31.8.09

Eduardo Pitta (Pouco tenho para alinhavar)








Pouco tenho para alinhavar.
Dizer-te que estou longe
não apaga esta ausência que,
inelutavelmente,
nos distanciou.

Cercam-nos muros de silêncio
opresso.
A própria hera não ousa
na despudorada nudez branca
de paredes que interditam

a fantasia ao forasteiro
voraz.
O gesto tolhido,
o pretexto adiado
e a memória a estiolar.




Eduardo Pitta




António Ramos Rosa (Poema dum funcionário cansado)









POEMA DUM FUNCIONÁRIO CANSADO






A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só



António Ramos Rosa


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29.8.09

Francisco Hernández (Até o verso ficar)








HASTA QUE EL VERSO QUEDE





Quitar la carne, toda,
hasta que el verso quede
con la sonora oscuridad del hueso.
Y al hueso desbastarlo, pulirlo, aguzarlo
hasta que se convierta en aguja tan fina,
que atraviese la lengua sin dolencia,
aunque la sangre obstruya la garganta.






Francisco Hernández







Tirar a carne, toda,
até o verso ficar
com a sonora escuridão do osso.
E o osso desbastá-lo, poli-lo, aguçá-lo
até converter-se em agulha tão fina,
que perfure a língua sem dor,
apesar de o sangue entupir a garganta.


(Trad. A.M.)




Fontes: A media voz (18p) / António Miranda (6p)








Um verso (59)









Um verso de Eugénio
(e mais não):




Assim é o amor: mortal e navegável.







Eugénio de Andrade


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Nuno Júdice (Tempo livre)









TEMPO LIVRE





Numa tarde de domingo, em Central Park, ou
numa tarde de domingo, em Hyde Park, ou
numa tarde de domingo, no jardim do Luxemburgo, ou
num parque qualquer de uma tarde de domingo
que até pode ser o parque Eduardo VII,
deitas-te na relva com o corpo enrolado
como se fosses uma colher metida no guarda-
napo. A tarde limpa os beiços com esse
guardanapo de flores, que é o teu vestido
de domingo, e deixa-te nua sob o sol frio
do Inverno de uma cidade que pode ser
Nova Iorque, Londres, Paris, ou outra qualquer,
como Lisboa. As árvores olham para outro sítio,
com os pássaros distraídos com o sol
que está naquela tarde por engano. E tu,
com os dedos presos na relva húmida, vês
o teu vestido voar, como um guardanapo,
por entre as nuvens brancas de uma tarde
de Inverno.




NUNO JÚDICE
Meditação sobre Ruínas
(1994)


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27.8.09

Gonçalo M. Tavares (As rimas)









AS RIMAS





Declaradamente, as rimas devem ser esmagadas
entre o polegar e o indicador
como uma reles pulga.
Sendo que, para ouvidos atentos,
o ruído provocado numa operação
e noutra é espantosamente semelhante.



Gonçalo M. Tavares




Roberto Bolaño (Esta manhã)









(Um problema de cada vez...)






Esta manhã deambulei pelos arredores da Villa a pensar na minha vida.

O futuro não se apresenta muito brilhante, principalmente se continuo a faltar às aulas.

No entanto, o que me preocupa de verdade é a minha educação sexual.

Não posso passar a vida inteira a bater punhetas.

(Também me preocupa a minha educação poética, mas é melhor não enfrentar mais do que um problema ao mesmo tempo).


- ROBERTO BOLAÑO, Os detectives selvagens, I. 9-Novembro.








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Francisco Sá de Miranda (Cantiga feita nos campos de Roma)









CANTIGA FEITA NOS GRANDES CAMPOS DE ROMA





Por estes campos sem fim,
onde a vista assim se estende,
que verei, triste de mim,
pois ver-vos se me defende?


Todos estes campos cheios
são de saudades e pesar,
que vem pera me matar
debaixo de céus alheios.
Em terra estranha e em ar,
mal sem meio e mal sem fim,
dor que ninguém não entende,
até quão longe se estende
o vosso poder em mim!



F. Sá de Miranda



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25.8.09

Nuria Mezquita (Eu queria ser como Marilyn)







YO QUERÍA SER COMO MARILYN





Yo quería ser como Marilyn,
pero algo salió mal.

Mi pelo, mis muslos, mi boca, mis tetas…
Algo salió mal.

Yo quería ser como Marilyn,
jugar con mis amantes
cambiarlos
romperlos
engañarlos
quitarle la pierna a uno
a otro el brazo
comérmelos despacio,
como cerezas cubiertas de caramelo.
Morderles el corazón.

Yo quería pasear sin bragas
cantar happy birthday al presidente
tener contento a mi daddy
follarme a mi tiger
llenar de diamantes la mesita de noche
sudar
soñar
revolcarme
entre sábanas de raso sobado
por las manos de tres o cuatro gigantes.

Yo quería ser como Marilyn.
Tentar la vida de los magnates
joder a Franky
a Jonny
y a Ronny.
Poner en jaque a los United
cantar canciones fracasadas
en el piano de Truman Capote.
Beber hasta caer al suelo
ponerme lavativas de heroína
tocar los cojones de un equipo completo de fútbol
chupar pollas a cambio
de rosas
pastillas
100 frases.

Dibujar el infierno en una sola línea,
con la voz más sucia y más dulce.

Sí, yo quería ser como Marilyn
Y tú y tú
Y la portera
Hasta mi madre.

Pero definitivamente,
está claro,
algo
salió
mal.



Nuria Mezquita



[Dalton Trompet]








Eu queria ser como Marrilyn,
mas algo correu mal.

O meu cabelo, os músculos, a boca, as mamas...
Algo correu mal.

Eu queria ser como Marilyn,
brincar com os meus amantes
trocá-los
parti-los
enganá-los
tirar a perna a um
a outro o braço
comê-los devagar,
como cerejas cobertas de caramelo.
Morder-lhes o coração.

Eu queria passear sem cuecas
cantar happy birthday ao presidente
dar alegria ao meu daddy
foder com meu tiger
encher com diamantes a mesa de cabeceira
suar
sonhar
virar-me
em lençóis de linho pisado
por três ou quatro gigantes.

Eu queria ser como Marilyn.
Tentar a vida dos magnates
foder Franky
Jonny
e Ronny.
Pôr os United em xeque
cantar canções fracassadas
no piano de Truman Capote.
Beber até cair
cheirar umas linhas de heroína
apalpar os colhões de uma equipa inteira de futebol
chupar pilas em troca
de rosas
pastilhas
100 frases.

Desenhar o inferno só com uma linha,
com a voz mais porca e mais doce.

Sim, eu queria ser como Marilyn
E como tu e tu
Como a porteira
Até a minha mãe.

Mas definitivamente,
é claro,
algo
correu
mal.



(Trad. A.M.)


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Ferreira Gullar (Morte de Clarice Lispector)









MORTE DE CLARICE LISPECTOR





Enquanto te enterravam no cemitério judeu
do Caju
(e o clarão de teu olhar soterrado
resistindo ainda)
o táxi corria comigo à borda da Lagoa
na direção de Botafogo
as pedras e as nuvens e as árvores
no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós




Ferreira Gullar


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Adolfo Casais Monteiro (A palavra impossível)









Silêncio-1 (Eugénio A.)
Silêncio-2 (M.Quintana)
Silêncio-3 (Andrés Eloy)
Silêncio-4 (A.Mattos)
Silêncio-5 (David M.F.)
Silêncio-6 (A.M.)
Silêncio-7 (M.Quintana)
Silêncio-8 (E.Diego)
Silêncio-9 (cummings)
Silêncio-10 (Casimiro B.)
Silêncio-11 (A.C.Monteiro)





A PALAVRA IMPOSSÍVEL






Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
A vida que não se troca por palavras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
As vozes que só em mim são verdadeiras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
A impossível palavra da verdade.

Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
Para eu guardar dentro de mim,
Para eu ignorar dentro de mim
A única palavra sem disfarce -
A Palavra que nunca se profere.



Adolfo Casais Monteiro



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23.8.09

Jorge de Sena (Camões dirige-se)








CAMÕES DIRIGE-SE AOS SEUS CONTEMPORÂNEOS






Podereis roubar-me tudo:
As ideias, as palavras, as imagens,
E também as metáforas, os temas, os motivos,
Os símbolos, e a primazia
Nas dores sofridas de uma língua nova,
No entendimento de outros, na coragem
De combater, julgar, de penetrar
Em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
Suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
Outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
Será terrível. Não só quando
Vossos netos não souberem já quem sois
Terão de me saber melhor ainda
Do que fingis que não sabeis,
Como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
Reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
Tido por meu, contado como meu,
Até mesmo aquele pouco e miserável
Que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
Que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu, E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.




JORGE DE SENA
Metamorfoses


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Julio Cortázar (Flor e cronópio)









(Flor e cronópio)





Um cronópio topa com uma flor solitária no meio dos campos.

Primeiro vai para arrancá-la, depois pensa que é uma crueldade inútil e põe-se-lhe à beira, de joelhos, brincando alegremente com a flor, a saber: acaricia-lhe as pétalas, sopra-lhe para dançar, zumbe como as abelhas, cheira-lhe o perfume e deita-se por fim por baixo da flor, adormecendo envolto numa grande paz.

A flor pensa: “É como uma flor”.



- JULIO CORTÁZAR, Historias de cronopios y de famas (1962).


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Pedro Mexia (Papel químico)








PAPEL QUÍMICO




O “sofrimento” é uma emoção
poética, estamos
sempre sozinhos com o nosso fantasma
e os versos o papel químico do mundo.



PEDRO MEXIA
Senhor Fantasma
(2007)




21.8.09

Gabriel Zaíd (Gabando o jeito dela)









ALABANDO SU MANERA DE HACERLO





Qué bien se hace contigo, vida mía!


Muchas mujeres lo hacen bien
pero ninguna como tú.


La Sulamita, en la gloria,
se asoma a verte hacerlo.


Y yo le digo que no,
que nos deje, que ya lo escribiré.


Pero si lo escribiese
te volverías legendaria.


Y ni creo en la poesía autobiográfica
ni me conviene hacerte propaganda.



Gabriel Zaíd







Vida minha, que bem que se faz contigo!


Muitas outras o fazem bem,
mas nenhuma como tu.


A Sulamita, na sua glória,
chega-se para te ver.


E eu digo-lhe que não,
que nos deixe, que depois escrevo sobre.


Mas se o escrevesse
irias tornar-te lendária.


E nem eu creio na poesia autobiográfica,
nem me convém fazer-te propaganda.



(Trad. A.M.)


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Ver (26)











Ria de Aveiro



Alexandre O'Neill (Auto-retrato)









AUTO-RETRATO




O'Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada...)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O'Neill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse...



Alexandre O’Neill


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A.M.Pires Cabral (Prognóstico)









PROGNÓSTICO





Sou do tempo em que não se corrigiam
dentes defeituosos.
Além disso, perdi praticamente
todos os molares.
Para piorar as coisas,
a TAC acusa um desvio para a esquerda
do septo nasal.
Ainda por cima, um desvio acentuado.
Bonita caveira hei-de dar,
não haja dúvida.



A.M. PIRES CABRAL
As têmporas da cinza (2008)


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19.8.09

Néstor Barron (Ética do soldado)









ÉTICA DEL SOLDADO





Fui engendrado por un siglo
que huyó con el rabo entre las patas.
Es por eso que si me lo cruzo en
algún bar,
simplemente
lo derribo de un puñetazo en la boca y
continúo liando mi cigarrillo (siempre
fumo en bares en los que, pase
lo que pase, el héroe
soy yo).


Vinieron a buscar a los judíos, a
los negros, a los bolivianos. Pero
a mí no.
En realidad sí vinieron,
pero siempre me ocupé
de que no me encontraran en casa.


Yo hubiera podido darte esa vida
que soñabas.
Pero es que tengo esta puta rosa blanca en el pecho
que sangra
que sangra
que desangra.




[Nestor Barron]







Eu fui engendrado por um século
que fugiu com o rabo entre as pernas.
É por isso que se o encontro
nalgum bar
derrubo-o
simplesmente com um murro nos queixos e
continuo a enrolar o meu cigarro (fumo
sempre em bares onde, seja
como for, o herói
sou eu).


Vieram buscar os judeus,
os negros, os bolivianos. Mas
a mim não.
Na verdade vieram,
mas eu sempre cuidei
de que não me encontrassem em casa.


Eu podia ter-te dado essa vida
que sonhavas.
Mas tenho esta puta desta rosa branca
no peito
que sangra
que sangra
que me sangra.


(Trad. A.M.)


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Charles Baudelaire (Sonhos)









(Sonhos, sempre sonhos...)





Existe um país soberbo, um país de Cocanha...

Sonhos! Sempre sonhos!

E quanto mais a alma é ambiciosa e delicada, mais os sonhos a afastam do possível.

Cada homem traz consigo a sua dose de ópio natural, incessantemente segregada e renovada, e, do nascimento até à morte, quantas horas contamos preenchidas pelo prazer positivo, pela acção realizada e decidida?



- CHARLES BAUDELAIRE, O spleen de Paris, XVIII (Convite à viagem).


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18.8.09

Miguel Torga (Dies irae)








DIES IRAE





Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.



Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.



Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.



Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!



Miguel Torga


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Rosa Alice Branco (Por um dia de inverno)









POR UM DIA DE INVERNO





O homem do talho morreu. Deixou mulher,
dois filhos e carne fresca estendida como roupa
no varal. Lembro-me do orgulho com que passava a mão
pelo cachaço. Lembro-me da peixeira
que nos acordava de manhã «peixe fresco
tão vivinho» e como era caro o estertor do linguado.
Mesmo as alfaces são frescas depois de mortas,
o molho de nabiças, até de uma cenoura esperamos
que seja fresca ali no prato com o linguado rigorosamente
apartado das espinhas. Tão fresco! O homem do talho
vai a enterrar depois do almoço. Agora jaz na capela mortuária
de rosto descoberto para a família e os curiosos. O homem
do talho morreu cansado, mas agora está fresco:
foi abatido ontem, será embalado às quatro da tarde.




ROSA ALICE BRANCO
Da Alma e dos Espíritos Animais(Porto, Campo das Letras, 2001)




Fontes: Jornal de Poesia (currículo+6p) / Mulheres (nota)


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16.8.09

Olhar (55)













(Rio do ouro)


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Casimiro de Brito (O mestre de amor)








O mestre de amor é o mais humilde dos seus alunos




Casimiro de Brito








Cecília Meireles (Lua adversa)









LUA ADVERSA





Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.



Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.



E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...


Cecília Meireles



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11.8.09

Nuria Mezquita (Foge, se puderes)









ESCAPA SI PUEDES




No es que el infierno esté llamando a la puerta
es que ha acampado en el salón desde el viernes por la noche

El sofá es una isla entre llamas
la mesa un cayuco de mierda
y la puerta está sellada desde dentro


¿LA ESCAPADA?

Supongo, huir al dormitorio



Nuria Mezquita



[Dalton Trompet]







Não é que o inferno esteja batendo à porta
na verdade acampou na sala desde sexta à noite


O sofá é uma ilha no meio de chamas
a mesa uma bateira de merda
e a porta está selada por dentro


A FUGA?


Correr para o quarto, suponho



(Trad. A.M.)





Fontes: Dalton Trompet (blogue) / Cangrejo Pistolero (nota)


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Um verso (58)




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Um verso do Assis
(uno más):






Longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos.




Fernando Assis Pacheco





Herberto Helder (Se eu quisesse, enlouquecia)









SE EU QUISESSE, ENLOUQUECIA






Se eu quisesse, enlouquecia.
Sei uma quantidade de histórias terríveis.
Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio...
Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso.
Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver?
A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caindo sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo...
Tem de se arrumar muito depressa.
Há felizmente o estilo.
Não calcula o que seja?
Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação.
Faço-me entender?
Não?
Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida.



HERBERTO HELDER
Os Passos em Volta
(Assírio & Alvim, 1997)



[Um buraco na sombra]


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José Miguel Silva (Queixas de um utente)











QUEIXAS DE UM UTENTE





Pago os meus impostos, separo
o lixo, já não vejo televisão
há cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros.


Já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum.



José Miguel Silva


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9.8.09

Pablo García Casado (Os arredores)




[Jorge Rodrigues]










LAS AFUERAS






por más que se extiendan las ciudades hasta juntarse
unas con otras por más desengaños que el sexo la muerte
o las oposiciones nos deparen quedarán siempre las afueras

la oscuridad de los polígonos industriales la ineficacia
del ministerio de obras públicas por más que se empeñen
colectivos ciudadanos asociaciones de vecinos seguirán

amaneciendo los restos del amor en las afueras



Pablo García Casado








por mais que as cidades se estendam até unir-se
umas com outras por mais desenganos que nos dêem o sexo
a morte ou os exames restarão sempre os arredores

a escuridão das zonas industriais a ineficácia
do ministério das obras públicas por mais que se empenhem
grupos cidadãos comissões de moradores continuarão

amanhecendo os restos do amor nos arredores



(Trad. A.M.)





Charles Baudelaire (Vamos lá)















(Vamos lá...)










Vamos lá comer essa sopa, seu idiota, mercador de nuvens.



- CHARLES BAUDELAIRE, O spleen de Paris, XLIV.

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Ruy Belo (Sexta-feira sol dourado)









SEXTA-FEIRA SOL DOURADO





Sexta-feira sol dourado
esperança de solução de todos os problemas
não por à sexta-feira ter morrido cristo
que o poeta aliás comemora a comer bacalhau
ou outro peixe trocado pelos pescadores
que morreram ou morrerão no mar
esse peixe que antes nos chegava directamente
e agora passa pelas mãos do almirante henrique tenreiro
sexta-feira sol dourado
não por à sexta-feira ter morrido cristo
mas por se dispor da semana americana
Agora é que vamos ser felizes
A sexta-feira chega enche-se o peito de ar
a eternidade é não haver papéis
a vida muda vamos contestar
talvez assim se consiga aumentar
a duração média da vida humana
Sexta-feira sol dourado
que alegria ser poeta português
Portugal fica em frente



Ruy Belo


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7.8.09

Alberto Nessi (É uma sorte)








È UNA FORTUNA




È una fortuna passeggiare tra i castagni
mi dici un mattino di novembre
mentre i gambi riversi del granoturco
splendono sotto le finestre e le donne dei paesi
aprono la porta della bottega. È una fortuna
marinare la vita che non ci appartiene
per ascoltare lo scricchiolìo tutto nostro
delle foglie: le parole cadono felici
come le bacche rosse dal corniolo.
È una fortuna non sbagliare sentiero
verso il poggio da dove l’eremita
qualche secolo fa guardava la Lombardia

e dove noi ci abbracciamo tra le stoppie.



Alberto Nessi






É uma sorte passear entre os castanheiros
dizes-me uma manhã de Novembro
enquanto as canas de milho tombadas
resplandecem sob as janelas e as mulheres da terra
abrem a porta da loja. É uma sorte
dobar meadas na vida que nos não pertence
para escutar o rugido todo nosso
das folhas: as palavras caem felizes
como as bagas vermelhas da cerdeira brava.
É uma sorte não se enganar no carreiro
para a colina donde o eremita
há alguns séculos olhava a Lombardia

e onde no restolho nós dois nos abraçamos.



(Trad. A.M.)




Joaquim Namorado (A máquina de fazer notas falsas)









A MÁQUINA DE FAZER NOTAS FALSAS





A máquina de fazer notas falsas
era uma máquina tão falsa
que nem notas falsas fazia.


Mas trabalhava perfeito…
dentre dois rolos saíam,
em vez de notas de mil,
folhas de velhos jornais


com notícias falsas




Joaquim Namorado


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Néstor Barron (A primeira vez que me acontece)









LA PRIMERA VEZ QUE ME PASA





No es que me inquiete tu casa,
no es que tu cama no me inspire,
no es que no ardiera
cuando entramos a tu cuarto rodando,
bailando el vals de los posesos.
Es sólo que
vi que otro olvidó una muleta
junto a tu mesa de luz,
y me distraje irremediablemente
con la idea de alguien saliendo del cuarto
a los saltitos sobre una sola pierna, con ese
espasmo tragicómico
que hay en la resignación.



Néstor Barron




Fonte: Nestor Barron (sítio pessoal: tudo+algo)






Não é que a casa me inquiete
ou a tua cama não me inspire
ou eu não estivesse a arder
quando entrámos no quarto a rodar,
bailando a valsa dos possessos.
É só que
vi que outro esqueceu uma muleta
ao pé da tua mesa de cabeceira,
e distraí-me irremediavelmente
com a ideia de alguém a sair do quarto
aos saltinhos com uma perna só, com
esse espasmo tragicómico
que há na resignação.


(Trad. A.M.)


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5.8.09

Olhar (54)













Parque dos Príncipes

(Roma)



Eugénio de Andrade (Estou contente)










ESTOU CONTENTE






Estou contente, não devo nada à vida,
e a vida deve-me apenas
dez réis de mel coado.
Estamos quites, assim


o corpo já pode descansar: dia
após dia lavrou, semeou,
também colheu, e até
alguma coisa dissipou, o pobre,


pobríssimo animal,
agora de testículos aposentados.
Um dia destes vou-me estender
debaixo da figueira, aquela


que vi exasperada e só, há muitos anos:
pertenço à mesma raça.



EUGÉNIO DE ANDRADE,
Branco no Branco, 1984




[Bibliomanias]


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Cristina Peri Rossi (Bitácula)









BITÁCORA




No conoce el arte de la navegación
quien no ha bogado en el vientre
de una mujer, remado en ella,
naufragado
y sobrevivido en una de sus playas.



CRISTINA PERI ROSSI
Linguística General (1979)







Não conhece a arte da navegação
quem nunca vogou no ventre
de uma mulher, remou nela,
naufragou
e sobreviveu em uma de suas praias.


(Trad. A.M.)




Adília Lopes (A propósito de estrelas)








A PROPÓSITO DE ESTRELAS





Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas




ADÍLIA LOPES
Quem Quer Casar Com a Poetisa?
(Quasi, 2001)