29.12.05

Coitado do Jorge (2)






DIÁLOGO MATINAL






- O que eu não dava para lhe pôr a vista em cima!....

- … (?) ...

- A vista e o resto, podendo ser.


- Que resto?

- Tudo…



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28.12.05

Gonçalo M. Tavares (O carpo)




O CARPO




Conheces as putas e os camiões de mercadorias,
e o modo estudado como no seu ofício, umas e outros,
disponibilizam o traseiro.


Sabes, pois, como entre a mecânica e a carne
as diferenças não são óbvias
e necessário é investigação e paciência para as descobrir.


E que importará o subtil para o esqueleto da mão?


Se o carpo é útil para segurar as ancas
na sodomia,
é útil ainda
para descarregar ingénuos caixotes
num armazém.


Repara: vê a proporção e a harmonia
dos ossos,
e como se movem
felizes
nos dois momentos.



GONÇALO M.TAVARES
Livro de Anatomia



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26.12.05

Um verso (1)








Um verso de O’Neill
(tomai lá do Alexandre, moreno português):






“Com donaire avançam os teus seios, ó minha embarcação”.

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25.12.05

Eugénio de Andrade (A boca)




A BOCA



A boca,
onde o fogo
de um verão
muito antigo cintila,
a boca espera
(que pode uma boca esperar senão outra boca?)
espera o ardor do vento
para ser ave e cantar.


Levar-te à boca,
beber a água mais funda do teu ser
se a luz é tanta,
como se pode morrer?


Eugénio de Andrade


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Manuel Bandeira (Arte de amar)




ARTE DE AMAR




Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.


As almas são incomunicáveis.


Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.


Porque os corpos se entendem, mas as almas não.



Manuel Bandeira


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21.12.05

Coitado do Jorge (1)





INCIDENTE DOMÉSTICO





Acordo tarde, manhã alta.
Telefono para o serviço a justificar:
- Tranquilos, tive um incidente doméstico, só vou de tarde.
- Um incidente doméstico?
- Sim, uma inundação de luxúria… Fui jantar fora com a vizinha.






>>  Coitado do Jorge

(Com a devida vénia a Jorge Silva Melo)

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17.12.05

Gabriel Celaya (Às vezes finjo que estou apaixonado)





A VECES ME FIGURO QUE ESTOY ENAMORADO




A veces me figuro que estoy enamorado,
y es dulce, y es extraño,
aunque, visto por fuera, es estúpido, absurdo.


Las canciones de moda me parecen bonitas,
y me siento tan solo
que por las noches bebo más que de costumbre.


Me ha enamorado Adela, me ha enamorado Marta,
y, alternativamente, Susanita y Carmen,
y, alternativamente, soy feliz y lloro.


No soy muy inteligente, como se comprende,
pero me complace saberme uno de tantos
y en ser vulgarcillo hallo cierto descanso.




GABRIEL CELAYA
Tranquilamente hablando
(1947)





Às vezes finjo que estou apaixonado
e é doce, e é estranho,
embora, visto de fora, seja estúpido e absurdo.


As canções da moda parecem-me bonitas
e sinto-me tão só
que bebo noite fora mais do que é costume.


Apaixonei-me pela Adélia, e pela Marta,
e, alternadamente, por Susanita e Carmen,
e, alternadamente, sou feliz e choro.


Não sou muito inteligente, como se vê,
mas agrada-me saber-me um entre tantos
e em ser vulgarzinho encontro certo descanso.



(Trad. A. M.)

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