25.7.09

Eduardo Lizalde (Amor)








AMOR





La regla es ésta:
dar lo absolutamente imprescindible,
obtener lo más,
nunca bajar la guardia,
meter el jab a tiempo,
no ceder,
y no pelear en corto,
no entregarse en ninguna circunstancia
ni cambiar golpes con la ceja herida;
jamás decir "te amo", en serio,
al contrincante.
Es el mejor camino
para ser eternamente desgraciado
y triunfador
sin riesgos aparentes.




Eduardo Lizalde





A regra é esta,
dar apenas o que tiver de ser,
conseguir o restante,
nunca baixar a guarda,
meter o ‘jab’ a tempo,
não ceder
e não combater de muito perto,
não se entregar em nenhuma circunstância,
nem trocar golpes com a celha ferida;
jamais dizer ‘amo-te’, a sério,
à concorrência.
É o melhor caminho
para ser desgraçado para sempre
e triunfar
sem riscos aparentes.



(Trad. A.M.)




>>  A media voz (9p) /CNL (perfil+antologia+biblio+entrevista)  /
 Poemas de (17p) / Agulha (entrevista) / Wikipedia


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22.7.09

Pedro Salinas (Perdoa-me por ir assim)









PERDÓNAME POR IR ASÍ BUSCÁNDOTE...






Perdóname por ir así buscándote
tan torpemente, dentro
de ti.
Perdóname el dolor alguna vez.
Es que quiero sacarde ti tu mejor tú.
Ese que no te viste y que yo veo,
nadador por tu fondo, preciosísimo.
Y cogerlo
y tenerlo yo en lo alto como tiene
el árbol la luz última
que le ha encontrado al sol.
Y entonces tú
en su busca vendrías, a lo alto.
Para llegar a él
subida sobre ti, como te quiero,
tocando ya tan sólo a tu pasado
con las puntas rosadas de tus pies,
en tensión todo el cuerpo, ya ascendiendo
de ti a ti misma.
Y que a mi amor entonces le conteste
la nueva criatura que tú eres.



Pedro Salinas






Perdoa-me por ir assim a buscar-te
tão toscamente, dentro
de ti.
Perdoa-me a dor algumas vezes.
É porque quero arrancar
de ti o teu melhor tu.
Esse que tu não viste e que eu vejo,
nadando pelo teu fundo, preciosíssimo.
E tomá-lo
e pô-lo eu lá no alto como
na árvore a luz derradeira
que lhe empresta o sol.
E então tu
virias em busca dela, lá em cima.
Para lhe chegares
subida sobre ti, como te quero,
tocando já o teu passado apenas
com as pontas dos pés,
o corpo todo em tensão, a subires
de ti a ti mesma.
E que então ao meu amor responda
a nova criatura que tu és.


(Trad. A.M.)


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Mário-Henrique Leiria (História exemplar)









HISTÓRIA EXEMPLAR





Entrei.
- Tire o chapéu – disse o Senhor Director.
Tirei o chapéu.
- Sente-se – determinou o Senhor Director.
Sentei-me.
- O que deseja? – investigou o Senhor Director.
Levantei-me, pus o chapéu e dei duas latadas no Senhor Director.
Saí.




Mário-Henrique Leiria


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20.7.09

Ver (24)



Ferreira Gullar (Dois e dois, quatro)









DOIS E DOIS: QUATRO





Como dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
embora o pão seja caro
e a liberdade pequena

Como teus olhos são claros
e a tua pele, morena

como é azul o oceano
e a lagoa, serena

como um tempo de alegria
por trás do terror me acena

e a noite carrega o dia
no seu colo de açucena

- sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena

mesmo que o pão seja caro
e a liberdade, pequena.



Ferreira Gullar



Gonçalo M. Tavares (Pintura)








PINTURA





O arco-íris cai não interferindo
nas cores do quadro. O pintor
agradece. O peixe lento
que o pintor trouxe ao mundo tem
cores despropositadas, porém não há nenhuma razão
para apontar aos peixes a responsabilidade
de um erro, afinal,
estético.
Quanto á literatura: não falha na cor,
mas jamais acerta nas palavras.



Gonçalo M. Tavares







17.7.09

Luis Cernuda (Contigo)









CONTIGO





¿Mi tierra?
Mi tierra eres tú.


¿Mi gente?
Mi gente eres tú.


El destierro y la muerte
para mi están adonde
no estés tú.


¿Y mi vida?
Dime, mi vida,
¿qué es, si no eres tú?



Luis Cernuda







Minha terra?
Minha terra és tu.


Minha gente?
Minha gente és tu.


Desterro e morte
para mim estão onde
não estejas tu.


E minha vida?
Diz, minha vida,
que é, se não és tu?


(Trad. A.M.)





Fontes: Sítio oficial / A media voz (40p) / Poesi.as (25p)


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Ana Paula Inácio (Deixa o tempo)









DEIXA O TEMPO





deixa o tempo fazer o resto
fechar janelas
aplacar os barcos
recolher os víveres
semear a sorte
acender o fogo
esperar a ceia



abre as portas: lê a luz
a sombra, a arte do passarinheiro



com três paus
fazes uma canoa
com quatro tens um verso,
deixa o tempo fazer o resto.



Ana Paula Inácio


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Charles Baudelaire (Embriagai-vos)









(Embriagai-vos...)







É preciso estar sempre bêbado.

Tudo bate aí: eis a questão.

Para não sentirdes o horrível fardo do tempo que vos esmaga os ombros e vos inclina para terra, tendes que embriagar-vos sem parar.

Mas de quê?

De vinho, de poesia ou de virtude, à vontade.

Mas embriagai-vos.




- CHARLES BAUDELAIRE, O spleen de Paris, XXXIII.


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15.7.09

Olhar (53)












Ria de Aveiro

(Canal de Mira)

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Camilo Castelo Branco (O cego de Landim)









(Ressumbrava-lhe no semblante...)






Foi há treze anos, em uma tarde calmosa de Agosto, neste mesmo escritório, e naquele canapé, que o cego de Landim esteve sentado.

São inolvidáveis as feições do homem.

Tinha cinquenta e cinco anos, rijos como raros homens de vida contrariada se gabam aos quarenta.

Ressumbrava-lhe no semblante anafado a paz e a saúde da consciência.

Tinha as espáduas largas; cabia-lhe muito ar no peito; coração e pulmões aviventavam-se na amplidão da pleura elástica.

Envidraçava as pupilas alvacentas com vidros esfumados, postos em grandes aros de ouro.

Trajava de preto, a sobrecasaca abotoada, a calça justa, e a bota lustrosa; apertava na mão esquerda as luvas amarrotadas e apoiava a direita no castão de prata de uma bengala.


- CAMILO CASTELO BRANCO, Novelas do Minho (O Cego de Landim, I).






NOTA:


Lê-se o homem de génio, passado um século, ou pouco mais, em duas ou três novelas.

Anotam-se algumas palavras, em tal leitura, menos usuais no tráfico actual.

Vai-se ao dicionário (Priberam) e afinal estão lá todas, menos uma (esparavonar).

Aqui ficam, com esta impressão, de que porventura progredimos pouco em matéria de língua, nos últimos cem anos:


aflante
apojadura
arribana
averdugar
bagadas
barregar
boíz
bornal
cafurna
caluga
cangosta
carnaz
choutar
empecer
escarmentar
esparavonar
esquineta
granjearia
gilvaz
impertérrito
irrogar
jolda
ladravaz
lardo
pedâneo
perlustrar
rebalsar
ressumbrar
sestro
tumescente
virago
visagem




Para ver: Casa de Camilo


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Casimiro de Brito (O aforismo)









O aforismo é um quase silêncio; uma pegada de gaivota na areia da manhã.





CASIMIRO DE BRITO
Da frágil sabedoria (2001)


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14.7.09

José Carlos Ary dos Santos (Na mesa do Santo Ofício)









NA MESA DO SANTO OFÍCIO





Tu lhes dirás, meu amor, que nós não existimos.
Que nascemos da noite, das árvores, das nuvens.
Que viemos, amámos, pecámos e partimos
Como a água das chuvas.


Tu lhes dirás, meu amor, que ambos nos sorrimos
Do que dizem e pensam
E que a nossa aventura,
É no vento que passa que a ouvimos,
É no nosso silêncio que perdura.


Tu lhes dirás, meu amor, que nós não falaremos
E que enterrámos vivo o fogo que nos queima.
Tu lhes dirás, meu amor, se for preciso,
Que nos espreguiçaremos na fogueira.



José Carlos Ary dos Santos


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13.7.09

Octavio Paz (As palavras)









LAS PALABRAS





Dales la vuelta,
cógelas del rabo (chillen, putas),
azótalas,
dales azúcar en la boca a las rejegas,
ínflalas, globos, pínchalas,
sórbeles sangre y tuétanos,
sécalas,
cápalas,
písalas, gallo galante,
tuérceles el gaznate, cocinero,
desplúmalas,
destrípalas, toro,
buey, arrástralas,
hazlas, poeta,
haz que se traguen todas tus palabras.



Octavio Paz







Vira-as,
pega-lhes pelo rabo (chiem, putas),
açoita-as,
adoça-lhes a boca às reguilas,
enche-as, balões, pica-as,
chupa-lhes sangue e tutano,
seca-as,
capa-as,
pisa-as, galo galante,
torce-lhes o gasganete, cozinheiro,
depena-as,
estripa-as, toiro,
boi, arrasta-as,
fá-las, poeta,
faz que se traguem todas as tuas palavras.


(Trad. A.M.)
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Fontes: Poesi.as (156p) / A media voz (43p) / Los poetas (15p+bio)


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11.7.09

Manuel António Pina (O jardim das oliveiras)









O JARDIM DAS OLIVEIRAS





Se procuro o teu rosto
no meio do ruído das vozes
quem procura o teu rosto?



Quem fala obscuramente
em qualquer sítio das minhas palavras
ouvindo-se a si próprio?



Às vezes suspeito que me segues,
que não são meus os passos
atrás de mim.



O que está fora de ti, falando-te?
Este é o teu caminho,
e as minhas palavras os teus passos?



Quem me olha desse lado
e deste lado de mim?
As minhas dúvidas, até elas te pertencem?



Manuel António Pina


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Mário Quintana (Preparativos para a viagem)









PREPARATIVOS PARA A VIAGEM





Uns vão de guarda-chuva e galochas,
outros arrastam um baú de guardados…
Inúteis precauções!
Mas,
se levares apenas as visões deste lado,
nada te será confiscado:
todo o mundo respeita os sonhos de um ceguinho
- a sua única felicidade!
E os próprios Anjos, esses que fitam eternamente
a face do Senhor…
os próprios Anjos te invejarão.



Mário Quintana


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Um verso (57)
















Um verso de Pablo Garcia













Pablo García Casado






9.7.09

Ver (23)


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S.Miguel

(Açores)

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José Emílio Pacheco (A quem possa interessar)









A QUIEN PUEDA INTERESAR





Que otros hagan aún
el gran poema
los libros unitarios
las rotundas
obras que sean espejo
de armonía



A mí sólo me importa
el testimonio
del momento que pasa
las palabras
que dicta en su fluir
el tiempo en vuelo



La poesía que busco
es como un diario
en donde no hay proyecto ni medida.




José Emilio Pacheco


[Noctambulario]






Que outros façam ainda
o grande poema
os livros unitários
as rotundas
obras espelho
de harmonia



A mim importa-me só
o testemunho
do momento que passa
as palavras
que o tempo voando
dita em seu fluir



A poesia que busco
é como um diário
onde não há projecto nem medida.



(Trad. A.M.)


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7.7.09

Francisco Sá de Miranda (Quando eu, senhora)









Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho,
e vejo o que não vi nunca, nem cri
que houvesse cá, recolhe-se a alma a si
e vou tresvaliando, como em sonho.



Isto passado, quando me desponho,
e me quero afirmar se foi assi,
pasmado e duvidoso do que vi,
m'espanto às vezes, outras m'avergonho.



Que, tornando ante vós, senhora, tal,
Quando m'era mister tant' outr' ajuda,
de que me valerei, se alma não val?



Esperando por ela que me acuda,
e não me acode, e está cuidando em al,
afronta o coração, a língua é muda.



F. Sá de Miranda


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Charles Baudelaire (Deixa-me respirar)








(Deixa-me respirar...)





Deixa-me respirar longamente, longamente, o cheiro dos teus cabelos, mergulhar neles o meu rosto inteiro, como um homem sedento na água de uma fonte, e agitá-los com a minha mão como um lenço cheiroso, para sacudir lembranças no ar.


- CHARLES BAUDELAIRE, O spleen de Paris, XVII.




Ana Pérez Cañamares (Meu pai era Daniel)









MI PADRE SE LLAMABA DANIEL




Lo primero que pensé fue:
se ha muerto solo
(acompañar en la muerte
es el mejor bálsamo
para la culpa)


Lo segundo que pensé:
no me ha devuelto
mi última llamada
(nunca nos planteamos
que el deseo de independencia
también puede ser hereditario)


Lo tercero: ya no tengo padres
(y al mirar atrás descubrí
que hace ya mucho tiempo
que ninguna mano
sujeta la bici que monto)


Ahora no puedo dejar de pensar:
padre, yo no estoy muerta
pero también me pierdo muchas cosas.


Ya no estoy enfadada contigo.
Cada vez que te pienso
es domingo por la mañana.
Me llevas sobre los hombros
y yo sé que vas a invitarme
a un batido de chocolate
en el bar de la barra de zinc.
Después tu mano grande se abrirá
frente a mis ojos, y me mostrará el tesoro:
una chapa de mirinda y otra de pepsi.


Cuarenta años para descubrir
que allí estaba todo ya dicho.



Ana Pérez Cañamares

[Dalton Trompet]





O que pensei primeiro foi:
morreu sozinho
(o melhor bálsamo
para a culpa
é acompanhar na morte)


Depois pensei:
não me voltou a ligar
depois do meu último telefonema
(jamais reflectimos
que o desejo de independência
também pode ser hereditário)


E depois ainda: já não tenho pais
(e ao olhar para trás descobri
que há muito tempo
nenhuma mão
me segura a bicicleta para eu montar)


Agora não posso deixar de pensar:
pai, eu não estou morta
mas também perco muita coisa.


Já não estou chateada contigo.
De cada vez que penso em ti
é domingo de manhã.
Levas-me aos ombros
e eu sei que vais comprar-me
um batido de chocolate
no bar do balcão de zinco.
Depois a tua mão grande há-de abrir-se,
diante dos meus olhos, e mostrar-me o tesouro:
uma carica de mirinda e outra de pepsi.


Quarenta anos para descobrir
que estava já tudo dito ali.


(Trad. A.M.)




Fontes: El alma disponible (blogue pessoal) / Escritoras (nota+linque) / El libre pensador (entrevista-2008) / El rincon del haiku (haiku)


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5.7.09

Olhar (52)



Ilha Terceira (Açores)

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José Miguel Silva (Os melhores anos)









OS MELHORES ANOS DA MINHA VIDA





Os melhores anos da minha vida
passaram comigo ausente, passaram
numa corrente subterrânea.
Não me apercebi de nada, distraído
com a queda das folhas,
a densa mistura de pão e desordem.



Estava tudo em aberto, mas eu não sabia
senão de pequenas querelas,
e tímidos passos à toa, sempre à espera
de não ter futuro. Sentado, como um pobre,
sobre o poço de petróleo,
eu media com tesouras as semanas,
misturava-me com livros, ansiava
pelo dia em que deixasse de sangrar.



Os melhores anos da minha vida troquei-os
por isto.



José Miguel Silva



[Canal de Poesia]


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Alexandre O'Neill (Um adeus português)









UM ADEUS PORTUGUÊS




Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada


Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor


Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver


Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual


Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal


Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser


Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal


Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti



ALEXANDRE O'NEILL
No Reino da Dinamarca
(1958)


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2.7.09

Vicente Gallego (Põe-lhe a culpa a ele)





ÉCHALE A ÉL LA CULPA



Hoy te has ido de fiesta con amigas,
y sin que tú lo sepas me regalas
un tiempo de estar solo que ya empieza
a ser raro en mi vida, un tiempo útil
para intentar pensar en ti como si fueras
lo que siempre debiste seguir siendo
cuando pensaba en ti: aquella persona,
en todo semejante a cualquier otra,
que una noche lejana tuvo el gesto
generoso y extraño de entregarme su amor.
Pero el amor nos cambia, nos convierte en espías
ridículos del otro, en implacables jueces
que condenan sin pruebas y comparten
sus estúpidas penas con el reo.
El amor nos confunde y trata ahora
de que vea en tu fiesta una traición.


Por huir de esa trampa me amenazo
con los nombres que cuadran al que en ella se enreda:
egoísta, ridículo, inseguro, celoso...
Y como un ejercicio de humildad pienso en ti
divirtiéndote sola: te imagino bailando
y mirando a otros hombres;
al calor del alcohol
confiesas a una amiga algunas cosas
que te irritan de mí sin que yo lo sospeche,
y por unos instantes saboreas
una vida distinta que esta noche te tienta
porque eres humana, aunque no me haga gracia.


Ahora caigo en la cuenta de que dudas
como yo dudo a veces, y que también te aburres,
y que incluso algún día habrás soñado
follar como una loca con el tipo que anuncia
la colonia de moda.
Para calmarme un poco
tras la última idea, yo me digo
que el amor es un juego donde cuentan
mucho más los faroles que las cartas,
y procuro ponerme razonable,
pensar que es más hermoso que me quieras
porque existen las fiestas, y las dudas,
y los cuerpos de anuncio de colonia.
Lo que quiero que sepas es que entiendo
mejor de lo que piensas ciertas cosas,
que soy tu semejante, que he pensado besarte
cuando llegues a casa; y que es el amor
- ese tipo grotesco y marrullero -
el que va a hacerte daño con palabras
absurdas de reproche cuando vuelvas,
porque ya estás tardando, mala puta.


Vicente Gallego

[Cervantes]




Hoje foste com amigas para a festa e,
sem saber, dás-me
um tempo para estar só que já começa
a escassear na minha vida, um tempo útil
para procurar pensar em ti como se fosses
o que devias ser sempre,
quando eu pensava em ti: aquela pessoa,
semelhante em tudo a outra qualquer,
que uma noite longínqua teve o gesto
generoso e estranho de me entregar o seu amor.
Mas o amor transforma-nos, faz de nós espiões
ridículos do outro, implacáveis juízes
que condenam sem provas e compartem
suas estúpidas penas com o réu.
O amor confunde-nos e faz agora
que eu veja na tua festa uma traição.


Para escapar à armadilha chamo-me
os nomes adequados àquele que nela se enreda:
egoísta, ridículo, inseguro, ciumento...
E como um exercício de humildade penso em ti
a divertir-te sozinha, imaginando-te a dançar
e a olhar para os outros homens;
com o calor da bebida
confessas a uma amiga algumas coisas
minhas que te irritam sem eu saber,
saboreando por alguns momentos uma vida diferente
que te tenta esta noite porque és humana,
embora eu não lhe ache graça nenhuma.


Dou conta agora de que tu duvidas
como eu duvido por vezes e também te aborreces
e até algum dia terás sonhado
foder como uma louca com aquele tipo do anúncio
do perfume da moda.
Para acalmar-me um pouco
desta última ideia, digo a mim mesmo
que o amor é um jogo onde contam
muito mais os truques que as cartas,
e procuro ser razoável,
pensando que é mais giro que me ames
porque existem festas, e dúvidas,
e corpos da publicidade dos perfumes.
O que quero que saibas é que compreendo
certas coisas melhor do que pensas,
que sou semelhante a ti, que pensei beijar-te
quando chegares a casa; e que será o amor
- esse tipo grotesco e ardiloso -
que vai agredir-te com palavras
absurdas de censura, quando voltares, sim,
porque já estás a tardar, minha puta de merda.


(Trad. A.M.)



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Clarice Lispector (A lucidez perigosa)









A LUCIDEZ PERIGOSA





Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.


Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.


Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.


Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.



Clarice Lispector


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