28.5.09

Adolfo Casais Monteiro (Eu falo das casas e dos homens)









EU FALO DAS CASAS E DOS HOMENS





Eu falo das casas e dos homens,
dos vivos e dos mortos:
do que passa e não volta nunca mais...
Não me venham dizer que estava materialmente
previsto,
ah, não me venham com teorias!
Eu vejo a desolação e a fome,
as angústias sem nome,
os pavores marcados para sempre nas faces trágicas
das vítimas.

E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,
uma insignificante parcela da tragédia.
Eu, se visse, não acreditava.
Se visse, dava em louco ou profeta,
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,
- mas não acreditava!

Olho os homens, as casas e os bichos.
Olho num pasmo sem limites,
e fico sem palavras,
na dor de serem homens que fizeram tudo isto:
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,
esta lama de sangue e alma,
de coisa a ser,
e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança,
se o ódio sequer servirá para alguma coisa...
Deixai-me chorar - e chorai!

As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição
e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama,
por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio,
por um segundo seremos os mortos e os torturados,
os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados,
seremos a terra podre de tanto cadáver,
seremos o sangue das árvores,
o ventre doloroso das casas saqueadas,
- sim, por um momento seremos a dor de tudo isto...

Eu não sei porque me caem as lágrimas,
porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra,
eu que sou estrangeiro diante de tudo isto,
eu que estou na minha casa sossegada,
eu que não tenho guerra à porta,
- eu porque tremo e soluço?
Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós?

Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:
as ruas são ruas com gente e automóveis,
não há sereias a gritar pavores irreprimíveis,
e a miséria é a mesma miséria que já havia...
E se tudo é igual aos dias antigos,
apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir,
eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,
sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,
sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta,
uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada...




Adolfo Casais Monteiro



Antes, aqui: A tua morte em mim





24.5.09

Mário Cesariny (Homenagem a Cesário Verde)













Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo-rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas



Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda há poetas cá no país!




Mário Cesariny


José Carlos Ary dos Santos (A máquina fotográfica)









A MÁQUINA FOTOGRÁFICA






É na câmara escura dos teus olhos
que se revela a água
água imagem
água nítida e fixa
água paisagem
boca nariz cabelos e cintura
terra sem nome
rosto sem figura
água móvel nos rios
parada nos retratos
água escorrida e pura
água viagem trânsito hiato.


Chego de longe. Venho em férias. Estou cansado.
Já suei o suor de oito séculos de mar
o tempo de onze meses de ordenado;
por isso, meu amor, viajo a nado
não por ser português mal empregado
mas por sofrer dos pés
e estar desidratado.


Chego. Mudo de fato. Calço a idade
que melhor quadra à minha solidão
e saio a procurar-te na cidade
contrastada violenta negativa
tu única sombra murmurada
única rua mal iluminada
única imagem desfocada e viva.


Moras aonde eu sei. É na distância
onde chego de táxi.
Sou turista
com trinta e seis hipóteses no rolo;
venho ao teu miradoiro ver a pista
trago a minha tristeza a tiracolo.


Enquadro-te regulo-te disparo-te
revelo-te retoco-te repito-te
compro um frasco de tédio e um aparo
nas tuas costas ponho uma estampilha
e escrevo aos meus amigos que estão longe
charmant pays
the sun is shinning
love.


Emendo-te rasuro-te preencho-te
assino-te destino-te comando-te
és o lugar concreto onde procuro
a noite de passagem o abrigo seguro
a hora de acordar que se diz ao porteiro
o tempo que não segue o tempo em que não duro
senão um dia inteiro.


Invento-te desbravo-te desvendo-te
surges letra por letra, película sonora,
do sentido à vogal do tema à consoante
sem presença no espaço sem diferença na hora.
És a rota da Índia o sarcasmo do vento
a cãibra do gajeiro o erro do sextante
o acaso a maré o mapa a descoberta
num novo continente itinerante.



José Carlos Ary dos Santos
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22.5.09

Olhar (49)












Serra da Freita


(Arouca)
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Gonçalo M. Tavares (Os braços)









OS BRAÇOS





Como viver? Não há outra pergunta séria.
Um velho com o braço direito partido
folheia o jornal com a mão esquerda.
Penso: assim seria mais fácil.
O corpo a decidir por nós.
Olho para mim: os dois braços intactos.
Que fazer?




Gonçalo M. Tavares


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Mario Benedetti (Dos afectos)









DOS AFECTOS




Como fazer-te saber que há sempre tempo?

Que temos que buscá-lo e dá-lo…
Que ninguém estabelece normas, senão a vida…
Que a vida sem certas normas perde formas…
Que a forma não se perde com abrirmo-nos…
Que abrirmo-nos não é amar indiscriminadamente…
Que não é proibido amar…
Que também se pode odiar…
Que a agressão porque sim, fere muito…
Que as feridas fecham-se…
Que as portas não devem fechar-se…
Que a maior porta é o afecto…
Que os afectos definem-nos…
Que definir-se não é remar contra a corrente…
Que não quanto mais se carrega no traço mais se desenha…
Que negar palavras é abrir distâncias…
Que encontrar-se é lindo…
Que o sexo faz parte da lindeza da vida…
Que a vida parte do sexo…
Que o porquê das crianças tem o seu porquê…
Que querer saber de alguém não é só curiosidade…
Que saber tudo de todos é curiosidade malsã…
Que nunca é demais agradecer…
Que autodeterminação não é fazer as coisas sozinho…
Que ninguém quer estar só…
Que para não estar só há que dar…
Que para dar devemos antes receber…
Que para nos darem há também que saber pedir…
Que saber pedir não é oferecer-se…
Que oferecer-se, em definitivo, não é querer-se…
Que para nos quererem devemos mostrar quem somos…
Que para alguém ser é preciso dar-lhe ajuda…
Que ajudar é poder dar ânimo e apoiar…
Que adular não é apoiar…
Que adular é tão pernicioso como virar a cara…
Que as coisas cara a cara são honestas…
Que ninguém é honesto por não roubar…
Que quando não se tira prazer das coisas não se vive…
Que para sentir a vida temos de esquecer que existe a morte…
Que se pode estar morto em vida…
Que sentimos com o corpo e a mente…
Que com os ouvidos se escuta…
Que custa ser sensível e não se ferir…
Que ferir-se não é sangrar…
Que para não nos ferirmos levantamos muros…
Que melhor seria fazer pontes…
Que por elas se vai à outra margem e ninguém volta…
Que voltar não implica retroceder…
Que retroceder também pode ser avançar…
Que não é por muito avançar que se amanhece mais perto do sol…

Como fazer-te saber que ninguém estabelece normas, senão a vida?



Mario Benedetti


(Trad. A.M.)






> Cervantes (Biblioteca de autor)

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20.5.09

Jorge Luís Borges (Religio Medici)









RELIGIO MEDICI, 1643






Defende-me, Senhor. (O vocativo
não implica Ninguém. É só uma palavra
deste exercício que o tédio lavra
e que redijo na tarde do temor.)
Defende-me de mim. Disseram-no já
Montaigne e Browne e um espanhol que ignoro;
algo me resta ainda de todo esse ouro
que recolheram meus olhos de sombra.
Defende-me, Senhor, do impaciente
apetite de ser mármore e olvido;
defende-me de ser o que já fui,
o que já fui irreparavelmente.
Não da espada ou da rubra lança
defende-me, mas é da esperança.




JORGE LUIS BORGES,
El Oro de los Tigres (1972)




(Trad. A.M.)


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Um verso (54)











Um verso de Paul Eluard
(voilà):











Fiz-te à medida da minha solidão
(je t’ai faite à la taille de ma solitude)

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Ferreira Gullar (Subversiva)








SUBVERSIVA




A poesia
quando chega
não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas
relincha
como puta
nova
em frente ao Palácio da Alvorada.


E só depois
reconsidera: beija
nos olhos os que ganham mal
embala no colo
os que têm sede de felicidade
e de justiça


E promete incendiar o país



Ferreira Gullar




18.5.09

Celso Emílio Ferreiro (Monólogo do velho trabalhador)








MONÓLOGO DO VELLO TRABALLADOR





Agora tomo o sol. Pero até agora
traballei cincoenta anos sin sosego.
Comín o pan suando día a día
nun labourar arreo.
Gastei o tempo co xornal dos sábados,
pasou a primavera, veu o inverno.
Dinlle ao patrón a frol do meu esforzo
i a miña mocedade. Nada teño.
O patrón está rico á miña conta,
eu, á súa, estou vello.
Ben pensado, o patrón todo mo debe.
Eu non lle debo
nin xiquera iste sol que agora tomo.
Mentras o tomo, espero.




Celso Emílio Ferreiro




Fontes: CTV (longa noite de pedra) / Wikipedia / Colóquio/Letras (perfil) / BVG (bio+antologia)







Eugénio de Andrade (Vaguíssimo retrato)






Beber-4
Beber-3
Beber-2
Beber-1

(Beber-5)












VAGUÍSSIMO RETRATO




Levar-te à boca,
beber a água
mais funda do teu ser -


se a luz é tanta,
como se pode morrer?



Eugénio de Andrade







16.5.09

Olhar (48)









Doiro / Foz


(by Nokia)
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Nuno Júdice (Passeio no campo)







PASSEIO NO CAMPO (variante)





As vedações, os muros, as cercas
que limitam os campos
são mais visíveis no inverno. Para
passar de um campo a outro
as mãos têm de agarrar a pedra,
de prender o arame, de afastar
os ramos; e o frio da manhã
greta os dedos, imobiliza
o gesto, faz vir as lágrimas
aos olhos - apesar do sol.


É assim que me demoro neste
caminho que nos leva de
um ao outro. É possível que
o Inverno não seja mais
do que uma ilusão; e que os campos
estejam livres de obstáculos,
povoados por pássaros
e coelhos. Mas o frio separa-nos;
muros e muros entre um e outro,
vedações entre o que dizemos,
cercas em que as mãos
se arranham-


E se tentássemos
outro caminho?




NUNO JÚDICE
Teoria Geral do Sentimento (1999)


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Sophia de Mello Breyner Andresen (O velho abutre)









O VELHO ABUTRE





O velho abutre é sábio e alisa suas penas
a podridão lhe agrada e seus discursos
têm o dom de tornar as almas mais pequenas




Sophia de Mello Breyner Andresen


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14.5.09

Vicente Aleixandre (Mais além)







MÁS ALLÁ





Más allá de la vida, mi amor, más allá siempre,
Ahora ligeros, únicos, sobre un lecho de estrellas,
Poblamos a la noche sin límites, vivimos
En muerte, oh hermosa mía, una noche infinita.


Sobre un seno azulado reposa blandamente
Su testa fatigada del mundo. Siento sólo
Tu sangre ya poblada de luces, de miríadas
De astros, y beso el pulso suave del universo y todo
Tu rostro con el leve fulgor de mi mejilla.


Oh triste, oh grave noche completa. Amada, yaces
Perfecta y te repaso, te ciño. Mundo solo.
Universal vivir de un cuerpo que, hecho luces,
Más allá de la vida de un hombre amor permites.



Vicente Aleixandre








Para além da vida, amor meu, sempre mais além,
ligeiros, agora, únicos, sobre um leito de estrelas,
povoamos a noite sem limites, vivemos
em morte, ó formosa minha, uma noite infinita.


Sobre um seio azulado repousa-lhe a cabeça,
brandamente, fatigada do mundo. Sinto apenas
o teu sangue povoado de luzes, de miríades
de astros, beijando o pulso suave do universo
e o teu rosto com o leve fulgor da minha maxila.


Ó triste, ó grave noite completa. Amada, jazes
perfeita e eu revejo-te, cinjo-te. Mundo apenas.
Universal viver de um corpo que, feito luzes,
para lá da vida de um homem amor permites.


(Trad. A.M.)


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Konstandinos Kavafis (Velas)









VELAS






Temos à frente os dias do futuro
como uma fila de velas acesas
– quentes e vivas e douradas velas.


Ficam atrás os dias passados,
fileira triste de velas sem chama:
ainda sobe fumo das que estão mais perto,
vergadas pelas frias que já se apagaram.


Eu não quero vê-las: tanto me entristece o seu ar de agora
como relembrar o fulgor antigo.
Olho à minha frente as velas acesas.


Não vou voltar-me nem vou ver num arrepio
como cresce tanto a fileira escura,
como é tão veloz o apagar das velas.



Konstandinos Kavafis



[Canal de poesia]


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José Miguel Silva (Ladrões de bicicletas)









LADRÕES DE BICICLETAS — VITTORIO DE SICA (1948)





Mil quilómetros por dia pedalava meu pai, desde
a cama junto ao Douro até à próspera Cerâmica
de Valadares. Se qualquer homem recebe,
à nascença, uns sessenta inimigos por hora,
imaginem a jornada de um operário ciclista.
Tudo são despesas para ele: o rosário de geada
nas giestas, o jornal atropelado pelo vento, o verdor
da Primavera, a poalha do suor em cada mão.
.

Meu pai, é claro, não se queixa, ganha um conto
de réis, tem uma casa portuguesa e grandes sonhos
de amanhãs a gasolina. Pelo menos não trabalho
em nenhum matadouro, pensa ele, e com razão,
erguido nos pedais do seu veículo de sombra,
solitário trepador pela encosta de Avintes. Não
trabalha em nenhum matadouro. E nesse reconforto
passa à Quinta dos Frades, alcança o Freixieiro,
sente já o rumor de fumacentos camiões na nacional,
onde tudo, depois, será muito mais plano.



José Miguel Silva


[Hospedaria Camões]




Fontes: Poesias e prosas (20p) / Um-buraco-na-sombra (23p) / Poetry int. (8p) / Truca (6p)


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11.5.09

Ver (19)







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José Luis García Martín (Cita)











CITA






Desde el fondo del sueño
una mano me tiendes.
Una mano cortada
que me acaricia y huye.
Yo la busco sin prisa
por libros y rincones.
Encuentro sólo labios,
andenes, cigarrillos,
niños que se despiden,
unas gotas de sangre.
Por el fondo del sueño
tú te alejas despacio.
Quiero gritar tu nombre,
pero no sé quién eres.
En la calle sin nadie,
al doblar una esquina,
te vuelves a mirarme
y soy yo quien me mira.



JOSÉ LUIS GARCIA MARTIN
Lección sobre la sombra
(1972)


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Coitado do Jorge (57)









LETRA ‘B’





Chamo-me Arnesto.
Mas ela meteu-me na letra ‘b’, na lista do telemóvel.
‘B’ de Belzebu, fez questão de explicar…


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10.5.09

Casimiro de Brito (Não me pisem)









Não me pisem,
já não danço
— o melhor que faço
é quando descanso.
Não me louvem,
estou cansado
— o melhor que escrevo
é quando apago.




Casimiro de Brito



Um verso (53)









Um verso de Ruy Belo





Um dia alguém
numa grande cidade longínqua
dirá que morri.


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8.5.09

Carlos de Oliveira (Infância)










INFÂNCIA




I

Terra
sem uma gota
de céu.


II

Tão pequenas
a infância, a terra.
Com tão pouco
mistério.

Chamo às estrelas
rosas.

E a terra, a infância,
crescem
no seu jardim
aéreo.


III

Transmutação
do sol em oiro.

Cai em gotas,
das folhas,
a manhã deslumbrada.


IV

Chamo
a cada ramo
de árvore
uma asa.

E as árvores voam.

Mas tornam-se mais fundas
as raízes da casa,
mais densa
a terra sobre a infância.

É o outro lado
da magia.


V

E a nuvem
no céu há tantas horas,
água suspensa
porque eu quis,
desmorona-se e cai.

Caem com ela
as árvores voadoras.


VI

Céu
sem uma gota
de terra.



Carlos de Oliveira


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Ibne Sara (Laranjeira)










LARANJEIRA






São as laranjas brasas que mostram sobre os ramos
as suas cores vivas
ou rostos que assomam
entre as verdes cortinas dos palanquins?


São os ramos que balouçam ou formas delicadas
por cujo amor sofro o que sofro?


Vejo a laranjeira que nos mostra os seus frutos:
parecem lágrimas coloridas de vermelho
pelos tormentos do amor.


Estão congeladas, mas se fundissem seriam vinho.
Mãos mágicas moldaram a terra para as formar.


São como bolas de cornalina em ramos de topázio
e na mão do zéfiro há martelos para as golpear.


Umas vezes beijamos os frutos
outras cheiramos o seu olor
e assim são alternadamente
rostos de donzelas ou pomos de perfume.



Ibne Sara


- Santarém (m. 1123)


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Ramiro Fonte (Luces do mediodía)







LUCES DO MEDIODÍA




O mediodía escribe
As mellores palabras sobre a noite;


No seu xardín a flor
Amígase coa estrela insobornable.


Nas copas en que, xuntos, afogamos
As augas moribundas doutras lúas,
Xa estaba aquela luz
Serena para sempre, presentida.


Aqueles ollos meus
Que nunca se cansaron de mirarte.



RAMIRO FONTE
Luz do mediodía
(1995)


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Olhar (47)










Monte / Alagoa /Quilhoso / e passo...

(Montemuro)

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4.5.09

José Carlos Barros (A falta que me fazem)









A FALTA QUE ME FAZEM




Os meus amigos são tão poucos e às vezes
um a um quase me esqueço de lhes dizer
a falta que me fazem como quando por
exemplo numa sexta-feira à noite eu entro no café
e a cerveja nem me sabe nem
o caralho.


A alegria é cada vez mais com a passagem
dos anos essa ave rara que só
numa corrida com os
filhos num bosque de bétulas ou
numa tarde de domingo a desenhar com
eles um satélite ou num passeio à noite
na areia molhada da praia nas marés do
equinócio de forma imprevista verdadeiramente
pode visitar-nos.


Mas esta de que falo só com os meus amigos e
é inominável que dizer dessa paz imensa
dessa felicidade quase sem imagens que é
sentarmo-nos à roda de uma
mesa e nem dizermos nada.


Os meus amigos são tão poucos que é quase um
crime separarmo-nos assim deixarmos que às
vezes um número de telefone um círculo vermelho
a marcador no mapa do acp
uma carta sejam o mais que pode trazer às
nossas vidas essa ilusão de pertencer-nos o
mundo todo de não haver uma mulher uma
estrela uma cidade que não sejam
nossas para sempre.


Os meus amigos são tão poucos tão imensos que
às vezes apetece-me deixar o computador ligado
a meio da tarde meter-me no carro pagar
a portagem da auto-estrada permanentemente em
obras de conservação e procurá-los com
a agenda aberta nos seus nomes acordá-los
antes da alba só para lhes dizer
a falta que me fazem.


José Carlos Barros



[Eito Fora]



Consultar: Casa de Cacela (blogue pessoal)


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Clarice Lispector (Não entendo)









NÃO ENTENDO






Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma bênção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação:
quero entender um pouco.
Não demais:
mas pelo menos entender que não entendo.



Clarice Lispector


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2.5.09

Rogelio Guedea (Nos céus do meu existir)









en los cielos de mi existir dejaste de volar. desde
mañana no te quise. desde mañana prometí que
amor no hiciera heridas o levantara templos de
amargura en mí. cárcel eterna era el tuyo amor para
mis manos. esas edificadoras. esas que se levantan
en pleno vuelo o caen. las que hicieron sembradíos
en ti y árboles plantaron y fuegos. tú eres mala como
la bondad. eres mala como saber que alguien. de algún
modo. está sufriendo. pensar que no me tienes es pensar
que vas conmigo. sí. de ese tamaño es mi derrota.




Rogelio Guedea







nos céus do meu existir deixaste de voar. desde
manhã não te quis. desde manhã prometi que
o amor não faria feridas ou ergueria em mim
templos de amargura. prisão perpétua era teu amor
para minhas mãos. essas edificadoras. essas que se
erguem em pleno voo ou caem. as que fizeram sementeira
em ti e árvores plantaram e fogos. tu és má como
a bondade. és má como saber que alguém. de algum
modo. está sofrendo. pensar que me não tens é pensar
que vais comigo. sim. desse tamanho é minha derrota.


(Trad. A.M.)





Fontes: Rogelio Guedea (sítio pessoal) / Wikipedia / Las elecciones afectivas (3p+bio+biblio) / Flickr (fotos: pessoa+capas) / Poemas de (17p) / Poesia digital (4p)


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A.M.Pires Cabral (O relógio da torre)









O RELÓGIO DA TORRE





descasca-se ao longo de uma vida
num tic-tac de tristeza
e nunca tem saudades das horas que marcou



o tempo corre lento em suas mãos
e nas noites mais frias de inverno
aquece-se saltando de ponteiro em ponteiro




A. M. Pires Cabral


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Vitorino Nemésio (Outro testamento)









OUTRO TESTAMENTO






Quando eu morrer deitem-me nu à cova
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova
Para o amante que a não quis.



Façam coisas bonitas por minha alma:
Espalhem moedas, rosas, figos.
Dando-me terra dura e calma,
Cortem as unhas aos meus amigos.



Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados.
As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.
Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce...
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.



Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.



Quando eu morrer. . .
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.



Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.



Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me - só horizonte - para o mar.




Vitorino Nemésio


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