28.10.09

Antonio Machado (Conselhos)







CONSELHOS




Sabe esperar, aguarda que venha a maré
- como na costa um barco - e não te inquiete o partir.
Quem aguarda sabe que é sua a vitória;
porque a vida é longa e a arte um brinquedo.
E se a vida é curta
e o mar não chega à tua galera,
aguarda sem partires e espera sempre,
que a arte é longa e, ademais, não importa.




Antonio Machado



(Trad. A.M.)


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Cesário Verde (Contrariedades)







CONTRARIEDADES





Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.


Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.


Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.


Pobre esqueleto branco entre nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta à botica!
Mal ganha para sopas...


O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

(…)

Cesário Verde


Um verso (65)














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26.10.09

José Miguel Silva (Feios, porcos e maus)








FEIOS, PORCOS E MAUS




Compram aos catorze a primeira gravata
com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas de limpeza após combate.
São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a compor o gesto, a interpretar humores,
a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher o vinho, a espumar
de sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem
pelo faro o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.


Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os organismos públicos — tudo depende do golpe
de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o momento de começar
a integrar as listas, de preferência em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza em cima de tudo.


A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director-executivo, embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário de solvente carreira),
o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.
No final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.




JOSÉ MIGUEL SILVA
Movimentos no Escuro
(2005)



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Juan Carlos Mestre (Parménides)








PARMÉNIDES





La verdad es una diosa que enseña el camino a los errantes.
Si debe ser necesaria la luz antes ha de no ser la noche.
El olvido es la presencia aparente de lo que aún existe.
La diosa habita el círculo de la benevolencia, es piadosa.
Lo femenino es la rueda de un carro, lo masculino la otra.
Yo soy dos semejanzas paralelas de amor, dos infinitos.
No sé si las yeguas piensan o padecen, dudo entonces.
¿Es más justo el que nace o el que no pudo ser?
Cuando me muera regresaré al todo de la nada. Estoy contento.



Juan Carlos Mestre







A verdade é uma deusa que ensina o caminho aos errantes.
Se há-de ser necessária a luz antes há-de não ser de noite.
O olvido é a presença aparente do que ainda não existe.
A deusa habita o círculo da benevolência, é piedosa.
O feminino é a roda de um carro, o masculino a outra.
Eu sou duas semelhanças paralelas de amor, dois infinitos.
Não sei se pensam ou padecem as éguas, então duvido.
É mais justo o que nasce ou o que não pôde ser?
Quando morrer hei-de voltar ao tudo do nada. Estou contente.


(Trad. A.M.)




Fontes: Juan Carlos Mestre (sítio pessoal / bio+poesia+galeria+ música) / A media voz (12p) / Wikipedia


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25.10.09

Ver (31)


Herberto Hélder (Sobre um poema)








SOBRE UM POEMA




Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
– a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
– Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
– E o poema faz-se contra o tempo e a carne.


Herberto Hélder



[Um buraco na sombra]


23.10.09

Enrique Vila-Matas (Estou cansada de ti)







(Estou cansada de ti, Hemingway...)





Nesse dia 25 de Agosto, a minha mulher e eu libertámos os nossos impulsos mais secretos, como se estivéssemos a libertar as caves do Ritz, libertámo-nos talvez demasiado.

Começámos por pedir dois daiquiris e, quando me animei um pouco, contei-lhe o choque militar de Malraux com Hemingway no Ritz.

“Estou cansada de ti, Hemingway”, disse-me de repente a minha mulher, filha e neta de militares.

E eu deveria ter-me lembrado nesse momento que nela pernoitava – o verbo mais adequado é precisamente este termo castrense, pernoitar – uma fobia sua do tipo militar, um ódio apenas nocturno e com álcool pelo meio, uma oculta mas séria aversão contra mim e sobretudo contra a minha mania de que alguém finalmente um dia, mesmo que seja sob a forma de mentira piedosa, me diga que me pareço fisicamente com Hemingway.

Mas não dei a devida importância àquele primeiro toque de agressividade.

Pedimos mais dois daiquiris e depois outros dois e a seguir mais dez, e eu passei a chamar aos daiquiris cocktails Malraux.

Soava bem, parecia-me que soava na perfeição: cocktails Malraux.

Mas já se tinha tornado tudo perigoso, como um gigantesco cocktail molotov.

De repente descobrimos que estávamos ali passava já da madrugada e, para o dizer em termos bem hemingwaianos, na outra margem e entre as árvores.

Rindo como felizes e verdadeiros palermas, as horas tinham-nos passado a voar e fazia-se-nos dia no bar.




- ENRIQUE VILA-MATAS, Paris nunca se acaba, 68.




António de Almeida Mattos (Te leio)








Te leio
poro a poro


e reescrevo
a golpes de cálamo


E ternura



António de Almeida Mattos


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22.10.09

Roque Dalton (Não te irrites, poeta)








NO TE PONGAS BRAVO, POETA





La vida paga sus cuentas con tu sangre
y tú sigues creyendo que eres un ruiseñor.


Cógele el cuello de una vez, desnúdala,
túmbala y haz en ella tu pelea de fuego,
rellénale la tripa majestuosa, préñala,
ponla a parir cien años por el corazón.


Pero con lindo modo, hermano,
con un gesto
propicio para la melancolía.



Roque Dalton






A vida paga as contas com teu sangue
e tu ainda pensas que és um rouxinol.


Agarra-lhe o pescoço duma vez, desnuda-a,
tomba-a e solta nela tua peleja de fogo,
enche-lhe a tripa majestosa, emprenha-a,
põe-na a parir cem anos pelo coração.


Mas com lindo modo, meu irmão,
com um gesto
propício à melancolia.


(Trad. A.M.)
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Manoel de Barros (Retrato quase apagado)








RETRATO QUASE APAGADO EM QUE SE PODE VER PERFEITAMENTE NADA





(I)


Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
- Imagens são palavras que nos faltaram.
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.





MANOEL DE BARROS
O Guardador de Águas



[Jornal-de-Poesia]




20.10.09

Silvia Ugidos (Possível auto-retrato)









POSIBLE AUTORRETRATO






Yo siempre quise ser una mujer de bien,
ser alguien de provecho, valiente, emprendedora,
mesurada en las fobias, estable en los afectos,
brillante en los estudios, por poner un ejemplo.


Yo siempre quise ser una mujer de bien
y tenerlos a todos felices y contentos,
a mis padres y amigos, a Fulano y a Mengano,
a Diestro y a Siniestro…


Pero hay alguien en mí que todo lo estropea,
que tuerce los caminos, equivoca las cosas,
desbarata mis planes, incumple mis promesas.
Alguien que pisa antes que yo sobre mis huellas.


En fin, visto lo visto, ya lo dicen mis padres:
“a este paso, hija mía, no llegarás a nada”.
Está bien, os lo debo, lo siento, lo confieso:
aludiendo a un anuncio, no soy como Farala.


Soñadora, insegura, mitómana, algo vaga,
con vocación de hormiga y verano de cigarra,
contradictoria y harta de conciliar extremos
en mi defensa alego


que siempre quise ser una mujer de bien
pero que en su defecto
soy, en el buen sentido de la palabra, mala.




Silvia Ugidos







Eu sempre quis ser uma mulher de bem,
alguém útil, excelente e resolvida,
contida nas fobias, estável nos afectos,
brilhante nos estudos, só para dar um exemplo.


Eu sempre quis ser uma mulher de bem
e fazer todos felizes e contentes,
a meus pais e amigos, a fulano e cicrano,
a um lado e a outro…


Mas há em mim alguém que tudo estropia,
que torce os caminhos, baralha as coisas,
desbarata-me os planos, incumpre-me as promessas.
Alguém que pisa antes de mim o meu próprio rasto.


Enfim, visto o dito, já dizem meus pais:
“por este andar, filha, não hás-de chegar a nada”.
Está bem, fico a dever, lamento, confesso:
não sou como Farala, a outra do anúncio.


Sonhadora, insegura, mitómana, um pouco vaga,
com vocação de formiga e verão de cigarra,
contraditória e sempre a conciliar extremos,
em minha defesa alego


que quis sempre ser uma mulher de bem
mas em vez disso sou antes,
no bom sentido da palavra, má.



(Trad. A.M.)
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19.10.09

Manuel António Pina (Completas)








COMPLETAS





A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.



E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.



Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.



Manuel António Pina


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Um verso (64)













Um verso de Ruy Belo
(Deus lhe fale na alma, já disse?):







A minha vida é hoje um sítio de silêncio.



Ruy Belo

18.10.09

Joan Margarit (Princípios e finais)









PRINCIPIOS Y FINALES




Un tiempo fui una chica con futuro.
Podía leer a Horacio y a Virgilio en latín
y recitar a Keats completo de memoria.
Al entrar en sus cuevas, los adultos
me capturaron: comencé a parir
hijos de un hombre estúpido y creído.
Ahora cuando puedo lleno el vaso
y lloro al recordar algún verso de Keats.
Una no sabe, cuando es joven,
que no hay lugar alguno
donde poder quedarse para siempre.
Y le parece extraño si no llega
aquel o aquella en quien hallar descanso.
Una ignora, de joven, que los principios
no se parecen nunca a los finales.


Joan Margarit


[Noctambulario]







Em tempos fui uma rapariga de futuro.
Lia Horácio e Virgílio em latim
e recitava Keats completo de memória.
Ao entrar-lhes nas grutas, os adultos
prenderam-me: comecei a parir
filhos de um homem estúpido e acreditado.
Agora quando posso encho o copo
e choro ao recordar algum verso de Keats.
Não se sabe, quando se é jovem,
que não há lugar nenhum
onde se possa ficar para sempre.
E estranhamos se não chega
aquele ou aquela em quem acharmos repouso.
Ignoramos, quando jovens, que os princípios
jamais se parecem com os finais.


(Trad. A.M.)




Lugares: Joan Margarit (sítio pessoal/tudo+algo) / A media voz (36p) / Antologia Catalã / Wikipedia /
El coloquio de los perros (2007 - núm. monográfico)

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Fernando Pessoa / R. Reis (Para ser grande)







Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.


Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.


Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.


Ricardo Reis




Enrique Vila-Matas (Uma lésbica delambida)








(Uma lésbica delambida...)






Uma tarde de inverno, nas águas-furtadas, enquanto escrevia, pareceu-me que Elena Villena, um dos personagens de La asesina ilustrada, estava atrás de mim e ditava-me o que eu devia dizer sobre ela.

“Não sou lésbica”, ouvi-a dizer nitidamente.

Voltei-me e não a vi, mas dava a impressão de que acabava de se esfumar uma décima de segundo antes.

“Pois agora passas a ser lésbica o tempo todo”, disse-lhe.

Não se ouviu resposta.

Agradou-me saber que tinha autoridade suficiente para evitar a rebelião dos meus personagens, saber que não podia nem devia passar-se comigo o que acontecia a Unamuno em Niebla e que no colégio tantas vezes nos tinham contado.

E o que mais me agradava por ser escritor era a liberdade que alcançava na solidão das minhas águas-furtadas.

Uma liberdade bem alheia ao patriarcal e autoritário mundo familiar e político que deixara para trás em Barcelona.

Não me tinha convertido em escritor e num homem livre em Paris para que viesse uma delambida, ao fim e ao cabo inventada por mim, estragar-me tudo com os seus caprichos e ordens.



- ENRIQUE VILA-MATAS, Paris nunca se acaba, 58.


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16.10.09

Daniel Jonas (Pecado capital)







PECADO CAPITAL



A Vitória de Samotrácia
é mais ou menos a minha história
sentimental: tinham todas um corpo
e asas até
mas pouca cabeça.


Daniel Jonas


[Poesia & Lda]


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Olhar (60)










Alcabideque
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(Condeixa)
.
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> hoje
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14.10.09

Leopoldo María Panero (A Belial)







A BELIAL




Cuando en el crespúsculo las ancianas sollozan,
acudes tú Belial
a borrar con una esponja de vino los pecados
Y a convertir en vino el pan dorado
el pan que dora el sufrimiento de los locos
el amargo pan de la muerte
y escucho tus pasos venir, venir a ayudarme
y respondes, tú solo respondes
a ese grito en la habitación a oscuras.




LEOPOLDO MARÍA PANERO
Guarida de un animal que no existe
Visor Libros, 2000



[Mal Situados]






Quando no crepúsculo as velhas soluçam
acorres tu Belial
a apagar os pecados com uma esponja de vinho
e a converter em vinho o pão dourado
o pão que doura o sofrimento dos loucos
o amargo pão da morte
e escuto a vir os teus passos, a vir ajudar-me
e respondes, só tu respondes
a esse grito no quarto às escuras.


(Trad. A.M.)


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Carlos Nejar (De como a terra-1)









DE COMO A TERRA E O HOMEM SE UNEM




1.

Fica a terra, passa o arado,
mas o homem se desgasta;
sangra o campo, pasce o gado,
brota o vento de outro lado
e a semente também brota.
Fica a terra, passa o arado
e o trabalho é o que nos passa,
como nome, como herança;
fica a terra, a noite passa.


A semente nos consome,
mas a terra se desgasta.




Carlos Nejar


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13.10.09

Héctor Rojas Herazo (Inventário em contraluz)








INVENTARIO A CONTRALUZ






Te hago el relato de estas cosas ahora,
cuando todos han muerto.
Cuando ya solamente la memoria
es río, cosecha, solitaria espuma de patios,
trinos que se deshacen en el calor
mientras dulces mujeres
parlan bajo las hojas, en la tarde,
frente a tiestos de orégano.
Ahora todo es lejano
pues ha ido cayendo blandamente de nosotros
como un poco de arena de una mano.
Ahora tal vez escuchas, tal vez sueñas.
Tal vez inventas ese duro monte
que sacude en la yerba su relincho.
O sigues, por un filo de luna,
el olor que te conduce a los viejos baúles,
a la alacena, al retrato del tío,
el de mostachos de gitano y ojos de ángel,
el que parpadea con secreta delicia
cuando tú, dulce hermana y madre mía,
ponías la lámpara
frente a las frutas y los platos de arroz,
el que murió un domingo ¿recuerdas?
Te hablo de la memoria,
de las alcobas, los muebles y los cuchicheos en la memoria.
De la forma en que el viento
restregaba los arcos del comedor
y hacía gemir los corpiños y los pañuelos en el alambre,
de cuando el mar, disfrazado de viento, cuando el humo.
Te hablo del mundo, del tiempo en este mundo.
De días que ardieron como finas monedas
(rostros nítidos, con luz, con luz furiosa y viva,
vestidos que cubrieron amados cuerpos, que nos cubrieron,
semanas olorosas a toronjil)
te hablo de entonces.



HÉCTOR ROJAS HERAZO
Las úlceras de Adán
(1995)






Faço-te o relato destas coisas agora,
quando todos estão mortos.
Quando já somente a memória
é rio, colheita, solitária espuma de pátios,
trinados que se desfazem ao calor
enquanto doces mulheres
falam debaixo das folhas, pela tarde,
diante de tachos de orégão.
Agora tudo é longínquo
pois foi caindo de nós brandamente
como um pouco de areia da mão.
Agora escutas talvez, quiçá sonhas.
Inventas talvez esse duro monte
sacudindo na erva seu relincho.
Ou segues, por um fio de lua,
o odor que te conduz aos velhos baús,
ao armário, ao retrato do tio,
o dos bigodes de cigano e olhos de anjo,
o que pestaneja com secreta delícia
quando tu, doce irmã e minha mãe,
punhas a lâmpada
frente às frutas e aos pratos de arroz,
o que morreu num domingo, lembras-te?
Falo-te da memória,
os quartos, os móveis e os cochichos na memória.
Do modo como o vento
roçava os arcos da sala
e fazia gemer os corpetes e os lenços no arame,
de quando o mar, disfarçado de vento, quando o fumo.
Falo-te do mundo, do tempo neste mundo.
De dias que arderam como finas moedas
(rostos nítidos, com luz, com luz furiosa e viva,
vestidos que cobriram amados corpos, que nos cobriram,
semanas cheirosas a erva-cidreira)
falo-te de então.


(Trad. A.M.)


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12.10.09

Ana Paula Inácio (Acrobacias)






ACROBACIAS


Sentados em Trafalgar Square
no intervalo de amigos
com o tempo entre as mãos
treinávamos o nosso inglês
num inquérito de revista
com Francis Bacon na capa
que perguntava:
qual dos membros
- superiores ou inferiores -
preferíamos perder
(esta ablação em língua estrangeira
tornava-se indolor, quase anestesiada)
respondeste: os braços
as pernas conservá-las-ias
como a liberdade de poder andar
respondi: as pernas
não queria ver-me
impedida de abraçar.
Assim juntando as nossas
perdas
eu abraço-me a ti
e peço-te anda, mostra-me o mundo
e quando nos cansarmos
abraçar-me-ás, então, com as pernas
e eu
andarei com os braços.


Ana Paula Inácio

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Eugénio de Andrade (Quase nada)









QUASE NADA




O amor
é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.



Eugénio de Andrade


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10.10.09

José María Fonollosa (Destruição da manhã)









DESTRUCCIÓN DE LA MAÑANA (1.)






Y de pronto una voz, mirada, un gesto
tropieza con mi idea de mí mismo
y veo aparecer en el espejo
a un ser inesperado, insospechado,
que me mira con ojos que son míos.


Ese desconocido que soy yo.
Ese al que los demás se dirigían
al dirigirse a mí, sin yo saberlo.
Ese irreconocible ser inmóvil
que inspecciona mis rasgos hoscamente.


En vano apremio al otro, el verdadero,
a aquel que unos segundos antes yo era.
Sólo está frente a mí, con ceño adusto,
ese desconocido inesperado
que me mira con ojos que son míos.


José María Fonollosa







E de repente uma voz, olhar, um gesto
tropeça com a minha ideia de mim mesmo
e vejo aparecer no espelho
um ser inesperado, insuspeitado,
que me olha com olhos que são meus.


Esse desconhecido que sou eu.
Esse a quem os outros se dirigiam
ao dirigir-se a mim, sem eu saber.
Esse irreconhecível ser imóvel
que examina meus traços de revés.


Aperto vão ao outro, o verdadeiro,
aquele que era eu momentos antes.
Está só ante mim, de cenho adusto,
esse desconhecido inesperado
que me olha com os olhos meus.


(Trad. A.M.)




Lugares: Poemas de (29p) / Poesias-poemas (27p) / A media voz (30p) / JMSerrat (perfil) / Wikipedia


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Enrique Vila-Matas (Com dois dentes a menos)









(Com dois dentes a menos...)






Eu estava a falar com uns norte-americanos absolutamente estúpidos quando de repente a minha mulher, na sua bebedeira extrema, deixou de rir, porque lhe pareceu que os meus maltrapilhos – foi o que disse – a olhavam mal.

“Quais maltrapilhos?”, perguntei desconcertado.

Os maltrapilhos eram, segundo ela, os estúpidos com quem eu falava, “o teu exército pessoal”, os últimos bêbados do bar.

Olhei-a e recordou-me o coronel Malraux e não consegui evitá-lo, escapou-se-me isto:
“Não estás a pensar que te quero fuzilar?”.

Nunca devia ter feito esta pergunta, nunca.

Denunciei que também uma certa fobia pernoitava em mim.

Seguiu-se uma refrega militar, eu no meu papel de papá Hemingway e ela no de Malraux.

Seguiu-se uma refrega terrível e eu perdi a guerra e os dentes, e também perdi a confiança em mim e a confiança nela.

À minha mulher, não a pude odiar mais quando no dia seguinte me disse que estava mais bonito.

“Com dois dentes a menos, já não te pareces tanto com Hemingway”, ironizou.



- ENRIQUE VILA-MATAS, Paris nunca se acaba, 68.


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9.10.09

Nicanor Parra (Até logo)









HASTA LUEGO





Ha llegado la hora de retirarse
Estoy agradecido de todos
Tanto de los amigos complacientes
Como de los enemigos frenéticos
¡Inolvidables personajes sagrados!


Miserable de mí
Si no hubiera logrado granjearme
La antipatía casi general:
¡Salve perros felices
Que salieron a ladrarme al camino!
Me despido de ustedes
Con la mayor alegría del mundo.


Gracias, de nuevo, gracias
Reconozco que se me caen las lágrimas
Volveremos a vernos
En el mar, en la tierra donde sea.
Pórtense bien, escriban
Sigan haciendo pan
Continúen tejiendo telarañas
Les deseo toda clase de parabienes:
Entre los cucuruchos
De esos árboles que llamamos cipreses
Los espero con dientes y muelas.



Nicanor Parra








Chegou a hora de retirar
Estou agradecido a todos
Tanto aos amigos complacentes
Como aos inimigos frenéticos
Inolvidáveis personagens sagrados!


Miserável de mim
Se não conseguisse granjear
A antipatia quase geral:
Salve cachorros felizes
Que me saís a ladrar ao caminho!
De vós me despeço
Com a maior alegria do mundo.


Obrigado, de novo, obrigado
Reconheço que me caem as lágrimas
Voltaremos a ver-nos
Em terra, no mar, onde for.
Portem-se bem, escrevam
Continuem a fazer pão
A tecer teias de aranha.
Desejo-vos toda a espécie de venturas:
No meio dos cocurutos
Dessas árvores que chamam ciprestes
Espero-vos com os dentes todos.



(Trad. A.M.)





Fontes: Cervantes (autor+obra+estudos+imagem+linques) / UChile (tudo+algo) / Antiweb (antologia+bio+biblio) / Letras.s5 (antologia+artigos+entrevistas) / Poesi.as (25p) / A media voz (33p)


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7.10.09

3.10.09

Ver (30)


Vinicius de Moraes (Receita de mulher)








RECEITA DE MULHER





As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como o âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar as pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior a 37º celsius, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.



Vinicius de Moraes


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1.10.09

Juan Luis Panero (Na manhã seguinte)









NA MANHÃ SEGUINTE CESARE PAVESE NÃO PEDIU PEQUENO-ALMOÇO



Sozinho desceu do comboio,
atravessou sozinho a cidade deserta,
sozinho entrou no hotel vazio,
abriu o quarto solitário
e escutou assombrado o silêncio.
Dizem que levantou o telefone
para ligar a alguém,
mas é falso, completamente falso.
Não havia ninguém a quem ligar,
ninguém vivia na cidade, ninguém no mundo.
Bebeu o copo, as pequenas pastilhas
e esperou que o sono chegasse.
Com algum medo a si mesmo
- pela vez primeira afirmava a sua existência –
talvez curioso, com gesto cansado,
sentiu cair o peso das pálpebras.
Horas depois – um estranho sorriso abria-lhe os lábios –
anunciou a si mesmo, com firmeza,
a única certeza que afinal atingira:
jamais voltaria a dormir sozinho num quarto de hotel.


(Trad. A.M.)

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