30.9.09

Florbela Espanca (Eu)









EU






Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem sorte,
Sou a irmã do sonho, e desta sorte,
Sou a crucificada...a dolorida...


Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...


Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...


Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!



FLORBELA ESPANCA
Livro de Mágoas





Lugares: As Tormentas (114p) / Mulheres-sec.XX (13p+bio+álbum+linques) /Vidas Lusófonas (perfil, vida e obra – Rolando Galvão) / DGLB (bio+biblio+excertos+linques)


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Um verso (63)









Um verso de Ramón
(pois, Gómez de la Serna):






Como dava beijos lentos, duravam-lhe mais os amores.




Ramón Gómez de la Serna


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29.9.09

Enrique Vila-Matas (Diálogos reaccionários)








(Diálogos reaccionários...)





Procurei manter a calma antes de tomar uma decisão radical em relação aos diálogos do meu romance.

Paguei a despesa e fui para as águas-furtadas e, após uma nervosa reflexão, suprimi todos os diálogos que até então tinha escrito, salvo três que considerei inevitáveis; pagaria uma pequena quota de reaccionário, mas não estava disposto a mudar o meu romance todo.




- ENRIQUE VILA-MATAS, Paris nunca se acaba, 96.


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Ver (29)







[Bruno Silva]






Pico / S. Jorge / S. Miguel

(Açores)



27.9.09

A.M.Pires Cabral (Ácido úrico)









ÁCIDO ÚRICO





Os membros em recessão, a coluna
percorrida de sacrílegas dores,
tanta angústia dispersa pelo corpo!
É o ácido úrico, dizem, e prescrevem,
sujeitam-te a diários exorcismos.
A carne devastada das cáusticas essências,
as mãos nos quadris, lamentas as pontadas.
É o ácido úrico, é o tempo
(o incorrigível peregrino),
é o que tem de ser com muita força...
Do tal ácido os malefícios te
talam pontuais de norte a sul.
Como se não bastasse o Neisseria catarrhalis.
Inverno: derradeira, íngreme prestação.




A. M. Pires Cabral


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Roque Dalton (Arte poética 1974)







ARTE POÉTICA 1974





Poesía
Perdóname por haberte ayudado a comprender
que no estás hecha sólo de palabras.



Roque Dalton




Fontes: Poesi.as (36p) / A media voz (18p) / Patria Grande (antologia)


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26.9.09

Gonçalo M. Tavares (A força)









A FORÇA






Nunca vi anjos nem aprendi orações
como aprendi versos, mas desde cedo uma
certa conspiração calma recolhida na parte
de trás da existência me foi dando
conselhos, monocórdicos, pontuais:
uma força constante que
afastada dos dias e do seu ruído próprio
me acompanhou. Nada de religioso, nenhum Deus,
nenhum temor, nenhuma adoração.
Chamemos à coisa: disciplina. E assim está bem.
O mundo avança e acontecem coisas,
e o meu corpo recolhe-se e faz o que tem a fazer.



Gonçalo M. Tavares


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25.9.09

Natália Correia (O espírito)








O ESPÍRITO




Nada a fazer, amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;


E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.


Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:


Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.



NATÁLIA CORREIA
Sonetos Românticos



[Mulheres-sec.XX]





Angel González (Todo o amor é efémero)









TODO AMOR ES EFÍMERO





Ninguna era tan bella como tú
durante aquel fugaz momento en que te amaba:
mi vida entera.


Angel González








Nenhuma era tão linda como tu
naquele momento fugaz em que te amava,
a minha vida toda.


(Trad. A.M.)


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23.9.09

Alexandre O'Neill (Seios)









SEIOS






Sei os teus seios.
Sei-os de cor.



Para a frente, para cima,
Despontam, alegres, os teus seios.



Vitoriosos já,
Mas não ainda triunfais.



Quem comparou os seios que são teus
(Banal imagem) a colinas?



Com donaire avançam os teus seios,
Ó minha embarcação!



Porque não há
Padarias que em vez de pão nos dêem seios
Logo p'la manhã?



Quantas vezes
Interrogaste, ao espelho, os seios?



Tão tolos os teus seios! Toda a noite
Com inveja um do outro, toda a santa
Noite!



Quantos seios ficaram por amar?



Seios pasmados, seios lorpas, seios
Como barrigas de glutões!



Seios decrépitos e no entanto belos
Como o que já viveu e fez viver!



Seios inacessíveis e tão altos
Como um orgulho que há-de rebentar
Em desesperadas, quarentonas lágrimas...



Seios fortes como os da Liberdade
-Delacroix- guiando o Povo.



Seios que vão à escola p'ra de lá saírem
Direitinhos p'ra casa...



Seios que deram o bom leite da vida
A vorazes filhos alheios!



Diz-se rijo dum seio que, vencido,
Acaba por vencer...



O amor excessivo dum poeta:
"E hei-de mandar fazer um almanaque
da pele encadernado do teu seio"
(Gomes Leal)



Retirar-me para uns seios que me esperam
Há tantos anos, fielmente, na província!



Arrulho de pequenos seios
No peitoril de uma janela
Aberta sobre a vida.



Botas, botirrafas
Pisando tudo, até os seios
Em que o amor se exalta e robustece!



Seios adivinhados, entrevistos,
Jamais possuídos, sempre desejados!



"Oculta, pois, oculta esses objectos,
Altares onde fazem sacrifícios
Quantos os vêem com olhos indiscretos"
(Abade de Jazente)



Raimundo Lúlio, a mulher casada
Que cortejaste, que perseguiste
Até entrares, a cavalo, p'la igreja
Onde fora rezar,
Mudou-te a vida quando te mostrou
("É isto que amas?")
De repente a podridão do seio.



Raparigas dos limões a oferecerem
Fruta mais atrevida: inesperados seios...



Uma roda de velhos seios despeitados,
Rabujando,
A pretexto de chá...



Engolfo-me num seio até perder
Memória de quem sou...



Quantos seios devorou a guerra, quantos,
Depressa ou devagar, roubou à vida,
À alegria, ao amor e às gulosas
Bocas dos miúdos!



Pouso a cabeça no teu seio
E nenhum desejo me estremece a carne.



Vejo os teus seios, absortos
Sobre um pequeno ser




Alexandre O’Neill


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22.9.09

Roberto Bolaño (Eis algo)








(Os melhores são os homossexuais, mas cuidado...)





Eis algo sobre a honra dos poetas.

Eu tinha dezassete anos e um desejo irreprimível de ser escritor.

Preparei-me.

Mas não fiquei quieto enquanto me preparava, pois compreendi que se assim fizesse jamais triunfaria.

Disciplina e um certo encanto dúctil, essas são as chaves para chegar onde se quer.

Disciplina: escrever todas as manhãs, não menos de seis horas.

Escrever de manhã e corrigir de tarde, à noite ler como um possesso.

Encanto, ou encanto dúctil: visitar os escritores em casa, ou abordá-los nas apresentações de livros e dizer a cada um exactamente aquilo que ele quer ouvir.

Aquilo que ele quer desesperadamente ouvir.

E ter paciência, pois nem sempre funciona.

Há cabrões que te dão uma palmada no ombro e, depois, se te vi não me lembro.

Há cabrões duros e cruéis e mesquinhos.

Mas não são todos assim.

É necessário ter paciência e procurar.

Os melhores são os homossexuais, mas cuidado, é preciso saber em que momento parar, é necessário saber com precisão o que é que se quer, de contrário pode-se acabar enrabado debalde por qualquer mariconço de esquerda.

Com as mulheres acontece três quartas partes das vezes o mesmo: as escritoras espanholas que te podem dar a mão são velhas e feias, e o sacrifício às vezes não vale a pena.

Os melhores são os heterossexuais já entrados nos cinquenta ou no umbral da velhice.

Em qualquer caso, é iniludível cultivar um jardim à sombra dos seus rancores e ressentimentos.

Evidentemente, há que empinar as suas obras completas, citá-los duas ou três vezes em cada conversa, citá-los sem descanso.



- ROBERTO BOLAÑO, Os detectives selvagens, II. Marco António Palacios, Jul. 1994.

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Olhar (57)










Cotêlo - Castro Daire

(Montemuro)


hoje...

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Joaquim Namorado (Edital)








EDITAL





Foi afixado
nos locais do costume
que
É PROIBIDO MENDIGAR.



Logo mão que se descobre
escreveu a tinta por baixo
MAS NÃO É PROIBIDO SER POBRE.




Joaquim Namorado

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21.9.09

Álvaro Mutis (Penso às vezes)








PIENSO A VECES...




Pienso a veces que ha llegado la hora de callar.
Dejar a un lado las palabras,
las pobres palabras usadas
hasta sus últimas cuerdas,
vejadas una y otra vez
hasta haber perdido
el más leve signo
de su original intención
de nombrar las cosas, los seres,
los paisajes, los ríos
y las efímeras pasiones de los hombres
montados en sus corceles
que atavió la vanidad
antes de recibir la escueta,
la irrebatible lección de la tumba.


Siempre los mismos,
gastando las palabras
hasta no poder, siquiera, orar con ellas,
ni exhibir sus deseos
en la parca extensión de sus sueños,
sus mendicantes sueños,
más propicios a la piedad y al olvido
que al vano estertor de la memoria.


Las palabras, en fin, cayendo
al pozo sin fondo
donde van a buscarlas
los infatuados tribunos
ávidos de un poder
hecho de sombra y desventura.


Inmerso en el silencio,
sumergido en sus aguas tranquilas
de acequia que detiene su curso
y se entrega al inmóvil
sosiego de las lianas,
al imperceptible palpitar de las raíces;
en el silencio, ya lo dijo Rimbaud,
ha de morar el poema,
el único posible ya,
labrado en los abismos
en donde todo lo nombrado
perdió hace mucho tiempo
la menos ocasión de subsistir,
de instaurar su estéril mentira
tejida en la rala trama de las palabras
que giran sin sosiego en el vacío
donde van a perderse
las necias tareas de los hombres.
Pienso a veces que ha llegado la hora de callar,
pero el silencio sería entonces
un premio desmedido,
una gracia inefable
que no creo haber ganado todavía.


Álvaro Mutis


[Club Cultura]







Penso às vezes que chegou a hora de estar calado.
Pôr de lado as palavras,
as pobres palavras usadas
até ao fio,
vexadas uma e outra vez
até perderem
o mais leve sinal da sua intenção primitiva
de nomear as coisas, os seres,
as paisagens, os rios
e as efémeras paixões dos homens
montados em seus corcéis
que a vaidade aparelhou
antes de receber a curta,
a irrebatível lição da tumba.


Sempre os mesmos,
gastando as palavras
até não poder, sequer, orar com elas,
nem exibir os desejos
na parca extensão dos sonhos,
seus mendicantes sonhos,
mais propícios à piedade e ao olvido
que ao vão estertor da memória.


As palavras, enfim, caindo
ao poço sem fundo
onde vão buscá-las
os enfatuados tribunos
ávidos de um poder
feito de sombra e desventura.


Imerso no silêncio,
mergulhado em suas águas tranquilas
de levada que detém o seu curso
e se entrega ao imóvel
sossego das lianas,
ao imperceptível palpitar das raízes;
no silêncio, como disse Rimbaud,
há-de morar o poema,
o único possível já,
lavrado nos abismos
onde tudo o que é nomeado
perdeu há muito tempo
a menor ocasião de subsistir,
de instaurar sua estéril mentira
tecida na trama rala das palavras
que giram sem descanso no vazio
onde se perdem
as néscias tarefas dos homens.
Penso às vezes que chegou a hora de estar calado,
mas o silêncio seria então
um prémio desmedido,
uma graça inefável
que eu não creio ter ainda alcançado.



(Trad. A.M.)

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20.9.09

Clarice Lispector (A perfeição)











A PERFEIÇÃO




O que me tranquiliza
é que tudo o que existe
existe com uma precisão absoluta.


O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.


Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.


O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.


Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.



Clarice Lispector

 

18.9.09

Daniel Jonas (Uma saison nos infernos)









UMA SAISON NOS INFERNOS




Tudo é breve: um deus,
o plâncton, o ferro.


O meu poema é uma miséria
comparado com o teu nome
no edital.


A voragem dos grandes estúdios,
a saída dos operários da fábrica,
a grande depressão
dos trinta anos:


Eu bebo
porque se não beber
não conduzo
este corpo a casa.



DANIEL JONAS
Os Fantasmas Inquilinos
Cotovia, 2005



Lugares:  DGLB (nota bio+biblio+1p)  /  Mal-situados (20p)

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Violeta C. Rangel (Podia ser ontem)







Pudo ser ayer o hace un verano,
en una tarde de esas tontas
cuando andaba a salto de los trenes
o bebía ron con esos guiris.


Pero no, te empeñas en venir
justo a esta hora,
cuando no llueve ni hace frío,
y estoy triste, y ya ni tengo
ganas de abrir mi sangre a nadie.


En fin, es justo ahora,
con la olla por los suelos,
y unas ganas de morirme
a cualquier precio, cuando escucho
tus pasos en la hierba,


y llamas, llamas... ¡dios!,


y corro a abrirte.



Violeta C. Rangel







Podia ser ontem ou no verão passado,
numa dessas tardes tontas
quando eu andava a saltar dos comboios
ou a beber rum atrás desses cromos.


Mas não, deste em voltar
logo a esta hora,
quando não chove nem faz frio
e eu estou triste, já sem vontade sequer
de abrir meu sangue a ninguém.


Enfim, logo agora,
em que a onda está por terra,
eu com vontade de morrer
a qualquer preço, é quando escuto
os teus passos na erva,


e chamas, chamas... ó deus!


e eu corro a abrir-te.


(Trad. A.M.)

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16.9.09

António Ramos Rosa (A casa)









A CASA





A tua voz é vegetal e eleva-se com o vento.
Quero demorá-la, fazer dela uma casa
ou um tronco. Que seja a minha noite
com um ardor de eternidade. E a sabedoria
de estar entre plantas tranquilas.
Tudo estará comigo perto de uma nascente
e eu mover-me-ei entre nocturnas veias
e sobre as pedras lisas.
Vejo os barcos da sombra entre as constelações
e estou perto, estou perto. A minha casa é aqui.




ANTÓNIO RAMOS ROSA
O Não e o Sim (1990)


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Roberto Bolaño (Antigamente)









(Empresários, ou gangsters...)




Antigamente, os escritores de Espanha (e da América Latina) entravam no redondel público para o transgredir, para o reformar, para o queimar, para o revolucionar.

Os escritores de Espanha (e da América Latina) procediam geralmente de famílias acomodadas, famílias estáveis ou de uma certa posição, e ao tomarem a pena voltavam-se, ou revoltavam-se, contra essa posição: escrever era renunciar, era renegar, às vezes era suicidar-se.

Era ir contra a família.

Hoje, os escritores de Espanha (e da América Latina) procedem em número cada vez mais alarmante de famílias de classe baixa, do proletariado e do lumpen-proletariado,e o seu exercício mais usual da escrita é uma forma de escalar posições na pirâmide social, uma forma de se acomodarem tentando o mais possível não transgredir em nada.

Não digo que não sejam cultos.
São tão cultos como os de antes.
Ou quase.
Não digo que não sejam trabalhadores.
São muito mais trabalhadores do que os de antes!
Mas são também muito mais vulgares.

E comportam-se como empresários, ou como gangsters.



- ROBERTO BOLAÑO, Os detectives selvagens, II. Pere Ordoñes, Jul. 1994.


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15.9.09

Ver (28)







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Astúrias / Lago Ercina
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Jan Heller Levi (Nada mau, papá)









NADA MAU, PAPÁ, NADA MAU





Penso que és mais tu próprio quando nadas;
cortas a água a cada braçada,
a maneira curiosa como respiras, a tua boca aberta
como se estivesses a bocejar.


Não és nem fantástico nem um desastre
no percurso daqui para ali.
Não ganharás medalhas, papá,
mas também não irás ao fundo.
.

Penso em como tudo poderia ter sido diferente
caso tivesse avaliado o teu amor
como avalio o teu estilo livre, a tua mariposa,o teu estilo de bruços.


Mas eu sempre pensei que me estava a afundar
naquele oceano gelado entre nós,
sempre pensei que te movias demasiado devagar para me salvares
quando afinal o fazias o mais depressa que podias.


Jan Heller Levi


(Trad. L.P.)







Fontes: Poets (nota) / Cortland Review (poema) / Cortland Review (outro) / Wikipedia


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14.9.09

Néstor Barron (A tua canção)








TU CANCIÓN





No hay canciones a medida, guerrillera.
Si esta no te gusta,
no hay problema: quedará
para alguna otra
que sí dirá que esta es su canción.
Y eso, guerrillera, no tiene por qué
molestarte. Me gustaría decirte que
se debe a que soy
un poeta universal, pero
ni un idiota se lo creería.


Se trata simplemente
de que todas encajan
en cualquier canción.



Néstor Barron





Não há canções à medida, guerrilheira.
Se esta não te agrada,
não há problema: ficará
para uma outra
que dirá que esta é a sua canção.
E isso, guerrilheira, não tem por que
te incomodar. Eu podia dizer-te que
é por eu ser
um poeta universal, mas
nem um idiota o engolia.


O caso simplesmente
é que todas encaixam
em qualquer canção.


(Trad. A.M.)






13.9.09

Cecília Meireles (Ou isto ou aquilo)









OU ISTO OU AQUILO





Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!


Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!


Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.


É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!


Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.


Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!


Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.


Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.



Cecília Meireles


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Um verso (60)









Um verso de Borges
(lá do Paraíso):





Não há outros paraísos senão os paraísos perdidos.


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12.9.09

Fernando Pessoa / R. Reis (Tão cedo passa)



[A lua flutua]





Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.



Ricardo Reis


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11.9.09

Ana Pérez Cañamares (Gerações)









GENERACIONES






Antes de morir, mi madre me dijo mamá, ven
mientras me miraba sin verme;
yo dije mamá, quédate
abrazando su cuerpo diminuto
envuelto en pañales y olor a talco;
mi hija dijo mamá, no llores
y me acarició la cabeza consolándome.


Cuando mamá murió, durante unos segundos
no tuvimos muy claros los lazos que nos unían
no supimos quién se había ido
y quién se había quedado
ni en qué momento de nuestras vidas
estábamos viviendo
o muriendo.



Ana Pérez Cañamares


[Neorrabioso]








Antes de morrer, minha mãe disse-me mamã, vem
enquanto me olhava sem ver-me;
eu disse mamã, fica
abraçando o seu corpo diminuto
envolto em panais e cheiro a talco;
minha filha disse mamã, não chores
e acariciou-me a cabeça a consolar-me.


Quando mamã morreu, por momentos
não eram claros os laços que nos uniam
não sabíamos quem tinha partido
e quem tinha ficado
nem em que momento das nossas vidas
estávamos vivendo
ou morrendo.


(Trad. A.M.)


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10.9.09

Rui Knopfli (Sem nada de meu)









SEM NADA DE MEU





Dei-me inteiro. Os outros
fazem o mundo (ou crêem
que fazem). Eu sento-me
na cancela, sem nada
de meu e tenho um sorriso
triste e uma gota
de ternura branda no olhar.
Dei-me inteiro. Sobram-me
coração, vísceras e um corpo.
Com isso vou vivendo.



Rui Knopfli




Fontes: Um buraco na sombra (16p) / Antonio Miranda (6p) / DGLB (bio+biblio) / Wikipedia


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8.9.09

Roberto Bolaño (Fazer contas)









(Fazer contas...)






Porém, a quem amo eu?

Ontem choveu a noite inteira.

Os passadiços do prédio pareciam as cataratas do Niagara.

Fiz amor a fazer contas.

Rosário esteve fantástica, mas por causa do êxito da experiência preferi não a informar.
.
Veio-se quinze vezes.

Nas primeiras tinha que lhe tapar a boca para que não acordasse os vizinhos.

Nas últimas, temi que lhe fosse dar um ataque do coração.
.
Às vezes, parecia desmaiar nos meus braços, outras vezes arqueava-se como se um fantasma lhe estivesse a brincar com a coluna vertebral.
.
Eu vim-me três vezes.




- ROBERTO BOLAÑO, Os detectives selvagens, I. 4-Dezembro.


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6.9.09

Antonio Machado (Para dialogar)









Para dialogar,
perguntai primeiro;
depois… escutai.




Antonio Machado


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Sophia de Mello Breyner Andresen (Camões e a tença)









CAMÕES E A TENÇA




Irás ao paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada.
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce.


Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou ser mais que a outra gente.


E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto.


Irás ao paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência.


Este país te mata lentamente.



SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Grades (1970)


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Vinicius de Moraes (Soneto do amor total)









SONETO DO AMOR TOTAL





Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade



Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.



Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.



E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.



Vinicius de Moraes


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4.9.09

Vicente Gallego (Espécies de solidão)









TIPOS DE SOLEDAD






La soledad de los mendigos
que no tienen nada y son felices
- porque reconocen que tampoco tienen soledad.
La soledad de los dioses
que tienen todo y no son felices
- porque reconocen que tampoco tienen todo.
La soledad de los artistas famosos,
que nacieron alérgicos a los aplausos
y sufren grandes trastornos físicos en cada éxito.
La soledad de los solitarios sin vocación
condenados a cuatro paredes hogareñas
drogándose con refranes venenosos
tales como:
“Más vale estar solo que mal acompañado.”
“Si no me quiere no me merece”, etcétera.
La soledad del niño en la cocina
y su madre con “otro” en el salón,
la soledad del viejo recordando
la vieja en el balcón.
La soledad de dos en una mesa.
La soledad de dos en una cama.
La soledad de dos, cuando uno sólo ama.




Vicente Gallego











A solidão dos mendigos
que não têm nada e são felizes
- pois reconhecem que tão pouco têm solidão.
A solidão dos deuses
que têm tudo e não são felizes
- pois reconhecem que tão pouco têm tudo.
A solidão dos artistas famosos,
que nasceram com alergia aos aplausos
e sofrem grandes transtornos físicos em cada êxito.
A solidão dos solitários sem vocação
condenados a quatro paredes domésticas
drogando-se com refrãos venenosos
tais como:
“Mais vale só que mal acompanhado”
“Se me não ama não me merece”, etc.
A solidão da criança na cozinha
e sua mãe com “outro” na sala,
a solidão do velho recordando
a velha na janela.
A solidão de dois numa mesa.
A solidão de dois numa cama.
A solidão de dois, quando um só deles ama.


(Trad. A.M.)


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Alexandre O'Neill (A história da moral)









A HISTÓRIA DA MORAL





Você tem-me cavalgado
seu safado!
Você tem-me cavalgado,
mas nem por isso me pôs
a pensar como você.


Que uma coisa pensa o cavalo;
outra quem está a montá--lo.



Alexandre O’Neill


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2.9.09

Carlos Nejar (Lisura)









LISURA





Entras na morte,
como se entra em casa,
desvestindo a carne,
pondo teus chinelos
e pijama velho.


Entras na morte,
como alguém que parte
para uma viagem:
não se sabe o norte
mas começa agora.


Entras na morte,
sem escuros,
sem punhais ocultos
sob o teu orgulho.


Entras na morte,
limpo
de cuidados breves;
como alguém que dorme
na varanda enorme,
entras na morte.



Carlos Nejar









Fontes: Nejar (sítio pess. / 51p+diversos) / Revista Agulha (10p+linques) / Releituras (biblio) / Antonio Miranda (7p)


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Julio Cortázar (Atenção, cão)









(Atenção, cão...)





Um cronópio fez uma casa e, segundo o costume, pôs na entrada vários azulejos que comprou e mandou fazer.

Os mesmos estavam colocados de modo que se pudessem ler por ordem.

O primeiro dizia: Bem-vindos a este lar.

O segundo dizia: A casa é pequena, mas é grande o coração.

O terceiro dizia: A presença do visitante é suave como erva.

O quarto dizia: Somos pobres de verdade, mas não de vontade.

O quinto dizia: Este cartaz anula os anteriores. Atenção, cão.



- JULIO CORTÁZAR, Historias de cronopios y de famas (1962).


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