14.5.10

Mario Quintana (Um poema)






Um poema
como um gole d'água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida
para sempre na floresta nocturna.


Um poema
sem outra angústia que a sua
misteriosa condição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.


Ferido de mortal beleza.



Mario Quintana

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Amalia Bautista (Pede três desejos)







PIDE TRES DESEOS




Ver el alba contigo,
ver contigo la noche
y ver de nuevo el alba
en la luz de tus ojos.



Amalia Bautista






Ver contigo a alva
depois ver a noite
e depois de novo a alva
na luz de teus olhos.


(Trad. A.M.)

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13.5.10

Mário Dionísio (E então começou a dormitar)






E então começou a dormitar
onde quer que chegava


A cama era o refúgio que buscava
não para dormir nem para amar


Lúcido e triste se adaptava
à posição dos tempos que viriam


Está pronto o tipo diziam
E estava



MÁRIO DIONÍSIO
Terceira Idade
(1982)

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Camilo Castelo Branco (Era o amor abscôndito)






Era o amor abscôndito a magoá-lo docemente.

E a não ser o amor, o que poderia ser senão as calças de xadrez?

De feito, o amor quando é sério, põe às canhas o mais pespontado espírito, e o mais mazorral também.

O amoroso de grande loquela volve-se parvoinho em presença da sua amada; o sandeu tem inspirações e raptos, que seriam influxo do céu, se não soubéssemos que o demónio tentador costuma incubar-se e parvoejar eloquentemente no corpo destes palermas.



- CAMILO CASTELO BRANCO, A queda dum anjo (XVI – Quantum mutatus!).

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12.5.10

Álvaro Mutis (Sonata)






SONATA




Otra vez el tiempo te ha traído
al cerco de mis sueños funerales.
Tu piel, cierta humedad salina,
tus ojos asombrados de otros días,
con tu voz han venido, con tu pelo.
El tiempo, muchacha, que trabaja
como loba que entierra a sus cachorros,
como óxido en las armas de caza,
como alga en la quilla del navío,
como lengua que lame la sal de los dormidos,
como el aire que sube de las minas,
como tren en la noche de los páramos.
De su opaco trabajo nos nutrimos
como pan de cristiano o rancia carne
que se enjuta en la fiebre de los guettos,
a la sombra del tiempo, amiga mía,
un agua mansa de acequia me devuelve
lo que guardo de ti para ayudarme
a llegar hasta el fin de cada día.



Álvaro Mutis







Outra vez te trouxe o tempo
ao redil dos meus sonhos funestos.
Tua pele, certa humidade salina,
teus olhos assombrados de outros dias,
vieram com tua voz, teu cabelo.
O tempo, miúda, que trabalha
como loba que enterra os filhos,
como óxido nas armas de caça,
como alga na quilha do navio,
como língua lambendo o sal dos adormecidos,
como o ar que sobe das minas,
comboio na noite da planície.
De seu opaco trabalho nos nutrimos
como pão ázimo ou carne rançosa
que se chuta na febre dos guetos,
à sombra do tempo, amiga minha,
uma água mansa de levada me devolve
o que guardo de ti
para ajudar-me a chegar
até ao fim de cada dia.


(Trad. A.M.)

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Olhar (76)








Corterredor > Góis

(Serra da Lousã)

10.5.2010


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11.5.10

Manuel de Freitas (Cervejaria Leirião, 16h40)






CERVEJARIA LEIRIÃO, 16H40




Há trinta anos, neste mesmo sítio,
dificilmente porias a questão de saber
se a poesia é uma emoção comunicável,
um modo triste de conhecimento
ou uma arte perfeitamente inútil.
Levantavas-te, tentavas chegar ao balcão
e pedias rebuçados, com os bolsos cheios
de berlindes e a vida inteira
– que te parece agora tão pequena – à frente.


Onde isso já vai. Sentado na esplanada
que veio agraciar fumadores
e outros brandos vadios, reparas que
alcatroaram o caminho que te levava à escola
– a esses dias de medo, urina, solidão
que não passou nem passa nunca. Pedes outra cerveja,
aliviado de não seres já aquela criança mimada.
Ao teu lado, na esquina da taberna, és informado
por escrito da morte da mulher do «Direitinho»
(esse que te cortou, tantas vezes, o cabelo).
E lembras-te do filho deles, do Luís, que tinha a tua idade
mas nunca pôde dizer «há trinta anos»
ou sequer «há vinte», pois morreu mais cedo, de leucemia.
Constou, na altura, que foi «um enterro muito concorrido».
Mas eu apenas olho a estrada – perfeitamente alcatroada,
é certo – e não consigo ter saudades de passados
e futuros em que ainda não me imagino morto.
(Tentava, de novo, ser da altura do balcão, pedir
genebra que nos tornasse a noite suportável.
Ficávamos, por duzentos escudos, os três bêbados).


Pouco depois, ao jantar, a minha mãe insiste
em pôr mais sal na sopa – e diz que a vida não é triste.
Porque acredita em Salazar, Jacinta Marto, Bento XVI.


Nunca perceberá que, para mim, o paraíso
é um comboio para Lisboa,
um modo, enfim, de me poder calar.



MANUEL DE FREITAS
in Telhados de Vidro, nº13,
(Averno)




[O melhor amigo]


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Alejandra Pizarnik (A jaula)






LA JAULA




Afuera hay sol.
No es más que un sol
pero los hombres lo miran
y después cantan.


Yo no sé del sol.
Yo sé la melodía del ángel
y el sermón caliente
del último viento.
Sé gritar hasta el alba
cuando la muerte se posa desnuda
en mi sombra.


Yo lloro debajo de mi nombre.
Yo agito pañuelos en la noche
y barcos sedientos de realidad
bailan conmigo.
Yo oculto clavos
para escarnecer a mis sueños enfermos.


Afuera hay sol.
Yo me visto de cenizas.


Alejandra Pizarnik







Fora há sol.
É apenas um sol
mas os homens olham-no
e depois cantam.


Eu não sei do sol.
Sei é da melodia do anjo
e do quente sermão
do último vento.
Sei gritar até de manhã
quando a morte se deita nua
na minha sombra.


Choro debaixo do meu nome.
Agito lenços na noite
e barcos sedentos de realidade
bailam comigo.
Escondo cravos
para escarnecer de meus sonhos enfermos.


Fora há sol.
Eu visto-me de cinzas.


(Trad. A.M.)




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10.5.10

Um verso (78)












Um verso de Íker Biguri:






Tudo o que aprendi é caótico
e me dá medo



O que desconheço também




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Manuel António Pina (Café do Molhe)






CAFÉ DO MOLHE




Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)


porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia


que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe


(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse


de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito


sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa


que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.



Manuel António Pina

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